O Globo
As tarifas de importação são elevadas em
relação a outros países emergentes e desenvolvidos
O Brasil é protecionista. Há décadas. Isso
significa que as tarifas de importação são elevadas em relação a outros países
emergentes e desenvolvidos. Há uma lógica por trás disso. Trata-se de uma
vertente de política econômica que, simplificando, indica que o país deve
proteger sua indústria da concorrência externa. O objetivo é dar tempo para que
a produção local se desenvolva.
Temos um exemplo bem atual: a partir deste mês, todo veículo eletrificado que entrar no Brasil pagará um imposto de importação de 35%. Trata-se de um tarifaço, o nível mais alto permitido pelas regras da Organização Mundial do Comércio.
De 2016 a 2023, a importação de elétricos foi
praticamente isenta. O objetivo era a descarbonização da frota brasileira. A
Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea)
manifestou-se contra, mas deixou passar.
Isso porque a importação de elétricos era
marginal. Vinham poucos carros, quase não havia tomadas de recarga das
baterias, e os veículos eram caros.
O cenário mudou rapidamente. E continua
mudando. Em maio último, foram emplacados cerca de 45 mil carros elétricos ou
híbridos, um espetacular aumento de 170% em relação ao mesmo período do ano
passado.
Antecipando esse cenário, a Anfavea vinha
pressionando o governo para impor restrições à entrada desses veículos, quase
todos vindos da China. Foi atendida. Os elétricos começaram a ser taxados em
2024, com tarifas entre 10% e 12%. Subiram ao longo do período, até os 35% de
hoje.
Os produtores locais de carros a combustão
ganharam mais essa. O programa de descarbonização foi adiado. Por outro lado,
fabricantes chineses, como a BYD, instalaram montadoras no Brasil. Mas não
produzem. Importam peças da China e montam os veículos aqui — aproveitando que
a importação de peças paga imposto menor. E agora quem reclama são os
produtores brasileiros de peças.
Por aí se vê como funciona uma política
protecionista. Também se verifica como o resultado é pífio.
A indústria automobilística nacional sempre
foi protegida. Houve um tempo em que era simplesmente proibido importar carros
— e mais uma longa lista de produtos industrializados, especialmente
eletrônicos.
Sem concorrência, a indústria brasileira não
precisava se preocupar com ganhos de eficiência para entregar produtos mais
atualizados. Quando caíram as barreiras de importação e começaram a chegar os
importados, foi aquela vergonha. Os nacionais eram as “carroças”.
Aconteceu de novo. Apesar de protegida e
recebendo subsídios do governo, a indústria local foi incapaz de entrar na era
dos elétricos. Resultado: tarifa pesada nos importados.
Tudo considerado, a economia brasileira é
fechada. Tem tarifas de importação entre as mais altas do mundo.
E agora tem o Trump. Até sua gestão, a
economia americana era a mais aberta do mundo. Mas Trump acha que os países que
exportam para os Estados Unidos estão roubando seu país. E usa as tarifas
politicamente para, como ele diz, punir os governos que não se alinham aos
Estados Unidos.
De maneira que o Brasil está diante de dois
problemas. Um, de longo prazo, é a ineficiência do nosso protecionismo. O país
permanece de renda média-baixa e a economia brasileira está entre as de menor
produtividade.
O segundo problema, do momento, é como lidar
com Trump. Dadas as circunstâncias, pode-se dizer que algo saiu razoavelmente
bem. A área técnica do governo e, sobretudo, as empresas brasileiras, com seus
clientes americanos, conseguiram várias exceções na lista de tarifados.
Alguns setores específicos, como a indústria
de calçados, sofrem perdas enormes com as tarifas americanas. Mas, no conjunto,
a exportação total do Brasil continua em alta. Vende-se menos para os Estados
Unidos, mais para a China.
E Lula, aproveitando-se dos enormes equívocos
do bolsonarismo, ganhou um trunfo eleitoral. Trump quer prejudicar o Brasil, os
Bolsonaros estão com Trump, logo eis aí o inimigo da pátria.
E com isso, a questão estrutural do atraso da
economia brasileira sequer aparece na campanha.

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