segunda-feira, 20 de julho de 2026

Brasil também é protecionista, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

As tarifas de importação são elevadas em relação a outros países emergentes e desenvolvidos

O Brasil é protecionista. Há décadas. Isso significa que as tarifas de importação são elevadas em relação a outros países emergentes e desenvolvidos. Há uma lógica por trás disso. Trata-se de uma vertente de política econômica que, simplificando, indica que o país deve proteger sua indústria da concorrência externa. O objetivo é dar tempo para que a produção local se desenvolva.

Temos um exemplo bem atual: a partir deste mês, todo veículo eletrificado que entrar no Brasil pagará um imposto de importação de 35%. Trata-se de um tarifaço, o nível mais alto permitido pelas regras da Organização Mundial do Comércio.

De 2016 a 2023, a importação de elétricos foi praticamente isenta. O objetivo era a descarbonização da frota brasileira. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) manifestou-se contra, mas deixou passar.

Isso porque a importação de elétricos era marginal. Vinham poucos carros, quase não havia tomadas de recarga das baterias, e os veículos eram caros.

O cenário mudou rapidamente. E continua mudando. Em maio último, foram emplacados cerca de 45 mil carros elétricos ou híbridos, um espetacular aumento de 170% em relação ao mesmo período do ano passado.

Antecipando esse cenário, a Anfavea vinha pressionando o governo para impor restrições à entrada desses veículos, quase todos vindos da China. Foi atendida. Os elétricos começaram a ser taxados em 2024, com tarifas entre 10% e 12%. Subiram ao longo do período, até os 35% de hoje.

Os produtores locais de carros a combustão ganharam mais essa. O programa de descarbonização foi adiado. Por outro lado, fabricantes chineses, como a BYD, instalaram montadoras no Brasil. Mas não produzem. Importam peças da China e montam os veículos aqui — aproveitando que a importação de peças paga imposto menor. E agora quem reclama são os produtores brasileiros de peças.

Por aí se vê como funciona uma política protecionista. Também se verifica como o resultado é pífio.

A indústria automobilística nacional sempre foi protegida. Houve um tempo em que era simplesmente proibido importar carros — e mais uma longa lista de produtos industrializados, especialmente eletrônicos.

Sem concorrência, a indústria brasileira não precisava se preocupar com ganhos de eficiência para entregar produtos mais atualizados. Quando caíram as barreiras de importação e começaram a chegar os importados, foi aquela vergonha. Os nacionais eram as “carroças”.

Aconteceu de novo. Apesar de protegida e recebendo subsídios do governo, a indústria local foi incapaz de entrar na era dos elétricos. Resultado: tarifa pesada nos importados.

Tudo considerado, a economia brasileira é fechada. Tem tarifas de importação entre as mais altas do mundo.

E agora tem o Trump. Até sua gestão, a economia americana era a mais aberta do mundo. Mas Trump acha que os países que exportam para os Estados Unidos estão roubando seu país. E usa as tarifas politicamente para, como ele diz, punir os governos que não se alinham aos Estados Unidos.

De maneira que o Brasil está diante de dois problemas. Um, de longo prazo, é a ineficiência do nosso protecionismo. O país permanece de renda média-baixa e a economia brasileira está entre as de menor produtividade.

O segundo problema, do momento, é como lidar com Trump. Dadas as circunstâncias, pode-se dizer que algo saiu razoavelmente bem. A área técnica do governo e, sobretudo, as empresas brasileiras, com seus clientes americanos, conseguiram várias exceções na lista de tarifados.

Alguns setores específicos, como a indústria de calçados, sofrem perdas enormes com as tarifas americanas. Mas, no conjunto, a exportação total do Brasil continua em alta. Vende-se menos para os Estados Unidos, mais para a China.

E Lula, aproveitando-se dos enormes equívocos do bolsonarismo, ganhou um trunfo eleitoral. Trump quer prejudicar o Brasil, os Bolsonaros estão com Trump, logo eis aí o inimigo da pátria.

E com isso, a questão estrutural do atraso da economia brasileira sequer aparece na campanha.

 

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