Folha de S. Paulo
Volta da política industrial e atuação estatal na transição verde mostram que antigas certezas já foram revistas
No Brasil, o desafio é superar tanto o voluntarismo quanto o fundamentalismo de mercado
Há críticas econômicas que ajudam a
qualificar o debate público. Outras revelam o quanto o debate brasileiro ainda
está preso a velhos dogmas. Ao associar a heterodoxia ao terraplanismo
sanitário, como fez o editorial "É
urgente recolocar as contas públicas nos trilhos" (15/8), esta Folha recorre
a uma caricatura que não contribui para compreender os problemas econômicos do
país.
A heterodoxia não representa a negação da ciência econômica, mas uma tradição intelectual que inclui Keynes, Kalecki, Schumpeter, estruturalistas latino-americanos e pós-keynesianos. Suas ideias integram pesquisas sobre crescimento, estabilidade financeira, desigualdade e transformação produtiva. Aquilo que o editorial apresenta como "velharias" está longe de ter sido abandonado por governos ao redor do planeta.
Tome-se a gestão dos fluxos de capitais. Durante décadas, a
liberalização financeira foi apresentada como caminho natural para economias
emergentes. A experiência mostrou, porém, que esses fluxos podem ser voláteis e
provocar fortes movimentos, com consequências sobre inflação, endividamento e
atividade econômica.
O próprio FMI reconhece,
em seu "Integrated Policy Framework", a possibilidade de utilizar
medidas de gestão dos fluxos de capitais em certas circunstâncias. Isso não
significa defender controles indiscriminados, mas reconhecer que a abertura
financeira não é um fim em si mesma e que países sujeitos a choques externos
precisam administrar riscos.
Na política
cambial, em economias com estruturas produtivas pouco
diversificadas, uma moeda persistentemente apreciada tende a prejudicar a
indústria e estimular a especialização em produtos primários. O debate sobre a
"doença
holandesa", a competitividade industrial e a restrição externa
está longe de ser uma relíquia. Os modelos de crescimento com restrição externa
associados a Anthony
Thirlwall continuam fundamentais para compreender os limites
externos do crescimento das economias em desenvolvimento.
Enquanto isso, as economias avançadas
voltaram a recorrer à política
industrial. Estados Unidos e União Europeia mobilizam recursos
públicos para semicondutores, energia limpa, infraestrutura e tecnologias
estratégicas. O "Inflation Reduction Act" e o "Chips Act"
evidenciam o papel estratégico do Estado diante da competição tecnológica. É
difícil, portanto, sustentar que política industrial, planejamento econômico e
intervenção estatal pertençam ao passado.
Isso não significa tratar a heterodoxia como
um bloco homogêneo. Ela deve ser submetida ao mesmo escrutínio crítico que
qualquer outra corrente. Existem divergências sobre política fiscal, juros,
câmbio e desenvolvimento. Da mesma forma, o apoio de parte dos economistas
desenvolvimentistas e heterodoxos ao governo Lula não
implica adesão incondicional.
Esse apoio se sustenta na defesa da
democracia no país e das instituições e na oposição ao neoliberalismo radical,
associado à financeirização predatória, à erosão dos direitos sociais e à
desindustrialização. Trata-se de apoio crítico: reconhecer avanços sociais e na
retomada do planejamento produtivo não impede apontar problemas na condução
macroeconômica, como juros reais extremamente elevados, metas fiscais rígidas e
a dificuldade de enfrentar interesses rentistas.
O debate deveria, portanto, ser outro. Em vez
de rótulos —"terraplanistas" de um lado, supostos
"modernos" de outro—, seria mais produtivo discutir quais
instituições e políticas podem conciliar estabilidade macroeconômica,
crescimento, transformação produtiva e redução da desigualdade.
A volta da política industrial, a gestão dos
fluxos financeiros e a atuação
estatal na transição verde mostram que antigas certezas foram
revistas.
No Brasil, o desafio não é escolher entre
dogmas concorrentes, mas superar tanto o voluntarismo quanto o fundamentalismo
de mercado. A economia não
precisa de cloroquina —precisa de debate intelectual à altura de sua
complexidade.
*José Luis Oreiro, professor de economia da UnB (Universidade de Brasília)
*Luiz Fernando de Paula, professor de economia do IE/UFRJ (Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro

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