Correio Braziliense
Está em curso uma operação de
cristianização do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que até agora se mantém
como principal candidato de oposição
O mineiro Cristiano Machado (1893-1953) era advogado e diplomata quando se aventurou na política na disputa presidencial. Ex-prefeito de Belo Horizonte antes da Revolução de 1930, nas eleições de 1950 seu nome saiu da cartola dos caciques do PSD para enfrentar o candidato da UDN, Eduardo Gomes. Durante a campanha, porém, perdeu o apoio em seu próprio partido e de aliados para a candidatura de Getúlio Vargas. Essa traição recebeu um nome hoje consagrado na política brasileira: “cristianização”.
Foi uma espécie de conto da carochinha. Em 15
de maio de 1950, reunidos na casa de Cirilo Júnior (presidente do partido), os
caciques do PSD indicaram Cristiano à Presidência. O político mineiro ficou de
procurar Getúlio Vargas (PTB) e Ademar de Barros (PSP), oferecendo a
vice-presidência na chapa. O general Góis Monteiro transmitiria essa escolha ao
presidente Eurico Gaspar Dutra. Vargas não fez objeção.
Entretanto, a ala getulista do PSD do Rio Grande
do Sul recusou-se a aceitar a candidatura de Cristiano. Membros do PSP
comunicaram que também não apoiariam o nome de Cristiano, já que a candidatura
de Vargas seria apoiada por Ademar. Mesmo assim, o nome de Cristiano Machado
foi aclamado no dia 9 de junho. A convenção do partido não contou com a
presença da maioria dos representantes gaúchos.
Vargas venceu as eleições de 3 de outubro de
1950 com 3.849.040 votos, grande parte de redutos do PSD. Seus caciques
promoveram um processo de esvaziamento eleitoral que ficou conhecido no jargão
político como “cristianização”. Com 1.697.193 votos, Cristiano ficou atrás de
Eduardo Gomes, que teve apoio de 2.342.384 de eleitores.
Está em curso uma operação de cristianização
do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que até agora se mantém como principal
candidato de oposição, graças à força do bolsonarismo nas redes sociais. No
mundo político e empresarial, entretanto, Flávio está sendo abandonado; em
determinados segmentos evangélicos, também. A tese é de que não será capaz de
vencer Lula no segundo turno, e um candidato conservador mais experiente e
moderado teria o perfil ideal para derrotar o atual preesidente da República.
Quem pretende vestir esse figurino é o
ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), que também corre risco de “cristianização”,
mas ganhou novo fôlego. A escolha do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab,
presidente do PSD, para vice reanimou sua candidatura, que busca o apoio do
Centrão. Remanescente das eleições de 1989, como o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva, Caiado saiu do governo de Goiás com grande aprovação e sempre teve
muito trânsito entre lideranças do agronegócio e da área médica mais
conservadora.
Caiado agora disputa o apoio do União Brasil
e do Progressistas, de Ciro Nogueira e Arthur Lira, que sempre foram contra a
candidatura de Flávio, por achar que não seria páreo para Lula. Com apoio de
Kassab, também costeia o alambrado do Progressistas, partido do governador de
São Paulo, Tarcísio de Freitas, aliado natural de Flávio Bolsonaro, mas que até
agora não indicou a vice do candidato do PL.
Egoístas e altruístas
Para o neodarwinista Richard Dawkins, autor
de Deus, um delírio, somos uma “máquina de sobrevivência” de um gene cujo
objetivo é a autorreplicação, isto é, a perpetuação da espécie. No livro O gene
egoísta ( Companhia das Letras), ao analisar a reprodução sexuada dos animais,
Dawkins buscou uma explicação para a convivência entre o egoísmo dos genes e o
altruísmo das espécies: uma espécie de “cluster” biológico garantiria a
sobrevivência e replicação de ambos.
O cuco é uma das espécies mais egoístas: procria,
mas não educa os filhos; põe os ovos no ninho de outras aves, aproveitando sua
ausência. Quando o danado do cuco nasce, joga os demais ovos para fora do
ninho, matando os filhotes legítimos para ser criado no lugar deles. Quando
cresce, bate asas e vai embora. A analogia serve para muitos políticos.
Como no beisebol, na política é muito comum o
sujeito achar que o bom rapaz terminará por último. O ardil, a dissimulação, a
esperteza e a falta de escrúpulos parecem ser a regra do jogo. Mas a política
também exige altruísmo, ou seja, a cooperação com os demais integrantes da
espécie para não entrar em extinção. É aí que os bons rapazes podem virar o
jogo e acabar em primeiro.
E a “sombra de futuro”? O conceito é dos
militares britânicos, refere-se à estratégia de sobrevivência dos soldados ingleses,
franceses e alemães no final da Primeira Guerra Mundial, quando eles começaram
a cooperar tacitamente no front, em alguns casos abertamente. Esperavam os
políticos e generais acabarem com a guerra. Como eram jovens, tinham uma
expectativa de vida civil muito maior do que a deles. Até que ponto Tarcísio e
Michelle Bolsonaro querem que Flávio ganhe as eleições? São potenciais
candidatos em 1930. Caiado e Kassab estão se movimentando em busca dessa
resposta.

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