domingo, 23 de agosto de 2026

A estratégia acertada de Lula com Trump, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

O telefonema entre Lula e Donald Trump na sexta-feira confirma o que minhas fontes no governo americano sempre me dizem: não existe animosidade pessoal do presidente americano para com o brasileiro. E abre oportunidade no momento em que Trump precisa de boas notícias na política externa.

Um presidente americano não dedica 1h20 de seu tempo, perto de eleições cruciais para o Congresso, se não tiver interesse em cultivar o relacionamento com um governante estrangeiro. A iniciativa da conversa foi de Lula, e parece ter sido em ambiente de cordialidade.

Quem mudou não foi Trump, mas a estratégia de Lula. Ele parece ter chegado à conclusão de que um embate com o presidente americano, que lhe rendeu popularidade no ano passado, pode ser menos interessante, neste momento de tarifaço contra o Brasil, do que demonstrar estatura política para falar com Trump, como fez seu adversário Flávio Bolsonaro em maio ao visitar a Casa Branca.

Lula aparentemente atingiu seu principal objetivo na conversa: retomar as negociações comerciais, encerradas em julho com o fim do período de um ano das investigações da Seção 301, que resultaram em alíquota adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Mas não adianta retomá-las, se o Brasil não estiver disposto a fazer concessões.

ORDENS. O Escritório do Representante Comercial dos EUA apenas executa a ordem de Trump de melhorar as condições de comércio com os parceiros do mundo inteiro. Não é algo dirigido contra o Brasil. Mas atinge produtos brasileiros em cheio por causa das altas barreiras protecionistas praticadas pelo País.

Segundo o relato do governo brasileiro, Trump perguntou sobre o processo eleitoral. Lula defendeu a integridade do sistema de votação e o presidente americano não fez comentários. Ou seja, mesmo o interesse de Trump de tracionar a tese de fraude eleitoral que prejudica a direita não evoluiu para um desgaste entre os presidentes.

A recusa de vistos para funcionários americanos que pretendiam averiguar o processo eleitoral, combinada com a falta do agrément para o embaixador Daniel Perez, nomeado por Trump, levou a uma grave crise diplomática, com a retirada do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. O assunto nem sequer foi tratado.

Esses atritos diplomáticos não são provocados por Trump, mas por seu poderoso secretário de Estado, Marco Rubio, hostil a governos de esquerda da América Latina. Lula criticou a designação do crime organizado como terrorismo e defendeu a cooperação entre os dois países no seu combate. Outro tema caro a Trump, que não causou irritação na conversa.

 

Nenhum comentário: