Folha de S. Paulo
Conciliações são bem-vindas e necessárias,
desde que construídas para atender ao interesse público
Não foi o que se viu no acordo firmado entre
autoridades motivadas pela defesa de causas próprias
Nada como a conjugação de interesses para
promover tréguas de ocasião. É o que se viu no acerto entre os presidentes da
República, da Câmara dos
Deputados e do Senado para
levar adiante, no Legislativo, pautas populistas às vésperas das eleições.
Junte-se a eles o quarto elemento na figura do sujeito mais ou menos oculto do Supremo Tribunal Federal, cujo vice-presidente achou pelo bem da República fazer as vezes de mediador político do armistício de conveniência.
No trajeto entre a mesa de jantar de Alexandre de
Moraes e a fotografia "toda sorrisos" dos novos
"companheiros", sumiram do mapa a revolta de Luiz Inácio da Silva (PT) com a recusa de
indicação ao STF,
as travas de Davi Alcolumbre (União Brasil)
à agenda do Senado e a dubiedade de Hugo Motta (Republicanos)
entre governo e oposição.
Os três vinham às turras, de conflito em
conflito, a ponto de o presidente da República, no primeiro semestre, ter
ensaiado fazer do "Congresso inimigo do povo" um slogan de campanha.
Mas aí veio a proximidade do fim dos mandatos
de Lula no
Palácio do Planalto, Motta na bancada da Paraíba, Alcolumbre no comando do
Congresso e tudo se ajeitou sob a bênção de um dos guardiões da Constituição,
preocupado com o futuro.
O presidente da República precisa do apoio do
centrão para se reeleger. O deputado Hugo Motta necessita do prestígio de Lula
em terras paraibanas para levar o pai ao Senado, garantir sua vaga na Câmara e
se aliar a Alcolumbre na aposta de que Lula reeleito sustente a recondução dos
dois ao comando do Parlamento, em fevereiro de 2027.
Isso para só tratar da parte visível do
acerto, cujos termos exatos estão por ser revelados. Ou não. Conciliações são
sempre bem-vindas; contribuem para a harmonia, desde que não agridam o
princípio da autonomia entre os Poderes, obedeçam ao requisito da transparência
e se conduzam exclusivamente pelo atendimento ao interesse público.
Não foi o que vimos nesse conluio de
autoridades referidas em conveniências individuais e recíprocas.

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