sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Candidatos escondem ‘maldades’ econômicas, por Raquel Landim

O Estado de S. Paulo

Com algumas exceções, os planos econômicos que vêm sendo apresentados pelos principais candidatos à Presidência são exagerados, vagos, com muitas promessas, contas que não fecham e pouca viabilidade política.

Mas não chega a assustar que os presidenciáveis escondam as “maldades” econômicas que vão precisar fazer em 2027. Ninguém se elege dizendo que vai retirar aumento real de aposentado. É assim em toda eleição. E é bom o eleitor estar ciente.

O diagnóstico do ajuste fiscal brasileiro é conhecido. Os economistas responsáveis são unânimes em afirmar que seria importante cortar subsídios, cobrar mais impostos dos mais ricos (retomar a discussão dos lucros e dividendos), mexer na regra de reajuste do salário mínimo, que impacta a Previdência, ajustar os limites constitucionais de saúde e educação.

Também vai ser preciso mostrar muita força política para retirar poder do Congresso e cortar emendas parlamentares, que chegam a alarmantes R$ 60 bilhões. E, claro, começar a discutir uma nova reforma da Previdência, ainda que a sociedade não esteja preparada. O tema precisa entrar na pauta.

Não é suficiente contar com o crescimento da economia para ajustar as contas. Essa agenda desenvolvimentista é antiga e não funciona no Brasil. Alguns candidatos chegam a flertar com essa hipótese. Mas é bom não ter ilusões.

Passadas as eleições, o detalhamento das medidas de ajuste fiscal é urgente, e os coordenadores econômicos das campanhas sabem disso. Não vai poder ser um ajuste gradual como sugerem alguns candidatos. O próximo presidente vai precisar apresentar propostas de emendas à Constituição (PECs) e projetos de lei que deem conta do recado logo no início do mandato. O ônus político é enorme e só presidentes recém-ungidos podem ter essa força.

A boa notícia é que a agenda fiscal finalmente entrou no debate da campanha, que estava capturada por corrupção e operações da Polícia Federal (PF) sobre o INSS e o Banco Master.

O problema brasileiro é grave. A dívida bruta chega a R$ 10 trilhões, ou 82% do PIB. Desnecessário dizer que é insustentável. A taxa de juros é de 14% ao ano, o que não permite investimentos e gera quebradeira de empresas. Esse também é um assunto que passou a ser discutido nas campanhas. Só que juro não se abaixa na marra. Só o ajuste fiscal é capaz de resolver isso.

Até aqui, os investidores vêm tendo muita paciência com o Brasil, à espera de quem vai surgir nas urnas em outubro. Se as medidas não vierem após as eleições, vai ter efeitos no dólar e no preço dos ativos.

Também seria bom fazer algo que os candidatos têm evitado: indicar o próximo ministro da Fazenda. Dario Durigan vem falando pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ganhou certa confiança do mercado. Daniella Marques, que responde por Flávio Bolsonaro (PL), é uma técnica respeitada. Mas serão eles os comandantes da economia? •

 

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