Valor Econômico
Candidatos do PSD e do Novo recusam compromissos fiscais impopulares
A direita saiu do armário com a ascensão do
bolsonarismo e ganhou um eleitor pra chamar de seu. Oito anos depois, as
candidaturas dos ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo)
desfilam com um figurino envergonhado tamanha é a profusão de recuos e
titubeios do seu discurso. As sabatinas de que têm participado não poderiam
escancarar mais este movimento - do Orçamento à segurança pública.
Candidato mais bem posicionado para capturar a direita democrática, a despeito da obsessão pela anistia ao golpismo, Caiado se recusa a assumir a racionalidade fiscal que uma candidatura centrista requer. Nega mudanças nos pisos da educação e da saúde ou no ganho real da aposentadoria.
Mantém apertada a tecla de que não vai mexer
em pobres e idosos. Com isso, a ideia de uma proposta que limite o crescimento
das despesas do governo central à metade daquele do PIB não para em pé. A
proposta cortaria R$ 316 bilhões do Orçamento nos próximos quatro anos. As
despesas obrigatórias passariam a comprometer 99% do total. O candidato do PSD
diz que evitará este cenário com o crescimento da economia e das receitas,
quase um “copia e cola” do corolário deste governo.
A exposição do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva em ambientes mais controlados, jejum a ser quebrado com a entrevista
desta quinta ao JN, prejudica a comparação, mas o ministro da Fazenda, Dario
Durigan, tem assumido a proposta de desvincular o aumento real do salário
mínimo àquele da Previdência.
Teme-se, na campanha petista, que a ausência
de acenos de contenção fiscal faça disparar o “lulômetro” e prejudique a gestão
de expectativas. Caiado não corre esse risco, seja pelas diminutas chances de
vitória, seja porque seus eleitores fiscalistas normalizam o aceno populista do
candidato como parte da paisagem eleitoral.
A ideia do candidato do PSD de que reformar a
Previdência não tem nenhum impacto fiscal imediato e por isso não deve ser
priorizado é uma agressão às projeções atuariais de todas as mudanças das
últimas décadas e sem as quais a gestão das contas públicas hoje seria calamitosa.
No tema das desonerações, Caiado não tem
recuado do compromisso de ajuste, mas se recusa a torná-lo crível seja por não
nominar setores elegíveis à perda de incentivos seja por seu desempenho em
Goiás, onde ampliou benefícios concedidos a duas montadoras do Estado, Caoa
(Hyundai) e HPE (Mitsubishi e Suzuki). Se não fez a lição de casa no setor
automobilístico, por que o faria com o agronegócio, origem de suas raízes na
política e de 12 dos 20 maiores programas de desoneração fiscal da União, como
carnes, fertilizantes e defensivos agrícolas?
O destemor de Zema em enfrentar o gigantismo
estatal tampouco tem resistido aos apelos do voto popular. A bravata da
privatização de todas as estatais não resistiu. Já retirou a Caixa Econômica
Federal da lista e ainda tem 40 dias de campanha para reduzi-la mais.
O compromisso do candidato do Novo de colocar
as finanças públicas em ordem capota na primeira curva. Como passou quase dois
anos sem pagar a dívida de seu Estado, terá que turbinar o programa da União
para Estados endividados porque a de Minas ainda compromete 167% da receita
corrente líquida.
Tem reiterado a proposta de reformar a
Previdência, mas não se compromete com idades mínimas nem com o que entende por
aproximação entre os regimes urbano e rural. Diz que pretende trazer estudantes
que busquem bico no fim de semana para contratos intermitentes que os faça
começar a recolher para a Previdência. Ou seja, enfrentará o déficit com a
formalização do emprego. Qualquer semelhança com o atual governo é tudo menos
coincidência.
O liberalismo de Zema tampouco resiste aos
velhos modos da guerra fiscal. O sigilo sobre a desoneração dos impostos
estaduais, justificou, era necessário para preservar a capacidade de o Estado
atrair investimentos. Foi preciso que uma decisão judicial a vetasse para que
se conhecessem os incentivos dados à empresa de sua família e do maior apoiador
de sua primeira eleição.
A relutância de Caiado e Zema em assumir
compromissos de enxugamento do Estado sugere que a opção pela direita se limite
à segurança pública, mas aqui também é uma adesão envergonhada. Ambos abraçaram
o modelo Nayeb Bukele, mas nenhum dos dois se dispõe a suprimir as garantias
individuais ou a impor censura sobre redes sociais como a vigente em El
Salvador. Nesse sentido não se diferenciam do histriônico candidato do Missão,
Renan Santos. El Salvador não passa de um chamariz para o algoritmo. É
preferível que esqueçam o que prometeram.
Zema não nega as câmeras nos uniformes
policiais mas regateia a gravação ininterrupta e foi lento na implementação.
Caiado não recua, nem mesmo ante as evidências, comprovadas nos autos, de que a
redução dos homicídios em Goiás se deu por meio de execuções policiais.
A resistência do ex-governador de Goiás em
traduzir, com metas e números, o que propõe vem acompanhado da bravata de que
sua autoridade será capaz de apaziguar o mercado, evitar que golpistas,
anistiados, se lancem em novas aventuras e botar bandido pra correr. “Nunca
mudei de lado”, disse o candidato do PSD nesta quarta na sabatina Valor /O Globo/CBN. Se por
isso pretende nunca ter descido do cavalo branco da campanha de 1989, parece
crível. Desta vez, leva Zema na garupa.

Um comentário:
A Direita envergonhada de Caiado/Zema e a extrema Direita DESAVERGONHADA dos Bolsonaros e bolsonaristas...
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