quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Em resposta a Mendonça, PGR diz que relatório sobre mensagens entre Vorcaro e Alexandre de Moraes é nulo, por Tiago Angelo

Valor Econômico

PGR, que também é citado no documento, afirma haver irregularidades na condução da apuração

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, se manifestou pela nulidade do relatório da Polícia Federal (PF) que trata de mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, ao ministro Alexandre de Moraes. O relatório estava em sigilo, mas foi tornado público nesta terça-feira (1º) por decisão de André Mendonça, relator das investigações sobre o banco na Corte.

Gonet, que também é citado no documento da PF, diz que ordens para investigar pessoas específicas são nulas, se não houver pedido expresso do Ministério Público. O PGR afirmou ainda que não cabe a juízes acusar e, menos ainda, "realizar investigações pré-processuais". Ele diz ainda que compete ao plenário investigar integrantes do Supremo e que Mendonça atuou ativamente para buscar indicativos de envolvimento de Moraes em ilícitos.

"O relator nem sequer detém competência para dirigir as ações policias contra alvos que resolva mirar. Quem investiga, na fase pré-processual é a polícia judiciária, cabendo ao Ministério Público, como órgão de acusação, com a titularidade única para propor a ação penal, igualmente buscar elementos de convicção", afirmou.

Na manifestação, Gonet afirma que Mendonça determinou a manifestação da PGR em até cinco dias sobre o propósito de investigar “potencial infiltração nas mais elevadas instâncias de diversas instituições da República” por parte de Vorcaro.

Segundo Gonet, quando Mendonça determinou, em 24 de agosto, que a PF identificasse destinatários de mensagens de Vorcaro, o ministro já sabia que a apuração iria mirar pessoas com prerrogativa de foro e que, entre elas, estava o ministro Alexandre de Moraes.

“Sabia que entre elas estava Moraes. Não poderia deixar de o saber. O ato que determinou a investigação pela Polícia Federal data de 24 de agosto de 2026. Há muito que o relator estava com todas as peças que quis que fossem detalhadas por escrito [pela PF]”, afirmou.

Para Gonet, Mendonça atuou ativamente para buscar indicativos de envolvimento de Moraes em ilícitos. “O próprio relator já havia ordenado que lhe entregassem o dispositivo informático contendo todos os dados que vieram a ser postos na peça da polícia. De toda forma, é certo que o relator quis que fossem minudenciados. Não importa o grau de investigação que a providência constitui, é inegável que houve a imersão em elementos dos autos para buscar indicativos de envolvimento do ministro Alexandre de Moraes em ilícitos.”

Ainda segundo Gonet, ao determinar que fossem examinados elementos de investigação, não importando quem fosse a autoridade, Mendonça impôs uma investigação sobre Moraes, o que levou a um relatório da PF de 218 páginas, das quais “quase 190” tratam do ministro.

“Ocorre que compete ao Plenário do Supremo Tribunal Federal investigar seus integrantes. Quem é competente para processar e julgar ministro do STF é o plenário. Se a autoridade policial deve interromper as suas investigações para que sobre elas delibere o órgão Judiciário encarregado do julgamento, com maioria de razão não deve o relator admitir e nem determinar que um colega de Corte seja escrutinado”, prossegue.

Entenda

Um relatório da PF tornado público nesta terça indica que Moraes foi o destinatário de uma série de mensagens de Vorcaro. Nelas, o ex-banqueiro buscava interferir e ter detalhes sobre a investigação que levaria a sua primeira prisão, decretada em novembro do ano passado. Em uma das mensagens, ele teria perguntado a Moraes se deveria deixar o país. Também teria pedido proteção da PF e da PGR.

Na decisão de terça-feira, que retirou o sigilo do documento, Mendonça pediu que o relatório seja analisado pelo plenário do Supremo, em sessão “pública e transparente”. Cabe ao presidente do STF, Edson Fachin, marcar uma data. Procurado, ele não se manifestou.

“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso”, teria afirmado Vorcaro a Moraes em 15 de novembro do ano passado, dois dias antes de ser preso, em referência a Gonet e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

O PGR também é citado em outra passagem do relatório. A PF indicou que Vorcaro falava com Gonet por meio de interlocutores. Os contatos seriam intermediados pelo advogado Ciro Soares, que atuava para o ex-banqueiro.

Em conversas de março de 2025, o chefe da PGR teria pedido que Soares encaminhasse a Vorcaro mensagens suas afirmando estar com saudades do ex-banqueiro, além de tecer elogios após a confirmação de uma viagem a Londres.

Um comentário:

Mais um amador disse...

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