quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Sanções contra plataformas digitais merecem aplausos

Por O Globo

Enquanto Meta fecha acordo de US$ 17 bilhões nos EUA, TikTok leva multa de R$ 154 milhões no Brasil

Foi acertada a decisão da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) de multar a ByteDance, controladora do TikTok, por falhar na proteção de dados de crianças e adolescentes. O valor da multa — R$ 153,7 milhões, maior sanção aplicada a uma empresa do setor no Brasil — comprova a seriedade com que a agência começa a tratar o tema, num momento em que o cerco contra as plataformas digitais se fecha no mundo todo. Nos Estados Unidos, a Justiça anunciou ontem um acordo pelo qual a Meta (dona de InstagramFacebook e WhatsApp) comprometeu-se a pagar US$ 17 bilhões e a realizar modificações na arquitetura de suas redes — como acabar com a rolagem infinita — para escapar de um processo, movido por 47 estados, em que era acusada de tê-las projetado com a intenção de viciar crianças e adolescentes. Se perdesse, o prejuízo poderia chegar a US$ 1,4 trilhão.

A proteção infantil e o caráter viciante das redes sociais têm levado muitos a comparar o atual momento das plataformas ao vivido pela indústria tabagista no final dos anos 1990, quando seus principais executivos foram flagrados mentindo ao Congresso sobre o vício em nicotina — e houve acordos bilionários com os estados americanos pelos danos provocados à saúde. O próprio TikTok aceitou pagar US$ 400 milhões em multa nos Estados Unidos para encerrar um processo por violar a privacidade de crianças. Na Irlanda, também sofreu sanção de € 345 milhões por falhas na proteção de dados.

Essas últimas acusações são mais parecidas com as que motivaram a multa aplicada pela ANPD no Brasil. Por aqui, o TikTok terá de eliminar os dados coletados de forma irregular e implementar um plano de conformidade. Em contraste com a prática nos Estados Unidos e na União Europeia, a plataforma permitia acesso sem cadastro, tornando impossível saber se o usuário era menor ou maior. De acordo com a ANPD, mesmo quando havia cadastro, proliferavam problemas de identificação. Para completar, o TikTok é acusado de veicular anúncios personalizados a crianças, proibidos por lei. A empresa diz ter removido 7,7 milhões de contas com falhas na verificação de idade entre outubro de 2022 e setembro de 2023, o equivalente a 20% das crianças brasileiras até 14 anos.

Há duas semanas, a ANPD suspendeu transmissões ao vivo e compartilhamento de vídeos no Discord, em reação ao suicídio de uma menina de 13 anos em Mato Grosso do Sul, incitado e transmitido inicialmente na plataforma— mas também noutras, até agora impunes. A medida extrema, adotada depois de pressão da primeira-dama Janja Lula da Silva, deixou várias dúvidas no ar. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva qualificou o Discord como “cracolândia digital” e ordenou abertura de processo exigindo R$ 500 milhões em multa.

No caso do TikTok, não houve precipitação política. Em 2021, uma denúncia de coleta irregular de dados deu início à fiscalização da ANPD. A cooperação da empresa foi insuficiente. “A gente tinha de exigir mais de uma vez para que respondesse”, diz o superintendente de fiscalização, Fabrício Lopes. Somente quando o processo andou, o TikTok começou a mudar de postura. Espera-se que a multa tenha poder de persuasão e incentive as demais plataformas a cumprir as exigências da lei. Se a experiência internacional serve de exemplo, o idioma que as plataformas entendem melhor é a punição.

Critério proposto por Mendonça para identificar deepfakes é sensato

Por O Globo

Imagens e áudios verossímeis, que parecem reais, muitas vezes bastam para desorientar o eleitor

Em meio às incertezas que cercam a campanha eleitoral deste ano, uma coisa era certa: as redes seriam inundadas por áudios e vídeos produzidos por inteligência artificial (IA) que parecem incrivelmente reais, mas não são. Conhecidos como deepfakes, estão ali com frequência com o objetivo de confundir o eleitor, exposto a um bombardeio de propaganda sem saber no que acreditar. Ainda que as informações veiculadas não sejam falsas, imagens verossímeis, que parecem reais e autênticas, muitas vezes bastam para desorientar o eleitorado.

Por isso é sensata a ideia do ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF), de propor critérios para definir quando um conteúdo produzido por IA pode ser considerado deepfake — situação em que deve ser proibido. Para ele, é necessário que o material tenha “grau de realismo ou verossimilhança objetivamente apto a produzir a percepção falsa de que é autêntico”. A proposta, que ainda será submetida ao plenário do TSE, é essencial para traçar uma regra objetiva para avaliar conteúdos feitos com IA.

A proposta distingue duas categorias. A primeira é o conteúdo sintético produzido ou manipulado por IA cujo uso é legítimo, desde que cumpra exigências como identificação e rotulagem. A outra é o deepfake, proibido. O entendimento permite diferenciar deepfakes de memes, caricaturas e outras animações. A manifestação de Mendonça ocorreu no âmbito de uma ação de Flávio Bolsonaro contra um perfil que publicou vídeo dele em situações que não existiram, gerado por IA.

Em abril, viralizaram nas redes vídeos de um personagem fictício criado por IA que fazia críticas ácidas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Dona Maria. Um deles chegou a ser exibido 22 milhões de vezes, mas foi derrubado pelo Instagram devido à linguagem chula. A iniciativa foi atribuída a um motorista de aplicativo, cujo perfil informava que a peça era produzida com IA. A federação formada por PT, PV e PCdoB pediu à Justiça Eleitoral a suspensão do perfil, alegando deepfake e campanha antecipada. Mas perfis de esquerda também usaram uma Dona Maria feita por meio de IA para elogiar o governo.

Outro caso que despertou controvérsia foi o vídeo apresentado pela campanha de Flávio mostrando o ex-presidente Jair Bolsonaro — que cumpre prisão domiciliar — declarando apoio ao filho. Tratava-se de um avatar de IA que usava imagem e voz do ex-mandatário. A peça deixava claro o uso de IA, mas também foi questionada pelo PT. O caso é mais um a ensejar entendimento mais claro da Justiça Eleitoral.

Se não houver regras objetivas sobre o que é permitido, o TSE passará a campanha discutindo se este ou aquele vídeo é deepfake. A Justiça Eleitoral tem mais com que se preocupar. Os ministros devem analisar logo a proposta de Mendonça, que cria balizas sensatas com base em entendimento da própria Corte. Elas não vetam a ferramenta, útil para exibir propostas, apenas seu uso nefasto. Não tem cabimento usar avanços da IA para enganar o eleitor.

Famílias unipessoais distorcem o Bolsa Família

Por Folha de S. Paulo

Governo Lula reduziu o problema, mas famílias formadas por uma só pessoa voltam a crescer em ano eleitoral

Número de unipessoais subiu de 3,5 mi em janeiro para 3,9 mi em julho; sem fiscalização adequada, objetivos do programa ficam comprometidos

O desenho de políticas públicas não pode ignorar os incentivos que cria, sob pena de produzir distorções que afetam seus objetivos.

Em uma medida de viés populista no final de 2021, Jair Bolsonaro (PL) rebatizou o Bolsa Família —criado no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT)— de Auxílio Brasil e determinou um piso de R$ 400 por cadastro, independentemente da composição da família. Em meados de 2022, elevou o valor para R$ 600.

O público respondeu. Em setembro de 2021, o programa registrava 2,2 milhões de famílias unipessoais (formadas por um só indivíduo); já em janeiro de 2023, com a folha de pagamento de dezembro de 2022, eram 5,8 milhões, o que representa um salto de 164% em apenas um ano.

Uma família de quatro integrantes maiores de 18 anos conseguia multiplicar o benefício para R$ 2.400 registrando-se como quatro famílias unipessoais. Antes da mudança em 2021, o valor era calculado levando em conta o número de membros da família e seu grau de vulnerabilidade.

Bolsonaro não foi reeleito, porém parte de seu legado pernicioso ficou, uma vez que o populismo eleva o custo político da racionalidade na gestão pública.

Lula não teve coragem de rever a alteração equivocada introduzida no programa, mantendo o piso de R$ 600. Tentou amenizar o problema com maior fiscalização, principalmente nos municípios que apresentavam uma proporção de unipessoais muito maior do que a média. Houve sucesso parcial nessa tarefa.

O número de famílias unipessoais no Bolsa Família —o nome original foi retomado— caiu do pico de 5,9 milhões em janeiro de 2023 para 3,5 milhões em janeiro deste ano. Trata-se, sem dúvida, de melhoria considerável, mas ainda muito longe da situação verificada antes da avaria promovida pelo governo Bolsonaro.

Nos últimos meses, contudo, o modelo unipessoal voltou a crescer, passando dos 3,5 milhões de janeiro para 3,9 milhões em julho. Há a possibilidade de que essa seja apenas uma flutuação natural, mas convém ao poder público redobrar a atenção.

Não seria inédito prefeituras diminuírem o controle que exercem sobre o cadastro único para auferir votos num ano eleitoral. O próprio governo federal não teria muito interesse em indispor-se com gestores municipais e eleitores num cenário em que o chamado "pai do Bolsa Família" disputa a reeleição.

Essa pode ter sido uma das razões por que Executivo fechou um estranho acordo com a Defensoria Pública da União pelo qual aceitou a dispensa de visitas domiciliares obrigatórias para abrir ou atualizar o cadastro, reduzindo assim os rigores da fiscalização até julho do ano que vem.

A confirmar-se essa hipótese, Lula estaria vivendo seu momento Santo Agostinho. "Dai-me a castidade e a continência, mas não já" —"não já", aliás, parece ter se tornado uma constante na administração do petista.

Melhorar o futebol não depende só de dinheiro

Por Folha de S. Paulo

Disparidade em relação à Europa é inexorável, mas novas regras adotadas no Brasil podem elevar qualidade

Resta muito a fazer para superar práticas arcaicas que, folclore futebolístico à parte, apenas servem para escamotear deficiências

Estabeleceu-se neste século uma expressiva diferença de qualidade entre o futebol praticado no Brasil e o apreciado nos principais torneios europeus —em nosso desfavor.

O motivo principal é, obviamente, econômico. Mesmo clubes médios ingleses, espanhóis, italianos, alemães e franceses dispõem de receitas em moeda forte e orçamentos superiores aos dos grandes brasileiros.

Com ampla liberdade para contratações, inexistente em outros tempos, a Europa abriga praticamente toda a elite de atletas, treinadores, preparadores físicos e outros profissionais do esporte. Gigantes como Real Madrid, Arsenal e PSG têm elencos comparáveis, se não superiores, aos das principais seleções nacionais.

Se a disparidade financeira parece hoje inexorável, há providências que estão ao alcance do país para oferecer um espetáculo melhor ao público —e também tornar nossos clubes mais competitivos no plano global.

Um exemplo virtuoso são as regras recém-adotadas para aumentar o tempo de bola em jogo no Campeonato Brasileiro, coibindo artifícios exasperantes usados por equipes para retardar o andamento das partidas quando o placar lhes interessa.

Instituíram-se protocolos simples, como limites de tempo para arremessos laterais, tiros de meta e substituições, além de normas para a retirada de jogadores de campo em casos de atendimento médico e para questionamentos ao árbitro, que devem caber apenas aos capitães dos times.

As medidas têm sido eficazes. No primeiro fim de semana em que vigoraram, o período médio de bola em jogo aumentou 5%, de uma média anterior de 52 minutos e 54 segundos para uma de 55 minutos e 29 segundos, similar às das grandes ligas europeias. A meta da Fifa são 60 minutos —o que nem parece muito diante da duração regulamentar de 90 minutos de cada partida.

Resta muito a fazer para superar práticas arcaicas que, folclore futebolístico à parte, apenas servem para escamotear deficiências de times e atletas.

Diga-se a favor do Brasil que por aqui o futebol tem sido mais bem gerido e jogado do que nos vizinhos sul-americanos —como o demonstra a ampla hegemonia do país na Libertadores da América, o principal torneio continental, nos últimos anos.

As razões não são apenas econômicas. A despeito de não poucos desmandos na CBF, mantém-se um campeonato nacional competitivo e de regulamento estável, o que incentiva os clubes a apostarem mais em desempenho do que em poder político.

Omissão eleitoreira do Senado

Por O Estado de S. Paulo

Movido por interesses eleitorais imediatos, o Senado renuncia à sua função de Casa revisora da Câmara e deve aprovar sem debate medidas que têm grande impacto na vida do País

Em nome das urnas, o Senado resolveu abrir mão de sua própria razão de ser. Nesta semana, os relatores de duas das mais importantes Propostas de Emenda à Constituição (PEC) em tramitação no Congresso Nacional anunciaram que pretendem colocar para votação os textos tal como vieram da Câmara dos Deputados. Omar Aziz (PSD-AM), relator da PEC que acaba com a escala de trabalho 6x1, e Rogério Carvalho (PT-SE), relator da PEC da Segurança Pública, não escondem o motivo. Mudar os textos significaria devolvê-los à Câmara e reduzir as chances de que sejam aprovados antes das eleições.

A PEC da Segurança chegou ao Senado em março e só foi enviada à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) em agosto. A do fim da escala 6x1, aprovada pela Câmara em maio, esperou quase três meses pelo mesmo despacho. Nesse intervalo, o Congresso foi esvaziando à medida que deputados e senadores se ocupavam de campanhas, alianças, palanques e disputas locais. Agora, acertados os principais conchavos eleitorais, eles voltam a Brasília e descobrem, subitamente, que estão sem tempo.

Durante o recesso parlamentar, este jornal criticou a decisão do Congresso de praticamente reduzir seu segundo semestre a algumas semanas do chamado “esforço concentrado”. E citou justamente as duas PECs, então paradas, entre as matérias que os próprios líderes diziam considerar prioritárias. O risco era óbvio: meses de pouca atividade seguidos por votações a toque de caixa, com menos tempo para análise e escrutínio público. Sem contar que situações como essa são o palco perfeito para a proliferação de “jabutis” – mudanças inseridas em projetos sem qualquer relação com o tema original do texto. Pois bem, eis o “esforço concentrado” em ação.

Poucos assuntos têm hoje tanto apelo eleitoral quanto a redução da jornada de trabalho e a segurança pública. E problemas nos textos eram conhecidos havia meses. Ficaram esquecidos junto com as PECs e, agora que as urnas se aproximam, não serão enfrentados.

Na PEC do fim da escala 6x1, por exemplo, a Câmara estabeleceu uma transição de apenas 14 meses para a redução da jornada. O prazo foi criticado pelo setor produtivo diante dos possíveis efeitos sobre empresas, empregos e preços. O Senado poderia discutir se 14 meses são suficientes, mas Omar Aziz já avisou que pretende evitar mudanças para que a PEC não volte aos deputados.

Com a PEC da Segurança ocorre algo ainda mais curioso. A proposta pretende reorganizar atribuições, competências e instrumentos numa área em que o País acumula problemas há décadas e que, aliás, deveria estar no centro da campanha eleitoral deste ano. O projeto enviado pelo Executivo foi bastante alterado pela Câmara, que reduziu o papel da União originalmente imaginado pelo governo. O PT não gostou. Houve críticas, resistência e negociação. Cinco meses depois, o relator petista no Senado acha melhor não mexer em nada. Uma alteração, afinal, mandaria a PEC de volta à Câmara.

É para situações como essa que existe uma Casa revisora. Afinal, o sistema é bicameral. O Senado não é obrigado a mudar uma vírgula das duas PECs, mas não pode chegar a essa conclusão antes de fazer o próprio trabalho, apenas porque revisar de verdade pode atrapalhar os planos eleitorais.

A situação é ainda mais difícil de engolir porque a urgência foi fabricada pelo próprio Congresso. Ninguém os impediu de discutir a redução da jornada nos quase três meses em que a proposta esperou despacho. Preferiram cuidar de outras coisas. Agora, a demora virou argumento para a pressa.

Eventuais correções nas duas PECs podem adiar sua promulgação. Paciência. Os senadores tiveram meses para examiná-las e escolheram não fazê-lo. Não cabe agora sacrificar a revisão dos textos para recuperar o tempo desperdiçado e ainda entregar duas medidas populares antes das eleições.

O Senado não pode escolher quando será Casa revisora e quando será apenas o carimbador da Câmara conforme a conveniência eleitoral. Se revisar dá trabalho, custa tempo ou ameaça votos, azar dos senadores. É preciso fazer esse trabalho, pois é assim que funciona uma democracia.

A página que Flávio não virou

Por O Estado de S. Paulo

Senador se irrita com a imprensa ao ser questionado sobre sua relação com Vorcaro, como se o caso estivesse superado. Não está: o candidato ainda deve explicações

Na semana passada, em São Paulo, o candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL) disse que o caso de sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista do maior escândalo financeiro da história brasileira, é “página virada”. Não é. Em maio passado, o sr. Flávio prometeu mostrar “em 30 dias” como foi usada a dinheirama que ele recebeu do sr. Vorcaro a título de financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, pai do candidato. Passados mais de três meses, o sr. Flávio ainda não cumpriu a promessa, razão pela qual a imprensa, fazendo o que dela se espera, decidiu voltar ao tema – o que irritou bastante o candidato, que se acha dispensado de dar explicações.

“Vocês vão parar no tempo?”, reagiu Flávio quando os jornalistas tocaram no assunto depois de um evento na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O candidato, que tenta aparentar uma imagem de moderado em contraste com a notória truculência do pai, em particular com os jornalistas, não consegue superar a natureza quando se sente sob pressão. Na mesma resposta, Flávio, bem ao estilo de Jair, mandou que os jornalistas fossem ao Google procurar por reportagens que, segundo ele, diziam que a prestação de contas sobre o filme já havia sido feita. O que há, na verdade, é a menção ao inquérito policial sobre um contrato da produtora do filme com a Prefeitura de São Paulo, e nesse inquérito a tal empresa menciona os gastos com a produção cinematográfica, mas não apresenta notas fiscais nem explica a origem dos recursos. Ou seja, não há esclarecimento nenhum.

Portanto, a página não está virada, pois isso depende das explicações do sr. Flávio. E elas são necessárias, porque quem pretende presidir a República não pode ter em sua biografia uma relação obscura com um banqueiro preso por fraudar em bilhões o sistema financeiro – a quem, recorde-se enfaticamente, o candidato chamava de “irmão”.

Quem aspira à liderança da Nação deve satisfações claras, inclusive documentais, sobre fatos de sua vida que são de interesse público. Flávio insiste que o dinheiro foi dado por Vorcaro numa “relação privada”, sem envolver recursos públicos, razão pela qual não haveria crime. Ora, isso é ofender a inteligência alheia. O dinheiro que Vorcaro distribuía a mancheias a seus “irmãos” Brasil afora, como Flávio, era fruto de fraudes bilionárias – e o candidato a presidente certamente sabia disso. Se há crime ou não, a Justiça decidirá a seu tempo. Mas é absolutamente imoral – e se o sr. Flávio não consegue perceber isso, então não está moralmente qualificado para ser presidente da República.

A intimidade fraternal – desde maio tornada pública – entre Flávio e um notório fraudador é o escândalo público por definição, ainda mais envolvendo um aspirante ao principal cargo executivo do País.

Cabe à Polícia Federal esclarecer o que foi feito do dinheiro dado a Flávio por Vorcaro – e a troco de quê. Há indícios de que parte dos recursos pode ter sido direcionada ao “caixa dois” da campanha do candidato e outra parte ao sustento da dolce vita do deputado cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Insistimos, porém, que, no que concerne ao interesse público, a questão vital continua sendo a obscuridade das razões que levaram Flávio e um escroque como Vorcaro a construir uma relação tão íntima e financeiramente proveitosa.

Goste Flávio ou não, no curso da campanha a imprensa cumprirá o seu dever de lhe fazer as perguntas incômodas, tanto sobre o caso Master, como sobre quaisquer outras suspeitas que ainda pairam sobre ele sem explicação – caso das “rachadinhas”, do envolvimento com milícias do Rio de Janeiro e da aquisição de imóveis em dinheiro vivo, entre outras. O País precisa saber o motivo pelo qual um postulante à Presidência da República manteve uma relação afetuosa – e generosamente financiada – com o responsável pela maior fraude bancária já apurada no Brasil.

Trump desmoraliza a negociação

Por O Estado de S. Paulo

Com exigências de última hora, EUA alienam Canadá e mostram que não são mais confiáveis

Sob a ameaça de um novo tarifaço de 50% sobre US$ 20 bilhões em exportações para os EUA, o Canadá passou semanas negociando de boa-fé com a gestão do presidente Donald Trump. Era uma tentativa de mitigar o renovado ímpeto protecionista do republicano, que busca novos meios de reerguer seu muro tarifário desde que a Suprema Corte dos EUA deliberou, em fevereiro deste ano, que as bases para os impostos de importação anunciadas por Trump em 2025 eram ilegais. Mas se o Canadá estava disposto a negociar, o que Trump realmente queria era humilhar o parceiro e vizinho – há anos, o republicano refere-se jocosamente ao Canadá como um “Estado” americano. De acordo com o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, de última hora a gestão Trump apareceu com exigências “inaceitáveis”.

Uma delas limitaria a capacidade do Canadá de negociar de forma independente acordos comerciais com outros países. Outras buscavam limitar a produção de conteúdo em regiões do Canadá nas quais o idioma francês, e não o inglês, é majoritariamente utilizado.

Tal tipo de demanda em nada favorece a arte da negociação e o fechamento de um acordo. Muito pelo contrário. Se realmente apresentou tais exigências, Trump quis obter dos canadenses uma capitulação, não um entendimento.

Diante de tamanho despropósito, o Canadá resolveu retirar-se da mesa de negociações. O tarifaço de 50% sobre as exportações para os EUA, que Trump chegou a suspender por três dias, já vigora. Em resposta, Carney mandou retaliar “dólar por dólar” as ações americanas a partir de 8 de setembro.

Trump, por sua vez, sem negar as demandas de última hora que tanto ofenderam os canadenses, agiu como dele se espera, afirmando que os EUA não precisam do Canadá, e que, a partir de janeiro de 2027, produtos e carros canadenses exportados para os EUA, hoje penalizados com uma tarifa de 25%, passarão a pagar pedágio maior, de 50%.

Embora muito possa acontecer até 8 de setembro, quando terá início a retaliação canadense, e mesmo diante das perdas vultosas para o Canadá, que exporta mais de 70% do que produz para os EUA, o sentimento vigente hoje no país é de união contra Trump.

De acordo com o instituto Angus Reid, 76% dos canadenses entendem que encerrar as negociações com os EUA foi a medida correta. A repulsa a Trump não vem de hoje.

Enquanto o canadense comum se vinga do republicano boicotando produtos americanos e evitando ir ao país vizinho – as viagens de lazer de canadenses aos EUA caíram mais de 20% no ano passado –, o governo do país se aproxima da China e explora parcerias comerciais com outros países, inclusive com o Mercosul.

Ao tratar o Canadá como uma colônia de exploração tal como vem fazendo, Trump apenas consolida a visão de que os EUA já não são mais o parceiro confiável que costumavam ser.

Já para os canadenses, e também para o mundo, fica a lição de que não se pode depender excessivamente de ninguém, mesmo de parceiros que um dia pareciam confiáveis. Diversificar relações e manter múltiplos destinos para as exportações é cada vez mais um imperativo.

Inflação cai de novo em agosto, mas El Niño é ameaça

Por Valor Econômico

Até que o El Niño entre em cena, o BC deverá fazer mais uma redução na taxa Selic, para 13,75%. Se os preços dos alimentos dispararem, o Copom deverá interromper os cortes de juros

A inflação continua caindo, e o IPCA-15 apresentou deflação de 0,4% em agosto, um pouco abaixo das previsões. O bônus de Itaipu (devolução de saldos da conta de comercialização da energia gerada pela hidrelétrica) derrubou os preços da conta de luz em 6,25% e contribuiu com -0,22 ponto percentual para o resultado no grupo de habitação. Mesmo sem esse abatimento, porém, haveria deflação, porque a variação do item de maior peso no índice, o de alimentação, continuou negativa (-0,12). O futuro dos preços tem pela frente o El Niño, que provavelmente elevará os custos de alimentos ou de energia, ou ambos, para cima, colocando mais obstáculos na rota descendente do IPCA e mais dificuldades para a condução da política monetária, em fase de distensão.

Os números do IPCA-15 foram relativamente bons. Dos nove grupos de produtos e serviços, apenas quatro apresentaram variação positiva. Mas as duas maiores variações foram de saúde e cuidados pessoais e despesas pessoais (0,40% e 0,66%, respectivamente), nos quais a influência de serviços é pervasiva. A inflação de serviços tem sido a grande barreira para a queda mais intensa do IPCA e foi de 5,9% em 12 meses encerrados em julho. O setor acompanha o ritmo de crescimento dos salários, do emprego e da massa salarial, e a inflexão de seus preços depende da velocidade e da intensidade da desaceleração da economia, da qual os primeiros sinais já apareceram. O índice de difusão geral, porcentagem dos preços que aumentaram em relação ao total dos pesquisados, segue bem comportado: 52%.

O ritmo de queda da inflação tem sido lento, porque o governo estimulou de forma direta e indireta a economia, enfraquecendo o poder da carga de juros reais, a maior em 20 anos. Uma das formas de avaliar o impacto dos estímulos é pelo comportamento do déficit fiscal estrutural, que elimina eventos não recorrentes e os do ciclo econômico. Ele foi de 1,4% do PIB nos quatro trimestres encerrados em junho, quando no mesmo período de 2025 atingiu metade disso (0,7% do PIB), segundo a Instituição Fiscal Independente do Senado (IFI). O impulso fiscal transmitido à economia foi de 4,52% do PIB, bem maior que os 2,19% do PIB do primeiro trimestre, em uma conta que inclui o trânsito de restos a pagar de um exercício fiscal a outro, e operações de crédito, entre outros, calculada pelo economista Alexandre Manoel, da Global Intelligence and Analytics (Valor, 27-7). A liberação de recursos pela via financeira, segundo Marcos Mendes, do Insper, foi de 1,45% do PIB no ano, algo como R$ 190 bilhões.

Os estímulos mantiveram a economia crescendo acima do potencial e a inflação longe da meta, mais sensível a choques de oferta que virão. O El Niño forte é uma certeza. Boa parte das estimativas sobre seus impactos tem como base o mesmo fenômeno, de intensidade que se supõe semelhante, ocorrido em 2015-2016. No questionário pré-Copom, a mediana da resposta de 171 participantes foi de um impacto no IPCA de 0,4 ponto percentual neste ano e de 0,3 ponto percentual no próximo (Valor, 24-8). Hoje o boletim Focus prevê inflação de 5,02% em 2026 e 4,25% no ano que vem. Uma parte dos efeitos climáticos já entrou nas projeções, o que indica que, se estiverem certas, o IPCA estoura o teto da meta este ano e corre risco de repetir a performance em 2027.

Mas não há um El Niño igual a outro e esses cálculos estão repletos de incertezas. As commodities vão subir de preços, e o pior cenário inflacionário é se isso for acompanhado de significativas desvalorizações cambiais, como há dez anos. Pelo comportamento atual do dólar, é pouco provável que ocorra grande depreciação do real. O abastecimento de energia e seu preço podem ou não ser muito afetados. Os grandes reservatórios do país estão nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. A primeira tende a receber chuvas intensas com o El Niño, e o segundo convive com atraso e irregularidade das precipitações.

Há geral concordância de que no primeiro trimestre de 2028 o impacto do evento climático na inflação já terá se dissipado. O BC prevê que o IPCA estará então em 3,2%, bem perto da meta, embora analistas privados encarem os cálculos oficiais com ceticismo. Para além do clima, entretanto, há outros fatores de impacto nos preços. A redução dos preços dos combustíveis levou o grupo de transportes a uma deflação de 1% em agosto, com redução de 0,2 ponto no IPCA-15 de agosto. Mas gasolina, diesel e biocombustíveis estão com preços contidos por subsídios, que terão de terminar, quando então será bem provável uma pressão altista. A consultoria Oxford Economics atribui a esse fator o principal motivo pelo qual a inflação deixará de desacelerar este ano.

Em tese, o BC só terá de agir se os estragos inflacionários do choque do El Niño se espalharem para além dos alimentos na economia, o que, em um país onde a indexação é herança forte, é bem possível. Até que o El Niño entre em cena, o BC deverá fazer mais uma redução na taxa Selic, para 13,75%. Se os preços dos alimentos dispararem, o Copom terá que interromper os cortes de juros, a menos que as atividades desacelerem fortemente, um cenário que começou a surgir no horizonte.

Reunião Brasil-EUA não é resultado da coincidência

Por Correio Braziliense

A pressão econômica para interferir na política brasileira é clara desde o início — e conta com a dedicada atuação de agentes nacionais, que trabalham junto a setores do trumpismo

A reunião virtual entre o ministro Márcio Elias Rosa (Indústria, Comércio e Serviços) e Jamieson Greer, representante de comércio norte-americano, na próxima segunda-feira, indica bem mais do que a retomada das negociações para a suspensão das tarifas sobre as exportações para os Estados Unidos. Insinua uma alteração nas relações políticas entre os países, cujo cenário de fundo são as eleições presidenciais brasileiras de outubro.

Uma fileira de acontecimentos teria mostrado que nenhuma interferência externa será capaz de interferir na escolha do eleitor e no resultado da corrida ao Palácio do Planalto. Mas um foi o mais contundente: a reunião convocada pelo Tribunal Superior Eleitoral, em 17 de agosto, com representantes diplomáticos.

No encontro, o ministro Kássio Nunes Marques fez uma veemente defesa do processo de votação e da urna eletrônica, cujo funcionamento é colocado em dúvida por pelo menos um dos atuais presidenciáveis. Na mesma sessão, e em adição às informações do magistrado, o corpo técnico do TSE aprofundou as explicações para o entendimento do sistema eleitoral.

A encarregada de negócios interina da embaixada dos EUA no Brasil, Kimberly Kelly, estava entre os convidados para a reunião no tribunal.

Depois disso, em 21 de agosto, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump conversaram por mais de uma hora sobre a relação bilateral. Esse diálogo destravou a conversa entre Elias Rosa e Greer, na próxima segunda-feira.

Mas um terceiro episódio, em 23 de agosto, chama a atenção. Passou quase despercebida a entrevista que o futuro embaixador norte-americano no Brasil, Daniel Perez, concedeu a um programa de tevê da emissora WPLG Local 10, da Flórida, onde era presidente da Câmara dos Representantes. Em certo momento, diz textualmente:

"Não haverá nenhum envolvimento da minha parte em relação à eleição no Brasil. Isso é algo para os brasileiros decidirem. Eles têm um processo eleitoral pelo qual têm de passar em outubro, e qualquer um que sair vitorioso será o líder do Brasil e será com quem eu vou trabalhar".

É mais do que conhecida a estreita ligação de Perez com o secretário de Estado, Marco Rubio — que comemorou o fato de que "pela primeira vez, em 15 ou 20 anos, a maioria dos governos da América Latina é pró-Estados Unidos", devido às recentes vitórias de candidatos direitistas nas eleições presidenciais do Peru e da Colômbia.

Ninguém desconhece que o tarifaço decretado por Trump, em julho de 2025, tem como alicerce uma mentira — a suposta condenação de um ex-presidente ao arrepio da lei, resultado de inexistente perseguição política. Todo o contencioso que se seguiu foi somente o prolongamento dessa fábula. A seção 302 do United States Trade Representative (USTR) é um braço da farsa, pois acusa o Brasil de manter relações comerciais injustas com os EUA. Aponta até um irreal superavit comercial brasileiro.

A pressão econômica para interferir na política brasileira é clara desde o início — e conta com a dedicada atuação de agentes nacionais, que trabalham junto a setores do trumpismo. Barreiras de contenção ao avanço da intromissão norte-americana foram erguidas e, até então, nenhuma parecia ser eficiente, nem mesmo a adoção da Lei da Reciprocidade. Mas, desde a reunião do TSE, há sinais de distensionamento.

Na política, acredita-se em muitas coisas. Menos em coincidências.

Eleição: o Ceará se encontra no Cariri

Por O Povo (CE)

Que os candidatos façam um debate do mais alto nível, à altura do que merece o povo cearense

Em um feito inédito, o Grupo de Comunicação O POVO realiza hoje o primeiro debate entre candidatos a governador, transmitido diretamente do interior do Estado, na região do Cariri. Estarão presentes Ciro Gomes (PSDB) e Elmano de Freitas (PT), candidato à reeleição. No total, são nove candidatos a governar o Ceará, porém a organização do evento optou por convidar somente os candidatos que atendiam aos critérios de representatividade previstos na legislação eleitoral.

O evento dá continuidade à trajetória da Rádio O POVO CBN Cariri, emissora que se consolidou como voz independente em uma região considerada um dos principais polos de desenvolvimento socioeconômico do Ceará.

Nas eleições de 2020 e 2024, a Rádio O POVO CBN Cariri começou esse processo de ampliar o espaço destinado a valorizar a discussão sobre assuntos relativos às cidades interioranas, promovendo debates entre os candidatos às prefeituras dos municípios do Crato, de Juazeiro do Norte e de Barbalha.

Em entrevista a este jornal, Luciano Cesário, âncora da Rádio O POVO CBN Cariri, disse que realizar o debate na região é uma oportunidade para fazer com que os temas de interesse dos eleitores do interior sejam abordados pelos candidatos ao Palácio da Abolição. O evento será transmitido ao vivo por todos os meios audiovisuais do grupo, pelas suas redes sociais, e também em parceria com rádios locais, para facilitar o acompanhamento da troca de ideias entre os candidatos nas mais diversas plataformas informativas.

A propósito, seria recomendável que os candidatos evitassem estimular a chamada "polarização", que hoje divide a sociedade brasileira — marcada por acusações e ataques pessoais — e aproveitassem o momento para fazer um debate produtivo sobre os problemas que afligem os cearenses.

De preferência, com propostas factíveis e bem explicadas, sem bravatas que propõem soluções simplistas para problemas complexos, como se temas como segurança pública, saúde e educação pudessem ser resolvidos em um estalar de dedos. O cidadão brasileiro já está suficientemente esclarecido para identificar esses truques que ressurgem a cada eleição.

Os candidatos voltarão a se encontrar em 23 de setembro, em Fortaleza, reeditando uma parceria entre O POVO e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-CE). Os dois debates ocorrerão em estágios decisivos da campanha eleitoral. O de hoje acontece na véspera do início das propagandas no horário eleitoral de rádio e televisão. O próximo ocorrerá na penúltima semana de campanha, período em que a mobilização da militância costuma se intensificar para a reta final da campanha.

Que os candidatos façam um debate do mais alto nível, à altura do que merece o povo cearense.

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