Adiar privatização dos Correios custa cada dia mais caro
Por O Globo
Governo prevê aporte de R$ 6 bilhões na
estatal que fechou primeiro semestre com prejuízo recorde
Em abril de 2023, menos de quatro meses depois de assumir a Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva retirou os Correios da lista de privatizações preparada pelo governo anterior. Na visão do PT, a empresa deveria cumprir sua “função social”. De lá para cá, a sangria da estatal só fez aumentar. No primeiro ano do mandato, o prejuízo foi de R$ 597 milhões. No ano seguinte, pulou para R$ 2,6 bilhões. No ano passado, chegou a R$ 8,5 bilhões e, tendo fechado o primeiro semestre deste ano em R$ 5,5 bilhões, deverá bater novo recorde até dezembro. Os Correios não sabem o que é um resultado trimestral no azul desde setembro de 2022. Para completar, a proposta de Orçamento para 2027 enviada pelo governo ao Congresso prevê um aporte de R$ 6 bilhões do Tesouro na estatal. Toda essa cegueira ideológica custa a cada dia mais caro ao país.
Os Correios são uma empresa em estado
terminal. Para fechar as contas no ano passado, precisaram buscar empréstimo no
mercado. A primeira tentativa fracassou, mesmo com garantias do Tesouro. Numa
segunda rodada, cinco bancos aceitaram conceder um financiamento de R$ 12
bilhões, operação com indícios de irregularidades na avaliação do Tribunal de
Contas da União (TCU). No esforço inútil de justificar a manutenção da empresa
em poder da União, o governo oscila entre uma versão irreal do passado — que
atribui sua derrocada ao plano de privatização — e uma promessa fantasiosa de
futuro — que acredita na quimera do reequilíbrio financeiro ao alcance da mão.
Os Correios perdem dinheiro porque, a exemplo
de serviços postais noutras partes do mundo, são incapazes de competir no
lucrativo mercado de entregas com empresas de logística mais ágeis e mais
modernas. Com a deterioração dos resultados, a administração petista se viu
obrigada a adotar medidas para reduzir despesas, ampliar receita e equilibrar o
fluxo de caixa, do contrário não conseguiria obter o empréstimo no mercado.
Mas, apesar do programa de demissão voluntária, o quadro de pessoal continua
inchado. Greves rotineiras corroem qualquer credibilidade da empresa.
Interferências políticas são frequentes, e a gestão é cerceada por obrigações
legais, como a exigência de presença e entrega em todos os municípios brasileiros.
Não faz sentido manter estrutura tão cara
numa época em que a troca de cartas se tornou obsoleta. A maioria dos serviços
postais mais rentáveis no mundo é total ou parcialmente privada. Sem agilidade,
os Correios perdem a disputa para companhias privadas nos mercados mais
rentáveis. Um plano de privatização com os incentivos e as obrigações corretas
bastaria para garantir a entrega em todo o território nacional e, ao mesmo
tempo, acabar com a sangria de recursos públicos. Um modelo sensato foi preparado
pelo BNDES no governo anterior — e foi esse plano que a gestão petista
engavetou. Não adianta insistir no erro. Só faz sentido continuar a financiar
os Correios se os recursos forem usados para prepará-los para a venda. Quanto
mais tempo demorar, mais dinheiro público será desperdiçado – e, com prejuízos
sucessivos, mais a empresa perderá valor.
Dispensar aposentado de biometria aumenta o
risco do consignado
Por O Globo
INSS demonstra descaso com segurança ao
relaxar exigência decorrente dos escândalos de fraudes
Foi temerária a decisão do INSS de dispensar
o uso de biometria facial para contratação de empréstimos consignados por
aposentados e pensionistas. A exigência havia sido implantada em maio, na
esteira das fraudes que lesaram milhões de idosos por meio de descontos não
autorizados. Uma instrução normativa recente, porém, relaxou a norma, passando
a permitir que a operação seja feita pelo aplicativo Meu INSS apenas com dados
da conta bancária e autorização do titular. Trata-se de um retrocesso, uma vez
que a escalada de crimes digitais recomenda mais camadas de proteção, e não
menos.
O INSS alega que a medida tem o objetivo de
atender milhões de beneficiários que não conseguem passar pela biometria devido
à suspensão do serviço durante o período eleitoral (uma das bases de consulta é
do Tribunal Superior Eleitoral) ou porque encontram dificuldades. A intenção,
diz o instituto, é ampliar o acesso ao crédito consignado. É louvável querer
facilitar a vida de quem tem pouca intimidade com meios digitais, mas é preciso
buscar um equilíbrio entre a comodidade bem-vinda e a segurança necessária. Se
a biometria facial não era importante, a ponto de ser liberada agora, por que
antes foi exigida? Só para atormentar os beneficiários?
A mudança é vista com preocupação. “A
biometria até pode ser vulnerável, mas é uma ferramenta de segurança”, diz o
advogado Rômulo Saraiva, especialista em Direito Previdenciário. É
contraditório, segundo ele, que o afrouxamento na contratação de empréstimo
consignado aconteça num momento em que aumentam as exigências de biometria para
quem pede benefícios. “Sem ela, o benefício é indeferido, mas, na hora de fazer
empréstimo, aí a biometria pode ser substituída por senha”, afirma.
O governo deveria ter aprendido. A falta de
controles abriu caminho ao esquema bilionário de fraudes no INSS. Entidades
sindicais forjavam autorizações de aposentados e pensionistas para obter
descontos indevidos em folha. A arrecadação dos sindicatos disparou, e só o
INSS não percebeu. A não ser quando a Polícia Federal bateu à porta do
instituto. Ao menos 4,8 milhões de beneficiários foram lesados, a julgar pelo
número dos que fecharam acordo de ressarcimento. Só depois vieram as medidas de
controle. Neste ano, entrou em vigor uma lei proibindo descontos de associações
nos benefícios.
Estatísticas de segurança mostram que o país vive uma epidemia de golpes e fraudes digitais. Criminosos perceberam que são delitos mais fáceis, com menor risco e maior lucratividade. Quanto mais barreiras são impostas, mais brechas eles descobrem. Por isso, a preocupação com a segurança deve ser constante. As ferramentas de proteção podem não ser perfeitas, mas dificultam a ação de bandidos. Ainda que o INSS queira descomplicar a contratação de consignados, a dispensa de biometria descomplica também o trabalho dos golpistas, deixando vulneráveis tanto os beneficiários quanto o próprio instituto.
Não se pode enterrar dinheiro do contribuinte
nos Correios
Por Folha de S. Paulo
Após garantir empréstimo de R$ 12 bi, governo
Lula prevê aporte de R$ 6 bi à estatal falimentar em 2027
Prejuízo no semestre foi de R$ 5,55 bi, alta
de 30% ante o mesmo período de 2025; solução é privatizar ou, na falta de
interessados, fechar
Os Correios encerraram
o primeiro semestre deste 2026 com prejuízo
de R$ 5,55 bilhões, 30% acima do já desastroso resultado do período
correspondente do ano passado. A estatal federal caminha para o pior ano de sua
história, superando o rombo recorde de R$ 8,5 bilhões em 2025.
Preso à ideologia e ao corporativismo, o
governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
insiste em prolongar o problema, o que implicará torrar mais dinheiro do
contribuinte —incluiu-se na proposta orçamentária de 2027 um aporte de
R$ 6 bilhões para a empresa.
A capitalização é uma exigência contratual do
consórcio de bancos (Banco do
Brasil, Caixa
Econômica Federal, Bradesco, Itaú e Santander) que concedeu
empréstimo de R$ 12 bilhões aos Correios no final de 2025.
Além de garantir o crédito, a União se
comprometeu a fazer a injeção de recursos até o fim de 2027, sob pena de
vencimento antecipado da dívida. Há negociações, ademais, para outro
empréstimo, de R$ 7 bilhões.
O Executivo se defende com o argumento de que
houve progressos no plano de reestruturação da empresa. É muito pouco: no
segundo trimestre, o prejuízo recuou 5,5% ante abril-junho de 2025, para R$
2,39 bilhões, e 24% em relação ao primeiro trimestre (R$ 3,16 bilhões); o rombo
semestral, porém, superou os R$ 4,26 bilhões anteriores.
No período, a receita líquida caiu. Despesas
com pessoal recuaram modestamente, cerca de 4%, e os custos de serviços ficaram
R$ 1,3 bilhão abaixo do orçado. O primeiro programa de demissões voluntárias de
2026 teve pouco mais de 3.000 adesões —cerca de um terço da meta de 10 mil.
Parte das medidas administrativas, como o corte de lojas, patina sob pressão
sindical.
Qualquer melhora ocorre em ritmo lento,
insuficiente para estancar prejuízos sucessivos e recompor a geração de caixa.
A garantia da União e o aporte previsto
ampliam o passivo fiscal. Cada empréstimo afiançado e cada capitalização
transferem o ônus para o Tesouro e pressionam o resultado primário (não
financeiro) de 2027. Recursos que poderiam reforçar o superávit ou financiar
despesas essenciais serão consumidos para sustentar uma estatal que não para em
pé.
Em entrevista à TV Globo, Lula reconheceu que
os Correios "ficaram na mesmice" diante da evolução do setor e do
surgimento de plataformas privadas de entrega.
Incapaz de se adaptar às transformações
tecnológicas e à concorrência, a empresa deteriorou-se à vista de todos. Nada
era mais previsível, mas o petista se recusa a enxergar o óbvio —que a chance
de salvar os Correios passa
por sua privatização ou mesmo, se não houver interessados, por
seu fechamento; nunca por novos recursos do contribuinte.
Em 2020, fez-se um plano bem estruturado de
desestatização, com manutenção da natureza pública dos serviços postais
essenciais, infelizmente interditado por Lula e seu partido.
Estabilidade marca governo recorde de Meloni
na Itália
Por Folha de S. Paulo
Gestão da primeira-ministra, que mantém
agenda polêmica, será a mais longeva do país no pós-guerra
Em março, Meloni sofreu sua pior derrota
política ao ver rejeitada uma reforma judicial apontada como ataque à separação
dos Poderes
Na próxima sexta-feira (4), salvo alguma
intercorrência, Giorgia
Meloni se tornará a mais longeva líder de um governo italiano
em 80 anos. Só por isso, a romana de 49 anos já marcará a turbulenta história
política de seu país.
Desde o fim da Segunda Guerra, a Itália teve
estonteantes 68 governos —média de cerca de 14 meses para cada um. Com 1.413
dias a serem completados na sexta, Meloni ultrapassa em tempo o segundo governo
de Silvio
Berlusconi, encerrado em 2005.
Ambos os líderes vêm do mesmo ramo da árvore
política italiana, a direita populista que no passado deu ao mundo o fascismo
de Benito Mussolini. Por óbvio, são pessoas de outra era, mas a genealogia
ideológica é reconhecível.
Meloni, primeira mulher a governar a Itália,
apresentava credenciais preocupantes. Seu entorno era formado por radicais
xenófobos, e ela mesma já havia elogiado Mussolini em público.
No poder, o discurso se amainou. É certo que
mantém itens retóricos da ultradireita, como uma agenda de costumes retrógrada
e visões anti-imigratórias, mas pouco disso se tornou práxis.
Meloni se afastou dos que defendiam a invasão
russa da Ucrânia e, pela negativa em apoiar a guerra do aliado Donald Trump no
Irã, incorreu na ira do americano —houve
oportunismo dela no rompimento, mas nem sempre isso é condenável.
Quando tentou avançar temas controversos,
teve dificuldade. Em março, sofreu sua pior derrota política ao ver
rejeitada em referendo uma reforma judicial apontada como um
ataque à separação entre os Poderes.
Além disso, a limitação à concessão de
cidadania italiana prevista em lei está suspensa, sob análise da União
Europeia.
Economicamente, a Itália vive um momento
ambíguo. Sob Meloni, o crescimento arrefeceu, e a previsão do FMI para este ano
é de alta de 0,5% no PIB. A inflação reflete de forma moderada as pressões do
mundo em guerra e, segundo projeções, deverá cair de 3% neste ano para 2% em
2027.
Ao mesmo tempo, o déficit fiscal da terceira
maior economia do bloco europeu chegou ao menor nível desde 2019, com redução
de 8,1% do PIB para 3,1% entre 2022, quando a
primeira-ministra assumiu o poder, e 2025.
O cenário à frente é complexo. Meloni tem boa aprovação pessoal e seu governo é razoavelmente bem avaliado, mas aproxima-se da eleição do ano que vem em queda entre os jovens. A derrota no referendo mostrou força da centro-esquerda e há fissuras na sua coalizão, o que sugere um desafio duro para a líder italiana.
O perigoso fetiche por Bukele
Por O Estado de S. Paulo
Defendido por Flávio, Renan e Zema, o modelo
de segurança de El Salvador rasga a Constituição e ignora a realidade do
Brasil. Isso não resultará numa vitória real sobre o crime
O modelo de combate ao crime implementado por
Nayib Bukele em El Salvador tem sido defendido por alguns candidatos à
Presidência da República, como se a política de segurança daquele país fosse um
exemplo a ser seguido pelo Brasil. Não é – e é fácil dizer por quê.
Em primeiro lugar, o modelo salvadorenho é
baseado na supressão de direitos e garantias fundamentais dos cidadãos. É,
portanto, a antítese da Constituição de 1988, barreira intransponível à sua
implementação no Brasil. Fontes fidedignas têm reportado as barbaridades que
ocorrem em El Salvador, como prisões indiscriminadas, não raro sem mandado
judicial, restrições ao direito de defesa, suspensão do habeas corpus, execuções sumárias,
inclusive sob custódia, superlotação carcerária e desaparecimento de “suspeitos”,
entre outras violações de direitos humanos.
Em segundo lugar, El Salvador tem um
território 12 vezes menor do que o Estado de São Paulo e uma população de
apenas 6,4 milhões de habitantes, ou seja, menor do que a do Maranhão. Noutras
palavras: a realidade brasileira é muito mais complexa do que a salvadorenha.
A despeito de tudo isso, Flávio Bolsonaro
(PL) reuniu-se anteontem com o ministro da Justiça daquele país, Gustavo
Villatoro e, ao fim do encontro, afirmou que “tem pouco preso no Brasil, tem que
ter mais”. Com uma taxa de encarceramento de quase 2% de sua população, El
Salvador é o país que mais prende no mundo. Assumindo que, se eleito, Flávio
pretenda implementar patamar semelhante no País, ao final de seu eventual
mandato teríamos cerca de 4,3 milhões de brasileiros encarcerados, ante os
atuais 964 mil. Para dar a dimensão do despautério, isso representaria mais do
que as populações carcerárias dos EUA e da China somadas, países muito mais
populosos do que o Brasil.
Além de Flávio, Renan Santos (Missão) e Romeu
Zema (Novo) são outros que defendem a adoção do receituário de Bukele aqui. Os
três chegaram à mesma conclusão: o medo dos cidadãos, se bem explorado, é um
tremendo ativo eleitoral.
Este jornal não apenas compreende, como
endossa a exasperação da sociedade brasileira diante da leniência do Estado em
cumprir a sua obrigação, como detentor do monopólio da violência, de proteger a
integridade física e patrimonial dos cidadãos. Bairros inteiros de grandes,
médias ou pequenas cidades do País foram sitiados por facções e milícias que
ditam o ritmo da vida cotidiana – do horário de funcionamento do comércio à cor
da roupa que uma pessoa pode ou não usar. A sensação provocada por essa
inversão da autoridade de fato é um misto de impotência e revolta.
Negar esse diagnóstico é ser irresponsável,
no melhor cenário, ou cruel, no pior. A questão é qual tratamento deve ser dado
ao problema. Nesse sentido, Bukele é o antiexemplo do que fazer para enfrentar
os criminosos.
Democracias liberais, como é o caso do
Brasil, podem, em circunstâncias excepcionalíssimas, tolerar restrições
temporárias a certas garantias constitucionais. Dito isso, por mais grave que
seja, a criminalidade que assola o País não configura esse tipo de exceção. Ao
contrário, é exatamente o tipo de problema ordinário para cuja solução o
sistema de persecução penal democrático foi concebido. O Estado de Direito por
vezes pode ser frustrante, mas não há caminho fora dele que não deságue na
barbárie. É isso o que queremos para o Brasil?
Há ainda uma questão factual que não podemos
perder de vista. A ideia segundo a qual El Salvador “venceu” o crime é
falaciosa. A queda expressiva dos homicídios naquele país não decorreu apenas
de uma vitória das forças do Estado contra os criminosos, mas dependeu também
de um pacto de coexistência entre o governo Bukele e as temidas maras, as violentas gangues de rua
que há décadas impunham o medo à população salvadorenha.
O verdadeiro debate que os candidatos à
Presidência da República deveriam travar, mas não o fazem por conveniência
eleitoral, diz respeito à estratégia constitucional e eficaz que pretendem
adotar para conter o avanço das facções criminosas sobre o território e a vida
dos cidadãos. É um caso de polícia ou um ataque à soberania nacional? Essa
resposta não virá da importação oportunista de um modelo incompatível com a
“Constituição Cidadã”.
A aposta arriscada de Putin
Por O Estado de S. Paulo
A visita do diretor da CIA a Moscou expõe um
risco: Putin pode apostar que uma agressão limitada dividiria a Otan – e
descobrir que calculou mal, desencadeando uma guerra aberta
A viagem do diretor da CIA, John Ratcliffe, a
Moscou para advertir a Rússia contra uma agressão à Otan seria alarmante em
qualquer circunstância. É ainda mais intrigante porque não há, nos Bálticos,
concentração de tropas comparável à que precedeu a invasão da Ucrânia. A
inteligência americana parece preocupada com outra espécie de ameaça: uma ação
limitada, talvez ambígua, concebida para testar a Aliança Atlântica sem obrigar
Moscou a enfrentá-la por inteiro.
Há anos a Rússia pressiona os aliados da
Ucrânia por meios que ficam abaixo do limiar de uma guerra aberta. Sabotagem,
ataques cibernéticos e incursões de drones aumentam o custo do apoio a Kiev,
enquanto permitem observar a reação europeia. Quanto tempo leva para atribuir
um ataque? Que provas os governos exigem antes de responder? Até onde o receio
de uma escalada nuclear contém a reação? Cada episódio oferece a Vladimir Putin
alguma informação sobre o terreno político que teria de atravessar numa crise
mais grave.
Quatro anos e meio de guerra mostraram à
Rússia o preço de obter resultados militares mesmo contra um país muito menos
poderoso que a Otan. Atacar os Bálticos em larga escala seria uma temeridade.
Uma provocação pequena poderia parecer outra coisa aos olhos do Kremlin.
Analistas imaginam, por exemplo, uma incursão de forças sem insígnias em torno
de Narva, na Estônia, ou a tomada de uma instalação fronteiriça, com apoio
russo mantido do outro lado da fronteira. O cálculo seria de que uma parcela
ínfima de território poderia criar um dilema político muito maior que seu valor
militar.
A Rússia sabe que perderia uma guerra
convencional contra a Aliança. Uma operação limitada só faria sentido se Putin
julgasse possível evitar essa guerra, apostando que os aliados hesitariam
diante da escolha entre tolerar um fato consumado e arriscar uma escalada com
uma potência nuclear. A defesa coletiva consagrada pelo Artigo 5 da Aliança
vale em boa medida pelo que impede antes do primeiro tiro. Se Moscou
demonstrasse que a promessa se torna incerta diante de um ataque pequeno, o
dano à Otan iria muito além de Narva.
Há razões para Putin imaginar que encontrou
uma brecha. A Europa acelerou o rearmamento, mas levará anos para transformar
os novos gastos em forças prontas e continua dependente dos EUA em capacidades
militares decisivas. A guerra com o Irã dispersa recursos e atenção americanos.
Nesse cenário, as dúvidas que o presidente americano Donald Trump lançou
repetidamente sobre os compromissos dos EUA com a segurança europeia pesam no
cálculo russo, qualquer que seja a intenção real do presidente. Dissuasão
depende também do que o adversário acredita. Por isso é significativo que tenha
sido o próprio Trump a enviar Ratcliffe e que, segundo autoridades europeias, o
diretor da CIA tenha reafirmado em Moscou o compromisso americano com o Artigo
5. A mensagem procura fechar a brecha antes que Putin resolva atravessá-la.
Ele pode, afinal, estar interpretando
corretamente as fragilidades ocidentais e ainda assim errar sobre sua
consequência. A Estônia não precisaria esperar uma longa deliberação da Otan
para reagir a uma incursão em seu território. Washington poderia concluir que
sua credibilidade global estaria em jogo. Aliados divididos antes do ataque
poderiam descobrir rapidamente o valor da unidade depois dele. Putin conhece
esse risco. Em 2022, também apostou numa guerra que julgava administrável e
subestimou a resistência ucraniana e a reação do Ocidente; acabou contribuindo
para levar Finlândia e Suécia à Otan.
Esse é o perigo contido na advertência de Ratcliffe. A zona cinzenta oferece a Moscou espaço para sondar, intimidar e recuar. Um ataque armado muda a natureza da aposta porque Putin controla a iniciativa, não a resposta. A Otan precisa continuar reduzindo as dúvidas que possam induzi-lo ao erro, com uma Europa mais capaz de defender o flanco oriental e uma Casa Branca resoluta sobre o compromisso com seus aliados. A melhor dissuasão é aquela que jamais precisa ser posta à prova. Neste caso, seu êxito será convencer Putin, antes do primeiro tiro, de que não pode agredir um aliado contando que jamais terá de enfrentar a Aliança.
A conta do atraso chegou
Por O Estado de S. Paulo
Reação do governo é tardia, e UE deve mesmo
suspender a importação de carnes brasileiras
Apesar das tentativas de negociação do
governo brasileiro e da esperança de poucos, a conta do atraso chegou. A União
Europeia deve suspender nos próximos dias as importações de proteínas animais
do Brasil. O País teve tempo para se preparar, mas deixou para a última hora e
agora tenta conseguir pela diplomacia o prazo que desperdiçou em casa.
A decisão decorre de regras europeias sobre o
uso de antimicrobianos na produção animal, estabelecidas em 2023. O Brasil foi
retirado da lista de fornecedores autorizados por não ter apresentado garantias
suficientes. Só em julho deste ano o governo adotou novos procedimentos de
controle e pediu uma transição que mantivesse as vendas durante as auditorias.
O pedido foi negado.
Não faltou aviso. Como este jornal mostrou em
julho, outros países, como Argentina, Uruguai e Paraguai, conheceram as mesmas
normas e se movimentaram para adequar suas cadeias produtivas. Continuam
habilitados a vender aos europeus. Aqui, gastou-se um tempo precioso discutindo
se as exigências eram razoáveis ou protecionistas. A adequação, que deveria ter
avançado enquanto essa discussão ocorria, ficou para depois.
Para frango e mel, a suspensão pode terminar
em novembro. Com os bovinos, não há solução rápida. Um boi leva de 24 a 36
meses para completar seu ciclo, e o protocolo europeu precisa ser observado
desde o nascimento. Cerca de 200 fazendas solicitaram adesão às novas regras,
homologadas pelo Ministério da Agricultura apenas em julho, mas ainda estão na
fase documental. Os primeiros animais com todo o ciclo submetido aos novos
controles só estarão disponíveis em 2028.
O setor pode deixar de exportar US$ 1,8
bilhão por ano em carne bovina para a União Europeia. Dois meses sem vender
frango ao bloco representariam outros US$ 243 milhões. Os europeus pagam pela
carne bovina brasileira cerca de US$ 3 mil por tonelada acima da média do
mercado internacional.
O governo ainda negocia e Lula chegou a
escrever à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pedindo a
reinclusão do Brasil. Ainda que de forma tardia, negociar é papel do governo. A
retomada das exportações de carne bovina dependerá agora do cumprimento de um
protocolo que acompanha o animal desde o nascimento e exige anos, não meses.
Produtores e exportadores pagarão por essa demora.
Há outros prazos correndo. Em dezembro,
começam a valer novas exigências europeias contra o desmatamento, com regras de
rastreabilidade para produtos importantes da pauta brasileira, entre eles carne
bovina, soja e café. A União Europeia também já anunciou mudanças nos limites
máximos de resíduos de agrotóxicos permitidos nos alimentos, tema que interessa
diretamente ao agronegócio brasileiro.
O Brasil ainda tem tempo para participar dessas discussões e preparar sua produção para as novas exigências. Se vai fazê-lo, é outra história. No caso dos antimicrobianos, foram anos entre a publicação das regras europeias e a correria de última hora.
Fed vê queda lenta da inflação e acena com
alta dos juros
Por Valor Econômico
Balanço de riscos, segundo o presidente do Fed, Kevin Warsh, pende claramente para a inflação
Após um início evasivo no comando do Federal
Reserve (Fed), o banco central americano, Kevin Warsh revelou por inteiro e sem
meios termos em Jackson Hole, na sexta, o que os investidores cobraram com
insistência: sua avaliação sobre o atual estágio da política monetária. Avesso
à prática de os bancos centrais apresentarem orientação futura, ele deixou
claro que a inflação é hoje o principal problema e que se ela não cair
rapidamente e de forma significativa, o "Fed tem um trabalho a fazer"
— aumentar os juros.
Warsh desarmou com isso várias armadilhas que
sua primeira entrevista ao assumir o comando do banco e sua indicação pelo
presidente Donald Trump, um arauto barulhento da queda imediata de juros,
poderiam surgir. Ao deixar explícito que os juros poderiam subir, ele mostrou
um alinhamento bem mais próximo do que se previa com o conjunto dos membros do
comitê de política monetária. Na última reunião, três deles votaram por elevar
as taxas, enquanto a decisão final foi por aguardar mais tempo. Havia a
sensação de que Warsh teria problemas de harmonia com os membros votantes, e
com seu antecessor, Jerome Powell, que permaneceu no board e participa das
decisões. Warsh mostrou mais alinhamento com a ideia de que é preciso derrubar
a inflação como objetivo principal e que a direção dos juros é para cima, não
para baixo como Trump, que o colocou lá, quer.
O novo presidente do Fed apresentou sem
rodeios os princípios que nortearão sua ação e o que considera apropriado na
condução da política monetária. Dissipou dúvidas que ele próprio havia criado.
Uma das mais importantes é a de que o índice de gastos pessoais de consumo
(PCE, na sigla em inglês) é o parâmetro "firme" para a meta de 2%.
Warsh, em declarações antes de assumir o cargo, havia mostrado predileção por
determinadas medidas de preços de médias aparadas que, os analistas mostraram,
tendia a subestimar a inflação corrente.
Depois, mostrou fidelidade ao duplo mandato
do banco — manter a inflação em 2% com o máximo emprego possível — e, mais ao
ponto, que "a taxa de juros de curto prazo é o instrumento principal"
para cumprir essa missão. Antes, devido a suas declarações de que o balanço do
banco estava inchado e precisaria ser reduzido, especulou-se que ele também
usaria a redução dos ativos do Fed como um instrumento de política monetária.
Ponderou que políticas heterodoxas podem ser úteis em tempos de crise, mas fora
dessas circunstâncias é melhor não usá-las.
Warsh se disse "impressionado" com
a performance da economia americana, que se fortaleceu e provou ser muito
resistente a choques. Ele deu especial atenção ao crescimento de 9% dos
investimentos em quatro trimestres (em especial em inteligência artificial) e
com as margens de lucros das empresas do S&P 500, de 20%, que considera elevadas
diante de sua média histórica. Crédito e mercado de empréstimos operam
"sem quaisquer sinais de restrição". A demanda final de gastos
domésticos (que inclui investimentos), para Warsh um bom instrumento para dar
indicações do futuro, cresceu 3%, mais que o PIB.
A conclusão de tudo isso é que seria forçar a
mão descrever as condições financeiras atuais como "restritivas",
isto é, insuficientes para auxiliar o Fed em sua tarefa de trazer a inflação de
volta à meta. Ao avaliar o balanço de riscos, Warsh, ao contrário do pêndulo
oscilante entre ameaça de inflação e de fraqueza do mercado de trabalho, que
marcou várias reuniões do banco sob comando de Powell, concluiu que o mercado
de trabalho "vai bem" e há "pleno emprego". O número de pedidos
de auxílio desemprego na média de quatro semanas, exemplificou, está no menor
nível em décadas.
"O foco predominante do Fed hoje deve
estar nos preços", disse, porque a inflação está muito acima dos 2%. Os
índices caíram um pouco no verão (ainda estão em torno de 3,4%), mas para Warsh
eles não apontam que as tendências subjacentes dos preços “melhoraram de forma
significativa". Como prova, disse que em 12 meses 54% dos preços dos 199
itens que compõem o PCE subiram acima de 3%, bem mais que o nível de 32% que
marcou as duas décadas anteriores à pandemia. Nos últimos seis meses, a
situação não melhora: 49% continuam exibindo o mesmo comportamento. Ele
esclareceu então seu critério de julgamento: se a inflação subjacente não se
mover "objetiva e claramente, com a velocidade suficiente" em direção
à meta, é hora de o Fed agir. Há 65 meses que o banco não atinge seu objetivo,
fez questão de ressaltar.
Em algum momento nos próximos meses, o Fed deve subir os juros, precificam os mercados. Isso pode ou não reduzir a animação das bolsas americanas, mas vai atrapalhar a política do secretário de Tesouro, Scott Bessent, de diminuir os juros de longo prazo, ao elevar o custo do endividamento geral. No Brasil, pode reforçar a saída recente de investimentos em portfólio e trazer pressão moderada no câmbio, que já se moveu a favor do dólar contra o real. Mas a expectativa é de mudanças graduais, não de forte instabilidade.
O relógio da natureza corre contra todos
Por Correio Braziliense
No relógio da natureza, os ponteiros se movem
por dinâmica própria. Nele, o tempo corre contra todos nós
Os números estampados nos termômetros pela
Europa afora, neste que se apresenta como o verão mais quente nos registros
históricos do Velho Mundo, deveriam ser suficientes. Rio, 40 graus, clássico do
Cinema Novo brasileiro, já pode ser refilmado em Londres, Paris ou Berlim, e
não é mais apenas Jorge Benjor que mora "num país tropical". Mas o
que era bênção na letra do compositor cai sobre a humanidade como maldição.
Ainda assim, os repetidos sinais de alerta
emitidos pela natureza parecem não ter sido ainda suficientes para impulsionar
uma ação global e coordenada — com urgência — para mitigar o ritmo alucinante e
os impactos já indisfarçáveis do aquecimento do planeta e da mudança do clima.
A catástrofe da semana passada na fronteira
do Nepal com o Tibete chinês produziu cenas que ofuscam os efeitos especiais do
cinema apocalíptico. O desprendimento de um bloco imenso e maciço de uma
geleira soou como um grito de socorro da Cordilheira do Himalaia. A terra dos
lamas budistas e de outros místicos, que evoca a imagem mítica e utópica do
Shangri-lá, derrete a olhos vistos, como relatam alpinistas em reportagem
publicada ontem pelo Correio.
Entre a urgência desesperada de resgatar
possíveis sobreviventes sob o tsunami de lama e atender milhares de atingidos
pela avalanche seguida de enchentes, as autoridades nepalesas voltaram a
colocar o dedo em uma ferida exposta da crise ambiental: as primeiras vítimas
dos fenômenos mais extremos associados a ela são países com participação mínima
nas emissões de gases que aceleram o aquecimento global. Mais grave: muitos
deles têm recursos escassos para fazer frente às consequências, situação
exatamente oposta à dos principais emissores, potências industriais
desenvolvidas.
É o caso, por exemplo, das pequenas ilhas do
Pacífico, algumas delas identificadas pelos cientistas como destinadas a,
possivelmente, submergirem pela elevação do nível dos oceanos. Sobre ela, por
sinal, testemunham as repetidas ocorrências de desprendimento de vastos
icebergs, sobretudo das geleiras da Antártida.
Desde o Protocolo de Kyoto, firmado no início
do século, sucedem-se esforços para concatenar medidas capazes de ao menos
conter a disparada dos termômetros mundo afora. A mais recente foi o Acordo de
Paris, de 2015, ainda considerado insuficiente por muitos estudiosos. Mesmo
assim, por duas vezes o principal emissor de gases-estufa retirou-se do
tratado, ambas as vezes pela caneta de Donald Trump, irredutível na negação de
uma realidade que se impõe à custa de danos materiais e perdas humanas em
escala exponencial — mas não nos EUA.
A primeira conferência da ONU sobre o meio
ambiente data de 1972, em Estocolmo. Teve como desdobramento a histórica
Rio-92. Passadas mais de três décadas desde então, pouco foi feito, muito menos
do que o mínimo necessário.
Ao fim da 2ª Guerra, sob impacto do bombardeio atômico a Hiroshima e Nagasaki, cientistas nucleares criaram o "relógio do fim do mundo". A cada ano, avaliam os riscos da escalada armamentista e movimentam os ponteiros para mais longe ou mais perto da meia-noite, a hora fatal. No relógio da natureza, os ponteiros se movem por dinâmica própria. Nele, o tempo corre contra todos nós.
Em nome da segurança das escolas e da
comunidade
Por O Povo (CE)
É um dado animador que, em meio a um processo
eleitoral, com tudo o que ele tem de desvios e tensões, anuncie-se adesão total
dos municípios cearenses ao programa Previne, tocado pelo Ministério Público
estadual e que tem como objetivo principal melhorar a proteção às escolas
públicas e às comunidades nelas envolvidas, entre professores, alunos e
servidores.
O quadro demonstra uma animadora disposição
dos gestores públicos à frente das nossas 184 prefeituras de colocarem o
interesse das pessoas acima de qualquer outro de natureza política ou
ideológica.
A ideia do programa é tão básica quanto
necessária, diante de uma realidade em que a segurança das pessoas, ou falta
dela, segue sendo uma das maiores preocupações dos cearenses. As escolas, de
partida, ficam obrigadas a constituir uma Comissão de Proteção e Prevenção à
Violência, cuja tarefa inicial deve ser a elaboração de um plano anual para
mapear e enfrentar os problemas específicos da comunidade na qual a escola
esteja inserida.
A coordenação do programa calcula que cerca
de 6 mil unidades educacionais, públicas e particulares, estão integradas ao
esforço de aperfeiçoar as condições de segurança da população a partir de uma
melhoria no ambiente escolar.
Desde quando ele foi lançado, em 2022, é a
primeira vez que a totalidade dos municípios cearenses se integra à ação,
ganhando relevância maior o fato de estarmos em plena temporada eleitoral.
O que é de interesse de todos, especialmente
quando a parcela infantil de nossa população está envolvida, precisa ser
colocado como prioridade de todo governante e não há como pensar em resistência
justificada, ou que se tente fazê-lo, por razões políticas ou ideológicas.
O otimismo apresentado por representantes do
Ministério Público em encontro recente com representantes de prefeituras, na
semana passada, é mais do que justificado.
Não há ambiente melhor para se discutir com a
profundidade que o problema da violência requer, temas como bullying,
cyberbullying, gravidez na adolescência, violência de gênero e respeito à diversidade.
Todos aparecem na raiz do quadro grave de insegurança que cerca a nossa
sociedade, muitas vezes a partir de um núcleo familiar que precisa de um
acompanhamento de Estado.
O resultado esperado é uma melhoria no desempenho escolar do aluno a partir da melhor proteção que lhe seja garantida nas escolas. Mesmo que seja apenas o restabelecimento de uma normalidade que, infelizmente, parecemos ter perdido, comemore-se o engajamento da totalidade dos municípios, e das prefeituras, no esforço de proteger quem precisa e merece.

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