sábado, 8 de novembro de 2008

A sucessão e, ainda, a Frente Democrática


Vagner Gomes de Souza[1]

Givaldo Siqueira está de parabéns pelo seu artigo “O PPS E A SUCESSÃO” pois um ator político não deve ficar aguardando os fatos. Ao contrário, um partido político democrático da esquerda sempre deve pleitear dirigir os elementos de fortuna da conjuntura. Entretanto, seu ponto de vista poderia ser complementado com algumas considerações sobre a conjuntura nacional. Assim, sugerimos que uma atuação política no pleito de 2010 deve partir de uma reafirmação da política partidária em relação ao Governo Federal.

Vamos completar 20 anos de hegemonia economicista na gestão pública brasileira. O Governo Collor inaugurou esse mundo pragmático pela via radical do neoliberalismo, o que afastou as forças políticas da tradição republicana. Entretanto, a luta política democrática foi colocada em segundo plano pela ideologia do “choque de capitalismo” divulgada pela candidatura do PSDB em 1989.

A transição do Governo Itamar foi uma oportunidade perdida diante da hiperinflação que abriu caminho ao Plano Real. Não percebíamos o quanto a sociedade havia transformado nos anos 80 com a emergência de uma classe média urbana sem valores cívicos. Essa foi a base da opinião pública que se calou diante das privatizações das empresas estatais (particularmente a telefonia) e se afastou da atuação em esferas públicas (associativismo de bairros, sindicatos, partidos políticos, etc.). Não fizemos um programa para essa nova classe média que entendeu a política cada vez mais de forma americanizada. Assim, a instituição da reeleição fortaleceu uma tendência ao bipartidarismo na competição da Presidência da República entre as duas vertentes dessa nova classe média liberal e utilitarista (PT e PSDB).

Não há grandes mudanças na correlação das classes sociais no intervalo de 1994 (primeira eleição de FHC) e 2006 (segunda eleição de Lula). Enfim, as mudanças ocorreram para se conservar a lógica do economicismo em que o desenvolvimentismo, aos poucos, foi reinventado a serviço dos interesses da burguesia financeira cada vez mais internacionalizada após o PROER. A falta de mudanças estaria associada a uma incapacidade na atuação no interior do processo transformista de nossa sociedade, o que foi resultado de uma postura sempre eleitoreira dos diversos partidos políticos do campo democrático e progressista.

Esse segundo Governo Lula aprendeu, com a crise política do “mensalão”, a ampliar seu campo de aliança política e social com grande capacidade de cooptação de lideranças políticas e intelectuais em torno do desenvolvimentismo economicista. Nesse caso, não é estranho as tendências pró-Lula no PSDB (vide o caso de Belo Horizonte) e no PPS (segundo indicações do artigo de Givaldo Siqueira), pois desenvolvimentismo e eleitoralismo é o casamento do conformismo no capitalismo brasileiro. Não há espaço para a “grande política” diante da ausência de uma política que aprofunde contradições na base social do atual governo. Entretanto, a chamada oposição (PSDB/DEM/PPS) segue o legado da liberdade dos modernos, ou seja, não formulou uma política pública que interpele a nova classe média dos anos pós-transição democrática e os “emergentes sociais” do governo Lula (conhecidos como “lulistas”, pois discordo com a simplificação “protofascista”).

Há elementos de um “fascismo de mercado” que o simples compromisso com o desenvolvimentismo não implicará na abertura das mudanças na rota política brasileira. Portanto, não apoiamos uma adesão a oposição de centro liberal (PSDB/DEM) pelas velhas linhas da estratégia democrática e nacional, pois isso seria um adesismo semelhante ao reingresso a base governista ou ao apoio da alternativa mineira. Por outro lado, não há elementos favoráveis a uma candidatura própria de opinião ou no campo oposicionista da velha esquerda (PSOL/PSTU/PCB/PCO).

Consideramos que a sociedade necessita de um processo de reformismo democrático que ainda não recebeu atenção da nova classe média. Essa nova classe social encontra-se eleitoralmente polarizada entre governismo e oposicionismo, mas verificamos que sua força majoritária está à margem da disputa eleitoral tendendo para valores conservadores caso não seja interpelada politicamente. A estratégia passa pela transformação democrática com o aprofundamento dos princípios estabelecidos na Constituição de 1988.

Devemos formular uma constituinte de uma nova força política que seja tenha uma dinâmica eleitoral e que reforce o associativismo da sociedade civil nas camadas médias e nas periferias do capitalismo. Uma política de transformação social com política, cultura e juventude o que está para além de uma simples posição por uma candidatura presidencial em 2010. Hoje, é necessária a fundação do PCB (“partido da constituição brasileira”), portanto a Frente Democrática ainda é a melhor alternativa para fazer chegar a nossa formulação política até as forças políticas em disputa.

Nesse sentido, justificaríamos nossa aproximação com as forças políticas do “centro político liberal” pela política do reformismo democrático que compreenda o novo papel do judiciário brasileiro em mobilizar os interesses dessa nova classe média e dos “emergentes sociais” que vivem à margem do associativismo. O aprofundamento da democracia passa por um Judiciário forte e que adquira canais fortes de participação da sociedade – isso não implica no controle externo do judiciário. Na verdade, há uma possibilidade de americanizarmos esse judiciário com instrumentos até eleitorais (vide o exemplo do Juiz de Paz eleito citado na Carta de 1988 e ainda não regulamentado).

Além disso, o modelo legislativo brasileiro merece ser mais democratizado por uma Reforma Política e Eleitoral que deve contar com um programa mínimo que inove com as chamadas “candidaturas independentes” nas listas partidárias. Por isso, há espaço para diversas candidaturas de opinião nas eleições parlamentares de 2010 que force uma “guinada” do desenvolvimentismo para o democratismo econômico e social. 2010 deve ser o início do ciclo do “Choque de Democracia” e, ainda, com a Frente Democrática.

[1] Mestre em Sociologia

O TECNICISMO COMO FIM


Wilame Jansen
Escritor, paraibano


Darwin tinha razão. Meu micro ficou velho aos 3 anos de idade. Tive de substituí-lo por um jovem poderoso, veloz e com mais utilidades que bombril. Meu televisor está condenado à morte ainda na flor da idade, vem aí o digital.

Aposentei uma coleção de máquinas de calcular que me acompanharam na profissão por longo tempo. Elas ficaram, a cada geração, mais capazes, mais velozes e, ao longo do tempo, diminuíram de tamanho até... desaparecerem.

Hoje, encontram-se escondidas em computadores, celulares e até em máquinas fotográficas. Não falo da velha Kodak (velho já era), falo das novas, das que fazem tudo em tempo real: fotografam e remetem imagens para visualização ou impressão.

Não é a mudança que é importante, e sim, a velocidade da mudança. Na telefonia, a operadora X troca o celular do cliente a cada 6 meses, sem custo. São atitudes surpreendentes da agressiva competição globalizada. A operadora X está apenas fazendo o que as outras fazem

Não há tempo a perder, o mercado – novo ente transcendental – é ávido por novos produtos. As pessoas querem comprar qualquer coisa nova. Comprar não é mais um meio desse consumidor contumaz. É um fim, é a própria felicidade. Uma vez alcançada, essa efêmera e frustrante felicidade tem necessidade de perseguir nova compra. E o ciclo da competição globalizada se completa em suposta harmonia, cada vez mais veloz. E essa velocidade custa caro às empresas, obrigadas a comprar ou desenvolver tecnologias para atender a esse ritmo alucinante, se quiserem apenas sobreviver.

Hoje, até a pesquisa nos dá a impressão de se voltar exclusivamente para atender essa urgência constante da técnica em atender à competição. E a técnica em si não está, como nunca esteve, preocupada com os objetivos superiores da humanidade. Por outro lado, era a Ciência quem nos prometia a felicidade pelo conhecimento do mundo. Refiro-me aos modernos: iluministas, positivistas - esses nomes significativos inventados pelos geniais Descartes, Look, Kant, etc. Mas zombaram da harmonia cósmica, parcelaram o mundo para melhor analisá-lo e apostaram no desenvolvimento da humanidade exclusivamente pela técnica. E deu no que deu.

E aí? Como interferir nessa ciranda? O capitalismo globalizado fragiliza as nações e só permite a interferência dos governos nas crises por ele mesmo criadas. Quando o negócio fica preto, desenterram Keynes, como agora, socializando os prejuízos. As pessoas que entram no pesado jogo do consumismo só se preocupam em ganhar dinheiro, o máximo que puder, e administrar seus cartões de crédito a fim de alcançarem aquela felicidade efêmera e, por isso, frustrante.

Aparentemente, são indivíduos isolados que, mesmo residindo em médios e grandes centros urbanos, não participam de qualquer tipo de associativismo e não se interessam por assuntos que digam respeito ao destino da humanidade. Digo aparentemente, porque me parece não ser o comportamento da maioria.

A eleição, ontem, de Barak Obama me faz reportar (noutra dimensão, claro) a votação extraordinária de Gabeira, no Rio. Ambas deverão ser objeto de muita reflexão e estudos pra quem é do ramo.

Em seminário de avaliação das últimas eleições brasileiras, semana passada, em Brasília, tive a oportunidade de assistir o depoimento do companheiro Raulino, assessor da campanha de Gabeira, explicando a estratégia utilizada para o sucesso daquela campanha. Em síntese: Gabeira, um intelectual antenado com o mundo, deixou de lado a lógica dos partidos (o que a população já fez há anos) e falou para as redes sociais de interesses comuns, ou seja, praticou o que os teóricos estão chamando de a democracia das minorias. E foi ouvido.

Três cientistas sociais de fama internacional escreveram sobre o assunto: Marilyn Fergusson (Conspiração Aquariana), Anderson e Alvin Toffler (A Terceira Onda), por coincidência, todos em 1980. Portanto, há 28 anos discutiram coisas que os partidos brasileiros, até hoje, nem desconfiam.

Alguns movimentos sociais fazem parte dessas redes, mas não são apenas eles. Há redes permanentes e redes temporárias, que lutam por um objetivo e se extinguem tão logo alcançam o que querem. Há toda uma teoria que justificam as redes, em cima dos novos paradigmas (abordei o assunto no livro Na curva do rio). Alguns marxistas apontam as mudanças nas relações de produção como a causa mais profunda desses movimentos.

Pois bem, Gabeira falou para essa gente, por fora e por cima dos partidos. E foram essas redes que defenderam ele e o Kassab, quando os dois foram agredidos por preconceituosos.


Wilame Jansen lançou recetemente, em Recife, seu novo romance, "Na Curva do Rio"

É preciso ignorar idéias conservadoras


Paul Krugman
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Novo presidente dos EUA não deve temer um deslocamento para a esquerda

Se a eleição de nosso primeiro presidente negro não o comoveu, há algo errado com você. Mas será que a eleição marcará também um ponto de inflexão real na política? Barack Obama pode realmente introduzir uma nova era de políticas progressistas? Sim, ele pode.

Nesse momento, muitos analistas estão conclamando Obama a pensar pequeno. Alguns usam argumentos com base política: os EUA ainda são um país conservador e os eleitores punirão os democratas se eles se deslocarem para a esquerda. Outros dizem que a crise financeira e econômica não permite, por exemplo, reformar o sistema de saúde.

Esperemos que Obama tenha o bom senso de ignorar esse conselho.

Sobre o argumento político: se alguém duvidar de que tivemos um grande realinhamento político, seria bom que observasse o que aconteceu com o Congresso. Após a eleição de 2004, houve declarações de que entramos numa era de predomínio prolongado, talvez permanente, dos republicanos. Desde então, os democratas tiveram vitórias sucessivas, conquistando pelo menos 12 cadeiras no Senado e mais de 50 na Câmara - contando agora com uma maioria no Congresso que o Partido Republicano jamais teve em seu reinado de 12 anos.

Tenham em mente também que a eleição presidencial deste ano foi um claro referendo sobre filosofias políticas - e a filosofia progressista venceu.

A melhor maneira de destacar a importância desse fato talvez seja contrastar a campanha deste ano com a anterior. Em 2004, o presidente George W. Bush escondeu sua verdadeira agenda.

Ele concorreu basicamente como um defensor do país contra terroristas casados com gays, deixando até seus partidários confusos quando anunciou, logo após o fim da votação, que sua prioridade inicial seria a privatização da Previdência Social. Não era nisso que as pessoas achavam que estavam votando e a campanha da privatização rapidamente degenerou de um rolo compressor a uma farsa.

Neste ano, porém, Obama concorreu com uma plataforma de garantia de assistência à saúde e diminuição de impostos para a classe média, financiadas com aumento de impostos para os ricos.

O republicano John McCain acusou seu adversário de ser socialista e "redistribuidor", mas os americanos votaram nele mesmo assim. Esse é um mandato real.

E quanto ao argumento de que a crise econômica inviabilizará uma agenda progressista? Bem, não resta dúvida de que combater a crise custará muito dinheiro. Salvar o sistema financeiro provavelmente exigirá grandes despesas além dos fundos já desembolsados. E, por cima disso, precisamos urgentemente de um programa de aumento dos gastos públicos para impulsionar a produção e o emprego. O déficit orçamentário federal poderá alcançar US$ 1 trilhão no próximo ano? Sim.

Mas os manuais de economia dizem que é correto, na verdade apropriado, incorrer em déficits temporários diante de uma economia deprimida. Durante esse período, um ou dois anos no vermelho não deveriam obstruir o caminho de um plano de saúde que, mesmo que rapidamente sancionado em lei, provavelmente não entrará em vigor antes de 2011.

Além disso, a resposta à crise econômica é, em si, uma chance de avançar na agenda progressista.

Agora, o governo de Barack Obama não deveria imitar o hábito da administração Bush de transformar tudo e qualquer coisa em argumento para suas políticas preferidas. (Recessão? A economia precisa de ajuda - vamos cortar os impostos dos ricos! Recuperação? Os cortes de impostos dos ricos funcionam - então, vamos cortar um pouco mais.)

Mas seria justo a nova administração assinalar como a ideologia conservadora - a crença de que a ganância é sempre boa - ajudou a provocar essa crise. Nunca soou mais verdadeiro o que Franklin D. Roosevelt disse em seu segundo discurso de posse: "Nós sempre soubemos que o interesse próprio imprudente era má moral; agora sabemos que é má economia."

E acontece que o momento em que vivemos agora é um daqueles em que o inverso também é verdadeiro, e boa moral é também boa economia. Ajudar os mais necessitados num tempo de crise com uma expansão do seguro-saúde e do seguro-desemprego é a coisa moralmente certa a fazer. É também uma forma muito mais efetiva de estimular a economia do que reduzir os impostos sobre ganhos de capital.

Fornecer ajuda a governos estaduais e municipais em dificuldade para que eles possam manter os serviços públicos essenciais é importante para os que dependem desse tipo de assistência; é também uma maneira de evitar perdas de empregos e limitar a profundidade da recessão econômica.

Assim, uma agenda progressista séria - podem chamá-la de um novo New Deal - não só é economicamente possível, é exatamente do que a economia necessita.

Assim, o resumo da ópera é que Barack Obama não deve ouvir as pessoas que tentam assustá-lo para ser um presidente que não faz nada. Ele tem um mandato político; ele tem a boa economia do seu lado. Pode-se dizer que a única coisa que ele tem a temer é o próprio medo.

*Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia de 2008, é colunista do ?New York Times?

O Brasil e Obama


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. A partir do momento em que o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, pôs em diversas oportunidades a Venezuela na lista dos "países bandidos", ao lado do Irã, a América Latina passou a estar presumivelmente no radar da futura administração americana, e não exatamente numa boa posição. Tudo indica que é um equívoco a ligação que o presidente Lula está fazendo, de que a eleição de Obama pode ser tida como um reflexo de um movimento maior, que teve início da América do Sul, com a eleição do próprio Hugo Chávez na Venezuela, de Evo Morales na Bolívia, e assim por diante.

Para começo de conversa, ninguém acredita que a região vá passar a ser prioritária para uma gestão que terá muito a fazer tanto no plano interno, administrando a crise econômica, quanto externamente, em especial no Oriente Médio.

O embaixador do Brasil em Washington, Antonio Patriota, no entanto, espera que o relacionamento dos dois países, que ele considera bastante vigoroso no momento, se fortaleça ainda mais.

Ele é um dos que fazem o paralelo entre a eleição de um negro nos Estados Unidos com a de Lula no Brasil, considerando que as duas eram improváveis e aconteceram como conseqüência de evoluções políticas nos dois países.

Ele vê alinhamentos possíveis entre os dois governos. Existe um alinhamento potencialmente possível entre Lula no Brasil e Obama nos Estados Unidos, especialmente devido à visão social dos dois governos.

E ironiza, dizendo que no Brasil a distribuição de renda que o governo Lula está conseguindo fazer não é considerada uma medida socializante, referindo-se indiretamente à acusação do republicano McCain ao programa econômico do presidente eleito de "espalhar a riqueza" cobrando mais impostos dos mais ricos.

Patriota também não teme que o Congresso democrata possa ser um impeditivo à melhoria das relações comerciais entre os dois países, lembrando que o memorando de entendimentos sobre os biocombustíveis foi aprovado, num assunto delicado que pode afetar potencialmente os interesses dos produtores americanos de etanol.

Entre os programas de cunho político de interesse comum, ele citou também ações contra o racismo. Brasil e Estados Unidos são os dois países com maior número de descendentes africanos, e era estranho que até agora não tivessem ações conjuntas para promoção social, lembra Patriota.

Foi criado também um grupo que reúne CEOs dos dois países, no mesmo sistema que já havia com a Índia, que se encontram periodicamente há quase dois anos.

Ele garante que o governo brasileiro não está desconfortável com as relações com os Estados Unidos, que para muitos não têm relevância política. Ao contrário, Patriota analisa que, a partir do segundo mandato, superados os problemas ocorridos na discussão sobre a Alca, foi atingida uma fase de entendimento, especialmente por causa do interesse comum nos biocombustíveis.

Patriota lembra que, na questão da energia renovável, o Brasil é um dos pioneiros do assunto, que é dominante na perspectiva do futuro governo. Quase a metade da energia produzida no Brasil tem a base em combustíveis renováveis como o etanol, enquanto o nível mínimo exigido por organismos internacionais é de 17%.

Além do mais, a grande maioria da frota de automóveis utiliza a tecnologia híbrida de etanol e gasolina. O Brasil tornou-se um parceiro estratégico dos Estados Unidos em 2007, uma categoria em que poucos países são considerados pelo Departamento de Estado: Rússia, Índia, China, Japão e Austrália.

O diálogo sobre comércio internacional passou a ser feito também em termos políticos, entre o Departamento de Estado e o Itamaraty, ao mesmo tempo em que os outros canais técnicos funcionam normalmente. Há um esforço conjunto, por exemplo, de incentivar a indústria têxtil do Haiti, como uma maneira complementar de ajudar o país a se recuperar economicamente.

Seria uma maneira de ampliar a atuação do Brasil na região, onde já comanda uma Força de Paz formada por diversos países, a pedido dos Estados Unidos e sob os auspícios da ONU.

A questão mais delicada da relação bilateral continua sendo a do livre comércio, que impediu o acordo da Alca e continua inibindo as negociações da Rodada de Doha, sendo previsível que um Congresso democrata, francamente protecionista, não facilite novas negociações.

Analistas consideram quase impossível uma reviravolta que permita haver algum tipo de acordo na questão da agricultura, já que o presidente eleito Barack Obama já se comprometeu com os agricultores americanos a não retirar os subsídios.

Aos que acusam o Brasil de ter politizado a recente negociação da rodada de Doha, preferindo não usar sua capacidade de pressão para fazer a Índia aceitar novos termos, o embaixador Antonio Patriota responde com os dados atuais do comércio bilateral, afirmando que as críticas de que negligenciamos a relação comercial com os Estados Unidos não correspondem à verdade atual.

Somos os maiores exportadores da região para os Estados Unidos, depois da Venezuela por causa do petróleo; nossa balança comercial com os Estados Unidos está crescendo mais do que a dos outros países dos Brics, por exemplo, com exceção da China; e os países que fizeram acordos bilaterais com os Estados Unidos, como o Chile, têm um comércio declinante, enquanto o nosso é crescente. (Continua amanhã)

A pedra fundamental


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O instituto da reeleição está, desde a última quarta-feira, devidamente instalado no telhado. Chegou até lá levado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado que aprovou uma emenda do senador Jarbas Vasconcelos, obrigando os governantes candidatos a um novo mandato a deixarem os respectivos cargos seis meses antes da eleição.

Pela regra atual, quem concorre ao mesmo posto não precisa tirar licença, ao contrário do exigido aos candidatos a cargos diferentes. Em 2006, por exemplo: enquanto o presidente Luiz Inácio da Silva pôde permanecer na Presidência, seu oponente, o então governador Geraldo Alckmin, precisou se afastar do governo de São Paulo.

Em tese é só uma proposta para corrigir uma suposta deformação involuntária da emenda original, na realidade um subterfúgio para facilitar a adesão de prefeitos e governadores à mudança constitucional proposta pelo PSDB em 1996, com a finalidade de permitir a reeleição de Fernando Henrique Cardoso dois anos depois.

Na prática trata-se do lançamento da pedra fundamental da execução do acordo tácito firmado entre setores majoritários do PT, PSDB e PMDB para pôr um fim na reeleição para os presidentes da República durante o próximo ano, de forma a que a sucessão de Lula se dê sob a nova regra: o eleito em 2014 teria um mandato de cinco anos sem direito a renovação.

O ideal, na cabeça do grande patrono da proposta - o governador de São Paulo, José Serra - seria acabar com a reeleição em todos os níveis.

Mas, como haverá resistências por parte de prefeitos e governadores - amplamente beneficiados pela chance de disputar um segundo mandato subseqüente -, os arquitetos do projeto ficarão satisfeitos se conseguirem acabar com a reeleição para presidente, a fim de imprimir mais velocidade à fila de pretendentes ao Planalto.

E o que tem a ver os seis meses de licença aprovados na quarta-feira com o fim da reeleição se, em princípio, parece até um gesto de aperfeiçoamento da regra em vigor?

Tudo. É a forma de começar a pôr o assunto em pauta sem alarde, sem ferir suscetibilidades, sem criar atritos, amaciando o terreno, conquistando adeptos para o debate.

A discussão é difícil e requer muita habilidade, embora os partidos envolvidos sejam os mais fortes e influentes do cenário político. O problema é que não há consenso interno em nenhum deles.

O mais unido em torno da proposta é exatamente o PSDB, o inventor da obra ora em demolição.

A única liderança importante do partido a falar contra o fim da reeleição é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Seus correligionários afirmam, no entanto, que FH só defende essa posição em público por puro constrangimento de entrar em cena como fiador de dois casuísmos: um em 1996 e outro 12 anos depois.

No PT, Lula é favorável, mas a turma mais aguerrida não vê com agrado acertos que atendam às expectativas do PSDB. Algo na base do "o que é bom para os tucanos é ruim para o PT".

No PMDB a idéia tem o apoio da maioria, a começar do presidente Michel Temer, mas conta com um adversário de peso: o governador do Rio, Sérgio Cabral, que, se não mudou de opinião, acha a proposta um enorme equívoco.

Há seis meses, quando Temer defendeu a volta do mandato único, Cabral avisou que, mesmo isolado, ficará contra. "Mexer na reeleição é arranhar a imagem do Brasil como um país de regras consolidadas, onde não se faz e acontece ao sabor das conveniências. Isso vale para a economia e vale também para a política."

Pensando bem

A pressão do PMDB e a resistência do PT em abrir mão da presidência do Senado na próxima legislatura não impõem um obstáculo intransponível entre os dois maiores parceiros da base governista.

Não é nenhum absurdo pensar que o governo acabe por interceder em favor da entrega do comando do Congresso ao PMDB, em troca do apoio ao candidato da situação à Presidência da República. A oposição, nessa hipótese, não terá como fazer concorrência ao Palácio do Planalto no leilão das boas ofertas.

Dois pássaros da envergadura das presidências da Câmara e do Senado bem seguros na mão dificilmente alguém troca pelo difuso direito de apreciar uma revoada no céu. Por mais que os oposicionistas representem melhores perspectivas eleitorais, por ora os pemedebistas se atêm objetivamente ao presente.

Aqui e agora

O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, costumava recorrer a uma metáfora para responder às cobranças sobre as mudanças de posição do PMDB.

"Quando alguém bate na porta, ou chama ao telefone, você pergunta quem é ou quem foi?"

Isso ele dizia na época da aliança com o PSDB. Hoje, em pleno tempo de união ao PT, é possível que o ministro atribua àquela figuração um sentido muito relativo.

A burla da reforma política


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Todo começo ou fim de ano, no palco iluminado do Congresso, em Brasília, o elenco de senadores e deputados tenta exibir a reforma política, mas não passa de alguns ensaios e às vezes nem isso. Ainda agora, no apagar das luzes da temporada legislativa, líderes e candidatos ao posto de sacrifício de manter o rebanho unido movimentam-se em frenética série de reuniões, encontros, almoços, jantares e noitadas para definir os temas fundamentais de uma reforma que corrija as deficiências da rotina legislativa com o enxugamento da burocracia e outras beneméritas mudanças nos hábitos de um dos piores congressos de todos os tempos.

No menu requentado, a gororoba de sempre: financiamento público de campanha para terminar com a desigualdade de recursos dos milionários e dos ricos; a fidelidade partidária para acabar com o bailarico do troca-troca de partidos depois de cada eleição, com as suspeitas de sempre sobre a compra e venda da fidelidade a princípios e, para confeitar o bolo, um aumento nas vantagens, privilégios, mutretas e mordomias que elevam os mandatos à categoria de um dos melhores empregos do mundo.

Brasília é sempre acusada de responsável pela decadência moral do Legislativo e, por extensão, em níveis diversos, do Executivo da gastança e do Judiciário dos palácios e das equiparações de vencimentos, quando um puxa o outro pra lá e pra cá.

Um despiste que não cola. Brasília é uma maravilhosa criação de gênios, como o traçado em cruz de Lúcio Costa e as curvas sensuais com que Oscar Niemeyer enfeitou o Patrimônio da Humanidade, reconhecida pela Unesco, em palácios como o do Ministério das Relações Exteriores, que parece flutuar no lago que o circunda, da Catedral que bole com a alma de quem levanta os olhos para a abóbada que roça no céu, os palácios geminados do Senado e da Câmara.

Por que se degradou em 50 anos, com o estouro da população prevista para o máximo de 500 mil habitantes para os mais de 2 milhões, que se amontoam nas favelas que invadiram a área urbana e exibem todos os vícios do tráfico de drogas à violência da insolúvel desordem da antiga Cidade Maravilhosa?

Bem, é uma história de mais de meio século, que começa com a mudança da capital em 21 de abril de 1960, com a obstinação de JK de olho na reeleição em 1965, com a cidade em obras. As compreensíveis e justificadas resistências dos obrigados a mudar a toque de caixa foram vencidas com o tradicional jeitinho brasileiro. JK foi informado da má vontade dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) a tempo de ajeitar as coisas com a construção das mansões à beira do Lago de Paranoá.

No Congresso o fuzuê assumiu as proporções de uma rebelião das famílias, inconformadas com a troca da praia de Copacabana pelo cerrado. Deu-se um jeito, que se estendeu a setores do funcionalismo público, mas que no Legislativo plantou a semente que germinou, subiu ao céu com a farra das mordomias.

Os excelentes apartamentos mobiliados e com todo o conforto para senadores e deputados foram rejeitados pela maioria dos parlamentares. Deu-se um jeito: para o senador e o deputado federal não passar o fim de semana longe da família, foi ele agraciado com as quatro passagens mensais de Brasília para o seu feudo eleitoral e com a escandalosa verba indenizatória de R$ 15 mil mensais para o ressarcimento da suas despesas. O que é um privilégio que cria uma desigualdade entre o candidato ao primeiro mandato que tem de se virar para pagar as despesas de campanha e o que se farta com o dinheiro da Viúva.

Ainda é pouco. Para desfrutar das passagens e da gratificação, a semana parlamentar foi encolhendo e hoje as sessões são de dois a três dias úteis, das terças às quintas, quando começa a revoada que entope o Aeroporto de Brasília. Nos dois períodos da estafante atividade parlamentar, de 25 de fevereiro a 30 de junho e de 1º de outubro a 15 de dezembro, com o molho de facilidades, são 15 subsídios de R$ 24.600, no total de R$ 369 mil. Ah! A verba para contratar assessores para os gabinetes dos parlamentares raspa nas nuvens de R$ 50.815, que em 15 parcelas totalizam R$ 752.250.

Ufa! Tem mais: R$ 3 mil mensais de auxílio moradia; caixa postal e telefônica, média de R$ 4.268; R$ 6 mil para imprimir discursos e textos na gráfica. Vida de parlamentar é um luxo!

O mundo respirou história nesta semana


Renato Janine Ribeiro
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

A MUDANÇA chegou aos Estados Unidos, disse Obama, na primeira frase de efeito de um discurso repleto de expressões bem escolhidas para entusiasmar o povo.Quer dizer, a mudança veio de fora.

Quer dizer, os Estados Unidos estavam atrasados. Bush representava o atraso. A Europa, outros países, inclusive o nosso, escolheram a mudança antes deles. No século 19, a liberdade estendia seus braços para acolher no porto de Nova York os mal-amados do velho mundo. A "América" era pioneira. Hoje, com a eleição de seu primeiro presidente negro, os Estados Unidos recebem uma mudança cujos ventos já sopravam em outras partes.

Mais para o fim do discurso, porém, Obama retoma a crença norte-americana de que seu país é líder do mundo, um "povo eleito" moderno: "Esse é o verdadeiro talento da América -a América é capaz de mudar". Sim, a mudança tardou, mas, quando chega lá, o mundo todo muda. A mudança começou em outros países, mas é quando vence na "América" que ela ganha escala e se torna mundial.

Bush, após o 11 de Setembro, para vencer a guerra "contra o terror", rogou a seu povo que consumisse mais, não menos. O usual nas guerras é pedir poupança e sacrifícios, canhões em vez de manteiga. Bush prometeu um Eldorado, só que feito de consumo, e não de valores. Como disse Michael Mandelbaum, seu governo foi um caso único de transferência de riqueza do futuro para o presente. Bush negou tudo o que é positivo nos próprios valores conservadores -austeridade, comedimento, poupança. Dilapidou dinheiro, sangue, fé e esperança. Gastou o futuro. Hipotecou até as vidas de quem ainda não nasceu.

Não sabemos como serão os próximos anos. Obama não prometeu maravilhas. Alertou que haverá atrasos e fracassos. Implicitamente, pregou a poupança, não a dilapidação. E foi depois dessa advertência que desenvolveu sua utopia, sua esperança num país de valores.Há algo espantoso nisso. Com o avanço da campanha, a oposição entre valores da mudança e da esperança e valores da conservação e do medo foi se convertendo numa oposição entre o candidato dos valores e aquele que herdava a falta de valores.

McCain era o único candidato possível para o Partido Republicano justamente por ser o menos bushista dos republicanos. Mesmo assim, não conseguiu encarnar valores em que, seguramente, acredita. Não convenceu.

É curioso que o partido mais liberal, o dos nova-iorquinos afrescalhados que tomam "capuccino" (que George W. Bush condenou quatro anos atrás, porque não seria o da "verdadeira América"), acabasse sendo o único que sustenta valores. Porque o termo "valores" soa, com freqüência, conservador. Mas esse conservadorismo básico, que representa um compromisso com o país, com sua história, nenhum presidente dos Estados Unidos pode dispensar.

A diferença é que justamente o novo, o negro, o jovem, o candidato da internet (não a internet dos negócios, mas a da cidadania), tenha sido quem expressou os valores -e não o herói de guerra, o prisioneiro torturado no Vietnã, a derradeira reserva moral do Partido Republicano.

O simbolismo dessa vitória é duplo.

Está no fato de que os progressistas conquistaram o legado de uma preocupação ética que muitas vezes foi conservadora. As repercussões disso para a ética pública serão importantes. E também está na esperança despertada, na mobilização dos jovens, dos que votaram pela primeira vez, dos excluídos das urnas. Já em 2004 o governador Howard Dean mobilizara os jovens e usara a internet -mas não conseguiu a indicação democrata.

Dessa vez, a estratégia das "grassroots", da base mobilizada, deu certo.

Ora, quem se mexeu pela mudança não ficará parado em casa. Vai continuar participando. Vai exigir de Obama que ele aja. Não é casual a referência do novo presidente a Martin Luther King, e de seus eleitores à grande marcha dos negros em Washington, há 40 anos. É como se, finalmente, eles chegassem lá.

As pessoas respiraram a história.

Podem até se enganar, mas essa sensação se tem poucas vezes na vida -quando se tem. E ela estava presente nos Estados Unidos -e no mundo- nesta semana. Respiremos fundo. Ela pode não durar. Mas, também, pode.

RENATO JANINE RIBEIRO, 58, é professor de ética e filosofia política na USP e autor de "A Ética na Política", entre outras obras.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Gabeira e a onda que não morreu na praia


Deodato Rivera
Ex-jornalista, formado em Filosofia e pós-graduado em Ciência Política
DEU NA GAZETA MERCANTIL


Apesar de não ter sido eleito, Fernando Gabeira não "morreu na praia", já que sua campanha teve um significado político muito maior do que o mero resultado eleitoral.

Gabeira deu um exemplo, inédito no Brasil, de um novo paradigma político, ao conseguir tão expressiva votação frente a uma candidatura que praticou todas as tretas e mutretas tradicionais do carcomido paradigma político vigente. De fato, a campanha de Eduardo Paes:

1 - gastou cerca de R$ 50 milhões, ou mais, sem dizer donde vinham nem como se gastavam (Gabeira só gastou R$ 4 milhões, com origem e destino publicados diariamente na Internet);

2 - sujou profusamente a cidade com santinhos, panfletos, cartazes, posters, bandeiras de plástico, out-doors caríssimos etc. (Gabeira, por princípio, não sujou a cidade, como prometera);

3 - contratou e pagou um número enorme de "cabos eleitorais" e de comitês (Gabeira não teve comitês nem precisou pagar ninguém, pois contou com um voluntariado de milhares de cidadãos, principalmente jovens);

4 - beneficiou-se de métodos ilegais e repugnantes de propaganda negativa - crimes eleitorais constatados pela fiscalização do TRE -, com materiais, apócrifos ou não, cheios de mentiras, calúnias e injúrias, "demonizando" o adversário (Gabeira não ofendeu ninguém, como prometera, nem usou propaganda negativa);

5 - Beneficiou-se das "máquinas" federal, estadual, sindical-petista e "universal" (Gabeira não foi candidato de máquinas nem de maquinações de costas para a cidadania);

6 - muito provavelmente também beneficiou-se da "esperta" e vergonhosa manipulação do feriado pelo governador Sérgio Cabral, para afastar do Rio potenciais eleitores do adversário (Gabeira não teve "máquinas" e perdeu por apenas 55.000 votos num universo de 4,5 milhões de eleitores!);

7 - prometeu mundos e fundos - 83 promessas ao todo! -, mesmo sendo notório que a crise financeira mundial e a conseqüente recessão no Brasil afetaria o orçamento municipal nos próximos anos (Gabeira não fez promessas que não pudessem ser cumpridas);

8 - negociou no segundo turno alianças espúrias e fisiológicas com partidos que agora, com chocante voracidade, cobram suas "cotas" no governo: os cargos que lhes dêem acesso às verbas bilionárias das secretarias municipais e à formação ou manutenção dos nichos eleitorais que lhes garantam a sobrevivência política (Gabeira, se eleito, não lotearia o governo).

Desse modo, Gabeira demonstrou ser possível disputar uma eleição sem sujeira ecológica nem ética. Demonstrou também ser um grande equívoco dizer-se, por exemplo, que "a política é suja" (palavras da sexóloga Marta Suplicy, ao tentar justificar a propaganda caluniosa contra o prefeito Kassab). Ora, são exclusivamente os políticos sem ética que sujam a política - não todos os políticos -, como se viu no Rio.


A percepção de que a onda verde não morreu na praia foi bem descrita pelo jornalista Augusto Nunes, no Jornal do Brasil de 29 de outubro:

"Faltou platéia para comemorar a vitória de quem será prefeito. O povo festejou nas ruas o desempenho de quem por pouco não foi. No restante do País ninguém se interessou pela sorte de Paes, ninguém viu algo de novo no que dizia. Em contrapartida, distribuídos por todos os estados, milhões de brasileiros juntaram-se à distância ao bom combate. Os 1.640.970 do Rio de Janeiro transformaram o que parecia apenas uma onda num genuíno movimento popular. O movimento já exibe dimensões impressionantes. E só começou."

De fato, a onda verde do Rio está virando um tsunami. Um "tsunami do bem". Um tsunami que, em vez de afogar pessoas, vai afagar um velho sonho cívico que não quer morrer, e em vez de destruir vai ajudar-nos a construir uma sociedade finalmente livre da "banda podre" que enxovalha a nossa política. É essa "banda podre" que joga na mesma lama, aos olhos de boa parte da cidadania, todos os políticos deste país, inclusive os dignos e íntegros...

Por tudo isso a eleição de 26 de outubro de 2008 no Rio será conhecida como o marco inicial de uma grande mobilização cidadã, com um novo espírito cívico, uma nova vontade política extremamente poderosa e transformadora.

Inspirada no exemplo da campanha de Gabeira, essa vontade cidadã será exercida estritamente dentro dos parâmetros legais e no respeito dos princípios e valores humanos superiores, democráticos e republicanos. Ela será participativa, organizada e responsável, sem ódio nem complacência, com alegria e respeito, criatividade, competência e transparência.

Essa vontade lúcida, que não se confunde com voluntarismo, caracterizar-se-á pela aprendizagem da participação e da ação democráticas por parte de cidadãs e cidadãos comuns articulados em rede - não dirigidos nem manipulados verticalmente por "caciques" de estruturas de poder-dominação. Será a aprendizagem do poder-serviço e da cidadania, engajada mas sem fanatismo nem ódio-atividade. Essas habilidades são indispensáveis ao exercício pleno e perseverante, não espasmódico, de dois poderes democráticos fundamentais, porém pouquíssimo ou nada usados no Brasil: o poder fiscalizador e o poder inspirador da cidadania.

Todos os que nos sentirmos convocados e capazes podemos e devemos exercer esses poderes - e não somente, a cada dois anos, simplesmente o poder e o direito de votar! -, a fim de que um dia o nosso atual modo arcaico de fazer política seja substituído por um modo limpo, decente e transparente, que inspire e mereça o respeito e a confiança da população.

Sem essa vigilância lúcida e permanente da cidadania, nos termos da lei, a democracia torna-se capenga, a política uma farsa, e as eleições, em muitos casos, uma gazua para o assalto aos cofres públicos em defesa de interesses escusos e de ambições pessoais doentias e muitas vezes funestas.

Trazer isso à luz do dia foi o serviço prestado à nossa democracia por Fernando Gabeira e pelos que lhe deram o seu voto. Sua vitória consiste em ter inspirado e orientado a onda que não morreu na praia.

Essa onda amplia-se agora com a missão que uma parte significativa do eleitorado do Rio lhe conferiu simbolicamente, e que Gabeira compreendeu e aceitou: assumir a liderança do movimento popular de tipo novo em gestação, que por certo não se restringirá ao Rio de Janeiro, para a regeneração do nosso arcaico e carcomido modo de fazer política e disputar eleições.

Parodiando o slogan de Alberto Dines, criador do "Observatório da Imprensa": depois da façanha de Gabeira, nós nunca mais devemos olhar a política e as eleições do mesmo jeito...

kicker
: "Fernando Gabeira demonstrou ser possível disputar uma eleição sem sujeira ecológica nem ética."

Trajetória da esperança


Fernando Gabeira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


RIO DE JANEIRO - A vitória de Obama é um manancial de interpretações. Muitos podem mergulhar nele e sair com sua verdade. Nos EUA, tudo é possível, dirão alguns maravilhados com a democracia norte-americana. Pela primeira vez um negro chega à Casa Branca, dirão os interessados em acompanhar a trajetória da luta racial.

Os mais modernos vão atribuir um grande peso à internet. Obama e sua equipe usaram o instrumento de forma competente. Mas é interessante observar alguns pontos: o simples fato de ser negro não define em si a vitória de Obama. Outros negros tentaram. A internet entregue a si mesma não faz nada; o domínio do instrumento não substitui a força do conteúdo.

Estou convencido de que a análise política de Obama foi um fator decisivo. Ele concluiu que um tempo estava se acabando, que as querelas dos anos 60 chegavam ao esgotamento. Viu o país dividido entre republicanos e democratas, assim como outros pequenos impasses que o debate nacional estimulava. Resolveu construir pontes.

Esta decisão, para mim, foi sábia. De que adiantam debates estéreis, em que se volta para casa com uma sensação de superioridade moral, mas nenhum avanço prático?

Uma realidade importante até para o Brasil: embora existam dois fortes partidos disputando o poder, grande parte da população não se identifica integralmente com eles. Nos EUA, são os independentes. O candidato fala para os independentes. É capaz de mobilizá-los? Entre eles estão 40 milhões de jovens, ávidos por proposta de esperança.

Ao longo de dois anos de campanha, foi possível colocar o país de pé, esperando, com orgulho, horas numa fila de votação.

No Brasil, com nossos métodos modernos, podemos suprimir as filas. Mas estamos em condições de injetar esperança menos de uma década depois da eleição de Lula?

Mestre-sala porta a bandeira


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


O governador de Minas Gerais, Aécio Neves, assustou um bocado de gente em sua última passagem por Brasília. Reuniu-se com a bancada de deputados federais do partido e, na saída, não fez por menos: "Será perverso para o Brasil (agüentar) mais quatro anos disso que está aí".

A saber: "Um governo extremamente perdulário""", que empurrou "a ética para debaixo do tapete" e cujo presidente não tem condições políticas de manter unida a tropa de aliados na eleição de 2010 nem dispõe de dons eleitorais suficientes para "ungir alguém à cadeira presidencial".

Isso dito na quarta-feira, porque já há algumas semanas o governador vem mostrando os dentes. Entre o primeiro e o segundo turno das eleições municipais ele já defendia a caça aos aliados de Lula, apontava defeitos na conduta do presidente nos seis anos passados - "não arbitra nada, por isso não fez as reformas" - e afirmava que o PSDB poderia se apresentar como um contraponto de eficácia, principalmente "para gerenciar os efeitos da crise mundial".

Terminado o pleito, veio a público defender duas vezes - uma delas ao lado de José Serra - a realização de prévias para a definição do candidato ainda em 2009, a fim de não se repetir o desgaste da escolha de 2006.

Proposital ou involuntário, o uso da expressão "isso que está aí" - o bordão contra tudo e contra todos, consagrado pelo PT oposicionista - na denúncia da "perversidade" de um novo mandato petista não deixa de ser significativo como marco da atuação mais nítida do PSDB na oposição ao governo Luiz Inácio da Silva.

E por que Aécio Neves, o patrocinador da aliança entre os dois partidos que acabou de eleger o prefeito de Belo Horizonte, no papel de portador da voz e da bandeira dos tucanos para a batalha da sucessão presidencial?

Uma rápida consulta ao breviário dos ritos internos do PSDB sugere que justamente por ser conhecido como o mais ameno entre os moderados do partido, o governador de Minas tem o perfil ideal à ocasião.

Do ponto de vista externo sua posição gera impacto e, sob a ótica interna, lhe garante o espaço de pré-candidato à Presidência, evitando ficar numa posição subalterna em relação ao governador de São Paulo, José Serra, hoje em vantagem nas pesquisas, na percepção do mundo político e na estrutura do partido.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso trabalha para junto com a cúpula do tucanato, o comando do DEM, a direção do PPS e os agregados do PMDB em favor de uma chapa puro-sangue com Serra na cabeça e Aécio na vice.

Por isso mesmo, a todos eles interessa acima de tudo que Aécio Neves ocupe lugar de primeira grandeza. Com direito a rechaçar a proposta da chapa São Paulo-Minas até que o cenário se defina por aí ou tome outro rumo.

Quanto mais candidatos competitivos a oposição puder apresentar ao público, mais expectativa de poder criará, já que na seara governista por enquanto só existe uma tênue incerteza na figura da ministra Dilma Rousseff.

Turma do funil

O Supremo Tribunal Federal está preocupado com o que os novos prefeitos e vereadores farão com a Súmula 13, que proíbe o nepotismo no funcionalismo. Há ministros desconfiados de que os vereadores e prefeitos eleitos poderão fazer tábula rasa da regra logo após tomarem posse.

A julgar pela atitude de sete das 26 câmaras municipais das capitais dos Estados, que já aumentaram por conta os salários dos novos vereadores, os magistrados têm razão para desconfiar do espírito público das excelências recém-eleitas.

Mediante muita pressão, Câmara e Senado já demitiram 189 parentes e fizeram a sua parte. Ficam ainda devendo as respectivas listas de demissões as assembléias legislativas, as câmaras municipais e os Poderes Executivo e Judiciário em todos os níveis.

Gato comeu

Nunca mais se ouviu falar dos entendimentos entre o Legislativo e o Judiciário para aprovação de reajuste dos salários dos ministros do Supremo, de R$ 24,5 mil para R$ 25,7 mil.

O projeto dormia na gaveta dos guardados estratégicos, até que no final de agosto último a Câmara acenou ao STF com a possibilidade de pôr a proposta em votação. Isso, logo depois da proibição do nepotismo.

O presidente do STF, Gilmar Mendes, achou ótimo, o presidente da Câmara avisou que o aumento entraria na pauta em breve mas, de repente, o assunto morreu. Resta saber se morto ficará.

Coisa de pele

Pode demorar, mas o arrefecimento da simpatia de Lula pela figura (descontada a mítica) de Barack Obama é uma questão de tempo.

Obama é o tipo do intelectual que importuna o pragmatismo simplificado de Lula. Em termos de personalidade, é muito mais o jeitão de George Bush.

Lula precisa cuidar da candidata


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Lula parece que considera uma diversão prazerosa queixar-se da imprensa, fazendo o papel de vítima quando nunca na História, etc um presidente conquistou tanto espaço na mídia, seja nos jornais, revistas, emissoras de rádio e redes de televisão e nas rodas de maledicência de repórteres.

E a verdade é que o presidente merece a atenção da imprensa que não faz nenhum favor em registrar os êxitos nas viagens pelo mundo do recordista de milhagem nas asas do Aerolula e nos raríssimos deslocamentos nos jatos comerciais. Mas, se o tempo de todo presidente é curto para as tarefas da burocracia, Lula desperdiça uma fatia gorda com picuinhas, com a tardia cobrança do destaque do papel de bombom de cupuaçu que jogou no chão depois de deliciar-se com a guloseima e que foi notícia, com foto na imprensa.

Certamente não foi notícia no poderoso esquema de propaganda oficial, de matar de retardatária inveja o finado DIP da ditadura do Estado Novo.

Mas, enquanto inaugura obras do PAC ou da segunda casa de força da Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, com a ministra-candidata ao lado, Lula não está prestando a devida atenção à fase delicada que a sua chefe da Casa Civil está atravessando.

A pré-campanha ganha velocidade com as disputas internas pelo sacrifício de salvar a pátria com a ocupação da sua poltrona no Palácio do Planalto. E a aferição da viabilidade dos pretendentes já começou a ser conferida pelas pesquisas dos institutos especializados.

Até agora, por uma delicadeza dos donos das empresas, a ministra-candidata vinha sendo excluída das listas dos candidatos ostensivos, como o governador de São Paulo, José Serra, o nome do dia no PSDB; o governador mineiro, Aécio Neves, também do PSDB e outros que ainda não emplumaram para alçar vôo.

Uma luz de lamparina piscou o alerta com a primeira pesquisa, de iniciativa do governador Eduardo Campos, de Pernambuco, restrita ao eleitorado do Estado e que inclui pela primeira vez o nome da ministra-candidata na lista dos presidenciáveis. E, como já comentamos neste espaço, a candidata do presidente Lula e do PT fechou a raia com apenas 4% de preferência dos votantes.

Há males que vêm para bem, ensina a sabedoria popular. A ministra Dilma Rousseff não é uma simples postulante na fila oficial. Mas, a candidata do presidente Lula e, portanto, do Partido dos Trabalhadores. E não apenas uma candidata assumida, mas em campanha à sombra do presidente puxador de votos e com a bandeira do Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC de fartas verbas e obras em todo o país, entregue à sua gerência.

A estréia da ministra numa pesquisa estadual deve ser analisada com toda a cautela. Nem merece o desprezo da arrogância nem o alarme que espalha o pânico. Mas, alguma coisa não está funcionando. Se Lula, na mesma pesquisa pernambucana, tem o seu desempenho qualificado como ótimo e bom por 82% dos consultados, os 4% da ministra Dilma advertem que a sua candidatura ainda não chegou ao Nordeste da gratidão pelo Bolsa-Família e o Bolsa-Escola dos cuidados assistenciais do governo e a sua mais poderosa alavanca política.

Obra só dá voto depois de inaugurada. Antes, é mais uma promessa. A candidatura da ministra Dilma precisa chegar ao distinto público e o mais depressa possível, para descontar o atraso.

Se não ultrapassar a barreira de um dígito nas próximas pesquisas, libera a vaga para a livre disputa entre os pretendentes, silenciados pela liderança de Lula.

E não se troca de candidato como quem muda a camisa suada.

Ressentimentos


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Muito se tem falado sobre as proximidades entre a vitória de Barack Obama nos Estados Unidos e Lula no Brasil, e o próprio presidente brasileiro vê semelhanças na trajetória de vida dos dois. Talvez a única similaridade entre as duas situações seja o fato de que tanto Obama hoje quanto Lula em 2002 simbolizaram um sentimento difuso de mudança que era latente nos dois países, mas catalisado pelos problemas econômicos. Fora isso, eleger um operário no Brasil tem quase o mesmo significado para nós que eleger o primeiro presidente negro nos Estados Unidos. Muito mais que raciais, nossos preconceitos são sociais.

Se Lula fosse um líder operário negro, teria muito mais dificuldades para chegar à Presidência, se é que chegaria um dia. No Brasil, Lula primeiro foi rejeitado por suas idéias radicais, e ele mesmo já admitiu que seria uma imprudência ter sido eleito em 1989. Mas ele mesmo diz que sentia uma tristeza imensa quando via que o povo não considerava votar num igual, por preconceito social.

Com seu imenso carisma e sensibilidade política, Lula foi se amoldando às exigências do eleitorado, aparando a barba e as idéias. A maior prova de que para chegar ao poder teve que mudar de imagem foi a contratação do publicitário Duda Mendonça, que, ao mesmo tempo em que retirava do candidato traços políticos radicais, criando a figura do "Lulinha Paz e Amor", também mudou-lhe o penteado e o terno, tornando-o palatável à maioria do eleitorado.

Se houvesse no Brasil um político negro com a postura elegante de Barack Obama, bom de negociação e de oratória, com título universitário e pós-graduação em Harvard, poderia ser eleito presidente da República sem questionamento sobre a raça. Um bom exemplo desse preconceito com raízes sociais é a candidatura de Celso Pitta a prefeito de São Paulo. Diretor da empresa de Paulo Maluf, apresentado como parte do establishment político, foi eleito sem que sua raça fosse questionada. E seu ostracismo político deve-se a acusações de corrupção que nada têm a ver com a cor da pele.

A desgraça de nossa sociedade é que ela não favorece a que uma criança pobre e negra tenha uma educação de base tão boa que lhe permita freqüentar boas faculdades, coisa que aconteceu com Obama, que cresceu num país que começou a dar oportunidades aos negros há apenas 44 anos, quando ele tinha 3 anos de idade.
Outra diferença entre os dois países: acredito que nos Estados Unidos "Joe, the plumber" ("Zé, o bombeiro"), personagem que o republicano McCain usou no final de sua campanha para exemplificar o americano médio que sofreria com as supostas taxações de um governo "socialista" de Obama, dificilmente poderia ter o sucesso de Lula, o metalúrgico, se se dispusesse a disputar a Presidência da República, pela falta de preparo intelectual, o que no Brasil pesou contra Lula apenas até determinado ponto.

As críticas à sua falta de preparo cultural são superadas pela idéia de que ele tem a sensibilidade popular para os problemas. Além, é claro, da indiscutível habilidade política.

Mas Lula vive se considerando discriminado pela elite brasileira e já revelou um ressentimento que parece não ceder nem mesmo diante de seus inegáveis sucessos. Sua relação com o sucessor e antigo amigo, Fernando Henrique Cardoso, é exemplar desse ressentimento.
Embora a esquerda latino-americana sempre tenha tido uma relação mais próxima do Partido Democrata, e o senador Barack Obama tenha tido um padrão de votos considerado em Washington como o mais liberal - o que nos Estados Unidos pode ser considerado "de esquerda" - de todos os membros do Senado no ano passado, o governo Lula preferia um futuro presidente republicano, porque seria "menos protecionista" e menos "próximo dos tucanos".

Se a relação dos tucanos com o Partido Democrata foi fortalecida pela amizade entre o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-presidente Bill Clinton, uma relação, se não de amizade, também especial, nasceu entre Lula e Bush, que tem uma convivência mais amistosa com o atual presidente brasileiro do que a que teve com Fernando Henrique, que já declarou que sentiu "asco físico" por Bush.
Provavelmente Bush pressentia em Fernando Henrique uma rejeição intelectual que não acontece com Lula, cujo temperamento cordial é mais parecido com o dele. Seja por isso, ou por puro pragmatismo, Lula torceu pela reeleição de Bush, e agora gostaria de ver um republicano na Casa Branca de novo.

Ou então Obama, em cuja trajetória de vida vê semelhanças com a sua, e que é um democrata não ligado aos "tucanos", como os Clinton. Essa aproximação de Bush com Lula tem certamente as mesmas raízes. Recentemente, Bush sussurrou no ouvido do ministro da Fazenda, Guido Mantega, em uma reunião sobre a crise internacional, que gostava muito de Lula.

Brahmins, a mais alta classe do sistema de castas indiano, é como os descendentes das famílias wasps (brancos, anglo-saxões e protestantes) são conhecidos. Já contei aqui, mas vale repetir: George W. Bush derrotou John Kerry, um legítimo Brahmin de Yale, a quem Bush atribuía uma atitude arrogante em relação a ele, a mesma que os colegas estudantes tinham na universidade, onde os Brahmins valorizam mais o preparo cultural do que o dinheiro.

Os dois têm raízes na Nova Inglaterra, mas, enquanto Kerry costumava passar férias na casa dos avós, numa cidade do norte da França, Bush nunca havia saído dos Estados Unidos antes de ser presidente.

Na eleição do dia 4, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos foi eleito por 153,1 milhões de eleitores, sendo que os brancos representam nada menos que 74% ou 113,29 milhões. Desses, uma minoria, 43% ou 48,71 milhões, votou em Obama. Dos 13% - ou 19,9 milhões de negros, 95% votaram em Obama; e dos 8%, ou 12,25 milhões de hispânicos, 66% ou 8,09 milhões votaram em Obama.

Os EUA em busca da convergência


Maria Cristina Fernandes
DEU NO VALOR ECONÔMICO

"Ele lutou muito e por muito tempo nessa campanha. Ele lutou ainda mais e por mais tempo ainda por esse país que ama. Ele enfrentou sacrifícios pela América que a maioria de nós nem pode começar a imaginar. Nós estamos melhores graças aos serviços desse líder corajoso e altruísta".

O trecho de seu primeiro discurso em que o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, se refere ao seu adversário, tem várias traduções. Uma delas é que a mesma democracia que convive com sistemas arcaicos de votação e um colégio eleitoral que pode se contrapor ao voto popular, não abre mão da reverência à instituição da Presidência da República. É também uma tradução possível para o discurso de John McCain - "Ele era meu oponente, agora é meu presidente".

Esta reverência reflete a confiança, na pátria do capitalismo, de que é o poder político que comandará as saídas da crise. E são saídas que apontam para a não conformidade do Estado americano com uma revisão da organização financeira mundial que ponha em questão, por exemplo, a centralidade do dólar.

O tema, que vai dominar a transição Bush-Obama, já começou, com a atuação do Tesouro americano, o FED e o FMI, de garantir liquidez dos bancos centrais mundo afora, como demonstrou José Luís Fiori, em artigo neste Valor (05/11/2008). É uma iniciativa de tanto significado para o futuro das relações do governo americano com a ordem financeira internacional quanto o foi o histórico discurso do então candidato em Berlim para a Obamania mundial.

Outra tradução do discurso é o pragmatismo que deve nortear o seu governo. Se os desastrosos anos Bush, a crise econômica sem precedentes e as mudanças demográficas de um país mais jovem e miscigenado, foram determinantes para sua eleição, é da busca de convergências com os Republicanos rumo à conquista do centro político do Congresso que depende seu governo.

Esse centro foi mais radicalmente abandonado pelo único presidente eleito sem a maioria popular dos últimos 132 anos da história americana. Na era republicana dos anos Bush no Congresso, o governo foi capaz de reduzir a carga fiscal do Estado, aliviando a taxação sobre grandes empresas, aumentando os gastos militares e diminuindo as despesas com saúde pública e previdência, que afetaram a vida da maioria da população.

"Desde o pós-guerra, o Congresso americano funcionou à base de coalizões interpartidárias, que possibilitaram os avanços ora da agenda republicana, ora da democrata. Isso acabou com a era Reagan. O governo Clinton foi muito difícil do ponto de vista congressual e, com o Bush Jr., as divisões interpartidárias ficaram mais radicalizadas", diz o professor Fabiano Santos, que ministra o curso de Política Contemporânea nos EUA na pós-graduação do Iuperj.

Filho dessa convergência política que, a partir dos anos 60, possibilitou a ampliação da agenda dos direitos civis nos Estados Unidos, é a ela que Barack Obama terá que recorrer para governar.

Ainda que sem a composição final do Congresso americano, dado o atraso na apuração, não havia ontem apostas de que os democratas teriam a maioria de 60 cadeiras no Senado, capaz de derrubar obstruções republicanas na Casa.

Fabiano Santos não vê como Obama possa colocar em ação seus planos de soerguimento da economia americana sem reverter as isenções fiscais concedidas a grandes conglomerados. E acredita que o presidente eleito tem habilidade política suficiente para fazer uso da legitimidade popular conquistada nas urnas e dobrar a resistência republicana no Congresso.

"Nem ele nem a bancada democrata são totalmente identificados com teses liberais, mas deverá haver momentos de maior radicalismo para que a polarização que hoje domina o Congresso retorne ao status quo do centro", diz Santos.

O professor do Iuperj acredita que as iniciativas parlamentares do presidente eleito podem vir a ser facilitadas pelo enfraquecimento, decorrente da crise econômica, dos grupos de pressão neoconservadores que oxigenaram ao longo desses últimos anos os extremismos da bancada republicana.

Sempre haverá o risco de esses grupos de extrema direita, desalojados do jogo institucional no Congresso, recorrerem à sociedade civil organizada - muitas vezes rude e violenta - para dar sobrevivência à agenda neoconservadora.

Um poderoso antídoto para isso está no comparecimento inédito do eleitor americano nesta que foi a verdadeira superterça. A tradicional apatia eleitoral, no país do faça-você-mesmo, foi sacolejada quando o Estado apontou os mísseis para seu próprio território ao empreender uma guerra que se dizia santa.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

Uma semana, passado remoto


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - Era uma vez um tempo em que a gente discutia a conjuntura econômica, toda sexta-feira, nesta Folha. Tempos de conjuntura econômica tumultuada, ao contrário dos pacatos cinco ou seis anos que, no Brasil, terminaram agora.

Eu ouvia os economistas-editorialistas da casa (nenhum deles continua, o time mudou todo) dizerem, numa semana, que tudo ia no melhor dos mundos, para, na semana seguinte, traçarem um cenário um pouco pior que o inferno.

Um dia, perguntei como era possível haver tamanha mudança em meros sete dias. Um dos professores-doutores, com aquela paciência que os sábios às vezes exibem com os ignorantes, respondeu: "Ah, meu filho, economia é uma coisa muito dinâmica". Pensei, mas calei: "Vai ser dinâmica assim na..., bom deixa pra lá".

Não é que hoje, com uns 15 ou 20 anos de atraso, esse professor-doutor poderia dar a mesma resposta e, desta vez, acertaria em cheio? O mundo, não apenas a economia, ganhou uma aceleração nos tempos que é quase impraticável para o cérebro humano acompanhar.

Dado mais recente: a evolução da produção e vendas da indústria automobilística. Em setembro, o número de licenciamentos havia sido 9,7% superior ao de agosto. Em outubro, foi 15% inferior ao de setembro. Uma brutal inversão em apenas um mês, acompanhada, de resto, por férias coletivas em inúmeras montadoras, o que é a antecipação do que vem por aí.

O grave é que a aceleração dos tempos torna arcaicas decisões ou avaliações muito recentes. É o caso da ata do Banco Central sobre a reunião da semana passada, em que o medo da inflação parece ser praticamente igual ao da desaceleração, equilíbrio que os dados do setor de autos desmentem de maneira contundente.

Resumo: hoje é arriscado até prever o passado -ou o presente.

Suficientemente inteligentes


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - De Lula, dando aula ao presidente eleito dos EUA: "Espero que Obama não vá gastar um ano sem resolver imediatamente a crise. Agora, a crise pode ser debitada ao atual governo, mas, um ano após tomar posse, é dele também".

Lula não tem dúvida de que Obama é "suficientemente inteligente" para entender o recado/lição.Foi quase um ato falho, pois Lula tem quase a mesma pressa e a enorme necessidade de Obama em resolver logo a crise que os EUA produziram e exportaram para todo o mundo. Por causa da economia, mas também pela política, até porque elas andam juntas.

Hoje, Lula é um presidente com 80% de popularidade, num país com reservas de US$ 200 bi, produção industrial crescendo, desemprego caindo e um poderoso setor agrícola. Pronto para fazer o sucessor. Amanhã, ninguém sabe. Tudo pode estar nas mãos de Obama.

A recessão dos EUA puxa a da Europa, da Ásia e dos compradores de commodities em geral, ampliando a reversão de expectativa quanto ao crescimento do Brasil em 2009. Seria de 5%, baixou para 4%, ministros já admitem 3,7% e técnicos vazam que pode ser inferior a 3%. Se for assim, 2010 terá uma combinação explosiva de queda de arrecadação com o efeito retardado, por exemplo, do inchaço da máquina pública e dos aumentos salariais para o funcionalismo.

Para conter essa espiral negativa, é preciso "começar pelo começo": com medidas duríssimas nos EUA.

E lá, como aqui, presidentes tomam medidas duras no início dos mandatos, embalados pela vitória e pela popularidade.

Assim como Obama é "suficientemente inteligente" para saber disso, Lula é suficientemente inteligente para saber que, neste momento, tudo o que é bom para os EUA é bom para o Brasil, e tudo o que for ruim para Obama será péssimo para sua pretensão de fazer o sucessor em 2010.

Obama e Lula, tudo a ver.

A economia com Barack Obama


Luiz Carlos Mendonça De Barros
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Os mercados mudarão de idéia sobre o novo presidente americano quando suas ações ficarem mais claras


WALL STREET recebeu com muita frieza a vitória de Barack Obama nas eleições norte-americanas de terça-feira. Essa reação era esperada, pois os mercados tendem a não gostar de um presidente democrata na Casa Branca, muito menos quando acompanhado por uma segura maioria no Congresso. Mas os tempos são outros, e os mercados deveriam mostrar alívio desta vez, apesar de seus valores ideológicos ou políticos.

Certamente mudarão de idéia -talvez até a virada do ano- quando as ações do novo presidente ficarem mais claras. Explico a seguir por que espero essa reação.

Em primeiro lugar, porque há indicações de que o pacote de estímulo fiscal democrata será adequado para enfrentar a crise econômica atual.

Os democratas vão concentrar seus esforços no alívio financeiro da classe média, grupo mais importante para dar força ao consumo ao longo de 2009. Essa é uma visão oposta às crenças republicanas, de que o esforço fiscal deve ser dirigido aos americanos de renda alta e às empresas privadas com o objetivo de estimular novos investimentos.

Não é preciso mais de cinco minutos de reflexão para chegar à conclusão de que a forte recessão de agora está sendo alimentada por uma grande queda no consumo da classe média.

Isso vem criando uma significativa capacidade ociosa no tecido produtivo dos Estados Unidos, principalmente em setores industriais como o automobilístico. Falar em estímulo aos investimentos nestes tempos bicudos de recessão e crise bancária é nonsense.

Sem essa amarra programática, os democratas estarão mais livres para desenhar e para aprovar rapidamente um pacote de estímulos que realmente ataque a falta de demanda na economia. O primeiro objetivo será estancar o processo de retomada de casas financiadas por hipotecas, os chamados "foreclosures".

Sem isso, os preços dos imóveis não vão parar de cair, impedindo o consumidor de ter uma referência sólida sobre o valor real desse item fundamental de sua riqueza. Além disso, a estabilização nos preços dos imóveis permitirá uma precificação mais clara dos títulos de crédito lastreados em hipotecas, com reflexos positivos no mercado financeiro, já que tais títulos constituem a maior parte do ativo do sistema bancário.

Existem várias formas simples e eficientes de conseguir esse objetivo. A maioria democrata no Congresso vem tentando aprovar algo nessa direção, mas o presidente George W. Bush sempre ameaçou vetá-las. Com Obama, o programa poderá ser implantado rapidamente. Alguns bancos mais sensíveis aos ventos políticos já anunciaram o congelamento temporário dos "foreclosures".

Outra iniciativa será a redução de impostos com foco na classe média, visando potencializar os efeitos positivos da recente queda dos preços da gasolina e de outros produtos na renda disponível dos americanos.

Finalmente, um segundo pacote voltado para investimentos em infra-estrutura poderá dar mais um impulso para a economia a partir da segunda metade de 2009.

Quem conhece os Estados Unidos sabe que pontes, ferrovias e a rede de distribuição de energia são antiquadas e constituem um bom alvo para tal programa. Haverá ainda um esforço para reduzir a dependência de energia importada, o que demandará bilhões de dólares em investimento. Certamente a economia norte-americana continuará crescendo de forma medíocre até 2010, mas pelo menos estaremos livres do fantasma de uma depressão econômica no mundo.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 65, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

20 anos depois, Lula defende Constituição que PT rejeitou


DEU EM O GLOBO


Discurso de Garibaldi constrange presidente e Gilmar, com críticas ao excesso de MPs e à atuação do Judiciário


BRASÍLIA. Na sessão solene para comemorar os 20 anos da Constituição de 1988, ontem no Congresso, o presidente Lula considerou que o texto, rejeitado pela bancada petista à época, é, mesmo com todos seus defeitos, a garantia da democracia no país. Afirmando que hoje tem uma compreensão melhor do que foi votado e aprovado pelos constituintes, Lula lembrou que o PT votou contra o texto final, mas que ele foi um dos petistas que defenderam a assinatura do texto.


- A Constituição não é perfeita, porque o ser humano não é perfeito, porque os políticos não são perfeitos, e ela retrata exatamente o grau de consciência política daqueles que fizeram a Constituição. Nós, no PT, naquela época, votamos contra o texto.


Depois, houve uma discussão se iríamos assinar ou não. Uma parte da bancada, radicalizada, achava que não deveria assinar, e eu disse: "Não tem sentido, a gente participou dois anos aqui, ganhamos salário, ganhamos assistentes para nos ajudar, como é que pode um filho nascer e a gente não registrar? Vamos assinar" - relembrou Lula, ontem, em discurso no plenário da Câmara: - Hoje, eu sou um homem que compreendeu melhor do que antes que, com todos os defeitos que essa Constituição possa ter, para todos que estão governando, ela é uma garantia da democracia do nosso país.

Lula não se referiu a uma das mais polêmicas criações da Constituinte: as medidas provisórias.


Os donos da Casa, porém, voltaram a reclamar do instrumento que dá poder ao Executivo e sufoca o Legislativo.


Na sessão solene de ontem, na Câmara, o presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), constrangeu, em discurso, o presidente Lula e o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, ao reclamar da interferência de Executivo e Judiciário nas funções do Legislativo. Gilmar chegou a rir.


Lula ficou sério. Ao citar comentário de Lula, de que na Constituinte passava-se uma semana sem votar, Garibaldi disse que as MPs levam o Congresso a ficar um mês com a pauta trancada.

- O presidente é culpado disso? O presidente Lula não é culpado. O uso do cachimbo faz a boca torta.


Na verdade, ele encontrou um instrumento capaz de fazer com que as coisas andem no Executivo, mas ao arrepio do processo parlamentar - disse Garibaldi, mirando agora no Judiciário: - A Constituinte de 1988 nos levou a uma situação de balanceamento não muito equilibrado entre os três poderes, de modo que a culpa também não é do presidente Gilmar Mendes.


Aqui e acolá, o Poder Judiciário esquece que é Judiciário e pensa que é Legislativo.


Ele até tentou consertar:

- O que o presidente vai pensar de um anfitrião que o recebe para uma festa que, de repente, se transforma numa cobrança? Também peço desculpas ao presidente do Supremo.

O novo mundo de Obama


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. O comparecimento de 70% dos eleitores registrados, um marco histórico em cem anos, mostra bem o anseio da sociedade americana por mudança e, sobretudo, por superar a barreira racial, que foi o grande fato político desta eleição, destacado por nove entre dez jornais.


Imaginar que o fator racial estava fora dessa disputa é não compreender o enorme fardo que pesava sobre a nova sociedade civil americana, que se apresentou ontem nas urnas, enfrentando filas enormes, para ajudar a ultrapassar esse obstáculo. Aqui em Nova York, parecia fim de campeonato, com a vitória dos Yankees ou do Knicks, todos na rua gritando e cantando, principalmente jovens e negros, buzinaço pelas ruas, festa no Harlem, em Times Square, na Rockfeller Plaza.


Um rapaz branco entrou no metrô em que eu estava desejando "Happy Barack Obama"s day" ("Feliz Dia de Barack Obama"). E quando um japonês desavisado não entendeu a comemoração, o rapaz fez um gesto indicando que ele estava "fora do mundo".

Acho que esse foi o sentimento que fez com que os jovens e as minorias comparecessem em massa às urnas, apesar de não ser obrigatório votar aqui nos Estados Unidos: o de estar contribuindo para mudar o país e o mundo, como Obama ressaltou em um de seus recentes discursos.

Não vai haver nenhuma mudança fundamental nas posições do governo americano, o que vai haver é uma mudança fundamental de visão de mundo. O diálogo no lugar da força, a visão multipolar no lugar da hegemonia.

O entendimento de que no mundo moderno não é mais possível ser a primeira potência sem dar espaços para outras potências emergentes que têm papel importante em temas ou setores políticos e econômicos.

Nesse novo mundo diversificado e multipolar, será preciso dividir o poder e pensar políticas públicas que sejam boas para todos, e não apenas para um país.

A preocupação de Obama com a ecologia e com a utilização de combustíveis renováveis menos poluentes, obedece a essa postura universalista, que é o contrário do egoísmo que prevalece nos Estados Unidos, que levou o presidente Bush a não assinar o Tratado de Kioto, no pressuposto de que seria prejudicial aos interesses das empresas americanas.

Obama parece já ter entendido que os interesses americanos só serão atendidos se o interesse da comunidade internacional for também respeitado. Enquanto o presidente Bush alega querer disseminar a democracia pelo mundo e utiliza guerras para impor o regime, Obama quer mostrar as vantagens da democracia através do exemplo e do respeito ao outro.

Não é possível arvorar-se em defensor da democracia e permitir a existência de uma prisão como Guantánamo, por exemplo.

Uma abertura maior para o mundo, transformar os Estados Unidos em um país amado, e não temido, pelo resto do mundo, será uma conseqüência natural do governo "pós-racial" e até mesmo suprapartidário anunciado por Obama em seu discurso da vitória em Chicago.

Obama entendeu que a sociedade americana havia mudado, e fez a campanha toda baseada no pressuposto dessa mudança, ao contrário de John McCain, que abriu mão de sua história de republicano independente para aderir à tendência mais obscura e radical do Partido Republicano.

Jogando na suposição de que os preconceitos e os temores da América profunda prevaleceriam, que o receio do novo e do desconhecido faria com que os antigos fantasmas, inclusive raciais, lhe trouxessem a vitória, McCain, se não estimulou, não quis ou não pôde controlar a campanha negativa que tentou colocar Obama como um risco para o país, não pela experiência, mas pelo suposto radicalismo político.

O eleitorado americano superou dois traumas nessa votação avassaladora por Obama: o político, explicitado na campanha radicalizada dos republicanos, e o racial, uma ameaça latente escondida pelas pesquisas.

O exemplo maior da superação desse trauma aconteceu com a vitória de Obama em Virgínia, berço da Guerra Civil americana em 1861, um estado que desde 1964 não votava nos democratas em eleições presidenciais. Da mesma forma que os outros estados do sul, a Virgínia abandonou os democratas após a Presidência de Lyndon Johnson, demonstrando toda a insatisfação com as reformas dos direitos civis.

Virgínia, que nas últimas décadas passou de uma sociedade rural e conservadora para um estado mais urbanizado e com pluralismo político, ontem marcou sua presença nessa mudança do mapa eleitoral americano "pós-racial".

Obama fez justamente o contrário de McCain, se conectou com a nova sociedade americana e usou a revolução tecnológica para interagir com seus eleitores, não apenas para inovar no recolhimento de fundos para a campanha, mas para informar de seus passos e comungar pontos de vista.

Nesse novo mundo tecnológico, no qual a sociedade global tem agora os meios para exprimir seus anseios e suas convicções independentemente das instituições políticas e do sistema de comunicação de massa, Obama impôs-se primeiro ao eleitorado americano, e também ao mundo, que desejava sua vitória.

Essa nova maneira de encarar o mundo em que vivemos, preenchendo o vazio de representação com a interação com a sociedade civil, foi o que legitimou a ação política de Obama, ancorado nas mobilizações espontâneas usando sistemas autônomos de comunicação.

Internet e comunicação sem fio, como os telefones celulares, fazendo a ligação horizontal de comunicação, provêem um espaço público como instrumento de organização e meio de debate, diálogo e decisões coletivas, ressalta o sociólogo Manuel Castells, um dos principais teóricos dessa sociedade em rede utilizada com maestria pela campanha de Barack Obama.

Artimanhas da esperança


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Diante de tão farta e variada oferta de interpretações sobre os simbolismos da eleição de Barack Obama, mais fácil é saber o que não terá significado algum no decorrer do mandato do presidente eleito dos Estados Unidos.

A explicação ele mesmo forneceu quando teve desde o início da jornada o tirocínio de dar à cor da pele o molde de uma quase irrelevância. Na saudação pós-vitória, seguiu indiferente enquanto o mundo insistia em lhe pregar ao peito a divisa de "primeiro presidente negro dos Estados Unidos".

É dele, evidente, o título: o senador democrata é negro, foi eleito presidente e, antes dele, apenas americanos de pele branca tinham chegado à Casa Branca.

Ponto, parágrafo e encerra-se aí a questão, cuja importância objetiva é parecida com a influência concreta que a profissão de torneiro mecânico exerce sobre as atividades de Luiz Inácio da Silva como presidente da República do Brasil.

Sim, há toda a carga histórica do segregacionismo nos Estados Unidos, situação só por ligeireza absoluta comparável à ascensão de um operário que ao se eleger presidente havia militado por 30 anos no sindicalismo e na política. Lula foi uma novidade, não uma surpresa.

Entretanto, há quem - começando pelo presidente brasileiro - os iguale no terreno da representação simbólica da luta do bem contra o mal, exemplos de que o triunfo dos oprimidos sobre os opressores é possível, como se a evolução dos costumes, as mudanças do mundo não fossem parte de um processo natural da civilização.

Mas se a humanidade necessita de emoldurar como fenômeno os episódios marcantes dessas etapas, se carece de dar um valor específico à mobilização de suas expectativas, muito bem. Com esperança não se brinca.

Daí a dizer que o mundo vira do avesso e assume sua melhor face por causa da genética de um presidente já é querer fazer pouco da realidade.

Esta, em seu bom senso e modernidade, Barack Obama descreveu numa frase do discurso de Chicago ao listar os desafios à sua frente: "Duas guerras, um planeta em perigo, a pior crise financeira do século".

Citou o "caminho longo", a "subida íngreme", os "atrasos e falsos inícios" que esperam a todos, aos quais acrescentou as discordâncias às "decisões políticas" que tomará como presidente, a fim de estabelecer um contraponto futuro com o clima de comemoração daquela noite de frisson universal.

Nem a cor da pele de Obama nem o manejo do torno do metalúrgico Lula são capazes de administrar, muito menos de atender, expectativas. A diferença é que aqui o presidente cede ao vezo do personalismo e alimenta a mística para confundi-la com o ato de governar, e lá o eleito desidrata o mito.

Quando ganhou a primeira vez, Lula discursou na Avenida Paulista manifestando a certeza de que a vitória mostrava que, para o brasileiro, "só nós poderemos fazer pelo Brasil o que o Brasil precisa que seja feito".

Barack Obama falou sobre os valores compartilhados por toda a sociedade à qual pediu permissão para exigir "um novo espírito de serviço, um novo espírito de sacrifício" para que a esperança se materialize como obra coletiva, "bloco por bloco, tijolo por tijolo por tijolo, mão calejada por mão calejada, do jeito que tem sido feito na América há 221 anos". Sem anular o passado do país nem atribuir a um grupo político partidário o poder de fazer acontecer.

Dever cumprido

O destaque da eleição americana foram as filas monumentais de gente esperando a hora de votar; sem obrigatoriedade, sem feriado, sem revoltas à deriva contra a falta de agilidade do Estado - no caso, de cada Estado individualmente - para organizar a votação.

A "competência" eleitoral, ausente de forma geral na mente do eleitor dos EUA, é uma preocupação muito mais do brasileiro ávido por padrões comparativos que o permitam ressaltar os defeitos de uma nação que pode não contar votos com perfeição, mas funciona perfeitamente nas regras da democracia.

Nas filas dobrando quarteirões, pessoas motivadas para exercer por livre iniciativa um direito com noção de dever cívico e vontade de acertar.

Pode-se não apreciar, mas jamais depreciar atos e escolhas desse (ou de qualquer outro) povo por uma hipotética natureza eivada de arrogância, ignorância, auto-referência, racismo, atraso, moralismo, intolerância.

Americanos são assim, mas não são só assim, bem como brasileiros, noruegueses, portugueses, italianos, moçambicanos, irlandeses, suecos, australianos, islandeses e todos os demais.

A respeito deles raros se arriscam a fazer avaliações pejorativas de caráter tão genérico. Como se imprecações dirigidas a cidadãos de um país todo-poderoso não traduzissem arrogância, ignorância, auto-referência, racismo, atraso, moralismo, em duas palavras: insidiosa intolerância.