quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Reflexão do dia - Carlos Drummond de Andrade - FELIZ NATAL


Este Natal

Carlos Drummond de Andrade

— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?

Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomava­os das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.

— De qualquer maneira, este Natal é fogo — voltou a ponderar Brandão, pois se os ladrões se disfarçam em Papai Noel, que garantia tem a gente diante de um bispo, de um almirante, de um astronauta? Pode ser de verdade, pode ser de mentira; acabou-se a confiança no próximo.

De resto, é isso mesmo que o jornal recomenda: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar sempre”.Talvez do próprio Menino Jesus, que, na sua inocência cerâmica, se for de tamanho natural, poderá esconder não sei que mecanismo pérfido, pronto a subtrair tua carteira ou teu anel, na hora em que te curvares sobre o presépio para beijar o divino infante.

O gerente de uma loja de brinquedos queixou-se a João que o movimento está fraco, menos por falta de dinheiro que por medo de punguistas e vigaristas. Alertados pela imprensa, os cautelosos preferem não se arriscar a duas eventualidades: serem furtados ou serem suspeitados como afanadores, pois o vende­dor precisa desconfiar do comprador: se ele, por exemplo, já traz um pacote, toda cautela é pouca. Vai ver, o pacote tem fundo falso, e destina-se a recolher objetos ao alcance da mão rápida.

O punguista é a delicadeza em pessoa, adverte-nos a polícia. Assim, temos de desconfiar de todo desconhecido que se mostre cortês; se ele levar a requintes sua gentileza, o melhor é chamar o Cosme e depois verificar, na delegacia, se se trata de embaixador aposentado, da era de Ataulfo de Paiva e D. Laurinda Santos Lobo, ou de reles lalau.

Triste é desconfiar da saborosa moça que deseja experimentar um vestido, experimenta, e sai com ele sem pagar, deixando o antigo, ou nem esse. Acontece — informa um detetive, que nos inocula a suspeita prévia em desfavor de todas as moças agradáveis do Rio de Janeiro. O Natal de pé atrás, que nos ensina o desamor.

E mais. Não aceite o oferecimento do sujeito sentado no ônibus, que pretende guardar sobre os joelhos o seu embrulho.

Quem use botas, seja ou não Papai Noel, olho nele: é esconderijo de objetos surrupiados. Sua carteira, meu caro senhor, deve ser presa a um alfinete de fralda, no bolso mais íntimo do paletó; e se, ainda assim, sentir-se ameaçado pelo vizinho de olhar suspeito, cerre o bolso com fita durex e passe uma tela de arame fino e eletrificado em redor do peito. Enterrar o dinheiro no fundo do quintal não adianta, primeiro porque não há quintal, e, se houvesse, dos terraços dos edifícios em redor, munidos de binóculos, ladrões implacáveis sorririam da pobre astúcia.

Eis os conselhos que nos dão pelo Natal, para que o atravessemos a salvo. Francamente, o melhor seria suprimir o Natal e, com ele, os especialistas em furto natalino. Ou — idéia de João Brandão, o sempre inventivo — comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior silêncio, em grupos pequenos de parentes, amigos e amores, unidos na paz e na confiança de Deus.


(14-12-1966)

(Texto extraído do livro "Caminhos de João Brandão", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1970, pág. 84.)

Merval Pereira:: Erros novos e antigos

DEU EM O GLOBO

O PSDB só não cometeu até agora os mesmos erros de 2006 porque Aécio Neves não é Geraldo Alckmin, e isso é um elogio a Aécio. E, do outro lado, está Dilma e não Lula, o que é uma vantagem para a oposição.

Mas está cometendo erros novos. O então governador de São Paulo insistiu em sua candidatura sem que tivesse qualquer indicação objetiva de que poderia ser melhor candidato que José Serra, que até fevereiro liderava todas as pesquisas de opinião.

Aécio, ao contrário, retirou-se da disputa para se tornar protagonista da decisão tucana

Assim como Aécio agora, naquela ocasião Alckmin diziase em melhores condições para atrair apoios fora do PSDB, e chegou a pedir prévias para a escolha.

Também ele dizia que já fora escolhido como o preferido pelas bancadas da Câmara e do Senado, e trabalhava as direções regionais do partido e os governadores.

Como agora, a cúpula do partido gostaria que não fosse preciso chegar a essa confrontação para definir o candidato.

No início de fevereiro, pesquisas já mostravam a recuperação de Lula, mas Serra ainda vencia no segundo turno, embora a diferença entre os dois estivesse se reduzindo àquela altura.

Havia também o cálculo sobre a atuação dos dois candidatos nos principais colégios eleitorais do país, São Paulo e Minas, dominados, como hoje, pelos tucanos.

Tanto Serra quanto Alckmin venciam Lula com facilidade em São Paulo, de acordo com as pesquisas de opinião da época.

Mas Alckmin demonstrava maior capacidade de somar votos do que Serra: recebia 2,5 vezes mais votos que Lula, enquanto Serra recebia 1,9 vezes.

A penetração de Alckmin em Minas também seria maior que a de Serra, além do que, ele contava com a simpatia de Aécio, registravam os jornais da época.

A cúpula do partido achava, no entanto, difícil abrir mão de um candidato que se mostrava competitivo para apoiar um outro que tinha apenas potencial de crescimento, e àquela altura perdia feio de Lula.

Como hoje, no entanto, o prefeito de São Paulo, José Serra, pedia tempo para se decidir e queria levar a escolha até março, prazo final da legislação eleitoral.

A diferença fundamental entre Aécio Neves e Geraldo Alckmin é que o governador mineiro, ao anunciar sua desistência da pré-candidatura, fez um movimento estratégico que o colocou como protagonista político da definição tucana, e não como o provocador de uma divisão partidária.

Enquanto Geraldo Alckmin aparentemente venceu a disputa com Serra em 2006, mas, na verdade, foi levado a se candidatar para perder para Lula quando Serra sentiu que não tinha condições de vencer, Aécio deixou o atual governador de São Paulo sozinho na raia com sua indefinição, praticamente obrigando-o a assumir a candidatura que queria manter em suspenso até março.

Assim como Lula encerrou o ano de 2005 praticamente derrotado e em dois meses mostrou uma recuperação que parecia impossível, também a candidatura de Dilma pode se firmar, a se confirmar as previsões do diretor do Datafolha, Mauro Paulino.

Segundo ele, há 15% dos pesquisados que ainda não sabem que ela é a candidata de Lula, mas que se dispõem a votar em quem ele mandar.

Seria justamente a diferença que hoje favorece Serra, a ser coberta por esse eleitorado, prioritariamente de baixa renda e baixa escolaridade, que votaria cegamente na candidata de Lula.

Seria exagero sem base acreditar que Dilma tivesse essa capacidade de superação em tão pouco tempo, e tudo indica que até março a vantagem de Serra será mantida nas pesquisas, o que só dificultará sua decisão.

Embora à frente, o governador de São Paulo terá que conviver com essa possibilidade de haver um grupo de eleitores que seguirão o que Lula disser, o que colocaria Dilma potencialmente empatada com ele em algum momento da disputa.

É claro que se se decidir mesmo a disputar a eleição, a partir de março Serra assumirá a campanha em termos nacionais e agirá para neutralizar esse grupo de eleitores, e para ampliar sua aceitação, que tem uma estabilidade admirável desde o segundo turno de 2002, entre 35% e 40% do eleitorado.

O que deixa o governador Aécio Neves como fiel da balança para uma decisão tucana é que seu peso político em Minas e em outras regiões do país como o Rio pode não ser suficiente para colocá-lo na liderança das pesquisas, mas é grande o bastante para definir uma eleição nacional.

O plano de entregar a ele como candidato a vice a coordenação da parte social de um futuro governo parece mais consistente do que a promessa de acabar com a reeleição.

Aprovar uma mudança das regras depois que o jogo foi jogado não é razoável, e o que seria possível Serra fazer se eleito presidente é aprovar o fim da reeleição e aceitar ficar apenas um mandato de quatro anos, o que não parece verossímil.

Para aumentar o mandato presidencial para cinco anos, com o fim da reeleição, seria preciso uma mobilização no Congresso ainda no primeiro semestre do próximo ano, o que soa difícil, pois a base governamental tem a maioria e não atuaria para facilitar a vida da oposição.

Uma possibilidade seria Aécio aceitar a vice-presidência, e a dupla tucana começar a promover negociações entre os partidos da base governista para aprovar o projeto, engrossando a base de apoio à candidatura tucana com partidos como o PP, o PTB, o PDT e parcela do PMDB.

Seria uma reviravolta completa na sucessão presidencial.

Mas arriscada para o governador mineiro, pois não há garantias de que a mudança seja aprovada.

De qualquer maneira, como advertiu o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, as negociações para atrair Aécio para a chapa tucana terão que ser feitas mais discretamente.

Caso contrário, o PSDB corre o risco de sair delas com a imagem de divisão que até agora foi evitada pela habilidade do governador de Minas.

Feliz Natal a todos

Dora Kramer:: Fator de risco

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Há um grupo de pessoas influentes que circulam na indústria, no comércio, no mercado financeiro, o mundo chamado genericamente de "negócios", muitas delas integrantes do governo Fernando Henrique Cardoso. Umas por um tempo, outras durante todo o tempo.

Nem todas mantiveram com José Serra uma relação amistosa, até porque algumas eram alvos da crítica permanente por parte do então ministro do Planejamento e depois da Saúde.

Entre elas vigora um pensamento: José Serra é um homem público de preparo inequívoco para presidir a República e, a despeito das divergências, preferem vê-lo eleito à continuidade por intermédio de Dilma Rousseff.

Aqui, até mais por razões de ordem institucional, a fim de que a alternância preserve a diversidade partidária impondo obstáculos a projetos de hegemonia que asfixia o exercício do contraditório, reduz os espaços de oposição e consolida Lula como o líder carismático catalisador da política mesmo formalmente fora do poder.

Não concordam com a declaração do presidente Luiz Inácio da Silva de que a ministra Dilma representa a garantia da estabilidade na economia. Está fresco ainda na memória aquele momento em 2005 em que a chefe da Casa Civil "detonou" a proposta de se estabelecer em lei um limite para os gastos públicos.

Dentro do governo, além do ministro Antonio Palocci e da equipe da Fazenda, considerada de qualidade superior à atual, a sugestão contava com o apoio de Paulo Bernardo (Planejamento) e, segundo consta, com a simpatia - depois não confirmada - do presidente Lula.

De fora, ex-comandantes da Economia como Delfim Netto, Pedro Malan e Maílson da Nóbrega também deram seu aval. Dilma explodiu a iniciativa qualificada por ela de "rudimentar".

É um fato citado para acentuar as preocupações com a estabilidade frente à despreocupação com o aumento dos gastos públicos.

Muito bem. Apesar de tudo isso, esse grupo de pessoas influentes acha que Serra em algum momento, de preferência sem demora, deve se pronunciar sobre suas ideias na área. Admite que o governador resista e até aceita a alegação de que suas posições são muito bem conhecidas por quem transita por esse lado da vida.

Apoia a estratégia do governador paulista de não assumir desde já a candidatura, diz que ele está fazendo (pela primeira vez) tudo certo na política. Mas enxerga um nó na economia, um setor em que o silêncio só favorece o adversário.

No caso, o governo que pela voz do presidente da República explora e tenta ampliar a real desconfiança que existe em relação às posições de Serra. Tido como intervencionista.

Mas Lula não vai por aí, até porque o discurso da candidata oficial é assumidamente estatizante. Ele envereda pelo rumo do risco à estabilidade do País que representaria outro candidato que não o do atual governo.

Procura carimbar o oponente como um fator de instabilidade. Na realidade fria, uma ironia, já que foi no governo anterior que se instituiu o Plano Real, a noção de estabilidade da moeda, o fim da inflação e o conceito de responsabilidade fiscal.

O PT bateu-se contra essa política, só a adotou quando percebeu que era o caminho para ganhar a eleição e com ela prosseguiu porque sem ela não estaria até hoje no governo.

Falar e fazer

Na teoria soou sensata a reclamação do presidente Lula de que o PT troca muito de candidatos em São Paulo, dificultando a identificação de uma liderança junto ao eleitorado.

Na prática, soou incoerente. Uma vez que na condição de comandante supremo do partido Lula influiu em todas as escolhas e ao longo de sua trajetória sempre se notabilizou por não propiciar a emergência de figuras de muito destaque no PT.

Incentivou o rodízio e, no tocante à Presidência, não deixou prosperar as postulações de correligionários: Tarso Genro, Eduardo Suplicy e Cristovam Buarque, para citar os mais conhecidos.

Lula adotou a receita para si, mas não deixou que fosse aplicada a outrem.

Porta-vozes

Marta Suplicy, ao dizer que Ciro Gomes não tinha "nada a ver" com São Paulo e Aloizio Mercadante, ao apontar que o deputado pegou "o pau-de-arara" na direção errada quando mudou de Pindamonhangaba (SP) para o Ceará, foram obrigados a se desmentir.

Entretanto, vocalizam exatamente o que se escuta em rodas paulistanas "de raiz".

Senhor da razão

O governador Aécio Neves saiu do páreo da Presidência para não ficar refém do calendário de José Serra.

O presidente do PSDB interditou o debate público sobre a chapa puro-sangue a fim de que o partido não ficasse agora a reboque de uma decisão de Aécio.

Pausa

Feliz Natal e até o ano novo.

Clóvis Rossi:: 2010 já tem um vencedor

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

São Paulo - E o vencedor é um tal de Partido do Movimento Democrático Brasileiro, nome simpático para designar pouco mais que nada em termos ideológicos, políticos ou programáticos.

O PMDB nacional já tem um pré-acordo com as candidaturas Luiz Inácio Lula da Silva/Dilma Rousseff (a segunda só existe graças ao primeiro). O PMDB de São Paulo já tem um pré-acordo com a candidatura José Serra.

Se bobearem, o PMDB do Acre faz um pré-acordo com Marina Silva e o PMDB do Ceará com o irmão de Ciro Gomes, o governador Cid também Gomes, já que, segundo Aloizio Mercadante, o próprio Ciro tomou o "pau de arara" no sentido contrário, aliás duas vezes.

Não bastassem essas apólices de seguro, o PMDB lidera a corrida eleitoral em dois dos três Estados mais relevantes da pátria amada (Rio de Janeiro e Minas Gerais).

É natural, em se tratando de uma federação de caciques regionais, que o PMDB mais uma vez faça grandes bancadas no Congresso, talvez a maior, como muitas vezes ocorreu. O voto para deputados (estaduais e federais) é puxado muito mais por lideranças estaduais, de que dá prova o fato de que nem Fernando Henrique Cardoso nem Luiz Inácio Lula da Silva conseguiram bancadas para seus partidos suficientes para governar só com elas ou com uma aliança que dispensasse o PMDB.

É sempre bom lembrar que foram do PMDB ou por ele passaram todos os presidentes do período democrático, exceto Lula, que, no entanto, fez do que FHC chamava de "partido ônibus" o seu aliado preferencial: José Sarney, que teve FHC como líder, primeiro, e crítico impiedoso, depois, que namorou, mas não casou com Fernando Collor, o maior inimigo de Sarney, que teve em Itamar Franco o vice, primeiro, e o adversário, depois.

A patética ciranda em torno do PMDB continua em 2010, 11, 12...

O QUE PENSA A MÍDIA

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Ricardo Vélez Rodríguez :: Kant e a república dos nossos sonhos

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A onda de cinismo e corrupção a que temos assistido ao longo dos últimos anos deixa transparecer uma coisa: estamos longe do ideal republicano que, na tradição liberal, encontrou em Immanuel Kant (1724-1804) um dos seus mais importantes formuladores. Direi, na parte final deste comentário, em que pontos o Brasil, em particular, e a América Latina, de um modo geral, se afastaram do ideal republicano apresentado pelo filósofo alemão. Primeiro, destacarei alguns dos seus conceitos básicos.

Immanuel Kant defendia a organização livre dos Estados como fundamento para a paz. Uma estrutura política, para ser sadia, pensava o mestre alemão, deveria se alicerçar no respeito à pessoa humana e ao seu mais prezado direito, a liberdade. Só a constituição do Estado como república garantiria essas duas exigências. Nem o despotismo de um nem o de vários poderiam ser aceitos, pois a vontade pública é, neles, utilizada como se fosse a vontade particular do governante. Nas formas despóticas de organização política, o governo trata o povo como se fosse a sua propriedade.

A Constituição republicana, segundo Kant, é aquela que se encontra estabelecida de conformidade com os seguintes três princípios:

Da liberdade dos membros de uma sociedade enquanto indivíduos;

da dependência de todos em relação a uma única legislação comum, enquanto súditos;

e de conformidade com a lei da igualdade de todos os súditos, enquanto cidadãos.

Essa forma de governo é a única que decorre da ideia do contrato imaginário e sobre a qual se devem fundar as normas jurídicas de um povo.

A Constituição republicana, ainda segundo o mestre alemão, além de ter nascido na pura fonte do conceito do direito, tem a vista posta na paz perpétua. Se o consentimento dos cidadãos é necessário para decidir se deve haver guerra ou não, nada é mais natural que eles pensem muito antes de começar um jogo tão maligno.

Para Kant, são essenciais à forma republicana de governo a representação e a separação entre os poderes Legislativo e Executivo. Duas formas de governo tornam impossível a república: o despotismo de um (tirania) e o de todos (democracia da vontade geral). Nessas duas formas de governo é a mesma pessoa que legisla e que executa a lei. Quanto mais reduzido for o número de pessoas do poder estatal e quanto maior for a representação das mesmas, tanto mais aberta estará a Constituição à possibilidade do republicanismo.

Ao longo da última década a maior parte dos países latino-americanos enveredou pelo duvidoso caminho dos "populismos constitucionais", que visam a instaurar regimes que se autoperpetuam com a bênção das suas respectivas sociedades, conduzidas ardilosamente pelos mandatários de plantão a fazer reformas plebiscitárias que garantam a hegemonia dos donos do poder, sem que haja a mínima possibilidade de alternância do mesmo e com a destruição das instituições republicanas - como o funcionamento da oposição, a preservação e o aperfeiçoamento do governo representativo e a liberdade de imprensa.

As estruturas políticas surgidas dessas reformas partiram para a ignorância em relação à pessoa humana e ao seu direito mais prezado - a liberdade -, como está ocorrendo na Venezuela, na Bolívia e na Nicarágua.

O centro motor dessa maré montante é o regime venezuelano, que estendeu os seus tentáculos sobre os quatro cantos da América Latina, financiando com os abundantes petrodólares o maluco modelo da "revolução bolivariana", que tem servido de inspiração para as mudanças que se apresentam aqui e acolá.

A Venezuela de Hugo Chávez transformou-se em foco irradiador da instabilidade regional, em decorrência da louca corrida armamentista desatada pelo truculento coronel. Ele é, atualmente, sem dúvida nenhuma, quem pauta a agenda política do nosso continente.

O Brasil terminou refém desse modelo, notadamente no que tange à escolha dos rumos da política externa, voltada para um populismo esdrúxulo que acaba sacrificando os interesses do nosso país nas fantasias terceiro-mundistas que levaram Lula a prestigiar o presidente iraniano num momento em que ele é seriamente questionado por ignorar as políticas antinucleares assinadas pelas Nações Unidas.

De Lula, de Chávez e dos demais líderes populistas latino-americanos poder-se-ia dizer o que Kant criticava como despotismo de um só ou de alguns, que utiliza a vontade pública como se fosse a vontade particular do governante e do seu séquito de bajuladores. Os vários chefes populistas latino-americanos se unificam nesta negativa caracterização: tratam o povo como se fosse a sua propriedade.

As Constituições republicanas e as práticas políticas que começam a pipocar na América Latina como fruto das "revoluções bolivarianas" em andamento estão sendo estabelecidas de acordo com três antiprincípios que reforçam a velha tradição patrimonialista de gerir o Estado como propriedade particular do governante e que se contrapõem diametralmente aos princípios republicanos apregoados por Kant.

Chávez e companhia partiram, nas suas reformas constitucionais "bolivarianas", da negação da liberdade dos membros da sociedade enquanto indivíduos; da não dependência de todos em relação a uma única legislação comum, enquanto súditos (pois os governantes de plantão não estão submetidos, nem os seus colaboradores, à lei vigente para todos); e de conformidade com a lei da desigualdade de todos os súditos, enquanto cidadãos (temos cidadãos de primeira, de segunda ou de terceira, dependendo da sua proximidade da esfera dos donos do poder).

Ricardo Vélez Rodríguez é coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Demétrio Magnoli :: O inimigo americano

DEU EM O GLOBO

Não é falsa, mas gera pouca luz a tese predominante sobre as motivações originais da política externa do governo Lula. Essa tese assegura que a política externa inaugurada na primeira posse de Lula foi concebida como uma compensação "de esquerda" à política econômica ortodoxa capitaneada por Antonio Palocci e Henrique Meirelles.

As coisas são mais complicadas. Numa ponta, a substituição de Palocci por Guido Mantega introduziu uma ambivalência na política econômica, que agora combina um núcleo ortodoxo com iniciativas orientadas pelo programa do capitalismo de Estado. Na outra, a política externa sofreu uma inflexão sutil, que acentua suas inclinações antiamericanas. A crise em Honduras, a visita do iraniano Mahmoud Ahmadinejad e a aprovação parlamentar do ingresso da Venezuela no Mercosul delineiam os contornos de um novo cenário.

Na montagem de seu primeiro governo, Lula entregou nove décimos da política econômica aos liberais ortodoxos, deixando apenas o feudo do BNDES ao grupo nacionalista ligado a Carlos Lessa, que teve vida curta. A política externa, em contraste, foi dividida equitativamente entre os ultranacionalistas, representados pelo secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, e a corrente majoritária petista inspirada pelo castrismo e personificada no assessor presidencial Marco Aurélio Garcia. O ministro Celso Amorim, um mestre da maleabilidade política, da dissimulação e do equívoco, ficou encarregado de administrar a coalizão de interesses, que só é estranha na superfície.

A ponte entre as visões de mundo dos dois grupos é constituída pelo antiamericanismo. A esquerda bafejada pelo castrismo norteia-se por uma caricatura da teoria do imperialismo que substitui o sistema de relações da economia mundial pelo "império americano". Os ultranacionalistas, cujas referências históricas formam um panteão que conecta Getúlio Vargas a Ernesto Geisel num mesmo "projeto nacional", encaram os EUA como a fonte principal dos valores odiosos de democracia política e liberdade econômica. Uma política externa consistente, mesmo se abominável, pode emanar de tal coalizão.

Lula, hoje todos sabem, não é uma rainha da Inglaterra. Ele arquitetou seu governo como um caleidoscópio de grupos de interesses, mas nunca renunciou ao exercício do comando efetivo. Amorim qualificou-o como o "Nosso Guia", lançando mão de um panegírico ridículo para produzir uma asserção verdadeira. O presidente, um provinciano incorrigível, jamais nutriu interesse pela política internacional, interpretando a política externa essencialmente como um instrumento para a edificação de sua imagem de estadista. No primeiro mandato, com essa finalidade, o "guia" definiu como meta prioritária a ascensão do Brasil à condição de membro permanente do Conselho de Segurança (CS) da ONU.

Lula cultivou uma relação pessoal com George W. Bush e o Brasil atendeu a um pedido expresso da Casa Branca para liderar a missão da ONU no Haiti, oferecendo uma solução à crise aberta por um gesto aventureiro dos neoconservadores americanos. O Itamaraty cuidou de amenizar a crítica brasileira à geopolítica de Bush no Oriente Médio e de não fazer nenhuma menção significativa aos escândalos de direitos humanos em Abu Ghraib e Guantánamo. O presidente e o ministro Amorim alimentavam a esperança de retribuição, na forma do apoio de Washington ao ingresso definitivo do País no CS. Mas, previsivelmente, os EUA decidiram não imolar sua política para a ONU no altar da obsessão do Brasil.

No segundo mandato, em virtude do fracasso daquela pleiteação, Lula afrouxou as rédeas que cerceavam o impulso antiamericanista da coalizão de política externa. A virulência desse impulso não diminuiu, mas cresceu, com a troca de comando na Casa Branca. O aparente paradoxo decorre de um temor fundamentado: enquanto as diretrizes de Bush serviam como contraponto ideal para as manifestações de apreço do Brasil a tiranos de diversos matizes, as de Obama tendem a restaurar a credibilidade dos valores políticos defendidos pelos EUA.

A alardeada "química pessoal" entre Lula e Bush deu lugar a uma crescente hostilidade retórica contra os EUA, expressa no tom arrogante das críticas à cessão do uso das bases militares colombianas, e a gestos antes impensáveis: a conversão da embaixada hondurenha em tribuna para Manuel Zelaya, o apoio explícito à duvidosa reeleição de Ahmadinejad e a proclamação de confiança no suposto caráter pacífico do programa nuclear iraniano. Nesse curso, pouco antes da visita de Arturo Valenzuela, novo secretário-assistente para as Américas, Marco Aurélio Garcia manifestou publicamente a "decepção" brasileira com a política de Obama para a América Latina - uma iniciativa que desafia as convenções da diplomacia entre países amigos.

O ato mais recente na escalada triunfante do antiamericanismo foi a admissão pelo Senado do ingresso da Venezuela no Mercosul, uma decisão de amplas repercussões, derivada de intensa pressão do Executivo sobre a sua base parlamentar. A presença de Hugo Chávez implicará a "morte" do Mercosul original, como anunciou certa vez o próprio venezuelano, e sua conversão numa plataforma de denúncia permanente do "império". Não é, obviamente, um cenário ideal para a parceria entre EUA e Brasil com a qual contava Obama na hora em que anunciou as grandes linhas de sua política latino-americana.

Política externa é a expressão internacional dos valores e dos interesses da sociedade nacional. Não é a esfera adequada para a veiculação de doutrinas partidárias ou de correntes ideológicas minoritárias. É o campo da unidade, não da confrontação interna. No primeiro mandato de Lula, a política externa brasileira oscilou no interior dos limites de uma tradição. No segundo, ela viola essa tradição, transformando-se aos poucos num pátio de folguedos de ideólogos irresponsáveis.

Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em geografia humana pela USP.

Lula repete Dilma e alerta para risco de estagnação se governo perder eleição

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Da Reportagem Local

Sem citar nome dos potenciais candidatos à Presidência, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva alertou ontem, de forma velada, para o risco de estagnação de conquistas sociais caso a oposição vença as eleições do ano que vem.

O presidente disse que não se sabe o que acontecerá no Brasil, em referência a uma eventual vitória da oposição.

Ao discursar para moradores de rua e catadores de lixo, Lula recomendou pressa, por exemplo, no levantamento de prédios públicos que possam ser destinados aos sem-teto.

"A gente tem que se dedicar, porque não sabemos o que pode acontecer no país", disse.

Numa despedida, Lula acenou com a promessa de abrir os cofres -com a ampliação até do Programa Minha casa, Minha vida -em 2010.

"Vocês têm que aproveitar esse momento, que falta um ano. Por favor, não tenham medo do peso da caneta. Vamos fazer um levantamento, um pente fino das nossas necessidades, para colocar no papel, para ver se a gente, em um espaço mais curto possível, pode atender", disse Lula.

"É preciso que tudo aquilo que a gente não conseguiu fazer a gente deixasse preparado ou para começar já no ano que vem, ou para ser aprovado no PAC que vai ser feito, de 2011 a 2015", insistiu.

Também sem mencionar o nome de Dilma Rousseff, Lula apontou a ministra da Casa Civil, pré-candidata do PT, como promessa de continuidade. Segundo ele, se eleita, Dilma estará ao seu lado, em 2010, fazendo novas promessas ao movimento.

"Quando eu vier aqui, em dezembro do ano que vem, já tem outra pessoa eleita, já sou rei posto [morto], e rei posto [morto] não pode mais fazer promessa. Ou faço agora, que posso cumprir, ou não dá para fazer depois. De qualquer forma, se for quem penso que vai ser, podemos trazer junto aqui, para fazer promessas", disse Lula.

E em seguida, ressalvou: "Mas vocês já estão tão organizados que quem entrar aí vai ter que respeitar".

Na véspera, Dilma afirmou que sua derrota representaria um retrocesso para o país.

Ao determinar rapidez para elaboração de lista de prédios, Lula receitou 15 dias de férias para a secretária Nacional de Patrimônio da União, Alexandra Reschke. "Porque o ano que vem será pauleira".

Após o evento, em que anunciou a compra de 25 imóveis do INSS para atendimento de população de baixa renda, Lula se reuniu com o ministro Guido Mantega e o empresário Abílio Diniz (Grupo Pão de Açúcar).

Miriam Leitão:: Dentro dos números

DEU EM O GLOBO

Para que aconteça o cenário do Banco Central , de um PIB ligeiramente positivo em 2009, de 0,2%, é preciso que o PIB tenha dado um salto muito acima das previsões neste quarto trimestre. Pelos cálculos do economista Armando Castelar, um salto de 4,5%. Isso daria um crescimento anualizado de 20%.Se houver essa alta forte, o carregamento estatístico para o ano que vem será de 4,3%.

O Banco Central divulgou esta semana, no seu relatório de inflação, que o país ficará no positivo este ano 0,2% e que em 2010 crescerá 5,8%. O ano que vem vai ser realmente de crescimento forte, em parte por um efeito estatístico — a comparação com uma base fraca —, em parte por crescimento mesmo.

Mas esses números do BC destoam um pouco.

Até o último relatório, o BC registrava uma previsão de 0,8% de crescimento em 2009.

Irrealista diante dos indicadores parciais, mas mais coincidente com a aposta do Ministério da Fazenda, que no ano inteiro sustentou que o país teria crescimento de 1% este ano.

O terceiro trimestre foi uma decepção. O ministro Guido Mantega sustentou que o crescimento seria de 2%, e ele foi de 1,3%. Abaixo do desempenho da economia que é o epicentro da crise: os Estados Unidos, depois de duas revisões para baixo, divulgaram esta semana que tiveram crescimento de 2,2% no terceiro trimestre. Com desempenho abaixo do previsto nesse período, ficou mais difícil para o Brasil terminar 2009 com resultado positivo.

O BC saiu à francesa do seu número de 0,8%, dizendo que ele será 0,2%.

Mas, dado que o país está com uma queda acumulada de 1% nos últimos 12 meses terminados em setembro, para se chegar a um resultado de 0,2% em 2009, o crescimento do último trimestre do ano — que está acabando, mas cujo número só sai no ano que vem — terá que ser muito forte. Castelar calcula que será necessário um salto ornamental de cerca de 4,5% de crescimento do quarto trimestre sobre o terceiro. Se forem retirados os fatores sazonais, e o número for anualizado, daria um ritmo de 20%. Totalmente improvável.

Se ocorrer esse cenário de abrupta elevação do ritmo do crescimento no último trimestre, o carregamento estatístico do ano que vem será mais forte. O cálculo do PIB é a comparação da média de um ano contra a média do ano anterior. Como 2009 começou mal e foi melhorando, ele é uma reta que sobe. Imagine que o país fique sem acelerar mais em 2010.

Só a comparação da média do ano que vem contra a média deste ano já dará um resultado de crescimento. Isso é que se chama carry over, o carregamento estatístico. Se o PIB der esse salto no quarto trimestre, o efeito estatístico será maior. Pelo cenário do BC, Armando Castelar calcula que o carregamento será de 4,3%. Ou seja, dos 5,8% do crescimento previsto pelo Banco Central, 4,3% seria apenas desse efeito.

Os analistas estão prevendo para 2010 um crescimento acima de 5%. Há até bancos falando em números perto de 6%. Isso porque a economia vai entrar em 2010 acelerando, depois de ter subido no fim de 2009. Haverá efeito estatístico e crescimento de fato. A dúvida é só como se chegará a esse resultado: se com um forte crescimento agora no fim de 2009 e um carregamento estatístico maior, ou se com um número menor e mais crescimento no ano que vem. Se por acaso, o ano fechar em -0,3%, o efeito estatístico será de 2,5%.

O terceiro trimestre foi frustrante porque se esperava mais, confiando que quando o ministro Mantega falou em 2% sabia o que dizia. Dois dias depois, saiu 1,3%. O terceiro trimestre foi impactado negativamente pelo baixo desempenho da agricultura. O investimento e o consumo cresceram, mas houve queda das exportações e aumento das importações, o que significa que essa demanda foi atendida pelo produto importado.

Isso vai se aprofundar no ano que vem, na opinião de Castelar, produzindo um déficit em transações correntes do Brasil. Houve também no terceiro trimestre uma redução forte de estoques, o que significa que parte da demanda foi atendida com a venda do que já estava produzido. Isso indica uma boa notícia: a de que terá que ser produzido mais para repor estoques.

— O que vai acontecer com o déficit em transações correntes não é preocupante em si, o que preocupará será a dinâmica da entrada desse novo cenário de resultados negativos nas contas externas — diz Castelar.

Para o ano que vem, há muitas incertezas no mundo, diz o economista: — A Grécia já teve rebaixamento da sua avaliação de risco, a Espanha pode ter o mesmo rebaixamento.

A Inglaterra está enfrentando também uma deterioração das contas públicas grande. Os governos socorreram as empresas e bancos endividados, estatizando a dívida privada, fato semelhante ao que nos aconteceu no começo da década de 1980, na crise da dívida. Essa é uma herança que eles terão que resolver.

Ainda pesará sobre o ano de 2010 a grande dúvida: quando serão retirados os estímulos excessivos concedidos pela maioria das economias? Aqui, a dúvida é como o governo vai se comportar, em ano eleitoral, na área fiscal. Em 2009, o governo brasileiro aumentou muito o gasto em despesas que não poderá comprimir.

Se continuar aumentando essas mesmas despesas, a era Lula pode deixar uma herança pesada para o próximo governante.

Morte na Colômbia causa comoção

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

ONU diz que assassinato de governador é "crime de guerra"

Ruth Costas com AP

Diversos países, ONGs e organizações internacionais repudiaram ontem o assassinato atribuído às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) do governador Luis Francisco Cuéllar, do Departamento (Estado) de Caquetá. O crime foi condenado por Brasil, EUA, União Europeia, Organização dos Estados Americanos (OEA) e ONU. "Para o direito internacional humanitário, tomar reféns é crime de guerra e a morte do governador confere extrema gravidade à prática recorrente dessa infração por esse grupo guerrilheiro", diz o comunicado da ONU em Bogotá, que exorta as Farc a soltar seus reféns.

"Esta atrocidade e barbárie merece o rechaço da comunidade internacional, que apoia os esforços para a paz da Colômbia", disse o secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza. Também se pronunciaram as ONGs Anistia Internacional e a Human Rights Watch.

Para o cientista político Pedro Medellín, a estratégia da guerrilha é contraditória. "Ela continua a reivindicar apoio internacional para seu projeto de ser reconhecida como um grupo beligerante, mas parece não entender que degolar um governador simplesmente para demonstrar força não é uma boa estratégia para conseguir isso", disse Medellín ao Estado.

Em entrevista ao jornal colombiano El Tiempo, Alfredo Rangel, da Fundação Segurança e Democracia, disse que o governo pode ter subestimado os resultados de sua política de segurança. "Eles baixaram a guarda por excesso de confiança", disse Rangel. Nos Departamentos de Caquetá, Nariño e Meta, as operações de segurança foram reduzidas em 30%.

Os analistas destacam a capacidade, comprovada historicamente, de as Farc se recuperarem após derrotas. O próprio movimento que deu origem à guerrilha nasceu em 1964, quando o Exército desmantelou um assentamento de camponeses e guerrilheiros na localidade de Marquetália.

Nos anos 80, novo golpe. Os guerrilheiros aderiram ao processo de paz do presidente Belisario Betancur (1982-1986) e formaram o partido União Patriótica. Nos anos seguintes, 3 mil políticos do grupo foram mortos por paramilitares.

Hoje, a capacidade de recuperação, segundo Medellín, deve-se à vantagem estratégica oferecida pela geografia da Colômbia e aos recursos do narcotráfico.

Graziela e Gilvan:Exilados voltam e passam o Natal explicando por que voltaram sem passaportes

DEU NO JORNAL DO BRASIL
26/12/1978

Bom dia! - El Pueblo Unido Jamas Sera Vencido" por Quilapayun




quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Reflexão do dia – Norberto Bobbio

“Há o individualismo da tradição liberal-libertária e o individualismo da tradição democrática. O primeiro arranca o indivíduo do corpo orgânico da sociedade e o faz viver fora do regaço materno, lançando-o ao mundo desconhecido e cheio de perigos da luta pela sobrevivência, onde cada um deve cuidar de si mesmo, em uma luta perpétua, exemplificada pelo hobbesiano bellum omnium contra omnes. O segundo agrupa-o a outros indivíduos semelhantes a ele, que considera seus semelhantes, para que da sua união a sociedade venha recompor-se não mais como um todo orgânico do qual saiu, mas como uma associação de indivíduos livres. O primeiro reivindica a liberdade do indivíduo em relação à sociedade. O segundo reconcilia-o com a sociedade fazendo da sociedade o resultado de um livre acordo entre indivíduos inteligentes. O ´primeiro faz do indivíduo um protagonista absoluto, fora de qualquer vínculo social. O segundo faz dele o protagonista de uma nova sociedade que surge das cinzas da sociedade antiga, na qual as decisões são tomadas pelos próprios indivíduos ou por seus representantes”.


(Norberto Bobbio , em “Teoria Geral da Política – A Filosofia Política e as Lições dos Clássicos”, pág. 381-2 – Editora Campus, Rio de Janeiro, 2000)

Roberto Freire:: A vez de Serra e Aécio

DEU NO BRASIL ECONÔMICO

Ao contrário do que muitos analistas de política pensam, a decisão do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, de deixar a disputa interna no PSDB pela indicação de candidato a presidente, não coloca seu colega José Serra, governador de São Paulo, sob pressão para oficializar seu nome como pré-candidato do partido.

Se o posto era alvo de disputa pelos dois governadores, está claro que, agora, Serra é o nome da oposição para levar essa empreitada adiante.

Não existe necessidade de oficializar uma candidatura se as eleições ocorrerão apenas em outubro de 2010. Sem falar que devemos ter presente, visto não sermos Lula, que a campanha eleitoral - até julho do próximo ano - é proibida por lei.

É compreensível que a mídia e tambémos adversários de Serra queiram uma oficialização de seu nome como candidato da oposição. Mas, qual seria seu interesse em tal medida?

Afinal, Serra é responsável por governar o estado mais desenvolvido e populoso do país, está comprometido com aqueles que o elegeram para comandar São Paulo.

Pode e deve esperar o momento apropriado para oficializar a candidatura. A oposição vai dedicar-se, agora, à sua principal preocupação, que é o papel de Aécio Neves na sucessão presidencial.

O governador de Minas sabe qual é sua responsabilidade nas eleições de 2010, do peso que vai exercer na vitória oposicionista sobre este governo, que transformou o pobre em dependente, em clientela do Estado; que devolveu o Nordeste aos coronéis; que aparelhou e partidarizou a máquina pública; que despreza as leis; que admite viver numa tênue e perigosa distância de uma polícia política e uma imprensa, em sua grande maioria, controlada e tantas outras mazelas de um governo soberbo.Sobre os ombros de Aécio recai a mesma tarefa que está nas mãos de Serra e de toda a oposição. Sua posição de liderança não só de Minas, mas de todo o país, inscreve-o na história das lutas democráticas e republicanas.

Comum gesto de desprendimento e uma demonstração de grandeza, Aécio viabilizou a unidade na oposição. Ainda terá de fazer mais: levar-nos à vitória, formando com Serra uma chapa forte, símbolo da competência na administração pública, da eficiência no gasto do dinheiro do contribuinte, enfim, das lições ele que vem dando ao país ao governar Minas Gerais igual que Serra no governo de São Paulo.

Entre Serra e Aécio não existe distinção de importância política ou viabilidade eleitoral. Em 2010, eles são, igualmente, os dois brasileiros mais credenciados para comandar o país.

A oposição precisa, igualmente, de ambos. Nenhum dos dois pode abdicar dessa responsabilidade. O PPS não fala de Aécio sem conhecê-lo de perto.

O partido contribui, com orgulho, para sua gestão, que vem modernizando Minas Gerais e implementando políticas públicas exemplares, que fazem de sua administração a mais bem avaliada do Brasil.

O tempo das disputas passou. Chegou a hora da unidade, de juntar forças e caminhar para a vitória.

O Brasil precisa tanto de Serra quanto de Aécio. Estamos certos de que nenhum deles faltará a esse chamado da cidadania democrática.

Roberto Freire é presidente do PPS

'Temos dois craques; e eles, uma perna de pau'

DEU EM O GLOBO

Freire e Virgílio agradecem ao presidente por comparar Serra e Aécio a "dois Tostões". Já governador de SP evita polêmica

Gerson Camarotti e Wagner Gomes

BRASÍLIA e SÃO PAULO. A declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que “dois Tostões” não teriam necessariamente resultados positivos — numa referência a uma eventual chapa puro-sangue tucana formada pelos governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG) — provocou reações irônicas da oposição. O presidente do PPS, Roberto Freire, chegou usar a mesma metáfora futebolística para atacar a candidata petista, e chamou a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, de “perna de pau”.

— Importante é que ele já reconheceu que nós temos dois craques, enquanto eles têm uma perna de pau. Para craque sempre tem lugar no time — disse Freire, que ainda fez um apelo para que o diretório regional do PPS em Minas defenda a chapa de oposição com Serra-Aécio.

O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), também gostou do fato de Lula ter reconhecido que o PSDB tem dois craques.

— Tenho que agradecer ao presidente Lula porque reconhece os craques da nossa seleção. Agora, não vejo problema em escalar dois craques, como Pelé e Tostão na Copa de 70. É com a vivência do passado que podemos prever o futuro — alfinetou Virgílio, defendendo a chapa puro-sangue no PSDB.

Até no PT a declaração do presidente foi recebida com ressalvas. O presidente do partido, deputado Ricardo Berzoini (PT-SP), ressaltou que tanto na política como no futebol é possível ter dois craques num mesmo time.

— Isso não existe nem em política nem no futebol. Na política, é possível ter dois candidatos fortes combinados na mesma chapa. No geral, essa frase do Lula não se aplica no futebol nem na política — disse Berzoini.

Já o vice-líder do governo no Congresso, senador Valdir Raupp (PMDB-RO), entendeu que Lula quis dar outro recado: alertou para o risco de Aécio ser anulado politicamente por Serra. Para Raupp, Aécio já percebeu esse risco.

— O que pode acontecer é que o Serra pode anular politicamente o Aécio, se ele aceitar ser vice. Caso Aécio dispute o Senado, pode até virar presidente do Congresso Nacional, e ser muito mais influente — disse Raupp.

Serra diz que não sai do foco e continua a governar Em São Paulo, Serra criticou a antecipação da campanha eleitoral e disse que não vai deixar seu trabalho à frente do governo paulista para se dedicar às questões eleitorais.

— Estou especialmente dedicado ao trabalho de São Paulo, ao trabalho de governador.

Há muita tentação de se dispersar esse trabalho com questões eleitorais, mas é uma tentação que para mim não pega. O que pega é servir ao povo do meu estado. É servir ao meu mandato de governador e ficar trabalhando em cima disso — disse Serra

Lula entrega obras no Rio em clima de comício ao lado de Dilma e Cabral

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO
No palanque, presidente e pré-candidata defenderam "continuidade" do governo para evitar "retrocesso"

Wilson Tosta e Luciana Nunes Leal


Depois de entregar apartamentos e laptops a moradores de Manguinhos, área pobre na zona norte do Rio, no segundo ato público do dia marcado por tom de campanha eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua pré-candidata à sucessão, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, defenderam ontem a "continuidade" do governo para que suas obras não parem.

"Essas obras têm de ter continuidade, porque, se pararem, será um retrocesso para o País", disse Lula em entrevista. "E obviamente a Dilma não poderia falar diferente: eu quero continuidade." Pouco antes, em discurso no palanque em que foram entregues chaves de imóveis e computadores, Dilma havia ido pelo mesmo caminho. "Nosso País está num momento excepcional. Vamos ter a continuidade do governo do presidente Lula, tenho certeza, não vamos deixar tudo que conquistamos voltar atrás." Lula classificou a declaração como "sabedoria de alguém que sabe que o Brasil não pode ter retrocesso".

Procurando demonstrar descontração, Dilma sorriu e lembrou a origem humilde do presidente. Condenou a falta de investimentos sociais de governos anteriores, chegou a se referir a si mesma como parte do povo local e também se referiu especificamente às mulheres - faixa em que tem pior desempenho, segundo as pesquisas.

"Vamos fazer com que cada um dos moradores aqui de Manguinhos (...) tenha no seu coração a certeza de que nós vamos mudar a vida do povo brasileiro, (...) através da escola, da formação profissional, para que cada um de nós tenha uma profissão para trabalhar e ganhar o seu dinheiro", disse ela, que ainda bradou um "viva Manguinhos, viva a comunidade".

Lula negou que a campanha tenha começado. Dilma também disse não ser ainda pré-candidata. Os discursos de tom eleitoral tiveram como cenário a inauguração de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em Manguinhos. Ali, foram entregues 416 apartamentos para famílias realocadas por causa de obras, além de centros cívicos, de geração de renda, de apoio jurídico e de referência da juventude e biblioteca. Também foi instalado acesso grátis à internet, por wi-fi.

ALEMÃO

Mais cedo, no Complexo do Alemão, também para participar da entrega de chaves dos apartamentos, Lula passou uma hora na favela em clima de comício com Dilma e o governador Sérgio Cabral (PMDB), que disputará a reeleição. O presidente deixou claro o apoio a Cabral e apostou na vitória do aliado. "A cada período nós vamos fazer um novo PAC. O Sérgio tem mais quatro anos de mandato."

Lula prometeu um computador portátil em cada um dos 192 apartamentos construídos no Alemão, com acesso gratuito à internet. Os cinco primeiros foram entregues ontem. Lula lembrou que as obras foram possíveis "graças a este homem e a esta mulher, que é a coordenadora do PAC federal", referindo-se ao governador e a Dilma.

Quem visse a festa de ontem no Alemão poderia pensar estar a poucos dias da eleição, tamanha a empolgação dos políticos presentes. Só não havia a distribuição de panfletos típica do período eleitoral. Apenas um sobre o PAC do Alemão era entregue aos convidados.

Cabral assumiu a função de mestre de cerimônias e aproximou Lula e Dilma da população. Entrevistou moradores e animou a plateia. Usou até uma expressão do presidente que causou polêmica há duas semanas, durante visita ao Piauí. "O presidente Lula, que já pisou na merda , sem saneamento, que já andou desempregado, teve uma vida igual ou pior que vocês. O poder não subiu à cabeça dele. Por isso tem 80% de popularidade."

Estimulada por Cabral, a ministra fez um discurso não previsto. "Quando a gente vê as coisas realizadas, fica com essa alegria no coração. Um feliz Natal, mas também um Ano Novo de cabeça erguida, morando em condições dignas", disse.

''Não caio nessa'', afirma Serra sobre campanha já

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Governador, favorito do PSDB para representar o partido em 2010, critica antecipação da corrida eleitoral

Silvia Amorim e Ana Conceição

Ao dar início ontem às obras de ampliação do Corredor Metropolitano de São Mateus-Jabaquara, no trecho entre Diadema e o Morumbi, o governador José Serra voltou a criticar a antecipação do debate eleitoral de 2010. "Tem gente tentando antecipar o processo eleitoral, tirando-me do foco do governo de São Paulo, mas eu não caio nessa", afirmou Serra durante o evento, em Diadema, no ABC paulista.

A declaração foi uma resposta às perguntas sobre a frase dita na véspera por Lula de que o governador não era "bom treinador". Na segunda-feira, os dois usaram metáforas futebolísticas ao falar da sucessão presidencial. Primeiro, Lula ironizou uma eventual chapa do PSDB com o governador de Minas, Aécio Neves, e Serra. "Eu não sei se dois Coutinhos, dois Tostões se saem bem no mesmo time", disse. Serra reagiu: "Quando um jogador é muito bom, dá para duplicar, encontra um jeito de se arrumar no campo."

Mais tarde, durante inauguração de escola técnica em Cotia, na Grande São Paulo, o governador voltou a criticar a antecipação do debate eleitoral. "Eleição é depois de abril. Eleição não vai se misturar com governo."

Serra está prevendo dificuldades para o ano eleitoral. Disse que 2010 "será um ano difícil".

"Quero desejar um belo 2010 a todos. Aliás, 2010 será um ano difícil. Mas dificuldade e beleza não são incompatíveis. Pelo contrário, quando se combinam, tornam-se até interessantes", comentou.

NOME ÚNICO

O governador é hoje o único nome do PSDB para a corrida presidencial, após a desistência de Aécio de disputar a vaga de presidenciável tucano. Apesar do favoritismo nas pesquisas de intenção de voto, a última sondagem do Datafolha, divulgada no fim de semana passado, mostrou que a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), pré-candidata do Palácio do Planalto em 2010, tem reduzido a diferença em relação ao tucano. A vantagem de Serra, que já foi de 25 pontos, está em 14 pontos, segundo o levantamento. Além disso, Dilma tem um cabo eleitoral fortíssimo, o presidente Lula, cujo governo ostenta índices recordes de aprovação.

Depois do discurso, Serra disse, em entrevista, que a dificuldade mencionada pouco antes não tinha nenhuma razão especial. "Um ano eleitoral é sempre um ano mais tenso", desconversou, encerrando a conversa com os jornalistas.

"PELÉ" DA POLÍTICA

Durante a inauguração da escola técnica em Cotia, o prefeito Carlão Machado, também do PSDB, "elegeu" Serra presidente em seu discurso. "Eu tenho certeza de que o Estado de São Paulo está contemplado com um grande governador. Mas também tenho certeza de que, quando o senhor estiver no ano que vem em Brasília, em 2011 o Carlão Camargo vai estar com as portas abertas no Palácio do Planalto", destacou, ao prometer obras para a população. O prefeito chegou a chamar Serra de "Péle" da política.

Ao terminar o evento, o governador, acompanhado do prefeito, do secretário de Desenvolvimento, Geraldo Alckmin, e assessores, seguiu de carro até o centro da cidade para tomar café com leite numa padaria. Parou, entretanto, a alguns metros do local e continuou o trajeto a pé numa típica programação de candidato. Serra distribuiu abraços e beijos aos que passavam e tirou muitas fotos. Ouviu declaração de votos e palavras de apoio para a disputa de 2010. "Meu voto é do senhor", disse uma mulher que o abordou quando deixava a padaria. "Tem que levar 2010", comentou um rapaz. Cuidadoso, Serra respondeu com um simples "vamos ver".

FRASES
José Serra (PSDB)Governador de São Paulo

"Tem gente tentando antecipar o processo eleitoral, tirando-me do foco do governo de São Paulo, mas eu não caio nessa"

"Quero desejar um belo 2010 a todos. Aliás, 2010 será um ano difícil. Mas dificuldade e beleza não são incompatíveis. Pelo contrário, quando se combinam, tornam-se até interessantes"

Merval Pereira:: O jogo

DEU EM O GLOBO

As pesquisas eleitorais que foram divulgadas nos últimos dias, especialmente a do Datafolha, que abrangeu um universo maior de pesquisados e avaliou também a situação nos estados, tiraram o presidente Lula de seu pedestal para colocá-lo na tentativa de polemizar com o governador de São Paulo, José Serra, tornado o virtual candidato do PSDB com a desistência do governador de Minas, Aécio Neves

Ao mesmo tempo em que chamou Serra “para a briga” eleitoral, Lula demonstrou claramente que a chapa purosangue tucana, com o governador mineiro como vice, incomoda o governo. Só há uma coisa que Lula gosta mais do que uma disputa eleitoral: o futebol. (Ou será o contrário?) E, quando ele junta as duas coisas, está num terreno que domina.

Primeiro, Lula admitiu que tanto Serra quanto Aécio são craques comparáveis a Tostão ou Coutinho, dois atacantes inigualáveis.

Mas deu uma estocada elegante quando deixou a entender que não havia nenhum Pelé no time adversário.

Só mesmo Lula pode ser comparado a Pelé na política, parece ter sido o recado subliminar e bemhumorado do presidente.

Como Serra caiu na pegadinha de Lula e respondeu, dizendo que dois craques podem jogar no mesmo time, o presidente investiu novamente, desta vez para dizer que, pelo comentário, Serra não seria um bom treinador.

A brincadeira parou por aí, pois o governador paulista se tocou de que o que mais quer evitar estava acontecendo, isto é, ele estava disputando espaço político com Lula ( ou com Pelé?), enquanto sua futura adversária, a ministra Dilma Rousseff, protegida pela popularidade de Lula, só aparece na boa, sem entrar em bola dividida.

Serra, que provavelmente gosta tanto de futebol quanto Lula, e até mesmo nesse campo são adversários — Lula torce pelo Corinthians e Serra pelo Palmeiras —, resolveu encerrar o papo futebolístico para se concentrar no governo de São Paulo, onde pretende se proteger das “provocações” do presidente sob o manto de um eleitorado cativo do PSDB.

Mas teve de ouvir de Lula que estar à frente das pesquisas eleitorais a esta altura não quer dizer muita coisa, pois o Palmeiras passou o ano todo na liderança do Campeonato Brasileiro e acabou aparecendo o Flamengo na última hora para ser o campeão.

Desde o segundo turno de 2002, quando teve 38% dos votos e perdeu a eleição para Lula, que Serra aparece à frente das pesquisas com uma média entre 35% e 40% de preferências.

Quando abandonou a disputa em 2006 dentro do PSDB para deixar Alckmin perder para Lula, estava na frente das pesquisas, mas já com Lula nos seus calcanhares.

Desta vez, a decisão de permanecer no governo paulista até o último momento obedece não apenas a uma prudência exagerada, mas a uma estratégia eleitoral.

Se em finais de março os ventos estiverem mudando de lado, com uma subida avassaladora da candidata oficial, José Serra poderá sempre desistir de se candidatar para disputar uma reeleição ao que tudo indica fácil em São Paulo.

Essa opção ficou mais complicada com a desistência de Aécio, pois agora a responsabilidade perante o partido é de Serra.

Uma desistência sua não garante que o governador de Minas se disponha a sair candidato já com o estigma da derrota o rondando.

O mais provável, no entanto, é que, nesse caso, Aécio venha a aceitar “ir para o sacrifício” como candidato do PSDB, com uma Dilma turbinada pelas pesquisas.

Além de poder exercitar sua capacidade de aglutinação com outros partidos que agora estão na base do governo, e de dar ao PMDB uma boa alternativa, o governador mineiro pode no mínimo pavimentar uma carreira política nacional concorrendo à Presidência mesmo com chances maiores de perder.

Mas, caso se confirme o cenário mais provável, e o governador José Serra saia para disputar a Presidência da República em março, ter demonstrado essa dedicação toda a São Paulo terá certamente uma resposta do eleitorado paulista, que pode dar a ele uma votação tão consagradora que praticamente garanta sua vitória final.

O candidato tucano em 2006, Geraldo Alckmin, teve nada menos que 54,2% dos votos de São Paulo, derrotando Lula que teve 36,8%.

No momento, as pesquisas dão a Serra 47% das intenções de votos, contra apenas 18% de Dilma.

O sonho de consumo dos tucanos é que Serra chegue perto do índice de Alckmin em 2006, o que é provável, e que Dilma fique parada onde está agora, o que é improvável.

Nesse caso, Serra sairia de São Paulo com uma vantagem de cerca de dez milhões de votos.
O mesmo raciocínio é usado com relação a Minas Gerais. O candidato tucano em 2006 teve 40% dos votos, contra 50% de Lula.

Mesmo que o governador Aécio Neves não seja o vice, seria possível vencer a eleição em Minas com o apoio de seu grupo, invertendo a equação da última eleição.

Para se ter uma ideia da situação atual, Serra perde por 34% a 30% na Bahia; está empatado em Pernambuco em 33% a 32% e perde no Ceará de 18% a 14%. Sem a participação de Ciro Gomes na eleição presidencial, Serra empata com Dilma de 31% contra 28%.

Na região Sul/Sudeste, Serra vence em São Paulo de 47% a 18%; no Paraná de 42% contra 17%; no Rio Grande do Sul de 36% a 21% e em Santa Catarina de 39% a 16%.

O fato é que o candidato tucano terá que basear sua força eleitoral no Sul e Sudeste, onde tem larga vantagem, pois, no Nordeste, Dilma Rousseff já o superou e, embora a diferença ainda seja pequena, é provável que com o apoio do presidente Lula a candidata oficial consiga livrar boa vantagem na região, até mesmo por que a força da coligação eleitoral que a apoiará está baseada agora nos governadores do Nordeste.

Dora Kramer:: Uvas verdes

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Na essência, o presidente Luiz Inácio da Silva está certo na análise que faz das ditas vantagens eleitorais da oposição. A dianteira do governador José Serra não significa que o resultado da eleição presidencial lhe será favorável em outubro de 2010, bem como a hipótese da formação de uma chapa com Serra na cabeça e Aécio Neves de vice não produz uma vitória certa.

Além de águas a mancheias para rolar, há no meio das fórmulas bem engendradas pelos partidos, o sentimento do eleitorado. Este não obedece a contas matemáticas. A soma dos eleitores de Minas e São Paulo - os dois maiores colégios eleitorais, representando quase um terço do eleitorado brasileiro - não se dá automaticamente.

Da mesma forma como a popularidade do presidente da República não se transfere mecanicamente para quem quer que seja.

Mas, como na política vale mais a forma que o conteúdo, o presidente Lula sem querer acabou marcando um gol contra no embate com a oposição. Sempre cuidadoso, desta vez Lula escorregou num ato falho cometido no improviso de uma fala qualquer que pudesse traduzir indiferença à hipótese de uma chapa puro-sangue do PSDB.

"Acho que num time de futebol nem sempre dois Coutinhos e dois Tostões, dois Dirceu Lopes dariam certo no mesmo time. Às vezes é preciso uma composição diferenciada para dar certo", disse o presidente. Na tentativa de desqualificar, acabou levantando a bola para o adversário chutar.

"Quando o jogador é muito bom, dá para duplicar", rebateu José Serra. Recebeu, de graça, a chance de sublinhar que Lula os havia qualificado de craques e a oportunidade de abordar pela primeira vez em público aquilo que já corria nos bastidores: seu desejo de ter Aécio como companheiro de chapa.

O governador de São Paulo deu, assim, mais um passo sem precisar dizer que estava caminhando.

E Lula, que não tem por hábito distribuir elogios a não ser a si mesmo, perdeu-se na confusão de produzir uma declaração que é o oposto do pensamento em vigor nas hostes governistas.

Tanto quanto a oposição deseja, o governo teme a concorrência conjunta de dois políticos de expressão nacional, com votos e influência nos dois colégios eleitorais que somam um terço do eleitorado de todo o País.

Quem acompanha política se lembra de que o PT e o Palácio do Planalto sempre apostaram na divisão do PSDB como forma de o partido inviabilizar por si mesmo as suas possibilidades eleitorais.

Não que isso esteja fora do cenário. Quando a campanha começar é que o tucanato mostrará se vai para a eleição afinado ou atabalhoado, como ocorreu nas duas últimas presidenciais.

Mas o sonho de consumo do governo, a saída de Aécio Neves do partido, não se concretizou. E se a esperança era a briga interna é porque a unidade soava ameaçadora. E continua soando ainda mais agora que o mineiro saiu do páreo.

A chapa "pura", se sair, define a eleição? Não, mas dá um trabalho danado e obriga o governo a reforçar suas tropas em dois Estados onde o PT já esteve forte, mas, por razões distintas, deixou o terreno ser ocupado pelo adversário.

Lula chama

Prova de que o governo sentiu o impacto do gesto de Aécio - e não da forma positiva como rezam as versões palacianas - que o presidente Lula saiu a campo de imediato.

Ao seu estilo simplificador, fazendo uso de metáforas que supostamente facilitam o entendimento, mas de fato nada têm a ver com a realidade do assunto tratado, o presidente provoca José Serra a sair da toca para responder às suas declarações.

Se conseguir, terá obtido sucesso no projeto de criar um clima de plebiscito já nas preliminares da campanha eleitoral.

A ofensiva não é só no campo da política. Não são ocasionais as manifestações de Lula e do presidente do Banco Central a respeito dos efeitos da eleição sobre a economia.

Henrique Meirelles prevê "tensões" e Lula aponta Dilma como fiadora exclusiva da continuidade da atual política.

A ideia é nitidamente explorar as desconfianças que o mundo dos negócios nutre em relação ao grau de intervencionismo de Serra.

Antiga musa

Em meados do ano o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves, e o presidente da Casa, Michel Temer, diziam que Temer só não seria indicado para vice se Aécio formasse dupla com Serra e Hélio Costa precisasse ser escalado para compor a chapa com Dilma, a fim de disputar o eleitorado de Minas.

Isso foi antes de Costa liderar as pesquisas para governador do Estado. Acelerados

"O processo eleitoral está tão antecipado que já tem vereador querendo discutir boca de urna" (Geddel Vieira Lima, ministro da Integração Nacional e pré-candidato ao PMDB ao governo da Bahia).

Fernando Rodrigues:: O PT está se achando

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Quando a cúpula do PMDB saiu do Palácio da Alvorada na noite de 20 de outubro, Lula ficou entretendo um pouco mais alguns petistas de sua confiança. Os peemedebistas tinham acabado de fechar um pré-acordo com o PT sobre a sucessão presidencial. O negócio estava fechado.

Michel Temer e José Sarney encabeçavam a tropa do PMDB naquela noite. Ao ficar a sós com seus aliados, Lula suspirou e disse algo mais ou menos assim: "A gente construiu o PT, trabalhou duro para chegar até aqui e agora vamos fazer aliança com essa gente...". Alguns palavrões frequentaram a conversa, mas o assunto morreu ali.

Um dia depois, Lula elucubrou sobre como se moldam as alianças políticas no Brasil: "Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão".

O Judas da história é o PMDB. Nesta semana, Aloizio Mercadante (PT-SP) deu uma entrevista em Recife. Fez um ultimato ao atual governador pernambucano, Eduardo Campos, do PSB, que será candidato à reeleição em 2010: ou ele apoia a petista Dilma Rousseff para o Planalto ou Lula o abandona na campanha local.

Não contente, Mercadante pontificou sobre Ciro Gomes (PSB) -que é paulista, fez carreira no Nordeste e está sendo empurrado pelo PT para a disputa ao governo de São Paulo. Para o senador, Ciro apenas "pegou o pau de arara na direção errada. Um monte de gente veio para São Paulo e ele foi para lá [Ceará]".

O petista depois consertou a fala, mas o estrago estava feito.

Há algumas semanas o PT ostenta um certo ar superior, de já ganhou. Após o Datafolha apontar Dilma isolada em segundo lugar, dirigentes petistas passaram a cravar uma vitória no primeiro turno. Autossuficiência excessiva não combina com campanhas eleitorais. Se o partido seguir nessa toada, achando-se imbatível, é real a chance de tropeçar na própria arrogância.

Fernando de Barros e Silva:: De choques e pau de arara

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

São Paulo - A novidade de um presidente que "fala a língua do povo" tem aspectos obviamente simpáticos. Mas o que um dia foi ganho democrático degenerou em espetáculo.

Lula criou uma mitologia em torno de sua figura. É hoje um ator satisfeito e seguro de si. Difícil encontrar quem resista a seus improvisos retóricos. As pessoas em geral acham graça das muitas bobagens que ele diz. Ai de quem se atreve a apontá-las. É crime de lesa-pátria.

Anteontem, no Prêmio Direitos Humanos 2009, Lula se dirigiu a Inês Etienne Romeu -que foi presa e torturada como Dilma Rousseff durante a ditadura: "Minha querida Inês, eu só queria te dizer uma coisa: valeu a pena cada gesto que vocês fizeram. Cada choque que vocês tomaram, cada apertão que vocês tiveram, valeu a pena porque nós aprendemos".

Aplausos da plateia...

Será preciso anotar que essa história de tortura que valeu a pena, de martírio que serve de aprendizado, é o fim da linha? Alguém, entre os que o ovacionaram, será ainda capaz de se escandalizar com algo que Lula diga? Sim, foi "só" um deslize, mas a questão é esta: tem limite?

Na mesma cerimônia, Lula disse que "a gente sofreria menos se transformasse os nossos companheiros em heróis, e não apenas em perseguidos". É a velha visão sentimental e romântica. O país seria melhor se tivesse maturidade para julgar os torturadores, em vez de distribuir medalhas às suas vítimas.

A esquerda, de resto, irá um dia desmistificar a luta armada?

Já passou a hora de reconhecer que aquilo não foi só um delírio total, mas, antes disso, um grande erro, ainda que tivesse alguma chance de dar certo.

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Do choque virtuoso de Lula chegamos ao pau de arara de Aloizio Mercadante. Em entrevista a uma rádio de Recife, o senador do PT disse que Ciro Gomes, nascido no interior paulista, "pegou o pau de arara na direção errada". Enquanto as pessoas vinham para São Paulo, "ele foi para lá (o Ceará)".

Mercadante é aquele que acusou José Serra de preconceito contra os nordestinos na campanha de 2006.

Rosângela Bittar:: O Instituto Lula

DEU NO VALOR ECONÔMICO

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem, entre suas principais tarefas do ano que vem, em fim do segundo mandato e último ano de governo, a de pensar o futuro, dar forma a uma estrutura física destinada, ao mesmo tempo, a abrigar seu acervo e ser a base de um trabalho futuro que pretende, primordialmente, desenvolver na África. Definir esta atividade do futuro é algo que está evoluindo lentamente, sem pressa. O chefe do gabinete do presidente, Gilberto Carvalho, tem chamado esta estrutura física, ainda hipotética, de "Instituto Lula", local destinado, em princípio, a receber seu acervo.

Houve uma época que o presidente chegou a conversar com o governador do Distrito Federal sobre a possibilidade de criar, na capital, um museu dos ex-presidentes da República, de forma que pudesse guardar alí documentos, objetos, a história de cada um e, ao mesmo tempo, dar acesso ao público a esta preciosidade.

A ideia de criação de uma instituição pública não evoluiu mas, do ponto de vista individual, está voltando ao debate nesta que representa o início de último ano de governo. Lula recebe 8 mil cartas por mês, por exemplo, com assuntos que variam dos pedidos de casa própria à correção de aposentadoria, e 52 pessoas dedicam-se à tarefa de respondê-las. Estas cartas, só para ficar neste exemplo, terão que ir com ele para São Bernardo, quando lá for morar quando deixar a Presidência da República. São centenas de presentes, objetos que vai ganhando nas viagens pelo país e no exterior. É um material que o governo acha que tem que estar disponível a pesquisas, ao acesso do público.

Esta organização será também a base política para a ação do presidente, que afasta completamente qualquer tipo de intromissão no governo do seu sucessor, seja do seu campo seja do campo adversário. Mas não vai se afastar da política. Depois de descansar uns meses, o presidente pretende desenvolver uma ação articulada de apoio ao desenvolvimento na África.

Em sua última viagem a Roma, na véspera da reunião da FAO, Lula participou do que foi definido, na sede do governo, como aperitivo deste projeto. Reuniu-se com presidentes e ministros de países africanos para debater pontos de interesse e identidade entre estes países e o Brasil. Um capítulo, por exemplo, foi o que comparou a Savana africana e o Cerrado brasileiro, que teriam condições comuns para a agricultura. A Embrapa, enfatiza o governo brasileiro, está presente em 20 países da África.

Lula fez mais viagens à África que todos os presidentes brasileiros, contabiliza sua assessoria, e está preocupado porque é preciso correr: acha que a China está numa espécie de exercício de atração fatal sobre o continente, com cantos da sereia e construção de castelos.

A imagem do trabalho que o presidente poderá desenvolver a partir desse Instituto seria a de uma caravana da cidadania. Uma caravana organizada, permanente, especialmente para a África mas, nada impede, também para a América Latina, onde acredita poder realizar trabalho semelhante.

Nas viagens programadas para o último ano de governo ainda há, por sinal, duas visitas à África. Uma, por ocasião da Copa do Mundo, à África do Sul, outra seria mais uma rodada por 3 a 4 países ainda não definidos.

Nem por ser um ano de campanha eleitoral Lula suspenderá suas viagens ao exterior, pelo menos no primeiro semestre. Em janeiro, poderá ir a Davos, na Suiça, para o Fórum Econômico Mundial.

Em fevereiro há uma viagem grande, ao México e países da América Central para a Cúpula da América Latina e Caribe. Em março, está na agenda outra grande viagem, desta vez ao Oriente Médio: Israel, Palestina, Líbano, Síria. Provavelmente em maio (pode ser antecipada) está prevista viagem ao Irã e à Rússia. E também em maio irá à cúpula Brasil-União Europeia, em Madri. Existe uma hipótese de, em junho, o presidente Lula comparecer à exposição internacional de Xangai, provavelmente no dia dedicado ao Brasil.

No primeiro semestre, o presidente vai também dedicar-se à tarefa de reorganizar o governo. Até março, agirá como tem feito agora, uma campanha esparsa para inauguração de obras, em companhia da ministra Dilma Rousseff enquanto ela ainda pode participar dos eventos como integrante do governo, sem ferir a lei eleitoral.

No fim de março vão sair vários ministros, desincompatibilizando-se dos cargos para se candidatarem ao Executivo e Legislativo. Como regra geral, os que saírem serão substituídos por pessoas da equipe de cada um, com uma ou outra exceção. Estava previsto o afastamento de 15 a 17 ministros de Estado, provocando uma renovação sem precedentes no último ano do governo.

O presidente Lula, porém, há duas semanas, fez gestões para que alguns fiquem em seus cargos, pois suas candidaturas não fazem muito sentido. É o caso, por exemplo, do ministro do Esporte, Orlando Silva, do PCdoB. O presidente acha que ele tem muito a fazer no governo e seu partido já está muito bem servido de candidatos a deputado, entre eles Aldo Rebelo e Jamil Murad.

Com certeza, estão saindo Dilma Rousseff (Casa Civil), Tarso Genro (Justiça), José Pimentel (Previdência), Geddel Vieira Lima (Integração), Hélio Costa (Comunicações), Edson Santos (Igualdade Racial), entre os absolutamente definidos. Com a saída dos ministros, Lula dedicará um a dois meses ao comando da execução dos programas. A prioridade será governar, o presidente vai administrar mais.

No segundo semestre, Lula não pretende fazer viagens internacionais porque estará integralmente dedicado à campanha eleitoral, especialmente depois da Copa do Mundo. Fora do experiente. O presidente poderá cumprir sua agenda de presidente, dizem os auxiliares, e a partir das 17 horas pode viajar para um comício, em qualquer lugar do Brasil. Será a despedida de Lula dos comícios, acham alguns ministros. Se Dilma for eleita e fizer bom governo, ele pode até não voltar mais. Se não for eleita, voltará aos palanques no dia seguinte.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

José Nêumanne:: Vacas de presépio que se fazem de pastores

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Naquelas históricas assembleias gerais dos operários metalúrgicos de São Bernardo do Campo no Estádio de Vila Euclides na segunda metade dos anos 70 do século passado, o presidente do sindicato, Luiz Inácio da Silva, que ainda não havia incorporado o apelido Lula ao sobrenome, forjou um estilo ao qual foi fiel e que ao longo dos anos aperfeiçoou com esmero. Ele tinha dois lugares-tenentes, Osmar Mendonça, o Osmarzinho, e Enilson Simões de Moura, o Alemão. Encarregava cada um de defender uma posição e, enquanto os dois discursavam, Lula observava atentamente a multidão lá do alto do palanque. Somente quando tinha certeza absoluta sobre qual seria a posição a ser adotada para agradar a plateia dava a palavra final. Ali ele subverteu a ordem monolítica, mas frágil, da ditadura militar, que logo depois desabaria, e também inverteu o sentido original da palavra líder, não mais alguém que conduz a massa, mas quem se deixa por ela conduzir. Non duco, ducor.

Os longos anos de militância no PT, na oposição em plena democracia, frágil como a ditadura que sucedeu, ainda que parecesse inquebrantável, o retirante de Caetés, Pernambuco, tornou-se aos poucos o mais manhoso e bem-sucedido político da História do Brasil por aprimorar a arte de adular a massa para permanecer no topo. É um estilo de mando que contraria o dístico latino usado para definir o orgulho paulista. Tal como citado na última linha do parágrafo anterior, não mais o "não sou conduzido, conduzo" dos bandeirantes, dos coronéis, dos estancieiros e mesmo dos mineiros manhosos do PSD, mas um esperto "não conduzo, sou conduzido", que garante a permanência no alto das pesquisas de prestígio popular. Adular o povo é o jeitinho mais eficiente e menos perigoso de perpetuar seu excelente emprego, que garante fama e fortuna fáceis e um bando de bajuladores ao redor por muito mais tempo do que jamais poderia sonhar algum pretendente ao exercício pleno do mando. Trata-se de um meio extremamente inteligente e sem riscos de exercer o poder e garantir satisfação especial para si mesmo, a família, os amigos e os compadres sem ter de adotar uma decisão difícil, angústia que sempre incomodou o repouso dos guerreiros que de fato comandam.

Os altos índices de popularidade alcançados por Lula, como não o foram "nunca antes na História deste país", não são, contudo, um fenômeno paroquial, uma esquisitice tropical num universo estranho. Como se sabe, noço guia providencial dos povos da floresta, da roça, do açude e da transposição do Rio São Francisco é o cara (man) do homem mais poderoso da Terra, Barack Obama. Há entre o menino que teve o picolé recusado pelo pai sob o pretexto de que não sabia chupar e o primeiro mulato a ocupar a presidência dos Estados Unidos da América muito mais afinidades do que pode supor nossa vã historiografia. Mas isso não se tem comprovado em seus sucessos evidentes, e, sim, em seus fiascos ocultos. Como esse sofrido por ambos na Conferência do Clima em Copenhague semana passada.

Protagonistas de reuniões que partem de intenções magníficas e terminam em nulidades tenebrosas, ambos fazem parte de uma geração de estadistas pigmeus que de tanto se preocuparem com o que oferecer aos eleitores nas próximas eleições se esquecem do mundo que estão destruindo para as próximas gerações. Os dois se assemelham ao descendente de húngaros Nicolas Sarkozy, que só se aproxima do corso Napoleão Bonaparte na estatura física, distanciando-se do exemplo de antecessores em seus postos. Como Abraham Lincoln, que fez a guerra civil para garantir a unidade da confederação americana, e Dom Pedro II, sob cuja égide foi consolidado o domínio dos brasileiros sobre este território semicontinental onde estamos instalados.

Tanto eles quanto outros conduzidos que se fazem de condutores - Sílvio Berlusconi na Itália, Angela Merkel na Alemanha, etc. e tal - são hábeis comunicadores, capazes de encantar e engabelar as massas, mas inaptos para pôr em prática o verdadeiro sentido de governar: escolher metas a cumprir e persegui-las. Obama tem a habilidade de encantador de serpentes quando discursa. Lula põe as velhas raposas felpudas da política brasileira nos chinelos quando se trata de dizer a um interlocutor o que ele quer ouvir, seja individual, seja coletivamente. Mas nenhum dos dois tem a ousadia de enfrentar adversidade alguma para traçar o caminho a seguir, seja para resolver os impasses do comércio internacional, seja para evitar a tragédia ambiental que se abaterá sobre nós se providências não forem adotadas. Aos problemas que surgem respondem: "não é comigo." Aos que podem postergar reagem: "resolveremos no ano que vem."

Foi isso que ocorreu em Copenhague, como antes já havia acontecido na Rodada Doha. Lula dá lições de moral ao resto do mundo em matéria de preservação, mas não põe fim à destruição da Amazônia com uma simples proibição de queimadas e cortes pelos bandidos internacionais da motosserra. Falta-lhe coragem para fazer o que deve, mas lhe sobram argumentos para transferir a culpa para os outros. Neste mundo em que vivemos, Obama teve o topete de defender a guerra no habilíssimo discurso que fez na solenidade em que recebeu o absurdo Prêmio Nobel da Paz.

Essas vacas de presépio que se fingem de pastores de rebanhos repetem a geração de eunucos que permitiu o avanço de Hitler e Mussolini no período entre as guerras. Em pleno século 21, o mundo está a precisar que surja um novo Winston Churchill, um líder no sentido verdadeiro da palavra (condutor), temerário a ponto de prometer "sangue, suor e lágrimas" a seu povo para, contrariando-o e provocando-lhe dor, fazê-lo emergir sobrevivente e orgulhoso da devastação de uma guerra mundial.

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde

Artur Xexéu :: Dilma vence a primeira eleição

DEU EM O GLOBO /Segundo Caderno

Em uma prova do seu potencial eleitoral, a superexposta ministra, maestra do apagão e de frases como “O meio ambiente é uma ameaça so desenvolvimento” foi eleita a Mala do Ano de 2009, no tradicional certame promovido pelo colunista.

A mala do ano ou a musa do apagão

Conheça os dez mais votados na eleição mais tradicional da temporada de prêmios

Quem disse que Dilma Roussef não é boa de voto? Pois dobre a língua. Depois de uma carreira política inteirinha construída em gabinetes, a ministra participa de sua primeira eleição verdadeiramente democrática e sai vencedora. Este ano não teve para mais ninguém. Deu Dilma na cabeça.

Ela é a minha, a sua, a nossa Mala do Ano.

Justiça seja feita: Dilma fez uma campanha impecável. Quando o concurso mal tinha começado, quando ainda não havia favoritos, Dilma arrumou um apagão, deixou o país quase todo às escuras e ainda deu uma série de declarações minimizando o desastre. Não deu outra. Ficou em primeiro lugar desde a primeira apuração. E, agora, quase no finzinho, quando seu nome já estava praticamente sendo superado por outras malas de destaque, ela foi a Copenhage para dizer que “o meio ambiente é uma ameaça ao desenvolvimento”.

Dilma ganhou o pódio definitivamente.

Daqui para a frente, ela pode perder todas as outras eleições a que se candidatar. Já tem um vitória. É a mala do ano, primeira e única. Pesada e sem rodinha.

A vitória por maioria absoluta de Dilma só foi ameaçada pela força que Caetano Veloso tem nessa área. Ninguém aguenta mais ouvir Caetano tendo opinião formada sobre tudo. E, nas poucas vezes neste 2009 em que o leitor pensou que passaria uma semana inteira sem ouvir falar em Caetano Veloso, o cantor dava um jeito de levar um tombo no palco, e começava tudo outra vez.

O número de votos no baiano, por sinal, foi uma síntese da predileção do eleitorado pelo voto na baianada da música brasileira. Caetano tornou-se vicecampeão, mas ele representa Claudia Leytteh (sei que ela não é baiana de nascimento, mas é baiana na alma), Ivete Sangalo, Carlinhos Brown... É o voto-axé. É a mala regional.

O terceiro posto ficou com um personagem que ainda não tinha aparecido em nossa lista anual. Ele é empresário, ele é rico, ele cuida da cidade, ele é mala: Eike Batista, o homem dadivoso que Madonna ainda não tinha encontrado em lugar algum do mundo. Vamos combinar que, desde os tempos em que tinha o nome na coleira da Luma, Eike merecia estar no Top Ten. Mas escapou. No entanto, a superexposição — como todo mundo sabe, superexposição é credencial VIP para entrar na lista dos dez mais — dos últimos tempos não permite que ele fique de fora. Eike conquistou um honroso terceiro lugar. É mala de rico. É uma Louis Vuitton legítima.

No quarto lugar apareceu uma mala que tinha tudo para ser a mais votada do ano, mas dividiu a preferência do eleitorado com o campeão.

É o ministro Edison Lobão, aquele que, quando soube do apagão, achou que nem era com ele, que não tinha nada a ver com aquilo.

Como já vimos, o apagão influenciou muito os votos deste ano. Mas, falando sério, é uma mala sem charme. Lobão é uma mala apagada.

Logo depois do ministro do apagão aparece uma mala pequenininha, do tamanho de uma minissaia: Geyse Arruda. A aluna da Uniban que criou, em pleno século XXI, um caso com cara de anos 50. Num primeiro momento, Geyse até teve a simpatia do eleitorado. Mas não resistiu ao primeiro flash. Aproveitou os 15 minutos de fama para ir ao programa de Luciana Gimenez, para dizer que tinha recebido convites da “Playboy”, para virar notícia em sites de fofoca, para passar por transformação em programas vespertinos da TV... Geyse é mala.

Injustiçada, mas mala. Perseguida, mas mala. Vítima de preconceito, mas mala.

Devido ao tamanho de sua minissaia, virou a pochette do ano.

O sexto e o sétimo lugares devem ser anunciados juntos. Por que um ficou na frente do outro? Por que um é mais mala do que o outro? Tenho minha teoria. Eduardo Paes, o prefeito, ficou com a sexta posição; Sergio Cabral, o governador, com a sétima. Paes, a bem da verdade, começou a eleição com poucos votos. Mas aí implicou até com o coco na praia e, na reta final, posou para quela foto em que simulava pegar uma onda sobre sua mesa de escritório. Foi fatal. Eduardo Paes é mala esportiva. E, na modesta opinião do presidente do Trema — o Tribunal Regional da Mala Eleitoral —, só ficou na frente do governador porque o eleitorado acreditou que, cravando seu voto em Sergio Cabral, corria o risco de ele não aparecer para receber o prêmio. Certamente estaria fora do país. Sergio Cabral é uma mala perdida na esteira do aeroporto.

O espaço está acabando e ainda faltam três malas a serem abertas. São malas cheias, por isso estão ocupando tanto espaço. O oitavo lugar ficou com Jesus Luz, a mala acoplada. O modelo e DJ não falou muito, mas só sua performance de papagaio de pirata (papagaio mudo, que fique claro) já foi o bastante para ele aparecer entre os mais votados.

Em penúltimo lugar, encontramos uma mala da televisão. Neste 2009 não tivemos atrizes de novela ou participantes de reality shows.

Todos os votos sobraram, então, para Luciano Huck. O principal argumento do eleitorado foi o excesso de anúncios em que ele aparece como garoto-propaganda. É justo. Uma mala comercial.

E, por último, ela, a musa da irritação, a protagonista de “Irritando Fernanda Young” que, na verdade, deveria ser chamado de “Fernanda Young irritando”. Aquela que posa para a “Playboy” e ainda faz tese a respeito. É a mala que não foi depilada.

A todas as malas que se sentiram injustiçadas por não estar nesta lista, fica um conselho: não desista. Ano que vem tem mais.