quinta-feira, 28 de abril de 2022

Inflação acelera e chega a 12% nos últimos 12 meses

Inflação alta e disseminada

IPCA-15 chega a 12% em 12 meses, e quase 80% dos produtos subiram

Carolina Nalin / O Globo

Puxada pelo aumento nos preços dos combustíveis e alimentos, a prévia da inflação oficial, medida pelo IPCA-15, acelerou para 1,73%, acima da taxa de março (0,95%). É a maior alta desde fevereiro de 2003 (2,19%) e a maior para um mês de abril desde 1995, quando o índice foi de 1,95%.

Com o resultado, o IPCA-15 acumula alta de 4,31% no ano. Em 12 meses, chegou a 12,03%, a maior taxa desde novembro de 2003, quando foi 12,69%.

As variações, ainda que elevadas, vieram abaixo das estimativas do mercado. Analistas projetavam alta de 1,85% no mês e 12,16% em 12 meses, segundo mediana da Reuters.

Os dados são do IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) e foram divulgados pelo IBGE nesta quarta-feira. O indicador teve as informações coletadas entre o dia 17 de março até o dial 13 de abril.

O resultado indica uma aceleração em relação ao índice de março e ao IPCA fechado do mês passado, quando a inflação ficou em 1,62% no mês. Aponta também para uma alta disseminada dos preços: oito dos nove grupos subiram em abril, sendo a exceção observada no grupo Comunicação (-0,05%).

Vinicius Torres Freire: Pessimismo na economia diminui

Folha de S. Paulo

Ligeira mudança de humor de consumidores e empresários favorece o prestígio do governo

A confiança do consumidor e a dos empresários da construção civil e da indústria aumentou em abril, mostram os indicadores pesquisados pela FGV. Não é otimismo. A confiança ainda está no nível da insatisfação, do pessimismo, mas aumentou. Vinha em geral em baixa desde meados do ano passado.

Não quer dizer que vai haver uma virada econômica, com aumento de consumo e, menos ainda, de investimento produtivo. Mas a ligeira mudança de humor favorece o prestígio do governo.

Desde o início do ano, a votação de Jair Bolsonaro aumentou cerca de um ou dois pares de pontos. Mesmo com o repique da inflação, que continuou pelo menos até meados de abril, com a carestia da comida em terríveis 15% ao ano, em geral motivo de revolta ainda maior.

Catia Seabra: O capitão viu o passarinho azul

Folha de S. Paulo

Entusiastas veem Bolsonaro em um bom momento

Luiz Inácio Lula da Silva conhece o peso da caneta hoje nas mãos de Jair Bolsonaro. Em maio de 1994, tinha 42% das intenções de voto contra 16% de Fernando Henrique Cardoso. Em agosto, com a moeda do real em circulação, FHC assumiu a liderança. Venceu em primeiro turno.

Semana passada, Bolsonaro deu uma demonstração desse poder ao conceder indulto ao deputado Daniel Silveira. Afrontando o STF, o capitão não só reacendeu o ânimo belicoso de seus apoiadores.

Com a mesma canetada, despertou também o espírito de corpo na Câmara. Salvaguardado por seus pares, Silveira foi eleito vice-presidente de comissão e indicado para a Comissão de Constituição e Justiça da Casa.

Ruy Castro: Os brutos também amam

Folha de S. Paulo

Por que um homem de atividades tão pias precisaria andar armado?

Mais de um antigo faroeste de Hollywood já mostrou a sequência em que alguém parado numa esquina é baleado no peito por um bandido, mas se salva porque leva no bolso interno do paletó uma Bíblia, que lhe apara a bala. Woody Allen, um dia, propôs outra ideia: o sujeito está parado na esquina e alguém lhe atira no peito uma Bíblia. Mas ele se salva porque traz no bolso uma bala, que lhe apara a Bíblia.

Milton Ribeiro, pastor, teólogo, professor, ex-reitor universitário e ex-ministro da Educação de Jair Bolsonaro, tentou descarregar sua pistola Glock calibre 9 mm, que trazia dentro de uma pasta de couro, ao fazer o check-in no balcão do aeroporto de Brasília para embarcar para São Paulo. Como a pasta estava muito cheia —certamente lotada de Bíblias—, Ribeiro tinha pouco espaço para manobra e a arma disparou, atravessando o coldre e a pasta e atingindo o chão, com os estilhaços ferindo de leve duas pessoas que não tinham Bíblias para protegê-las.

Maria Hermínia Tavares*: Um alerta que vem a calhar

Folha de S. Paulo

Prenúncio de conflito interno violento nos EUA deveria ressoar entre os brasileiros

Durante quase 30 anos, Barbara Walter, cientista política da Universidade da Califórnia, estudou guerras civis e insurreições ao redor do mundo.

Com base no muito que aprendeu, acaba de publicar um livro desconcertante: "How civil wars start and how to stop them" (como as guerras civis começam e como pará-las), ainda sem tradução em português. Nele, a professora adverte que os Estados Unidos estão se aproximando a galope de um ambiente favorável à eclosão de um violento conflito interno.

A probabilidade de ocorrerem conflagrações do gênero aumenta quando o regime em que vive um país —não importa se autocrático ou democrático— entra em crise, privando as suas instituições da capacidade de orientar as condutas sociais, e quando a política se transforma em confronto entre facções que expressam identidades étnicas, raciais ou religiosas.

Conrado Hübner Mendes*: Se o STF capitular

Folha de S. Paulo

A renúncia de autoridade vai liberar de vez o bolsonarista da esquina

Juiz morre pela boca. E o Judiciário morre pela boca do juiz. Seria bom para a democracia brasileira se ministros do STF não saíssem por aí tecendo avaliações de conjuntura aos microfones de jornalistas, em salas de conferência ou eventos privados em bancos e resorts. Antecipando juízos, louvando reformas, criticando colegas, mandando recados, fazendo previsões, passando vergonha.

Não só porque as avaliações se mostram, em geral, diletantes e autointeressadas. Mas porque não cabem no compromisso institucional que assumiram. Nem nos rituais de preservação dessa matéria-prima delicada da qual se constitui a autoridade do juiz. São falas anti-institucionais que configuram conduta judicial imprópria.

Juízes constitucionais de democracias pelo mundo praticam essa máxima universal da ética judicial. As cortes ganham. Da Alemanha aos Estados Unidos, da Índia à África do Sul. No STF, Rosa Weber e Edson Fachin dão exemplo, mas são vencidos pelos contraexemplos.

William Waack: O STF na mira

O Estado de S. Paulo

Num momento perigoso, bolsonarismo encontrou no Supremo um alvo fácil

Não é surpresa o regozijo com que muitos setores da política registraram o mais recente ataque de Jair Bolsonaro ao STF. A “Schadenfreude” (alegria pelas dificuldades alheias) se espalhou também pelo Centrão, esse amplo grupo unido pelo interesse nos cofres públicos e desinteresse em bagunça institucional.

A afronta de Bolsonaro aos tribunais superiores é pura tática político-eleitoral motivada pelo desprezo que ele nutre por instituições e limites ao que considera ser sua “missão divina”. O grave problema para o STF, explorado pelo bolsonarismo, é a percepção em parcela crescente do público segundo a qual a Suprema Corte se transformou há tempos numa instância política que só toma decisões idem.

Essas decisões não são percebidas como dirigidas apenas contra Bolsonaro, apesar do que dizem os seguidores dele. É pior: são vistas como desvinculadas do interesse público, contraditórias e têm como denominador comum a defesa de privilégios de uma casta no topo de um Poder que gera insegurança – o Judiciário.

Míriam Leitão: Inflação sobe com crise interna

O Globo

Dois indicadores divulgados esta semana mostram que ainda não existe trégua no cenário de inflação. E esse é um dos maiores complicadores da atual conjuntura, porque vai corroer a renda das famílias e obrigar o Banco Central a elevar ainda mais os juros. O Boletim Focus voltou a ser divulgado depois de um mês de paralisação, por causa da greve no Banco Central, e mostrou uma forte piora das expectativas. Ontem, o IBGE divulgou outro número elevado do IPCA-15 de abril, em 1,73%, o que elevou a taxa para 12,03% em 12 meses, a taxa mais alta desde novembro de 2003. A alta do dólar nos últimos dias foi um balde de água fria em quem apostava em uma ajuda do câmbio para aliviar a alta dos preços.

Para se ter uma ideia da pancada, em cidades como Rio e Curitiba, a inflação, no IPCA-15, acumulada em apenas quatro meses desse ano, janeiro a abril, já supera 5%, o que é o teto da meta para o ano inteiro de 2022. Não é uma inflação causada apenas por crises externas. Há uma parte da alta de preços que é causada pelo governo Bolsonaro, quando não pelo próprio presidente. A má gestão das crises se soma às crises criadas pelo próprio presidente, como esse constante clima de confronto com o STF.

Merval Pereira: Aparência de normalidade

O Globo

Quando era deputado federal, eleito por um nicho de eleitores essencialmente militares, Jair Bolsonaro não valia uma nota de três reais na vida pública. Ninguém ligou quando elogiou o torturador coronel Brilhante Ustra, nem quando disse que a deputada petista Maria do Rosário não merecia ser estuprada por ser muito feia. Ao contrário, alguns parlamentares diziam que ele era muito afável no trato pessoal e que aquela radicalização era apenas uma maneira de chamar atenção sobre si para garantir os votos do eleitorado cativo.

Agora estão cometendo o mesmo erro ao considerar que Bolsonaro indultou o deputado federal Daniel Silveira apenas para chamar a atenção e manter-se no foco da opinião pública. No entanto, assim como Bolsonaro passou a ser valorizado pelos votos que o levaram à Presidência da República, a maioria sem ter a ver com suas eventuais qualidades, mas com os defeitos do PT, também o deputado-policial está sendo guindado a postos relevantes na Câmara a que não teria acesso em tempos normais, como membro titular da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e vice-presidente da Comissão de Segurança Pública.

Ele serve de pretexto para que os ataques às instituições democráticas tenham uma aparência de normalidade. Seriam demonstrações de “liberdade de expressão”, que precisam ser defendidas pelos “democratas”. O ex-presidente Lula perdeu uma chance de se colocar como um candidato a presidente que trata com seriedade questões institucionais. A crítica que fez a Bolsonaro chegou com atraso e muito pouco conteúdo.

Mario Vitor Rodrigues: Debate franco ou palanque moral?

O Globo

O calendário marcava 9 de setembro de 2016. Durante evento para arrecadação de fundos de sua campanha — hospedado pela Casa Cipriani, em Nova York, e tendo como estrela da noite Barbra Streisand —, a então candidata democrata Hillary Clinton não mordeu a língua e afirmou que metade dos eleitores de Donald Trump era “deplorável”. Quase dois meses antes, na convenção do Partido Democrata, Michelle Obama já demonstrava intimidade com o salto alto: “Quando eles se rebaixam, devemos nos elevar”. Pouco importa se elas tinham razão, ambas assumiam o discurso de superioridade moral que regia o debate nos Estados Unidos. Deu no que deu: Trump na cabeça.

Por aqui, desde 2013 vivemos catarse parecida. As manifestações de junho e o impeachment de Dilma Rousseff ajudaram a confundir o diagnóstico, mas a verdade é que, para além dos esquemas de corrupção petistas, o eleitor que antes votava no PSDB, e por osmose passou a eleger o PT, já demonstrava cansaço dessa conversa. Nosso “deu no que deu” não poderia ter sido mais sintomático: se Dilma se reelegeu com 54 milhões de votos, Bolsonaro, apenas quatro anos depois, venceu com 57 milhões.

Malu Gaspar: Por um fio, de novo

O Globo

O ex-policial militar Daniel Silveira (PTB-RJ) nunca ocupou cargos de destaque na Câmara. Até outro dia, era visto até por aliados como um parlamentar relapso, com pouco interesse pelo Congresso.  

Eleito depois de ganhar notoriedade por rasgar uma placa de rua com o nome da vereadora assassinada Marielle Franco, construiu a carreira como “deputado youtuber” divulgando fake news, pregando a desobediência jurídica e ataques físicos a ministros do Supremo.

Quando foi preso pela primeira vez pela Polícia Federal (PF) por ordem de Alexandre de Moraes, no ano passado, recusou-se a usar máscara nas instalações do Instituto Médico-Legal em plena pandemia, traficou telefones celulares para dentro da cela da Superintendência da PF no Rio e, mais recentemente, acampou no próprio gabinete para evitar ser obrigado a colocar a tornozeleira eletrônica.

Nos últimos dias, Silveira mudou de patamar. Condenado à prisão e à perda de mandato pelo STF, recebeu o perdão de Bolsonaro, ganhou postos em comissões — incluindo a mais importante da Câmara, a de Constituição e Justiça (CCJ) — e passou a ser visto por parte dos deputados como símbolo de liberdade de expressão.

Nem é preciso analisar o assunto de perto para constatar que ele é o espantalho político de uma disputa maior. Faz pouco tempo que Bolsonaro subiu num carro de som, chamou Moraes de canalha e disse que não cumpriria mais as decisões do Supremo.

Maria Cristina Fernandes: Expor o mau governo para calar o golpismo

Valor Econômico

Eleitor de oposição não sabe nem por onde começar. Está na hora de lhe fornecer decálogos dos malfeitos deste governo

O general responsável pela cibernética do Exército tem insaciáveis dúvidas sobre a segurança das urnas eletrônicas que elegeu o comandante em chefe e prole. O homem mais rico do mundo, notório crítico da moderação de conteúdo das redes sociais, comprou aquela que é a mais usada pelos políticos. As cúpulas do Legislativo e Executivo agem em sintonia no cerceamento do Supremo Tribunal Federal na contenção da militância mais extremada do presidente da República.

Se alguém ainda cultivava dúvida sobre o potencial de encrencas desta eleição há de tê-las dissipado com os últimos acontecimentos. A única maneira de minimizá-las é com uma campanha em tempo real. Não o tempo das redes sociais, mas aquele da realidade. Daquilo que Jair Bolsonaro, de fato, entregou em seu mandato.

Se o golpismo é alimentado pela voz rouca das ruas, como defendem aqueles que proclamam o apoio popular à ação militar em 1964, não há saída para a oposição senão esclarecer aos eleitores o que Bolsonaro fez com o país.

Quem quer que tenha participado de uma roda com bolsonaristas sabe que eles se valem do simplismo empacotado pelas milícias digitais como verdade irrefutável.

Luiz Carlos Azedo: Mitos e heróis na cena eleitoral brasileira

Correio Braziliense

Moro virou um político, sujeito aos ritos e armadilhas do jogo democrático. Filiou-se ao Podemos, trocou-o pelo União Brasil, sem garantia de legenda. Agora ensaia voltar à disputa pela Presidência

O mito de que o brasileiro é um “homem cordial” vem de um senso comum, desconstruído por Sérgio Buarque de Holanda em sua obra seminal Raízes do Brasil. A expressão cordial é um “tipo ideal” que não indica apenas bons modos e gentileza, vem da palavra latina “cordis”, que significa coração. Segundo Buarque, o brasileiro precisa viver nos outros, um artificio psicológico incorporado ao nosso processo civilizatório. A cordialidade muitas vezes é mera aparência, “detém-se na parte exterior, epidérmica, do indivíduo, podendo mesmo servir, quando necessário, de peça de resistência.” Mais atual impossível.

A apropriação afetiva do outro apontada por Buarque, em grande parte, é responsável pela “fulanização” da política brasileira, apesar de termos instituições seculares bastante consolidadas, alguma das quais com origem na chegada de D. João VI e sua Corte ao Brasil, como o Supremo Tribunal Federal (STF). O exercício efetivo do poder central em todo o território nacional, por exemplo, deve-se ao Judiciário, muito mais do que às Forças Armadas, cujo protagonismo político, na República, por duas vezes, se deu em duradoura contraposição ao Estado democrático de direito, na Revolução de 1930 e no golpe militar de 1964.

Cristiano Noronha: Congresso de centro e centro direita

Revista ISTOÉ

Graças a Lula, o PT pode apresentar algum crescimento no legislativo federal. Mas sem alterar sobremaneira a correlação de forças

Estudo sobre “Eleições Municipais na Pandemia”, organizado pelos cientistas políticos Antonio Lavareda e Helcimara Telles, mostra que o número de prefeitos filiados a partidos de direita aumentou de 29,8% para 54,3% de 2012 para 2020. Já o número de prefeitos de esquerda caiu de 40,5% para 24,4% nesse período. Partidos de centro e de centro-direita na Câmara dos Deputados receberam mais de 70 deputados durante a janela partidária, quando deputados federais podem mudar de legenda livremente sem correr o risco de perda de mandato. Partidos de esquerda perderam parlamentares – à exceção do PT, que ganhou três. A janela foi aberta em março e fechou no último dia 1º de abril.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

Congresso tem de rever construção de térmicas a gás

O Globo

Usinas termelétricas onde não há gás, não há alto consumo de energia, acionadas mesmo quando não há demanda. Eis mais uma decisão bizarra que desafia a lógica, impingida ao Brasil pelo Congresso Nacional na lei que autorizou a privatização da Eletrobras. Um cálculo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) revelado pelo GLOBO avaliou o peso desse jabuti: R$ 52 bilhões até 2036, ou 56% além dos R$ 93 bilhões que seriam necessários para operar o sistema num cenário com outras opções, como energia eólica ou solar. Esse seria apenas o custo de operação das térmicas, sem incluir os investimentos necessários para construí-las, nem os gasodutos essenciais para transportar o gás.

Esse desatino criado pelo Congresso Nacional não tem relação com a privatização da Eletrobras em si, que deveria prosseguir independentemente dele (ela está empacada no Tribunal de Contas da União, sob risco de não sair neste ano). O jabuti das térmicas beneficia apenas meia dúzia de investidores, encarece a energia para todos os brasileiros e contribui para sujar a matriz energética do país com o uso de um combustível fóssil. Trata-se, nas palavras do engenheiro Edvaldo Santana, ex-diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), de “um dos maiores absurdos já vistos no setor”.

Poesia | Manuel Bandeira: Profundamente

 

Música | Coral Edgard Moraes: Despedida

 

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Entrevista Roberto Freire: “Lula e Bolsonaro cheiram a naftalina

Márcio Allemand / Revista ISTOÉ
Edição 21/04/2022 - nº 2726

Roberto Freire está há mais de 60 anos na política, desde os tempos que ainda era estudante da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Em 1972, Freire se candidatou pela primeira vez em uma eleição. Concorreu à prefeitura de Olinda pelo então MDB, partido com o qual ele tinha relações desde seu surgimento, em 1965. Na época, chegou a ser o mais votado, mas perdeu para a soma dos votos das duas sublegendas do Arena, partido que apoiava o regime militar. Dois anos depois, ele foi eleito para seu primeiro mandato como deputado estadual em Pernambuco, também pelo MDB, e foi um dos protagonistas na luta pela redemocratização. Ali ele despontava como um dos expoentes da esquerda nordestina e começava sua carreira política em nível nacional. Foi eleito para quatro mandatos sucessivos de deputado federal. Em 1989, nas primeiras eleições diretas depois do regime militar, foi candidato à Presidência da República e foi o primeiro voto de muitos dos que estavam indo às urnas pela primeira vez. Perdeu. Em 1994 foi eleito senador e, em 2002, voltou à Câmara para o seu 5° mandato como deputado federal. Hoje, aos 80 anos, é presidente do Cidadania e está articulando uma nova sigla que deve unir o seu partido ao PSDB.

Como o senhor avalia o país nas duas últimas décadas?
Perdemos uma grande oportunidade, principalmente no início do século XXI, quando o mundo cresceu como nunca em sua história. Tivemos um processo muito importante com a chegada da China ao mercado mundial e que provocou grandes ganhos para o Brasil. Só que esses ganhos não foram aproveitados, mas sim, dilapidados. Ao invés de investirmos em obras de infraestrutura, partimos para um consumo desenfreado.

Mas não é bom que a população consuma mais?
É ótimo para um governo populista. Mas para um país que tem problemas graves, com uma população carente de vários serviços, não. E pouco se fala disso. A verdade é que o Brasil jogou fora uma oportunidade. Ele não surfou na onda do mundo que cresceu no início dos anos 2000, mas aproveitou-se da onda como um bom malandro. Logo depois o mundo entrou numa recessão profunda.

Acha que houve excessos da Operação Lava Jato?
A Lava Jato teve um papel importante no combate à corrupção, mas cometeu alguns excessos. Nós sabemos que ninguém apura e investiga um mecanismo daqueles, que envolvia o ex-presidente da República, grandes estatais e os capitães da indústria brasileira, usando luvas de pelica. Tanto é verdade que desmancharam tudo o que foi feito. Quero ver alguém apontar um juiz que não fale com a polícia, com o Ministério Público, que não mantenha diálogo com alguém envolvido no processo de investigação. Isso é um purismo que se buscou e que nunca deveria existir.

O senhor acredita que o ex-juiz Sergio Moro errou ao deixar o Podemos e ir para o União Brasil?
Acho que em relação a Moro faltou orientação política desde o começo. Ele deveria ter analisado melhor a questão da candidatura e se tivesse entrado no União Brasil lá atrás, a disputa interna poderia ter sido resolvida para que ele fosse o candidato do partido para disputar as eleições presidenciais. O nome dele surgiu muito bem num primeiro momento, mas rapidamente começou a cair. Infelizmente, eleição não é concurso, não há mérito. Há emoção e carisma. Falta ao Moro vivência política.

Luiz Carlos Azedo: A longa angústia da terceira via na corrida presidencial

Correio Braziliense

A eleição para a Presidência parece um jogo de cartas marcadas, porém, não é; muita água vai rolar antes e após o início da campanha eleitoral, que só começa em 16 de agosto

A angústia se caracteriza por uma situação na qual a pessoa se sente ameaçada por algo que pode acontecer, o que leva à preocupação excessiva, causa irritabilidade e insegurança, provoca dor de cabeça e até dores musculares, além de alterações na frequência cardíaca. Na política, além desses sintomas, a angústia pode provocar uma sequência de atitudes equivocadas, atritos e desavenças que, muitas vezes, só colaboram para que a ameaça se concretize. É o que acontece com alguns protagonistas da terceira via, que continuam se digladiando, em vez de buscar o verdadeiro entendimento.

Uma das causas da angústia é óbvia: a polarização entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL) está cada vez mais cristalizada, segundo as pesquisas de intenção de voto. Há três fatores principais. O primeiro: ambos têm uma base eleitoral muito resiliente, com identidade ideológica e organicidade. Lula em razão de um partido enraizado na sociedade; Bolsonaro devido à relação, por meio de redes sociais, com setores da sociedade com os quais se identifica, como militares, policiais, caminhoneiros, garimpeiros, ruralistas, atiradores etc.

Hélio Schwartsman: Jogo pesado bolsonarista

Folha de S. Paulo

Presidente não inventou as 'hardballs' nem foi o primeiro a lançá-las, mas as usa com apavorante desenvoltura

"Constitutional hardball", ou "jogo pesado constitucional". A expressão é de Mark Tushnet (Harvard), mas foi popularizada por Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, autores de "Como as Democracias Morrem". Eles sustentam que o uso repetido de "constitutional hardballs" ocasionou a erosão democrática em países tão variados como EUA, Brasil, Hungria, Argentina, Venezuela, alguns dos quais se converteram em autocracias.

Mas o que exatamente são "hardballs"? É a exploração de procedimentos, leis e instituições por atores políticos para obter ganhos pessoais ou partidários de modos que violam costumes preestabelecidos e forçam os limites da legalidade. A concessão de graça por Jair Bolsonaro a Daniel Silveira é um exemplo perfeito de "hardball". No Brasil, o presidente tem a prerrogativa de perdoar criminosos. Praticamente não há limitações explícitas a esse poder nem na Carta nem nas leis. Mas perdoar amigos era algo considerado fora dos limites, de acordo com as normas não escritas da política e até da decência.

Julio Wiziack: Samba manjado

Folha de S. Paulo

Bolsonaro usa estratégia de enfraquecer instituições que vão arbitrar eleições

No carnaval tardio deste ano, o deputado Daniel Silveira (PTB-RJ) sambou na cara do Supremo. Dado o comportamento afrontoso demonstrado antes e durante o julgamento, é de se desconfiar que já sabia do indulto que Jair Bolsonaro lhe concederia pelos ataques contra ministros e o próprio STF.

O episódio é inédito, mas a estratégia do presidente é a mesma de sempre. Não comprou briga dessa magnitude para proteger os direitos de um deputado inexpressivo. Busca enfraquecer a Corte mais alta do país no ano em que ela própria e o TSE vão arbitrar as eleições mais desafiadoras da Nova República.

O bolsonarismo, agora no comando na máquina federal, tenta se perpetuar no poder com as mesmas armas de 2018: fake news e uma ampla campanha contra as instituições democráticas e a confiabilidade das eleições.

Nada mais ardiloso que desferir, de quando em quando, um golpe na credibilidade daqueles que têm a missão de resguardar a lisura do processo, pregando-lhes a pecha de débeis e parciais.

Maríliz Pereira Jorge: Um peso, duas medidas

Folha de S. Paulo

Se Bolsonaro tivesse dito o mesmo que Lula, o mundo teria vindo abaixo

Nesta terça (26), Lula disse que "o mundo está chato pra cacete" e que "todas as piadas agora viraram politicamente erradas". As declarações foram feitas num encontro com influenciadores e mídia independente. "Nós não queremos um mundo unipolar, em que só pode estar na mesa um pensamento, uma tese. Não. Nós queremos um mundo multipolar, que tenha 500 pessoas discutindo na mesa. Aí, sim, a gente vai ter um mundo feliz. O cara contando piada de nordestino, e eu rindo. Eu contando piada de outras pessoas, e as pessoas rindo."

Jair Bolsonaro já disse coisas parecidas. É um crítico ferrenho do politicamente correto. Fosse ele o protagonista desse episódio, o mundo teria vindo abaixo. Ao contrário, não houve manifestações de repúdio. Nem de eleitores, nem de políticos de esquerda. Apenas os ciristas aproveitaram para demonstrar seu desdém ao petista.

Lula não perderá um voto. E isso explica por que parte dos eleitores de Bolsonaro não se abala com suas declarações preconceituosas e, às vezes, criminosas. Não é esse tipo de coisa que define a preferência eleitoral. Para os eleitores de Lula é a mesma coisa. No máximo, progressistas, defensores da censura de piadas de mau gosto, vão engolir quadrado a defesa do petista de "ofender" em nome da liberdade de pensamento e de um mundo menos chato.

Vinicius Torres Freire: O dólar e a ruina brasileira

Folha de S. Paulo

Sem projeto, economia à deriva e deprimida padece também de epidemia de destruição institucional

tamanho da valorização do real e da entrada de dinheiro no Brasil do primeiro trimestre foi surpresa quase geral. Fez com que a manada dos mercados financeiros, então pessimista quanto ao câmbio, mudasse de direção. Parte do gado até passaria a correr para a porteira do dólar a R$ 4,50.

Desde a semana passada, os bois se atropelam na direção contrária porque a biruta da finança mundial virou, sabe-se lá até quando. O dólar está perto de R$ 5 outra vez, valorização mais ou menos disseminada pelo mundo, mas mais forte por aqui, como de hábito.

Na maior parte do tempo, os mercados daqui são toureados pelo que se passa nas praças do centro do mundo, não é novidade. Talvez o preço do dólar fosse um tanto menos instável se a economia brasileira não fosse tão conturbada. Isto é, se tivesse crescimento regular, inflação estável e dívida pública contida, para ficar apenas no feijão com arroz.

Marcelo Godoy: Barroso e o mito de Sísifo

O Estado de S. Paulo

Bolsonaro podia se valer de trecho em que o magistrado elogiou o general Santos Cruz

Há aqueles que se dedicam a interpretar o mundo; outros querem transformá-lo. Luís Roberto Barroso pretende julgá-lo. Ele contou a uma plateia de estudantes sua visão sobre as relações entre civis e militares na República. Acredita que as Forças Armadas no governo Bolsonaro resistiram até aqui às três tentações de Brasília: dinheiro, poder e privilégio. Mas mencionou o risco do que chamou de “retrocesso cucaracha”, a “tradição latino-americana de envolver o Exército na política”.

A despeito de toda civilização antiga e mesmo as suas hierarquias terem se erguido em torno da posse e do uso da palavra, a vida que se criou em Brasília parece desconhecer esse fato. “Platão trata disso em vários diálogos. Dizer as ‘coisas oportunas’ é, por si só, a atividade política, considerada antes de tudo como ‘palavra’”, escreve o filósofo Luciano Canfora.

Eis uma lição que Barroso e tantos deviam aprender. O descaso com as palavras trai os protagonistas da República. Não só pelo uso do termo “cucaracha”, impróprio pela carga racista e depreciativa dos povos latino-americanos ou pelas frases impugnadas pelos militares. 

Jair Bolsonaro podia se valer de outro trecho da fala de Barroso para dizer que, se o magistrado pretende agir politicamente, deve se filiar a partido e se submeter às urnas. Trata-se daquele em que o ministro elogiou generais deixados para trás pelo capitão. Citou Santos Cruz, Maynard Santa Rosa e Fernando Azevedo. Disse que eram “profissionais admirados e respeitadores da Constituição”.

Fábio Alves: A eleição, o perdão e o ingênuo

O Estado de S. Paulo

Há menos tolerância dos investidores para perdoar ataques à democracia ou crises institucionais

Quando a guerra na Ucrânia estourou, muitos analistas atribuíram o aumento no fluxo de capital estrangeiro para ativos brasileiros à fuga dos investidores da Rússia em direção a uma grande economia emergente mais estável política e institucionalmente. A mais recente crise entre o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal (STF) deve afetar essa visão favorável ao Brasil pelos investidores globais.

Já eram esperadas, em 2022, maior volatilidade e turbulência na Bolsa de Valores brasileira e em outros ativos, como o câmbio, em razão das eleições presidenciais. Esperava-se, contudo, que o nervosismo dos investidores com o ciclo eleitoral fosse afetar o mercado brasileiro a partir de agosto, quando normalmente a corrida presidencial pega fogo.

Mas, ao conceder indulto ao deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), condenado a oito anos e nove meses de prisão, o presidente Jair Bolsonaro desafiou o STF e deflagrou uma crise sobre a qual, hoje, ninguém garante que o pior ficou para trás e a tensão acabou.

Bernardo Mello Franco: Mais Lexotan, por favor

O Globo

Bolsonaro e generais se unem em cerco ao Supremo

A usina de crises do bolsonarismo não para nem nos feriados. No dia de Tiradentes, o capitão deflagrou uma nova ofensiva contra o Supremo Tribunal Federal. Numa canetada, concedeu perdão ao aliado Daniel Silveira, condenado na véspera a oito anos e nove meses de cadeia.

O decreto cumpriu duas funções: afrontar a Corte e inflamar a militância de ultradireita contra seus juízes. A estratégia de arrastar o Supremo para o ringue já é conhecida. O deputado marombado foi apenas o pretexto da vez.

No domingo, o ministro da Defesa moveu outra peça para cercar o tribunal. Em nota ríspida, o general Paulo Sérgio Nogueira chamou o ministro Luís Roberto Barroso de “irresponsável” e o acusou de cometer “ofensa grave” contra as Forças Armadas. O general distorceu uma palestra em que o juiz elogiou os militares, mas lamentou a tentativa de usá-los para desacreditar o processo eleitoral.

Elio Gaspari: A luz do Sol desinfeta as urnas

O Globo

O TSE pode eliminar a confusão

Com seu conhecimento da História da República e com sua experiência no poder, Fernando Henrique Cardoso adverte há tempos contra crises que saem do nada. A maior delas foi a renúncia de Jânio Quadros, em 1961. Colocou o país na borda de uma guerra civil, sem motivo nem propósito. Jânio tinha um golpe na cabeça, é verdade, mas a maquinação estava só na cabeça dele, como se viu.

Jair Bolsonaro alimenta uma crise semelhante e colocou no tabuleiro conflitos com o Supremo Tribunal Federal e com a Justiça Eleitoral. Para quê? Afora a vontade de permanecer no governo, não se conhece seu projeto para reduzir o desemprego ou a inflação.

Em poucos dias, surgiram dois focos críticos.

Um é o perdão concedido ao deputado Daniel Silveira. Como o alcance da medida não afeta a inelegibilidade do cidadão, a encrenca desemboca num falso problema. A menos que o Congresso aprove uma lei mudando a regra, o que será jogo jogado.

O segundo foco surgiu com a nota do ministro da Defesa, general Paulo Sérgio de Oliveira, vendo “ofensa grave” numa afirmação “irresponsável” do ministro Luís Roberto Barroso. O magistrado havia dito que as Forças Armadas vêm sendo orientadas para duvidar das urnas eletrônicas.

Barroso não ofendeu as Forças Armadas, basta ler o que ele disse. Elogiou-as. Ademais, a suspeição contra o processo eletrônico de votação é arroz de festa na retórica do presidente Bolsonaro.

Roberto DaMatta: Carnaval, guerra e tortura

O Globo

Os inabaláveis negam justamente o que nos faz humanos: nossa capacidade de mudar mesmo aceitando que o pecado de ontem é, hoje, trivial.

A consciência da nossa finitude certamente explica a atração pelo permanente. Por isso os que pregam certezas atraem tanto. Eles nos impingem que existe mesmo a lâmpada de Aladim e o próprio Aladim. Coisas permanentes como o Everest, ou incorruptíveis como o ouro, compensam nossa impotência diante da morte e do esquecimento. Eventos ou contextos extraordinários — carnaval, guerra, tortura — reavivam identidades que não são inatas, mas internalizadas por nossas línguas e culturas.

No entanto sabemos que injustiças e erros são cometidos e descobertos — a menos que se acredite numa sociedade perfeita — em todo lugar. A subordinação da mulher, a crueldade da escravidão, o machismo feminicida, o preconceito estrutural com os velhos, os lucros promovidos pelo capital contra o trabalho, o tabu de escolher sexualidades, nacionalidades e etnias, de contrariar costumes e, por fim, a abjeta tortura praticada no regime militar revelaram o lado perverso do nosso “bom-mocismo”, graças ao historiador Carlos Fico e à jornalista Míriam Leitão.

Hoje, a tortura, além de vergonha e desonra, é uma abominação jurídica afim aos totalitarismos, mas ela tem uma sólida história. Na Contrarreforma (séculos XVI e XVII), torturar foi legal contra hereges. Fora do nosso lado, era válido extrair confissões pela tortura, que despe de humanidade sobretudo o torturador.

Vera Magalhães: Judiciário emparedado

O Globo

Jair Bolsonaro conseguiu, às vésperas do início oficial de uma campanha há muito já em curso, emparedar o Judiciário. Não foram poucas as vezes em que tentou anteriormente, com arroubos como os atos que culminaram no 7 de Setembro de 2021 ou com a campanha pelo voto impresso.

Nos lances anteriores, fracassou sem exatamente ser contido pelas instituições. Suas manifestações e gestos, que já denotavam a intenção de minar a Justiça, foram enfrentados com inquéritos no próprio Supremo Tribunal Federal, cujo efeito foi sendo diluído no tempo graças a um conjunto de omissões — a começar pelo Ministério Público Federal.

Pois agora, com o decreto em que concedeu a graça presidencial ao deputado Daniel Silveira, Bolsonaro conseguiu encurralar o Supremo de tal maneira que se torna difícil prever os próximos passos.

Como a investida foi de tal forma bem aplicada, o Legislativo também passou a claramente vislumbrar uma nova realidade em que seus integrantes são inatingíveis pela Justiça, algo que também não começou agora, com o parlamentar anabolizado que se recusa a usar tornozeleira eletrônica.

Desde que se organizou a reação à Lava-Jato, de tal modo que todos os políticos escapassem incólumes, foram votadas e aprovadas pelo Congresso várias medidas que minam instrumentos de investigação de crimes do colarinho branco que haviam sido instituídos ou endurecidos nos anos subsequentes. A Vaza-Jato mostrou relações indevidas entre procuradores de Curitiba e o juiz Sergio Moro? Sim, mas a reação coordenada já havia começado antes e não diz respeito apenas aos investigados da 13ª Vara.

Aylê-Salassié F. Quintão*: Navegando nas águas turvas da lei

Quando não cabe um calafrio, vem um desencanto, um desapontamento. A retórica é sempre autoritária, bárbara e vulgar:  

- Invade a casa deles, pô!

- Todos terão de obedecer ao indulto.

- Enfia goela abaixo.

- As Forças Armadas receberam orientação para efetuar ações contrárias à democracia".

Onde estamos?  Que país é este?!!! bradava, há trinta anos, Renato Russo. Todo o tempo, daqui e dali, tem gente tentando incendiar o Brasil. Queira Deus essas ameaças não passem de fanfarronices pré-eleitorais! Nenhuma tem efeito prático ou tem   a ver com a "desprezível" angústia da população com a inflação, com o desemprego, ou acenam com novas esperanças. 

O indulto é o tema da vez. Seria constitucional ou inconstitucional?  Para a população não é nem uma coisa, nem outra. Nesse e em casos similares do passado recente é uma imoralidade. Ajuda somente a encher as piscinas dos que adoram banhar-se em controvérsias amplas da lei para ajudar a confundir a população. Por analogia, crimes maiores por aqui geraram preocupações e dúvidas jurídicas menores aí atrás. Mas as jurisprudências aceitam esses mergulhos infinitos e aventurosos nas águas da lei. 

O Supremo Tribunal Federal tem boa parte da culpa. Cada ministro adora fazer justiça com as próprias mãos, ajudado pela conivência de quem navega, na História, em águas turvas. Não se ouve falar na Corte Suprema dos Estados Unidos, da França, da Inglaterra, de Portugal e até da Argentina. Mas, aqui nossos juízes maiores são manchetes na imprensa diária. Ninguém vê isso.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

A política de Bolsonaro é a da crise permanente

Valor Econômico

Ao STF cabe agora agir com sensibilidade e firmeza

O presidente da República, Jair Bolsonaro, convicto defensor da ditadura militar, voltou a bater os tambores da guerra contra o Supremo Tribunal Federal e as instituições em nome da “liberdade de expressão”. Menos de 24 horas após o STF ter condenado por 10 votos a 1 o deputado Daniel Silveira (PSL) a 8 anos e 9 meses de prisão, um decreto presidencial contestou a interpretação do Supremo sobre os limites do mandato parlamentar e concedeu “graça” a Silveira, que ofendeu integrantes da Corte, defendeu a volta do AI-5 e incitou as Forças Armadas contra a instituição.

O líder do Centrão e presidente da Câmara, Arthur Lira, recorreu ao Supremo para que fique clara que é atribuição da Casa, e não do STF, a cassação de mandatos de parlamentares. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, disse que o decreto de Bolsonaro é legal e nada há a fazer a respeito.

O choque em curso traz riscos evidentes de degradação institucional. O presidente voltou à catilinária contra as urnas eletrônicas e à desmoralização da Justiça, mais passos na marcha constante para contestar os resultados das próximas eleições, caso não seja vencedor. Pior do que isso, a banda fisiológica do Congresso parece ter se alinhado a um ataque antidemocrático de Bolsonaro, o que não havia ocorrido nesta extensão antes.

A investida de Bolsonaro nada teve de amadora ou intempestiva. Explorou as ambiguidades do ativismo do Supremo e suas contradições para fulminar a decisão do STF, revisando-a na prática. O presidente diz estar certo da legalidade do decreto com base em julgamento da Corte sobre o indulto a ex-condenados pela Lava-Jato concedido pelo então presidente Michel Temer em dezembro de 2017 e nos argumentos do voto do ministro Alexandre de Moraes na ocasião. O tribunal aprovou o indulto por 7 a 4.

Poesia | Cora Coralina: Não sei

 

Música | Alceu Valença e Orquestra Ouro Preto: Anunciação