sábado, 27 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editorias / Opiniões

Regra do mínimo corrói reforma da Previdência

O Globo

Como apontou colunista do GLOBO, impacto das economias previstas para dez anos cairá pela metade

Pela nova regra proposta pelo governo e aprovada pelo Congresso no ano passado, o salário mínimo passou a ser corrigido pela inflação do ano anterior somada ao crescimento do PIB de dois anos antes. Em palanques ou no púlpito do Parlamento, defensores da nova lei exaltaram a necessidade de resgatar a dívida social histórica do Brasil. Um olhar mais atento, porém, faz lembrar a máxima atribuída ao Conselheiro Acácio: o problema das consequências é que elas vêm depois. O governo decidiu dar com uma mão, mas acabará tirando com a outra.

Como aposentadorias e benefícios sociais estão atrelados ao salário mínimo, todo aumento repercutirá nas contas do governo. As despesas com o INSS saíram de 2,5% do PIB em 1988 para 8% hoje. Com a nova lei e o envelhecimento da população, não pararão de aumentar. Quanto mais dinheiro for destinado à Previdência e à Assistência Social, menos sobrará para saúde, educação, segurança pública, infraestrutura ou ciência e tecnologia — investimentos capazes de alavancar a economia e beneficiar a renda e o bem-estar dos brasileiros.

Marco Aurélio Nogueira* - Os demônios dos democratas brasileiros

O Estado de S. Paulo

Não há, no Brasil atual, um desaguadouro da movimentação social, que fica assim com baixa potência e pouca incidência reformadora

Agora que o ano político começou, com direito a campanhas eleitorais em gestação e eleições em outubro, é importante pensar nas questões que atormentam o movimento democrático brasileiro desde ao menos 2013, data em que as ruas falaram alto, embaladas pelas redes sociais, que então se disseminavam.

Tal reflexão é, na verdade, uma exigência. Antes de tudo porque o sistema democrático existente realmente funciona voltado para dentro de si mesmo. Privilegia as negociações entre o governo e os demais Poderes de Estado, que estão manchadas pela desconfiança recíproca, pela reduzida transparência e pelo desinteresse em produzir uma ideia de sociedade, políticas claras e eficientes, uma comunicação inteligente com os cidadãos. Isso tem significado que a distância entre governantes e governados permanece grande demais, impossibilitando a formação de um “bloco histórico” de forças que reformem e direcionem o País. Prolonga-se, assim, uma situação de paralisia relativa, diante da qual as atuais ideias de “frente” são meras ilusões ou manobras retóricas.

Bolívar Lamounier* - Perdemos nosso bode expiatório

O Estado de S. Paulo

Em 1936, Sérgio Buarque de Holanda percebeu que algo havia de errado em nossa mania de usar Portugal como uma Geni

Até poucas décadas atrás, nossa pobreza era mais ou menos igual à de hoje, mas vivíamos bem, tínhamos até certo senso de humor, porque tínhamos um excelente bode expiatório: Portugal.

Toda vez que um indivíduo mencionava uma mazela, outro replicava: culpa de Portugal. Culpa da colonização. Azar nosso termos sido descoberto por um país pequeno, pobre e atrasado. Com seu inexcedível brilho, o compositor Chico Buarque ressaltou que xingar o Brasil era pouco, era preciso injuriá-lo, e tascou: um dia vamos nos tornar um grande Portugal. Pois é, ilustre poeta, que pena você ter errado por uma margem tão larga. Quem nos dera se tivéssemos realizado o sonho de nos tornarmos um grande Portugal. Hoje, somos um país estagnado, incapaz de retomar o crescimento econômico, vendo a criminalidade subir à estratosfera e moradores de rua se apinhando até nos melhores bairros das melhores cidades.

Luiz Gonzaga Belluzzo - Necessidades e interesses

Os líderes do pós-Guerra negaram-se a entregar o destino das massas ao liberalismo econômico dos anos 20, embrião do nazifascismo

Vou perturbar os leitores de CartaCapital com considerações a respeito das duas dimensões que convivem nas sociedades capitalistas: as necessidades e aspirações coletivas de boa vida dos cidadãos e os interesses particularistas que se realizam através do mercado. Nesse jogo, crucial para a vida moderna e civilizada, deve-se reconhecer que a convivência entre os interesses contrapostos exige um exercício permanente das políticas comprometidas com a soberania popular e com o bem-estar dos cidadãos.

O debate contemporâneo está contaminado por indagações binárias do tipo “é isto ou aquilo”. Estado ou Mercado?

É ousadia deselegante um modesto economista invocar um filósofo da estatura de Hegel para arrostar essa banalidade. Mas vou cometer tal impropriedade. Na Introdução à Ciência da Lógica o mestre de Iena asseverou:

“Quando as formas são tomadas como determinações fixas e consequentemente em sua separação uma da outra, e não como uma unidade orgânica, elas são formas mortas e o espírito que anima sua vida, a unidade concreta não reside nelas. …O conteúdo das formas lógicas nada mais é senão o fundamento sólido e concreto dessas determinações abstratas”.

As lideranças democráticas subiram os impostos sobre os ricos e, assim, ensejaram a prosperidade

A unidade orgânica entre as dimensões do capitalismo foi reconhecida no acolhimento dos direitos sociais e econômicos, na posteridade da Segunda ­Guerra Mundial por europeus e americanos. ­Roosevelt, Atlee, De Gaulle, De ­Gasperi e Adenauer sabiam que não era possível entregar o desamparo das massas aos desvarios do liberalismo econômico dos anos 20, matriz das soluções nazifascistas que demoliram as liberdades. Por isso, sacralizaram os princípios do liberalismo político para expurgar da vida social o arranjo econômico liberal dos anos 20, origem dos totalitarismos.

Pablo Ortellado - Conservadorismo entre homens jovens

O Globo

A explicação mais simples é a reação ao movimento feminista

Na edição de ontem do jornal Financial Times, o repórter-chefe de dados, John Burn-Murdoch, compilou estatísticas interessantes mostrando a crescente divergência ideológica entre homens e mulheres jovens em diferentes países. Enquanto elas têm se tornado mais progressistas, eles se tornaram mais conservadores. A constatação merece reflexão.

Desde que a polarização política se tornou global, diversos pesquisadores perceberam um padrão demográfico. Enquanto os mais jovens aderem ao progressismo, os mais velhos se agarram ao conservadorismo. O principal estudo apresentando essa tese, a partir de dados dos Estados Unidos e Europa, é dos cientistas políticos Pippa Norris e Ronald Inglehart no já clássico livro “Cultural backlash” (Cambridge, 2019).

Eduardo Affonso – 200

O Globo

Vão acabar com a Feira de Acari, talvez com a mesma logística usada para dar fim às cracolândias: mudando seu endereço

Hoje vou me permitir uma heresia: um texto em primeira pessoa. Eu, que fujo dela como um pobre-diabo, se pudesse, fugiria do SUS. Porque é desnecessária: numa coluna de opinião, em cada frase há um “eu” implícito. O Houaiss endossa: opinião é o “julgamento pessoal (justo ou injusto, verdadeiro ou falso) que se tem sobre determinada questão”.

Quando o colunista diz “é”, não quer dizer que seja, mas que ele vê dessa forma. Tomar partido — pecado no jornalismo — no artigo de opinião é virtude. Mais: é sua razão de ser.

Anúncio classificado tem viés (“Magnífico 2 quartos, claro, arejado”). Previsão do tempo tem subjetividade (“Chance de alguns raios e ventos moderados. Demais regiões com pouca chuva”). Por que uma coluna de opinião deveria ser “neutra”? Como haveria de ser “objetiva”?

Carlos Alberto Sardenberg - Para os amigos, tudo

O Globo

Culpados, com sentenças em todas as instâncias, não são declarados inocentes. Apenas se arranja uma formalidade, e todo mundo livre

Quando a descoberta dos casos de corrupção estava no auge, derrubando políticos e empresários, tive uma boa conversa com Fernando Henrique Cardoso, já ex-presidente, sobre as relações perversas entre os interesses públicos e privados no Brasil. Um grande empresário, que começava a ser apanhado, havia dito a interlocutores que estava em curso a formação de ampla aliança para acabar com aquela sangria. FH estaria nesse movimento.

De jeito nenhum, disse o ex-presidente quando o procurei para checar a história. Lembro que ficou bem incomodado. Falou com várias pessoas para entender e desmentir a versão do empresário — que, aliás, acabou preso e fez delação.

Para além dos fatos, a questão que colocava para o político e sociólogo FH era a seguinte: como o país havia sido tão tolerante com a corrupção? Pensando bem, o que mais chamava a atenção na Lava-Jato e noutras operações não era propriamente a roubalheira revelada, mas o fato de, finalmente, apanharem os corruptos.

Carlos Góes - O que a economia diz sobre a nova política industrial do governo

O Globo

Esperemos que guardem alguns milhares para avaliar os bilhões em subsídios. Aí no futuro poderemos aprender com nossa realidade

Esta semana, o governo federal lançou um grande pacote de política industrial, com vistas ao que ele mesmo denominou de “neoindustrialização”. Por meio do BNDES, o governo vai oferecer crédito (subsidiado) de até R$ 300 bilhões para a indústria nos próximos dois anos. O lobby da grande indústria, como a CNI e a Fiesp, como esperado, celebrou.

Por um lado, a medida evoca uma série de políticas de sucesso duvidoso da era da escolha de campeões nacionais, na década passada. Por outro, ela também vem na esteira de novas evidências científicas sobre políticas industriais, que mudaram o consenso negativo de outrora em relação a essas políticas.

E quais são essas novas evidências?

Hélio Schwartsman - Democracia amputada

Folha de S. Paulo

Sub-representação de paulistas na Câmara dos Deputados é falha institucional grave que cobra reparo

Se a escola pública fosse um pouco melhor e ensinasse direito os rudimentos da matemática, paulistas já teriam pegado em armas para pôr um fim à escandalosa sub-representação política a que estão submetidos. Se temos interesse em manter a democracia, como acho que temos, é importante apontar os garrotes que a apertam, de modo que possamos aprimorá-la.

Um desses gargalos é o teto constitucional de 70 deputados federais por estado. Apenas São Paulo é atingido por tal mecanismo, que representa uma violação ao mais elementar dos princípios democráticos, que é o de que o voto de todos os cidadãos deve idealmente ter o mesmo peso. Mas na Câmara dos Deputados, onde a lógica do "um homem, um voto" deveria prevalecer, isso não ocorre. A Casa abriga 513 parlamentares. Numa conta de guardanapo, SP, com 22,2% da população do país, faria jus a uma bancada de 114, mas, por causa do teto, tem sua representação tolhida em 44 assentos, o que equivale mais ou menos a um RJ.

Dora Kramer - Fuga dos extremos

Folha de S. Paulo

Nunes vai isolar extremistas para fugir do embate entre Lula e Bolsonaro na campanha

A disposição do presidente Luiz Inácio da Silva (PT) de fazer da eleição de 2024 um ensaio para 2026 e, notadamente em São Paulo reeditar o embate de 2022 entre ele e Jair Bolsonaro (PL), impõe um desafio ao prefeito Ricardo Nunes (MDB): manter o foco nos problemas da cidade em sua campanha pela reeleição.

Nunes está convicto de que, se dançar conforme a música de Lula, corre o risco de cair numa armadilha. Por isso, seu tom será outro. "Vou sair da discussão de terceiro turno da eleição presidencial" avisa, concentrado que estará em estabelecer as diferenças entre Guilherme Boulos, candidato do PSOL, e ele na capacidade de administrar a maior cidade do país.

Adriana Fernandes - STF, Haddad e taxação de importados

Folha de S. Paulo

Supremo pode tirar bomba da taxação de importados do colo de Haddad

taxação das compras internacionais até US$ 50 colocou o STF (Supremo Tribunal Federal) mais uma vez como ator central na decisão de um tema sensível para a política econômica do governo Lula 3.

Com o movimento das duas maiores confederações empresariais CNI (indústria) e CNC (comércio) de entrar com uma ação no STF para acabar com a política de tarifa zero do Imposto de Importação de bens de pequeno valor que são enviados a pessoas físicas no Brasil, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, saiu do foco de pressão do Planalto, contrário a qualquer tipo de taxação.

Bom para Haddad, que tira essa bomba de impopularidade do seu colo. Ruim para muitas lideranças do Congresso que seguem incomodadas e críticas à pauta econômica tomando o caminho na direção do prédio ao lado da praça dos Três Poderes, o do Supremo.

Demétrio Magnoli - Esquecer Auschwitz?

Folha de S. Paulo

Ação sul-africana e apoio do governo Lula a ela é estufa de mudinhas do antissemitismo

Este sábado (27), aniversário da libertação de Auschwitz, é o Dia Internacional da Memória do Holocausto. O governo da África do Sul, com apoio do governo do Brasil, decidiu enterrar a memória do genocídio dos judeus europeus por meio de uma cínica acusação de genocídio contra o Estado judeu.

Na guerra civil síria, o regime de Bashar al-Assad matou mais de 300 mil civis. Cidades inteiras sofreram bombardeios devastadores. Forças do Irã e da Rússia participaram dos massacres. Nenhum país acusou a Síria, na CIJ (Corte Internacional de Justiça), de praticar genocídio. Com razão: a ditadura síria não cometeu o crime dos crimes.

Oscar Vilhena Vieira* - O movimento das marés

Folha de S. Paulo

Tudo indica que nos EUA a onda de populismo autoritário voltará com mais força e fúria

É um equívoco achar que as marés simplesmente passam. Elas vêm e voltam. E tudo indica que nos Estados Unidos a onda de populismo autoritário, encabeçada por Donald Trump, retornará com mais força e fúria. Ressentido, Trump não poupará esforços para romper as amarras estabelecidas pela Constituição para que possa exercer o poder sem embaraços.

Se há uma característica comum às diversas vertentes do populismo autoritário é o seu anti-institucionalismo. As instituições liberais, criadas para estabilizar relações e conter o exercício arbitrário do poder, devem ser subjugadas ou capturadas, para atender os desígnios do líder populista.

O emprego da Abin para investigar opositores e autoridades vistas como inimigas por Bolsonaro, além de proteger familiares, se comprovado, é uma amostra de como populistas autoritários instrumentalizam as instituições para atender seus objetivos.

Poesia | Balada do amor através das Idades, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Alceu Valença - De Janeiro a Janeiro (com. Maria Bethânia)

 

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Limitar trabalho aos feriados é um contrassenso

O Globo

Ministério do Trabalho deveria cuidar de temas mais importantes, em vez de impor amarras ao que funciona bem

O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, anunciou que editará nova portaria para regulamentar o trabalho aos feriados. Espera-se que o governo desfaça a confusão criada em novembro do ano passado, quando, sem ouvir a sociedade, o ministério decidiu impor novas regras que dificultam a abertura do comércio nos feriados, desagradando a empregadores, empregados e consumidores. Melhor seria não fazer nada. Na melhor das hipóteses, a portaria será mais uma regulação inútil. Na pior, um empecilho para quem mantém negócios que geram empregos.

A portaria de novembro revogava outra, editada pelo governo Jair Bolsonaro em 2021, reduzindo a burocracia para estabelecimentos comerciais funcionarem aos domingos e feriados. Diante da grita do comércio, Marinho adiou a iniciativa e prometeu discuti-la com os afetados. Fez depois o que deveria ter feito antes. De acordo com ele, a portaria de Bolsonaro afrontava a lei, que permite trabalho aos fins de semana, mas exige negociação com sindicatos para os feriados (algumas cidades brasileiras como Rio de Janeiro e São Paulo já estão adaptadas a essa norma).

Fernando Abrucio - Lula precisa de novas ideias e de boa gestão

Valor Econômico

São fundamentais a definição clara de metas e indicadores, monitoramento contínuo, articulação de organizações e dos entes federativos, engajamento da burocracia e construção de lideranças em vários níveis

Se Lula tivesse um espelho mágico para o qual pudesse perguntar o que deveria fazer para ter sucesso no terceiro mandato, a resposta poderia ser a seguinte: “Presidente, é necessário corrigir os males deixados pela gestão bolsonarista, além de recuperar bons programas e políticas que foram criados e desenvolvidos depois da Constituição de 1988, inclusive em alguns dos seus mandatos anteriores. Mas o futuro está batendo à sua porta e é preciso decifrá-lo antes que ele devore seu governo”.

O enigma proposto ao final pelo espelho mágico é a grande questão do governo Lula III: o passado, tanto o recente desastre bolsonarista quanto as respostas bem-sucedidas e saudosas dos outros dois mandatos, não serão suficientes para melhorar o desempenho governamental e garantir um fôlego político maior ao lulismo. É possível até obter a reeleição do presidente em 2026 jogando quase parado, sem grandes mudanças, mas tudo será mais difícil com essa estratégia, seja na construção da governabilidade nos próximos anos, seja num possível resultado eleitoral que não seria muito diferente do quase empate de 2022.

O governo Lula III precisa ter uma agenda específica voltada à realidade do século XXI, o que exige um novo impulso inovador e reformista. Trata-se de montar uma agenda com prioridades claras e foco preciso, baseada em ideias novas e bons mecanismos de gestão. Afinal, o sucesso do Plano Real e do Bolsa Família não derivou apenas de concepções econômicas e sociológicas corretas. A administração cuidadosa de todas as dimensões da implementação foi fundamental nesses dois casos bem-sucedidos.

César Felício - Ramagem e os 50 anos do caso Watergate

Valor Econômico

Operação da PF confirma a tendência de o Judiciário ser determinante na política do Rio de Janeiro neste ano

A operação da Polícia Federal contra o deputado federal Alexandre Ramagem (PL) na quinta-feira confirma a tendência de o Judiciário ser determinante na política do Rio de Janeiro neste ano. Há uma cronologia de episódios potencialmente explosivos que confluíram no cenário local em apenas um mês, antes de chegar ao pré-candidato à prefeitura da capital chancelado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.

Exatamente uma semana antes foi a vez de os federais baterem à porta do colega de bancada de Ramagem, Carlos Jordy, pré-candidato avalizado por Bolsonaro à Prefeitura de Niterói. Duas outras investigações lançam sombras sobre a política local. São de origem estadual, mas federalizaram-se. O impacto delas dependerá de bombas de tempo que ainda não detonaram.

Maria Cristina Fernandes - Operação da PF sobre Abin abre novo flanco no bolsonarismo, mas mantém os mesmos vícios

Valor Econômico

Excepcionalidade aberta pelo STF no inquérito das fake news é reproduzida no caso da Abin

A deflagração da operação da Polícia Federal que investiga o aparelhamento de um contrato entre a Abin e a empresa israelense Cognyte (ex-Verint) permite ao governo e ao Supremo Tribunal Federal realocar o foco de investigações e inquéritos até aqui dominados pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023.

Passado um ano daquela intentona, cujo julgamento desperta, até entre governistas, a percepção de que a bandeira da defesa da democracia passou a abrigar exageros pontuais, eis que surge um caso de indiscutível ilegalidade, pela invasão de privacidade e aparelhamento de uma agência de Estado. O problema não está nas operações sigilosas mas no uso delas para municiar o presidente de informações que não são do interesse nacional.

José de Souza Martins* - A escravidão no púlpito

Valor Econômico

À luz da Bíblia, muitas concepções e atitudes que, do ponto de vista de nossos dias, são condenáveis, nos tempos bíblicos não o eram

Uma conferência evangélica sobre teologia, marcada para acontecer durante o Carnaval, na Paraíba, teria como orador destacado o pastor fundamentalista americano Douglas Wilson. Ele já não virá ao Brasil. O convite foi cancelado e ele próprio abriu mão da visita. É o que explica Anna Virginia Balloussier, na “Folha de S. Paulo”, em detalhado artigo.

O assunto é da maior importância no tenso cenário brasileiro de controvérsias ideológicas e sociais envolvendo religião e política. O nome do pastor foi impugnado especialmente por ser ele autor de obras sobre a justificativa bíblica da escravidão. Mas não o foi porque alguém estivesse em desacordo com ele. E sim por temor da nossa reação a essa concepção reacionária da condição humana. Seu discurso poderia ser interpretado como justificador da escravidão daqui.

Entrevista | Alckmin descarta risco fiscal e diz que política industrial pode superar R$ 300 bi

Vice-presidente afirma que regras do plano estão dentro das normas da OMC

Estevão Taiar e Andrea Jubé / Valor Econômico

O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Geraldo Alckmin (PSB), afirmou em entrevista exclusiva ao Valor que a nova política industrial poderá ter até mais do que os R$ 300 bilhões previstos inicialmente. Contrariado com as críticas de que o plano Nova Indústria Brasil (NIB) colocaria em xeque o equilíbrio das contas públicas, ele desafiou: “Ninguém tem mais compromisso com a responsabilidade fiscal do que eu”.

O titular do Mdic observou que o programa contempla cerca de R$ 75 bilhões por ano para a revitalização da indústria. “Se puder crescer, ótimo”, ponderou, em tom de otimismo. Mas ele ressaltou que o plano não terá custos fiscais além dos que já estavam previstos no Orçamento. Mesmo que o programa seja expandido, o governo federal não realizará aportes no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Vera Magalhães - Fim dos privilégios ou novos privilegiados?

O Globo

Pregação de Haddad contrasta com reabilitação de compadrio petista e velhas práticas de governos anteriores

O ministro Fernando Haddad está convencido de que o fim de privilégios e benefícios de diversas naturezas, sobretudo fiscais, concedidos a grupos setoriais não reverteram em ganhos para o conjunto da sociedade que justifiquem a União abdicar de bilhões em arrecadação que poderiam ajudar a colocar as contas no lugar e o governo a fazer os investimentos nas prioridades enunciadas por Lula na campanha.

Trata-se de uma posição clara, principiológica, de que se pode divergir em parte ou no todo, mas que demonstra um compromisso com uma linha de condução do Ministério da Fazenda voltada para uma gestão fiscalmente responsável, o que vem agradando ao mercado e ao setor produtivo.

Mas há uma tremenda incongruência, capaz de derrubar o discurso do ministro, nas ações cada vez mais explícitas do presidente, do PT e de vários outros ministérios no sentido oposto: canalizar os privilégios para aqueles mais próximos, criando novas castas e novas discrepâncias.

Bernardo Mello Franco - O sequestro do Orçamento

O Globo
Presidente da Câmara lidera motim contra corte em emendas parlamentares; Lula é avisado de que veto deve ser derrubado

Lula derrotou o bolsonarismo e afastou a ameaça de golpe, mas ainda patina para cumprir outro desafio de seu terceiro mandato: restaurar o presidencialismo no Brasil.

O sistema tem regras simples: o Judiciário julga, o Legislativo legisla e o Executivo governa. Nos últimos tempos, o Legislativo passou a legislar e governar. Sequestrou o Orçamento e esvaziou o poder presidencial.

Num país em que falta dinheiro para o básico, a verba reservada às emendas parlamentares quase triplicou em cinco anos. Em 2024, o valor previsto é recorde: R$ 47,5 bilhões. Passaria de R$ 53 bilhões, não fosse o veto de Lula no início da semana.

O corte de R$ 5,6 bilhões nas emendas de comissão gerou um clima de motim no Congresso. O chefe da grita é o deputado Arthur Lira, que ameaça derrubar o veto e impor outras derrotas ao Planalto.

Flávia Oliveira - Favela, sim

O Globo

Denominação já foi pejorativa. Há tempos vem sendo ressignificada

Ela subiu tranquilamente o caminho que leva ao topo da favela onde nasceu. Caminhou sentindo o banzo, precisamente definido como impossibilidade de retorno. O lugar que a forjou, o Morro Pindura Saia, não existe mais desde os anos 1970, quando autoridades deram por concluído o desfavelamento — remoção, no Rio de Janeiro — da área posteriormente transformada no bairro Cruzeiro, na região Centro-Sul de Belo Horizonte. Do território retratado pela autora de “Becos da memória” (2006), restam um punhado de casas espremidas entre edifícios de classe média e o prédio de 1897 que abriga o primeiro reservatório de água da cidade, ainda em funcionamento.

Eliane Cantanhêde - De barriga cheia

O Estado de S. Paulo

Congresso se arma para derrubar o veto a R$ 5,6 bi de emendas, mas já conseguiu R$ 47,5 bi

O recesso acaba e o ano legislativo começa em clima de guerra não só com o Judiciário, mas com o Executivo. Enquanto o ministro Fernando Haddad queima as pestanas por um acordo sobre a desoneração da folha de pagamentos, a nova crise já chegou, com o veto do governo a R$ 5,6 bilhões das emendas de comissão. O Congresso chora de barriga cheia e o Planalto se atrapalha na interlocução com quem decide. A coisa terminou mal em 2023 e começa pior em 2024.

No centro da crise está Arthur Lira, presidente da Câmara e principal líder do Centrão, para quem o foco maior da “negociação política” não está em ministérios e cargos, mas, sim, nas emendas para deputados e senadores favorecerem suas bases e eleitores. Quanto a “desvios”? Bem, isso é outra história.

Celso Ming - IA e destruição de empregos

O Estado de S. Paulo

À medida que avança a utilização da tecnologia da inteligência artificial (IA), cresce o temor de destruição de empregos e complicam-se os desafios das autoridades de lidar com a novidade.

A substituição de atividades profissionais em consequência do avanço da tecnologia é coisa antiga. A criação da lâmpada elétrica, por exemplo, matou o emprego dos acendedores de lampiões. E, muito antes disso, as máquinas automáticas tomaram o lugar das ocupações repetitivas nas fábricas – o que levou, no início da Revolução Industrial, ao ludismo, o movimento dos trabalhadores que se puseram a quebrar as máquinas.

No entanto, ao mesmo tempo em que novas tecnologias extinguiram profissões, outras oportunidades foram criadas. Sempre que isso aconteceu, a sociedade conseguiu se adaptar às mudanças e gerou mais empregos e com melhor remuneração.

Luiz Carlos Azedo - Operação da PF pode bater em generais golpistas

Correio Braziliense

Havia um golpe em marcha em 8 de janeiro de 2023, cujo objetivo era destituir Lula, prender Alexandre de Moraes e, possivelmente, tirar a então presidente do STF, ministra Rosa Weber, do comando da Corte

No livro Artes da política: diálogo com Amaral Peixoto, uma longa entrevista com um dos caciques do antigo PSD — que foi senador, governador eleito do antigo Estado do Rio e embaixador nos Estados Unidos — concedida a Aspásia Camargo, Lucia Hippolito e Maria Celina D'Araújo (Rio de Janeiro: Nova Fronteira/CPDOC-UFF, 1986), a velha raposa política conservadora explica de forma simples e clara a razão pela qual não apoiou o golpe de 1964: era "a morte da política".

Na cúpula do PSD, seu aliado foi Tancredo Neves, porque o ex-presidente Juscelino Kubitschek e Ulysses Guimarães — que depois viria presidir o MDB e liderar a oposição ao regime dos generais —, àquela ocasião, apoiaram o golpe de Estado no qual os militares destituíram o presidente João Goulart. Ao longo de 20 anos de ditadura, gradativamente, os políticos liberais de todos os matizes derivaram para a oposição. Ao contrário da Revolução de 1930, os militares não delegaram o poder para os civis golpistas.

Havia um golpe em marcha em 8 de janeiro de 2023. O objetivo era destituir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Alexandre de Moraes, quiçá a então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Rosa Weber, que se aposentou no ano passado. Houve resistência ao golpe na cúpula do governo, liderada pelo presidente do PP, senador Ciro Nogueira (CE), e pelo ministro das Comunicações, Fabio Faria (PP-RN), com apoio do ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Jorge Oliveira, que fora secretário-geral da Presidência da República. No grupo de militares palacianos, a única voz discordante era o então ministro de Assuntos Estratégicos, almirante Flávio Rocha.

Orlando Thomé Cordeiro* - Eleições municipais e polarização

Correio Braziliense

Sem dúvida, a estrutura partidária vigente e a legislação a ela associada permitem, e até mesmo estimulam, a participação de pessoas em que a motivação principal é ter uma instituição cartorial para chamar de sua

A pouco mais de oito meses para as eleições municipais, estamos presenciando a habitual movimentação de pré-candidatos escolhendo as legendas pelas quais concorrerão e costurando suas alianças. E mais uma vez, como parte da nossa trágica tradição política, essas tratativas passam longe de alinhamento em torno de programas de governo.

Sem dúvida, a estrutura partidária vigente e a legislação a ela associada permitem, e até mesmo estimulam, a participação de pessoas em que a motivação principal é ter uma instituição cartorial para chamar de sua. Uma característica marcante na maioria das 29 agremiações atualmente registradas no TSE, independentemente de seu tamanho, é a figura do chamado "dono do partido". Para agravar o cenário, o site da Justiça Eleitoral apresenta uma lista com pedidos em andamento para criação de 25 partidos! É óbvio que tal miríade ultrapassa, e muito, uma real representação de visões ideológicas ou programáticas presentes na sociedade.

Hélio Schwartsman - Biden ainda é o favorito

Folha de S. Paulo

Trump avança na disputa para obter indicação dos republicanos, mas enfrentará obstáculos na eleição

A esperança é a última que morre, mas acho que, a essa altura, nem Nikki Haley acredita muito em suas chances de tirar de Donald Trump a indicação do Partido Republicano para concorrer à Presidência em novembro. Se havia um estado em que um republicano anti-Trump tinha condições de vencer as primárias, era New Hampshire, mas ela não conseguiu. Perdeu por 54% a 43%. Ao que parece, teremos mesmo um repeteco da disputa Biden-Trump.

Vinicius Torres Freire - Instituições funcionam para o mal

Folha de S. Paulo

Tem mafuá entre Congresso e STF, bocas ricas no Estado e favores para a 'burguesia'

"As instituições estão funcionando" é uma frase de quem passa pano para a crise democrática e econômica brasileira. De tão batida, no seu emprego irrealista ou picareta, se tornou cediça, podre, e motivo de sarcasmo gaiato.

Além de defeitos de base, por beneficiar quem tem mais poder ou sustentar hierarquias nefastas, o funcionamento das instituições se tornou ainda pior desde 2013, lama da qual não saímos.

Basta dar uma olhada no noticiário para notar várias instituições funcionando como uma fossa séptica entupida.

Bruno Boghossian - A 'inteligência' da Abin paralela

Folha de S. Paulo

Aparelho foi criado para bisbilhotar rivais e ajudar família do presidente a fugir da polícia

Quando passou um pito em sua equipe e reclamou dos órgãos de inteligência que deveriam abastecer seu gabinete, Jair Bolsonaro pegou mais leve com um departamento específico. Na famosa reunião ministerial de abril de 2020, o presidente se queixou da Polícia Federal e das Forças Armadas, mas disse que a Abin lhe dava "algumas informações".

Bolsonaro afirmou que a agência ainda tinha um problema de "aparelhamento". Meses depois, o problema foi resolvido. Em julho, a Abin criou uma máquina operada por homens de confiança do diretor-geral, Alexandre Ramagem, para bisbilhotar rivais e buscar informações para proteger a família do presidente.

André Roncaglia* - Histeria anti-indústria revela o atraso de economistas liberais

Folha de S. Paulo

Eles ficam presos a ideias obsoletas na sanha de perpetuar o atual modelo extrativo-agrofinanceiro

A histeria que se seguiu à apresentação do pacote inicial de medidas pelo MDIC/BNDES revela o atraso de economistas liberais brasileiros; na sanha de perpetuar o atual modelo extrativo-agrofinanceiro, prendem-se a ideias obsoletas.

A pandemia e a temporada de guerras quentes catalisaram profundas mudanças geopolíticas, as quais exigem um olhar renovado sobre a economia, como destacou estudo recente do FMI (2024).

A prestigiada Harvard Business Review destacou a "nova era da política industrial". O plano Biden prova que até Washington abandonou o consenso dos anos 1990, com seu trilionário pacote de subsídios e incentivos setoriais.

A revista The Economist (02/01) desnudou o novo espírito do tempo com sua típica objetividade: "uma economia deve evoluir da pobreza agrária para indústrias diversificadas [para] que possam competir com países rivais que são ricos há séculos."

Cláudio Carraly - Pela Imediata Reinstalação da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos

Hoje, nos deparamos com um chamado que transcende as divisões políticas, ideológicas e temporais. Este é um apelo à nossa consciência coletiva e ao nosso compromisso inabalável com os princípios fundamentais da justiça, dos direitos humanos e da verdade histórica. Trata-se da necessidade urgente de reinstalar a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, uma instituição que desempenhou um papel essencial em nossa jornada rumo a uma sociedade mais justa e democrática.

A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, instituída em 1995, emergiu como uma luz de esperança em meio às sombras do passado autoritário de nossa nação. Sua missão era clara: investigar e documentar os casos de indivíduos que foram mortos ou desapareceram durante a ditadura no Brasil, que perdurou de 1964 a 1985. Durante seu funcionamento, a comissão se tornou um farol de humanidade, respondendo a uma questão inerentemente humanitária, a busca por entes queridos perdidos e a verdade por trás de suas histórias. A justiça, a verdade e a memória histórica são os pilares sobre os quais nossa sociedade democrática se apoia.

Poesia | Quando olho para mim, de Fernando Pessoa

 

Música | VILA ISABEL Carnaval 2024 - Samba Enredo

 

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Trump representa perigo imenso para o mundo

O Globo

Prévias republicanas mostram que é preciso desde já levar a sério o risco de sua volta à Presidência

As duas primeiras prévias do Partido Republicano — nos estados de Iowa e New Hampshire — confirmaram o favoritismo de Donald Trump. Descartados efeitos de eventos imprevisíveis, como condenações judiciais nos processos em que é réu, o mais provável é que seu nome esteja nas cédulas em novembro. Pelas pesquisas, ele hoje derrotaria o presidente Joe Biden, virtual candidato democrata, na maioria dos estados necessários para vencer a eleição. É verdade que tudo pode acontecer até lá, mas o risco de uma eventual vitória de Trump precisa ser levado a sério desde já.

Líderes políticos e empresariais de todo o mundo começam a traçar cenários sobre sua volta à Casa Branca. Não causa surpresa que as conclusões sejam preocupantes. As avaliações, afinal, não são feitas com base em suposições. Nos quatro anos em que ocupou a Presidência, entre 2017 e 2020, Trump criou um clima de caos e incerteza em torno de sua personalidade errática e mercurial. Desagradou mais a aliados que a inimigos históricos dos Estados Unidos. Foi explícito ao pôr em questão a Otan, aliança militar com os europeus. Aproximou-se de Vladimir Putin, Kim Jong-un e outros autocratas. Num eventual segundo mandato, a única certeza é a incerteza.

Paulo Sternick* - A trama da desatenção

O Globo

O sentimento de impotência substitui o idealismo, e um realismo conformista ocupa o lugar que era do romantismo

‘Eu não sei dizer, nada por dizer, então eu escuto’ — diz a bonita letra musical. Podia ser frase de psicanalista à espera de um sinal do inconsciente, em meio ao jorro de falas do analisando. Mas também um canto retraído e perplexo do sujeito atual, diante dos absurdos que o cercam. Afinal, dizer o quê? Como se a palavra já tivesse morrido, tamanha sua inocuidade. E o escritor, enquanto nada articula, escuta sua alma discutir a função e a utilidade da escrita. O dilema paralisante pode ser injusto com os que precisam manter o espírito aceso por ideias que os ajudem a encontrar sentido para suas perplexidades.

Será o escritor capaz de atender à expectativa, emergir da banalidade e articular ideias instigantes, ressuscitando a palavra — como na arte que se afasta ou distorce a realidade para, em seguida, desvelar suas nuances? Pois bem. Uma conspiração mundial estaria em curso — anônima, inconsciente, coletiva. Mas, ao mesmo tempo, como se houvesse um desígnio subterrâneo, um projeto intencional, tão efetivo que se expressa em sua universalidade automática. Com a cumplicidade das vítimas. A estratégia é deixar todos os indivíduos desatentos. É uma conspiração da desatenção, de manter os seres entorpecidos — mesmo aqueles que, na superfície, parecem resistir e criticar.

Merval Pereira - Simulacros e arremedos

O Globo

Por que será que o presidente Lula se considera no direito de fazer de Guido Mantega — ministro da Fazenda do desastroso governo Dilma Rousseff, responsável pela fracassada “nova matriz econômica” — presidente da Vale? Será que ele não se lembra de que a Vale é uma empresa privada? Será que não sabe que os fundos de pensão das estatais são sócios minoritários, sem força para eleger o presidente da empresa? Será que não se convenceu de que os fundos de pensão de estatais não podem ser manipulados politicamente, pois acabam prejudicando os trabalhadores aposentados?

Até hoje há aposentados de estatais, como a Petrobras, que sofrem desconto do que recebem para compensar o prejuízo causado pelo petrolão. Claro que Lula sabe dessas coisas, e muito mais. Sabe que a vida da Vale pode virar um inferno se o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) ou a Agência Nacional de Mineração (ANM) quiserem boicotar a empresa nas concessões de licenças ambientais e de mineração.

Luiz Carlos Azedo - Eleição paulistana tem potencial de desagregar o governo

Correio Braziliense

Ao se engajar diretamente na disputa paulistana, Lula dá uma guinada à esquerda na sua política de alianças, que se estreita em São Paulo

O envolvimento direto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ex-presidente Jair Bolsonaro nas eleições para a Prefeitura de São Paulo é o epicentro de um realinhamento de forças políticas nas eleições municipais de consequências imprevisíveis. Até agora, Lula está se saindo melhor, com a refiliação de Marta Suplicy ao PT e sua indicação para a vice de Guilherme Boulos (PSol), o candidato de esquerda que lidera as pesquisas. Com isso, o candidato de Lula amplia suas possibilidades eleitorais em direção às periferias paulistas, onde a ex-prefeita é popular, e a sua capacidade de interlocução com a elite de São Paulo, da qual ela faz parte.

Na cidade de São Paulo, Lula venceu as eleições contra Bolsonaro. Obteve 3.677.921 votos, o que corresponde a 53,54% dos votos válidos, ante 3.191.484 votos — ou seja, 46,46% dos votos válidos do ex-presidente. Natural, portanto, que o prefeito Ricardo Nunes (MDB) busque o apoio da extrema direita, não apenas por intermédio do governador Tarcísio de Freitas (PR), mas com o engajamento direto do ex-presidente na sua campanha.