quinta-feira, 14 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Sequestro de ônibus expõe dilemas da segurança pública

O Globo

Polícia fez trabalho exemplar, mas atirador deveria estar preso por não usar tornozeleira eletrônica

Graças à atuação exemplar da polícia, o sequestro de um ônibus na Rodoviária do Rio na terça-feira, apesar de ter deixado uma vítima em estado grave, não se tornou uma tragédia de proporções maiores. No veículo, com destino a Juiz de Fora, 16 passageiros — entre eles crianças e idosos — foram mantidos reféns durante três horas por um passageiro de 29 anos que, antes de embarcar, atirou noutro passageiro ao confundi-lo com um policial. O atirador é um criminoso condenado que, segundo a polícia, fugia do Comando Vermelho, principal facção do crime organizado no Rio. A vítima foi atingida no coração, no pulmão e no baço e, infelizmente, continuava internada nesta quarta-feira. Apenas mais um passageiro foi ferido por estilhaços.

Do início ao fim, a ação da polícia seguiu todos os protocolos recomendados. A rodoviária, por onde circulam 30 mil passageiros diariamente, foi desocupada após a chegada dos agentes, e o trânsito interrompido no entorno. Policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), a tropa de elite da PM, e de outros quartéis cercaram o terminal. Atiradores ficaram a postos em pontos estratégicos, mas não precisaram disparar.

Maria Hermínia Tavares* - Nem tudo é polarização

Folha de S. Paulo

Ideia de polarização serve antes para confundir do que para esclarecer

O trauma produzido pelo realinhamento político da centro-direita em torno da liderança extremista de Jair Bolsonaro hoje induz mais de um analista a encarar os resultados das sondagens, quaisquer que forem, pelas embaçadas lentes da polarização política.

Segundo esse enfoque, tanto a amplíssima coalizão que sustenta o governo Lula quanto a oposição bolsonarista, tidas como radicais em igual medida, aprisionaram os brasileiros em dois polos irredutíveis. A tese fraqueja diante de um governo moderado a ponto de ter José Mucio Monteiro Filho (PRD-PE) e André Fufuca (PP-MA) entre seus ministros e Rodrigo Pacheco (PSD-MG) entre seus aliados.

Luiz Carlos Azedo - Mentes naufragadas no passado e no presente

Correio Braziliense

As forças liberais não são capazes de dar respostas imediatas às demandas da sociedade, e a tendência da esquerda é retroalimentar a polarização, sem oferecer soluções novas

O espírito reacionário difere muito do conservador. Segundo o cientista político norte-americano Mark Lilla, no livro A mente Naufragada (Record), trata-se de invocar o passado para nele viver sem transformações, o que é muito diferente da atitude do conservador, que tem o passado e suas tradições como referência para agir no presente e construir o futuro.

Foi o que aconteceu entre 1918-1939, em razão da enorme frustração gerada pela carnificina da Primeira Guerra Mundial e o fracasso da ordem democrática em bases iluministas (penso, logo existo) e aristocráticas. A ordem liberal tecida na virada do século estava em contradição com o sujeito moderno da sociedade industrial, sociológico, estruturado em classes bem definidas. A rica experiência da Social-Democracia Alemã, um partido operário de orientação marxista, sucumbiu ao nacionalismo. A emergência dos partidos comunistas, após a Revolução Russa de 1917, não foi capaz de barrar a ascensão do fascismo na Itália, na Alemanha e outros países europeus.

Três pensadores do século XX destacam-se nesse período como protagonistas do pensamento reacionário: Franz Rosenzweig, Eric Voegelin e Leo Strauss. Lilla conclui que olhavam para os destroços de um passado que lhes parece ameaçado, quando já ultrapassado, e lutavam para salvá-lo, por não conseguirem se adaptar às mudanças. Por uma ironia da História, é isso que hoje faz do reacionarismo um fenômeno “moderno” e resiliente no mundo, inclusive nas grandes democracias do Ocidente.

Vinicius Torres Freire - Loucura nacional em SP

Folha de S. Paulo

Pesquisas mostram como Lula, Bolsonaro e guerras culturais devem pesar no voto

É bem razoável especular que o resultado da eleição para prefeito de São Paulo venha a ser muito influenciado pelos padrinhos dos candidatos que ora lideram o Datafolha, o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL) e o prefeito Ricardo Nunes (MDB).

Para quem não se ocupa da política paulistana, diga-se que Boulos está no canto vermelho do ringue, apoiado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo PT. Do lado amarelo, Nunes deve ter o apoio de Jair Bolsonaro —ou pelo menos assim o deseja.

Mais do que "nacionalizada" em termos político-partidários, a disputa paulistana pode ser nacional também em termos de degradação do debate, do acirramento do que se chama de "guerra cultural" e da fofoca demencial ignara de redes sociais e de mensagens.

A pauta do Congresso deve aguçar o conflito e oferecer mais oportunidades para quem quer criar torrentes de lama e desinformação pelos "zaps", onde tem se definido muita eleição brasileira desde 2018.

Thiago Amparo - Senado na contramão civilizatória

Folha de S. Paulo

Democracias que se prezem adotam política oposta com relação às drogas

Se a intenção da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado era atestar, na letra da Constituição, o quão atrasado em matéria de política de drogas é o país, conseguiu. Nesta quarta (13), a comissão aprovou uma PEC que cristaliza o oposto do que todas as democracias que se prezem estão fazendo mundo afora: incute na Carta o crime de possuir ou carregar qualquer tipo de droga, mesmo que seja para consumo próprio.

Ao usar o cartucho de uma PEC para piorar a já ruim lei de drogas —principal responsável pelo inchaço de 257% das prisões brasileiras nas duas últimas décadas—, o Senado usa uma arma nuclear para explodir um ladrão de galinha. Para justificar a emenda que piora o soneto, o relator da proposta, Efraim Filho (União Brasil-PB), inventou um oximoro: "Tráfico em pequenas quantidades". A realidade, senador, é outra: a maioria dos presos por tráfico nem sequer tem relação com facções, conforme estudo do Ipea de 2023.

William Waack - O museu das ideias

O Estado de S. Paulo

As forças políticas no governo têm dificuldades em aprender com o passado

O Palácio do Planalto virou hoje o principal pavilhão de exposições do parque jurássico de ideias. São aquelas que foram testadas e derrotadas pelos fatos, e nas quais se insiste acreditando que o problema com as ideias (estatismo, por exemplo) não era de mérito, mas de dose (pouca).

Por esse motivo tem sido tão frequentemente aplicada aos inquilinos do Planalto a frase “Nada aprenderam e nada esqueceram”. Ela capta o fato de que, mesmo diante de grandes acontecimentos de resultados evidentes (como o desastre econômico ao fim da era petista), alguns indivíduos e regimes não conseguem aprender com erros passados.

O presidente Lula é a figura-símbolo hoje do que a Economist chamou recentemente de “ancien régime”: um conjunto de forças políticas e instituições lutando para se manter donas do poder. Esse “velho” sistema está se recuperando, resistindo e vencendo, assinala a revista.

Por isso não se pode atribuir apenas ao presidente os impulsos intervencionistas em relação a estatais ou empresas já privatizadas. É muito mais amplo do que o PT o conjunto de forças políticas empenhadas em transformar nacos da máquina do Estado e empresas estatais em ferramentas na defesa de seus interesses privados setoriais ou regionais. Sempre foi assim com a Petrobras.

Felipe Salto* - Ciro está errado sobre os precatórios

O Estado de S. Paulo

O STF decidiu corretamente ao brecar a descida da bola de neve pela montanha. O governo agiu acertadamente ao cumprir a decisão

Já votei em Ciro Gomes e nutro admiração pelo seu estilo aguerrido e combativo. O ex-governador e ex-ministro tem muita experiência e colaborou bastante para o debate público e a elaboração de políticas públicas no Ceará e no Brasil. Na questão dos precatórios, entretanto, discordo de Ciro em suas recentes avaliações.

Quando da promulgação das Emendas Constitucionais n.º 113 e n.º 114, derivadas da famigerada PEC dos Precatórios, avaliei que o limite estabelecido pelo artigo 107-A do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) teria efeitos deletérios sobre as contas públicas. Chamei aquilo de bola de neve, o que rendeu um desenho do saudoso Paulo Caruso na entrevista que concedi em dezembro de 2021 ao Roda Viva, na TV Cultura, com a frase pescada da minha resposta à jornalista Vera Magalhães, âncora do programa: “PEC é bola de neve rolando a montanha”.

José Serra* - Desenvolvimento regional na reforma tributária

O Estado de S. Paulo

Se bem concebido e utilizado, fundo criado pela EC 132/23 poderá moderar o processo de mudança, protegendo partes das cadeias produtivas existentes e impedindo graves dramas sociais

A recente aprovação da Emenda Constitucional (EC) 132/2023 colocou em destaque um dos aspectos das políticas governamentais que foi, por 40 anos, a grande questão federativa brasileira: a guerra fiscal. Em paralelo, o tema do desenvolvimento regional ganhou um Fundo Nacional (Art. 159-A), como instrumento governamental para reduzir as desigualdades entre as regiões brasileiras.

Os dois temas têm ampla articulação e é crucial que ela seja compreendida para que os novos instrumentos sejam superiores aos usados no passado. Construir bases sólidas para a nova institucionalidade é fundamental para o futuro do País e da Federação.

Mas é necessária uma pequena visita aos anos 80 do século passado para entender os primórdios da questão que hoje se coloca. Na esteira da crise das contas públicas, a década de 1980 foi palco de uma reversão de todas as políticas de incentivo ao investimento amparadas em recursos tributários.

Maria Cristina Fernandes - A frase que Lula não quer mais repetir

Valor Econômico

Conflitos de interesse dentro do governo evitam que presidente seja informado sobre as decisões que toma

“Vocês estão querendo f... meu governo”. Foi assim que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu a reunião da última segunda sobre a Petrobras. Queixou-se de que não tinha sido informado de que a retenção dos dividendos extraordinários levaria as ações da Petrobras a despencar no mercado como o fizeram na semana passada.

É a segunda vez, em dois meses, que isso acontece. No domingo, 21 de janeiro, Lula recebeu a agenda do dia seguinte e se deparou com o lançamento da nova política industrial. Não sabia do que se tratava. Ligou para o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que também desconhecia o tema. No dia seguinte, Lula não disfarçou a irritação no lançamento, atrasado pela lavagem de roupa prévia ao ato: “Tivemos uma reunião ruim sobre coisas boas”.

Desta vez, Lula queixou-se de que a informação que tinha era de que os investimentos da empresa dependiam da retenção dos dividendos extraordinários. E que não fazia ideia do vendaval. A queixa de Lula foi definida por um ministro numa frase: “De todo despacho quadrado, sai uma decisão quadrada”.

Edward Luce* - Na normalização do trumpismo reside a morte da democracia

Valor Econômico

A candidatura de Trump é tão fora do comum que é quase paranormal. Esta é a essência do apelo político dele

Chame isso de banalidade do caos. Eis aqui uma lista das atividades recentes de Donald Trump. Ele prometeu, no primeiro dia de sua presidência, caso vença a eleição, tirar da cadeia os condenados pela invasão do Congresso dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021, fechar a fronteira dos EUA com o México e “mandar ver, meu bem” na exploração de gás e petróleo. Ele fez festa para Viktor Orbán em Mar-a-Lago, chamando-o de o melhor líder mundial, e assegurou ao líder húngaro que não dará “um centavo” para a Ucrânia. Ele usou um seguro-garantia de US$ 91,6 milhões para indenizar por difamação sua vítima de assédio sexual, Elizabeth Jean Carroll.

Ele fez um expurgo no Comitê Nacional Republicano, demitindo 60 funcionários — o movimento inicial de sua nora Lara Trump, que ele escolheu a dedo como presidente-adjunta do comitê. Ele voltou atrás em relação ao TikTok, dizendo agora que sua controladora chinesa deveria manter a posse. Ele imitou a gagueira de Joe Biden, insistiu que a verdadeira taxa de inflação nos EUA foi de 50% e atacou Jimmy Kimmel, classificando-o de o pior apresentador do Oscar de todos os tempos. Parece quase trivial acrescentar que surgiram novos detalhes sobre a aparente queda de Trump por Adolf Hitler.

Jorge Arbache* - Como mitigar frustração com agenda do clima

Valor Econômico

Crescente politização e mercantilização da agenda verde em países desenvolvidos desorganiza mercados, interfere na alocação de recursos, fomenta ineficiências e eleva preços e dívida pública

Temos presenciado crescente incômodo com a agenda do clima em países desenvolvidos. As frustrações têm motivações variadas, mas vale destacar as relacionadas com o aumento percebido no custo de vida, o ônus percebido com o financiamento da transição para fontes de energia renovável, as taxas sobre carbono e emissões, os impostos para financiar gastos públicos, e a percepção de que o tema do meio ambiente comprime taxas de retorno de investimentos.

Assis Moreira - China acelera exportações para o Brasil

Valor Econômico

As turbulências vão continuar na cena comercial internacional, em meio a tensões geopolíticas, incertezas políticas, erosão das regras internacionais e crescente ‘armamentização’ do comércio

A China sempre importou muito do Brasil. Agora, Pequim registra aumento veloz também de suas vendas para o mercado brasileiro, em meio ao excesso de produção das fábricas chinesas. O Brasil foi o parceiro com o qual a China mais aumentou a corrente de comércio no mundo no acumulado de janeiro-fevereiro, com alta de 33,3% comparado ao mesmo período do ano passado, pelos dados da aduana chinesa.

No geral, as exportações chinesas surpreenderam todo mundo no começo do ano. “As exportações da China estão aumentando. Prepare-se para a reação global”, publicou o jornal “The New York Times”, esta semana, considerando que o avanço mais rápido dos embarques chineses coloca em risco empregos em todo o mundo e desencadeia uma reação que está ganhando força.

Míriam Leitão - O exercício da liberdade

O Globo

Quem quer censurar ‘O avesso da pele’ não se incomoda com o que é realmente escandaloso neste país: a queda da educação no IDH e o racismo que fere os negros com uma divisão inaceitável

Qual foi a intenção do escritor Jeferson Tenório ao escrever o “O avesso da pele”? Foi o que eu perguntei a ele. A obra está no meio de um turbilhão após ter sido atacada pelo obscurantismo e pela censura por supostamente não ser apropriada para jovens do ensino médio. “Eu tinha a intenção de fazer uma grande declaração de amor ao conhecimento, aos livros, às bibliotecas, às referências literárias.” Na história, Henrique, o professor de literatura, consegue atrair seus alunos para “Crime e castigo”, de Dostoiévski. Ele se entusiasma com a vitória e planeja levá-los para Kafka, Cervantes, Virgínia Woolf, Toni Morrison. Ele pensava nisso tão intensamente, andando na rua, que não ouve as sirenes. Ele sonhava com literatura, quando a polícia chegou. Ele era negro.

Merval Pereira - Dissonância cognitiva

O Globo

Cresce a cada momento o número de países que permitem o uso recreativo da maconha, retirando a pressão social dessa guerra que só faz reforçar o poder das facções criminosas

A decisão da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado de endurecer o combate às drogas — na direção oposta do que é analisado no Supremo Tribunal Federal (STF) e em dissonância completa como o mundo ocidental civilizado trata dessa questão fundamental da contemporaneidade —é o embate entre o retrocesso da visão anacrônica que prevalece entre os parlamentares e a ambição de “empurrar a História” da maioria progressista do Supremo.

Progressistas esses que já deram cinco votos nesse caso específico, o que não significa que sejam “progressistas” noutras questões. Muitos são “garantistas” quando lhes convém, como no combate à corrupção, que vem sendo destruído por interesses retrógrados que unem alguns dos “progressistas” do Supremo aos anacrônicos do Congresso.

Malu Gaspar – A Petrobras e a espuma

O Globo

Quando se soube que o próprio presidente Lula arbitrou a disputa em torno dos dividendos extraordinários da Petrobras e mandou que seis conselheiros votassem contra o pagamento, o presidente da companhia, Jean Paul Prates, correu para negar:

— Não houve ordem do presidente Lula — afirmou ele, dizendo que as informações a respeito e o abalo na Bolsa em torno do tema eram “espuma”.

Horas depois, o próprio Lula desmentiu Prates. Numa entrevista ao SBT, admitiu que teve “uma conversa séria com a administração da Petrobras”, “porque é preciso a gente pensar no povo brasileiro”. O presidente foi direto:

— Se eu for atender apenas à choradeira do mercado, não faço nada — disse Lula. — O mercado é um rinoceronte, um dinossauro voraz, quer tudo para ele e nada para o povo. Será que o mercado não tem pena das pessoas que passam fome?

Poesia | Graziela Melo – Rio, amor e bala perdida

São beijos
que boiam
na água

abraços
flutuam
no ar,

desejos
se escondem
nas folhas,
nas flores,

nos frutos
do pomar...

É
a vida
que corre
com pressa

é alguém
virando
a esquina

e a morte
tentando
pegar.

É a bala

que mata
a menina

é a bala
perdida
zunindo
no ar!

É a bala
certeira
que vem
pra matar!!!

Música | Coração Civil - Oratório de Natal / Brumadinho (Milton Nascimento e Fernando Brant)

 

quarta-feira, 13 de março de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Lula mina a confiança no Brasil

O Globo

Ao intervir na Petrobras, presidente corrói credibilidade do mercado e prejudica desenvolvimento

Todo investidor sabe que a Petrobras é uma empresa de capital misto controlada pelo governo (que detém 37% do capital). Tampouco é novidade o presidente da petroleira ser escolhido também pelo governo. E os acionistas têm conhecimento das regras de governança que a protegem do risco de interferência do Palácio do Planalto. Afinal, ter o controle não significa poder fazer o que se quer a qualquer hora, nem mudar a direção dos negócios ao sabor das próprias vontades. Quando a governança enfraquece, a empresa perde valor e, com isso, entra em xeque a credibilidade do mercado de capitais brasileiro. É exatamente o que tem acontecido em razão das atitudes do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Luiz Carlos Azedo - Um comício que marcou a história do Brasil

Correio Braziliense

Era mais útil respeitar as decisões do Congresso e convencer a sociedade de que as reformas eram necessárias, em vez de tentar impô-las, fiando-se no “dispositivo militar”

A memória do ex-presidente João Belchior Marques Goulart (PTB) será lembrada nesta quarta-feira num evento convocado pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), sob a presidência do jornalista Octávio Costa, a propósito dos 60 anos do Comício da Central do Brasil, em 13 de março de 1964. Estarão presentes a viúva do ex-presidente João Goulart, dona Maria Thereza; Clodsmidt Riani Filho, organizador do comício; e o jornalista, professor de literatura e ex-capitão do Exército Ivan Proença, ex-presidente do Conselho Deliberativo da ABI, que pertencera ao chamado “dispositivo militar” de Jango, como oficial de sua confiança nos Dragões da Independência.

Em 1º de abril, após impedir a invasão do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira (Caco) da Faculdade Nacional de Direito por um grupo paramilitar de extrema-direita, ao voltar para o Ministério do Exército, Proença foi preso pelos colegas. Jango havia se deslocado para Brasília, o golpe de Estado estava consolidado. Deu errado o famoso “dispositivo” do chefe do Gabinete Militar da Presidência, Argemiro de Assis Brasil, que consistia em promoções e nomeações a comandos importantes de militares supostamente leais ao presidente da República.

Vera Magalhães - Governo acumula crises e perde primeiro trimestre

O Globo

Lula não colheu nada de bom com este começo de ano pautado pelo voluntarismo. Sua popularidade cai um pouco a cada pesquisa

Em 2024, tem sido uma constante a promessa de que a próxima semana será aquela em que o governo Lula fará deslanchar sua agenda para o ano. E, a cada semana, o que se vê é o acréscimo de alguma crise autoalimentada a um portfólio já extenso. O resultado é que o primeiro trimestre já está praticamente perdido, isso num ano cujo calendário já seria atípico, ditado pelas eleições.

Nem Freud explica por que Lula e seus ministros decidiram desperdiçar a boa colheita política e econômica de 2023 e o pior momento vivido por Jair Bolsonaro com polêmicas inúteis, revisão de velhas práticas reprovadas por amplas parcelas da sociedade e recaídas intervencionistas numa economia que vinha crescendo a 3%.

Elio Gaspari - Lula reativa um pesadelo

O Globo

Parece a volta de um pesadelo. Depois de uma desastrada carga de cavalaria em cima da ValeLula avançou sobre a Petrobras e derrubou seu valor de mercado em R$ 55 bilhões. Diante das más notícias, a repórter Malu Gaspar revelou que o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, mostra uma carta na manga: o anúncio de um “Mar de Oportunidades”, com um programa de investimentos de até R$ 80 bilhões em plataformas, navios-sonda e barcos de apoio.

Tudo isso já aconteceu. Deu na Operação Lava-Jato, com roubalheiras confessadas, dezenas de prisões, a deposição da presidente Dilma Rousseff e um clima de descrença que desembocou na eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

Lá atrás, as coisas pareciam simples e fáceis, comprou-se uma refinaria nos Estados Unidos, criaram-se estaleiros virtuais e, no escurinho do Planalto, adotou-se uma “contabilidade criativa” depois chamada de “pedalada”. Deu no que deu. O pesadelo voltou semanas depois da falência da Sete Brasil, a joia que produziria 28 navios-sonda para a Petrobras.

Bernardo Mello Franco - Desunião Brasil

O Globo

A disputa pelo comando do União Brasil virou caso de polícia. No fim de fevereiro, o deputado Luciano Bivar foi apeado da presidência da sigla. Perdeu a cadeira para Antônio Rueda, seu antigo aliado e parceiro de negócios.

Ao perceber que seria destronado, Bivar tentou um golpe de última hora. Numa canetada, cancelou a convenção partidária. Até aí, seguiu o manual da baixa política, pródiga em rasteiras, mumunhas e viradas de mesa.

O truque não funcionou, e o confronto ganhou novos ingredientes. As manobras deram lugar a um enredo mais quente, com relato de ameaça de morte, acusação de roubo e até um incêndio suspeito.

O fogo lambeu duas casas de veraneio: a de Rueda e a da irmã dele, atual tesoureira do União. Os imóveis ficam numa praia frequentada pela elite pernambucana. Curiosamente, Bivar é dono de outro lote no mesmo condomínio.

Roberto DaMatta - O ‘você sabe com quem está falando’ à bala

O Globo

Posso sofrer uma reprimenda que chega na forma de advertência sobre minha inferioridade

Estudei sociologicamente o rito autoritário que intitula esta crônica. Conheço-o desde menino e, como costume ou hábito, ele é parte “natural” da minha sociedade. Presenciei situações em que a ausência de reconhecimento de uma autoridade causava embaraço e produzia vergonha.

Volto ao assunto quando, horrorizado, tomo conhecimento do absurdo cruel ocorrido em Vila Valqueire, no Rio de Janeiro, onde um motoboy entregador de refeição levou um tiro por não ter se comportado convenientemente com a esposa de um cliente militar. Foi, sem dúvida, um “você sabe com quem está falando” à bala.

Insisto em que precisamos ter consciência desses hábitos autoritários embutidos em fórmulas habituais que, no discurso político populista, alimentam a proposta de prometer para não cumprir. É preciso realizar uma engenharia política capaz de neutralizar esses costumes aristocráticos, responsáveis por graduações e hierarquias em todos os lugares.

Zeina Latif - A ajuda de fora é bem-vinda, mas insuficiente para a economia brasileira

O Globo

País vive maior estabilidade cambial, mas fôlego desse cenário dependerá de Haddad conseguir segurar a deterioração das contas públicas

O comércio mundial mostra-se resiliente, apesar das turbulências globais e do protecionismo. A guerra comercial entre Estados Unidos e China levou ao aumento da participação de outros países que preencheram as lacunas deixadas — foi o caso do maior embarque da soja brasileira para a China, substituindo o produto norte-americano.

Além disso, a China segue aumentando seu peso nas trocas mundiais. Suas importações e exportações exibem melhor desempenho do que o total no mundo, o que reflete o crescimento do consumo das famílias (7,2% em 2023) em ritmo superior ao do PIB (5,2%), que desacelera.

Em meio aos riscos externos, esse quadro ajuda a blindar o Brasil. O benefício vem também do lado da inflação. Se, de um lado, há sustentação aos preços de commodities, preservando a rentabilidade das exportações, de outro, afastam-se pressões inflacionárias globais.

Fernando Exman - Voluntarismo versus estratégia de governo

Valor Econômico

Lula precisará ter paciência até que cheguem na ponta as medidas adotadas pelo governo para melhorar o ambiente econômico

Os dados da inflação divulgados nessa terça-feira (12) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram como o presidente Lula precisará ter paciência até que cheguem na ponta as medidas adotadas pelo governo para melhorar o ambiente econômico.

Pelo que se vê, com a retomada dos ataques ao presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e da pressão sobre Petrobras e Vale, não será fácil. Mas um antigo aliado de Luiz Inácio Lula da Silva recorre a uma metáfora para explicar o motivo da necessidade de se ter mais tranquilidade: “Economia é igual chuveiro de água quente”. É porque você gira a torneira, mas demora até que a água quente chegue a quem está tomando banho. A pessoa se molha com água fria por um tempo, antes de receber sobre a cabeça as primeiras gotas que lhe darão mais conforto.

Demora. E é essa a situação atual do país, acrescenta o interlocutor.

Liste-se, então, algumas medidas já implementadas e que ainda não surtiram total efeito, na visão de integrantes do governo. Uma é o aumento real do salário mínimo. Outra a nova política de preços da Petrobras, que levou a uma maior estabilidade de preços. O Planalto também aposta na retomada de investimentos e, em outra frente, no efeito positivo sobre o consumo que a correção da tabela do Imposto de Renda pode ter.

L. C. Bresser-Pereira - Quanto mais um país se endivida, menos cresce

Valor Econômico

Déficits na conta corrente são sempre maus, mesmo se forem financiados por investimentos diretos

Era uma vez um país que poupava e investia 18% do seu PIB, quando os países que crescem rapidamente e fazem o “catching up” poupam cerca de 30%. Por outro lado, o déficit na conta corrente do país era de 2% do PIB, ou seja, o país gastava mais do arrecadava e sua dívida externa aumentava. “O que fazer?”, pergunta o governo. A solução chega rápido a ouvidos ansiosos: é tomar emprestado e crescer com poupança externa. Dez anos depois, porém, o que aconteceu? A taxa de investimento continuou a mesma e o país continuou a crescer pouco, muito pouco.

O excelente correspondente de Valor em Genebra Assis Moreira apresentou em 29/2 algumas das informações que o Human Development Report 23/24 do Pnud/ONU apresentará nos próximos dias. A história triste é que os países, muito parecidos com a nossa historieta do parágrafo anterior, estão muito endividados e semiestagnados. “De 59 economias em desenvolvimento examinadas, 32 têm notas de crédito classificadas abaixo do grau de ‘não investimento’. Pelo menos 36 estão classificadas como em risco ou em alto risco de endividamento”. Pior: “Entre 22 dos países mais pobres, o pagamento do serviço da dívida representa mais de 20% de sua receita”. E, segundo o FMI, representa 59,1% do PIB desses países.

Nilson Teixeira* - Maior cautela na gestão monetária

Valor Econômico

Ritmo de corte de 25 pontos-base permitiria uma sintonia fina dos juros e uma maior sincronia com o esperado início do ciclo de cortes nos EUA, Reino Unido e zona do euro

A estrutura a termo da taxa de juros de 8 de março embute corte da taxa Selic nas reuniões do Copom de 52 pontos-base (pb) em março, 45 pb em maio, 36 pb em junho, 22 pb em julho e 12 pb em setembro, alcançando 9,43% no fim do ano. Já o relatório Focus da mesma data indica redução de juros de 50 pb por seguidas reuniões, com a taxa Selic alcançando 9% em dezembro.

Alguns participantes do mercado têm defendido um afrouxamento monetário mais acelerado ou, ao menos, por um período mais prolongado. Apesar da recente inflação ao consumidor ligeiramente mais alta, o argumento é de que essa estratégia ainda manteria a taxa Selic em patamar contracionista, sem pressionar a inflação e, portanto, sem trazer riscos relevantes para sua convergência para o centro da meta de 3%.

Lu Aiko Otta - Mais uma sombra sobre o arcabouço

Valor Econômico

Dentro da equipe econômica, a declaração do presidente Lula acendeu sinais de alerta, mesmo se tratando de fala política

Pode parecer estranho, neste momento em que se fala em bloqueio de despesas do Orçamento, mas não é impossível que o governo anuncie, em maio, uma expansão de gastos de R$ 15 bilhões a R$ 20 bilhões. Embora já previsto na lei do arcabouço, é algo que pode se misturar com as reações do governo ao cenário negativo mostrado por recentes pesquisas de opinião.

Se a arrecadação seguir forte como o visto neste início de ano e se for possível projetar, até dezembro, um resultado fiscal melhor do que um déficit de R$ 28 bilhões (o que indicará o cumprimento da meta dentro da margem de tolerância), poderá haver um crédito suplementar ao Orçamento.

São hipóteses bastante otimistas, mas consideradas factíveis por fonte da área técnica. É uma possibilidade válida apenas para este ano.

Marcelo Godoy - O favor de Moraes para o Exército

O Estado de S. Paulo

Decisão de ministro sobre Bolsonaro é alerta para Tarcísio deixar política fora dos quartéis

No dia 7 de março, o ministro Alexandre de Moraes registrou no inquérito das milícias digitais uma decisão inédita na história das Forças Armadas: proibiu a presença de generais e de um ex-presidente em suas solenidades. A decisão do ministro atinge 22 suspeitos de participar da tentativa de golpe contra o resultado das eleições de 2022.

Eles foram proibidos de comparecer a cerimônias, festas ou homenagens no Ministério da Defesa, na Marinha, na Aeronáutica, no Exército e nas PMs. Entre os atingidos estão Bolsonaro e os generais Braga Netto, Paulo Sérgio de Oliveira, Estevam Theophilo e Mário Fernandes. Ou seja, um ex-presidente, dois ex-ministros da Defesa (Oliveira e Braga Netto), um ex-chefe de Operações Terrestres (Theophilo) e outro de Operações Especiais (Fernandes) não podem pisar nos quartéis nem mesmo no Dia do Soldado.

Paulo Delgado* - Trump surfa no caos

O Estado de S. Paulo

O que se passa nos EUA não são acontecimentos políticos, é uma atmosfera de decadência das estruturas que refletem as injustiças sociais 

Não há nada misterioso em política. Nem o extravagante é mais encenação. A linguagem falseadora do político de distorcer dificuldades para agravar sentimentos de aversão visa a mascarar a impossibilidade de falar por todos. Os EUA têm motivos para perceber que a democracia poderá ser derrotada por novas circunstâncias: não tem mais peso suficiente para impedir que o feitiço do desprezo tolerante – que finge aceitar a diferença, mas atrofia a esperança de justiça para todos – evite a demagogia dos feiticeiros da intolerância. Donald Trump é o mais melancólico aproveitador das angústias do povo. Soube projetar sua amargura elitista contra a democracia na alma de gente apavorada com a hostilidade social, política e econômica que não arrefece com mudança de governo.

O que se passa nos EUA não são acontecimentos políticos, é uma atmosfera de decadência das estruturas que refletem as injustiças sociais. Combina o abuso do líder que não abre mão de querer seduzir continuamente o cidadão, misturado aos aspectos polêmicos da agressividade de expressão incitadora da discriminação que domina nossa época. Há no mundo cada vez mais sócios da necessidade de transgredir prestigiando pessoas de mau gosto. Tudo facilitado pela falência da escola, a epidemia de tecnologia, o fim da cultura clássica e erudita, a pressa em usufruir, a regressão do bom gosto vocabular e auditivo, a fala e o ouvido infantis, a ilusão de que a riqueza se distribui naturalmente. Um conformismo social geral de um povo que não sabe se é contra ou a favor, desconhece quem lhe causa sofrimento, aceita que ideias podem ser transportadas por palavrão ou aviões de guerra.

Donald Trump está ensaiando seu retorno ao poder de onde nunca saiu por inteiro. Suas chances de vitória são reais. Ainda que Joe Biden siga sendo o favorito, parte do mundo vislumbra o contrário.

Nicolau da Rocha Cavalcanti* - ‘Non ducor, duco’

O Estado de S. Paulo

Sob pretexto de cuidado com o Brasil, podemos estar reféns de mensagens que distorcem nossa percepção sobre a realidade do País

Não raro, vem um sentimento de indignação e de tristeza a respeito dos rumos do País. Chegam-nos notícias sobre mau uso de recursos públicos, decisões contraditórias do Supremo Tribunal Federal (STF) ou atos do governo federal que nos parecem repetição de erros passados. Tudo isso nos abate. Muitas vezes, nem sequer são notícias propriamente ditas, mas mensagens compartilhadas pelo WhatsApp, cuja origem não sabemos ao certo. No entanto, mesmo sendo pouco confiáveis, elas também afetam nosso estado de ânimo. Não só frustrados. Sentimo-nos enganados, feridos em nossa cidadania.

Depois, esse sentimento reflete-se nas conversas familiares, nos ambientes profissionais, nos círculos sociais. De forma espontânea, acabamos falando de assuntos sobre os quais temos objetivamente pouco conhecimento, mas que nos revoltam internamente. Daí surgem discussões, atritos, novas incompreensões, o que alimenta a frustração. O País com o qual sonhamos está distante não apenas nas decisões de Brasília, mas na própria mesa de jantar ou no grupo dos amigos da faculdade.

Wilson Gomes* - Não dê munição ao inimigo

Folha de S. Paulo

A inviabilidade da crítica política é sempre um péssimo sintoma

Em hipótese alguma deve-se dar munição ao inimigo. Embora a metáfora remeta a um contexto de guerra, ninguém envolvido em um conflito armado precisa desse conselho, que em geral se dá para pessoas em outras situações competitivas, alertando-as de que o menor descuido pode ser usado pelo oponente.

Certifique-se de não facilitar o trabalho do inimigo ao fornecer argumentos, falas e exemplos que possam ser usados contra você.

O aviso "não dê munição ao inimigo" está hoje em toda parte, refletindo a ideia geral de que vivemos uma guerra permanente e que o nosso lado não pode expor as próprias fragilidades se não quiser que o inimigo as use para nos atacar. Se você pensa que isso acontece na política, está muito enganado. Fãs de Beyoncé vivem conflitos internos neste momento porque há "beyfãs" falando mal do filme "Renaissance".

Vinicius Torres Freire - O rolo bananeiro na Petrobras

Folha de S. Paulo

Após muita fofoca e politiquice, ainda falta contar o básico da decisão da empresa

O vexame da Petrobras amainou. O que aconteceu, ainda não se sabe, apesar de quatro dias de fofoca rasteira, vazamento talvez criminoso de rumores que influenciam preços, plantação de notícias e guerra de facções no governo a respeito do motivo de a empresa não ter pago dividendos extraordinários.

Ou melhor, do motivo de a maioria governista do Conselho de Administração ter votado contra tal distribuição adicional de lucros.

De novidades relevantes, até agora, tem-se que Fernando Haddad, o ministro da Fazenda, foi chamado ou interveio para racionalizar o sururu, outra vez, e ganhou uma cadeira no Conselho da companhia; que a empresa vai reapresentar contas que baseiem a decisão de pagar ou não os tais dividendos extras.

Não pagar pode ser até uma decisão razoável. A perspectiva, até sexta-feira passada, era que algum extra seria pago, hipótese baseada em apresentação que a direção da Petrobras no final de janeiro, em Nova York, para investidores. Mais sobre isso mais adiante.

Mariliz Pereira Jorge - Prezado Lula

Folha de S. Paulo

Não adianta ignorar traumas profundos, eles voltam para nos perturbar

Presidente, entendo que o senhor prefira fugir de questões desconfortáveis. Todos fazemos isso. É mais fácil ignorar velhas dores do que encará-las. O problema é que traumas profundos permanecem silenciosos até que voltam a nos perturbar como músicas irritantes que grudam no cérebro dias a fio. Foi o que aconteceu nos últimos anos, quando o hino nacional embalou um projeto golpista. Dá para acreditar que falaríamos sobre ditadura na segunda década do século 21?

Veja, eu não era nem nascida em 1964. Quando o Brasil recuperou a democracia, nem entendia o valor da liberdade. Só adulta tomei conhecimento das violações generalizadas, da censura, das perseguições políticas, das torturas e das mortes. Mas há brasileiros que não sabem ou não acreditam nas atrocidades cometidas neste país tão alegre, tão do bem, tão da galera, por pura negligência do Estado, que nunca foi capaz de encarar os esqueletos escondidos na caserna.

Hélio Schwartsman - Ecologia do extremismo

Folha de S. Paulo

Partidos da direita radical da Europa Ocidental são menos tóxicos do que os de outras partes do mundo

O Chega, partido de extrema direita de Portugal, foi o grande vitorioso no pleito do último domingo (10). A sigla saltou de 12 para 48 deputados, quadruplicando sua representação. Deve, porém, ficar fora do governo. É que a coalizão de centro-direita que deverá ser convidada a formar o próximo governo promete excluir os extremistas das negociações. Vamos torcer para que consiga. Extremismo e democracia são duas coisas que não combinam muito bem.

De todo modo, é importante notar que, na ecologia das extremas direitas, a variante que prevalece na Europa Ocidental é menos tóxica que suas congêneres das Américas e do Leste Europeu. O "menos tóxica" aqui está, ao menos para mim, longe de significar aceitável. A pauta dessas legendas é anti-Europa, anti-imigração e anti-Islã. Elas fazem apelos vagos aos "valores tradicionais" e dão pouca ênfase à agenda ambiental, quando não a combatem abertamente.