Veja
Moraes e Toffoli ficam expostos em 400 páginas da PF sobre a rede do Master em Brasília
Numa noite de verão houve uma reunião
reservada no Supremo
Tribunal Federal. Nove juízes se trancaram numa sala com José
Antonio Dias Toffoli, até então responsável pelo processo sobre fraudes
financeiras bilionárias no Banco Master.
Havia sido revelado que, três anos antes, um agente de negócios do banco comprara um hotel da família Dias Toffoli em Marília, a 430 quilômetros de São Paulo. Criou-se um impasse quando o chefe da Polícia Federal, aparentemente com o aval do presidente da República, apresentou ao presidente do STF um pedido de remoção do juiz relator do caso Master.
Do lado de fora, às vezes ouviam-se gritos:
“Abro as minhas contas bancárias! Mas, estou avisando, eu não vou abrir
sozinho”. E, também, os apelos de Cármen Lúcia:
“Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo, a população está contra o
Supremo… Olha, eu tenho confiança em você, mas estamos numa crise de
institucionalidade e é preciso pensarmos na institucionalidade…”.
O juiz André Mendonça concordou sobre o diagnóstico
da crise, conforme a reconstituição feita pelo portal Poder360. Ressalvou não
ter visto nenhum delito de Dias Toffoli como
pretendia o relatório policial. “Tem aí essa questão dos (convites para)
eventos, mas, se for considerada, todos nós somos suspeitos de tudo…”
Aquela quinta-feira, 12 de fevereiro, véspera
de Carnaval, terminou com um novo relator do caso Master. Passaram-se seis
meses e o que já era ruim piorou.
A crise avança como rio de enchente pela
Praça dos Três Poderes, em Brasília, a menos de quatro semanas do primeiro
turno das eleições. Aos olhos dos eleitores, informam as pesquisas, prevalece a
percepção de aumento da corrupção com patrocínio e beneficiários políticos no
Judiciário, no governo e no Congresso.
É evidente a degradação na credibilidade
institucional. Ganha realce no gradual descrédito do Judiciário, como demonstra
o Índice de Confiança Social da Ipsos no histórico da última década e meia. Ecoa
no protocolo do Senado, onde tem aparecido um pedido de destituição de juiz do
Supremo a cada três semanas.
“Moraes e Toffoli ficam expostos em 400
páginas da PF sobre a rede do Master em Brasília”
Foram oitenta requerimentos nos últimos 44
meses. Somam 109, se contados o estoque (29) dos anos 2021 e 2022, basicamente
motivado pela intervenção do tribunal na política de saúde pública para impedir
o pandemônio negacionista esboçado na pandemia.
Os campeões de pedidos de impeachment (67
desde 2023) são Alexandre de
Moraes (com 38), Gilmar Mendes (11), José Antonio Dias Toffoli
(10) e Flávio Dino (8).
Moraes e Toffoli são protagonistas em dois
relatórios policiais que somam 400 páginas nos autos sobre a rede de influência
do Banco Master em Brasília. Desse volume, 188 páginas detalham o
relacionamento de Moraes e família com o antigo dono do Master, Daniel Vorcaro.
“Não é normal”, disse o presidente do Senado,
Davi Alcolumbre, ao confirmar a quantidade inédita de pedidos impeachment de
juízes do Supremo. Anormal, também, são os quase noventa casos de senadores,
deputados federais e funcionários públicos graduados acusados em inquéritos à
espera de decisão no STF.
É síntese da liquefação política. Cresce a
desconfiança pública sobre o conluio da oligarquia estatal emergente, como
define Joaquim Falcão em A Oligarquia dos Poderes e a Crise da Democracia.
O Supremo está emaranhado no próprio enredo
de atropelos da Constituição durante a última década e meia, desde a Operação
Lava-Jato até os casos do INSS e do Banco Master. Fraturou-se em público no
confronto aberto entre os juízes Mendonça, relator do caso Master, e Moraes,
personagem do inquérito.
O condimento dos inquéritos sobre proteções
políticas às trapaças nas aposentadorias e no mercado financeiro está nos
interesses particulares dos candidatos mais destacados nas pesquisas
eleitorais: Lula tem um dos filhos sob investigação em caso de tráfico de
influência; e Flávio Bolsonaro já confessou ter recebido dezenas de milhões de
reais em transações obscuras com o antigo dono do banco das fraudes, que
completou cinco meses em prisão preventiva.
Quase sete em cada dez eleitores acham que os
casos do INSS e do Master prejudicam Lula e Flávio Bolsonaro na disputa pela
Presidência da República.
É sinal de que a crise institucional,
protagonizada pelos que deveriam evitá-la, continuará avançando como rio de
enchente na direção dos próximos governo e Congresso, com o auxílio luxuoso do
Supremo.
Publicado em VEJA de 4 de setembro de
2026, edição nº
3011
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