CartaCapital
Candidato do Avante salta e toma espaço que
Zema e Caiado não foram competentes para ocupar
Nos últimos dias, as eleições presidenciais
ganharam um grau maior de incerteza, introduzido pelo candidato Augusto Cury.
Antes disso, as pesquisas indicavam – e os analistas juravam – que não
havia luz fora da polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro. A incerteza se
restringia a um porcentual de 5% a 6% de eleitores pendulares, capazes de
aproximar ou de distanciar um pouco as curvas de intenção de voto entre os dois
polos. Uma incerteza maior só viria no segundo turno.
O salto de Cury nas redes sociais e nas intenções de voto, ocupando o terceiro lugar, carreou essa incerteza para dentro do primeiro turno. Os analistas dizem que esse crescimento é espuma e que logo vai murchar. Mas o grau de incerteza pode aumentar ainda por conta de novas revelações sobre Flávio Bolsonaro e sobre o imbróglio Lulinha. Há que se indagar também acerca dos efeitos eleitorais que a granada lançada pelo ministro André Mendonça contra Alexandre de Moraes poderá produzir. A prudência, assim, recomenda que é preciso esperar para ver melhor as movimentações do eleitorado, que é o senhor das eleições.
O que importa averiguar aqui é se existe ou
não um espaço para um eventual crescimento mais consistente de Augusto Cury. Os
recortes de algumas pesquisas mostram que sim. Um dos elementos a ser visto
para responder a essa indagação consiste em olhar o porcentual de indecisos.
A pesquisa sobre a intenção de voto
espontânea da Quaest de agosto mostra que Lula aparece com 25%, Flávio com 19%
e os outros candidatos somam 3%. Os indecisos são 51%. O número é muito
significativo, indicando que, em tese, podem ocorrer oscilações importantes a
depender dos desempenhos das campanhas e de fatos contingentes. Outro ponto
importante a ser verificado é se existe um eleitor potencial para um possível
crescimento de Cury ou outro candidato de centro. Uma segmentação ideológica do
eleitor feita pela Quaest, em pesquisa de junho, mostra que ele se articula em
três pilares: 1/3 de eleitores de esquerda, majoritariamente lulistas; 1/3 de
eleitores de direita, afinados com o bolsonarismo; e 1/3 de eleitores
independentes, que não possuem um posicionamento ideológico rígido.
escolhas dos eleitores independentes se
definem pelo pragmatismo econômico, pela sensibilidade do bolso, inflação de
alimentos, qualidade dos serviços públicos e segurança. São mais céticos com a
política e sensíveis a discursos antipolítica. Esses eleitores tendem a adiar a
definição de voto para a última semana e até para o dia das eleições. O grupo
se compõe principalmente por mulheres e eleitores do Sudeste e por eleitores de
esquerda e direita que não se identificam com Lula e Flávio. Uma pesquisa do Datafolha
divulgada em julho também traz a segmentação ideológica dos eleitores: 15% se
declaram de direita; 29% de centro-direita; 17% de centro; 26% de
centro-esquerda; e 13% de esquerda.
Já uma pesquisa BTG/Nexus divulgada em agosto
mostra que 36% dos eleitores se dizem cansados com a polarização política. Numa
segmentação educacional, a pesquisa mostra que 52% dos que têm ensino superior
se dizem cansados e desconfortáveis com a polarização; 33% dos que têm ensino
médio se dizem incomodados e 28% com o ensino fundamental apontam para a
saturação. Do total, 17% sentem conforto com a polarização.
Os 51% de indecisos na pesquisa espontânea e
os 33% de independentes das pesquisas Quaest, os 29% de eleitores de
centro-direita e os 17% de centro captados pelo Datafolha e os 36% de eleitores
cansados com a polarização mostrados pela Nexus confirmam que há um espaço
político e eleitoral potencial para o crescimento de um candidato de centro à
margem da polarização. O limite desse crescimento será definido pelas
campanhas, suas circunstâncias, virtudes, defeitos e ardis.
Romeu Zema e Ronaldo Caiado se revelaram
incompetentes para ocupar esse espaço potencial. Se apresentaram como
candidatos de direita, subpolos do bolsonarismo. Augusto Cury, com todas as
suas precariedades, buscou ocupar de forma mais efetiva o espaço da
despolarização, onde estão os eleitores política e ideologicamente órfãos.
Foram esmagados pela ascensão do bolsonarismo que engoliu o PSDB e quase todo o
Centrão.
Cury, com um discurso conciliador,
pacificador, acolhedor e com o perfil de homem afetuoso que escuta as pessoas,
suas dores e reclamos, capaz de humanizar o capitalismo com seu “coração
social”, projeta um simbolismo político orientado para atrair os órfãos da
política e de líderes políticos. Até onde Cury pode ir ou quando pode colapsar
não se sabe. O que é evidente é que existe um espaço disponível para ser
ocupado. •
Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital,
em 09 de setembro de 2026.

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