sexta-feira, 17 de novembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Dificultar abertura de lojas no domingo ameaça empregos

O Globo

Ministério do Trabalho baixou, sem discussão com sociedade, portaria impondo restrições ao comércio

É um retrocesso a portaria do Ministério do Trabalho publicada na terça-feira — véspera do feriado da Proclamação da República — dificultando a abertura do comércio aos domingos e feriados, prática consolidada entre os brasileiros. O governo erra na forma e no conteúdo. Na forma, por tomar uma decisão controversa sem discussão ampla com a sociedade, como prova a gritaria geral de entidades empresariais. No conteúdo, porque a mudança, além de criar insegurança jurídica, deverá resultar em mais danos que benefícios.

A portaria revogou uma outra, editada pelo governo Jair Bolsonaro em novembro de 2021, que reduzia a burocracia para estabelecimentos comerciais funcionarem aos domingos e feriados. Com isso, voltou-se à situação anterior, com menos categorias autorizadas a trabalhar nesses dias sem necessidade de convenção coletiva e lei municipal. A nova norma atinge estabelecimentos como supermercados, farmácias, lojas em shoppings e aeroportos. É verdade que, em algumas cidades, como Rio ou São Paulo, a legislação municipal e a convenção coletiva já permitem esse tipo de trabalho. Mas não faz sentido criar novos obstáculos onde eles não existem.

Flávia Oliveira - A vez da reparação

O Globo

É tempo de inventariar conquistas e elencar reivindicações

É novembro, mês de gente branca convidar gente preta para falar do racismo. É mês de negras e negros celebrarem origem, cultura e religiosidade afro-brasileira. É tempo de inventariar conquistas e elencar reivindicações. Passamos pela Abolição, alcançamos direitos constitucionais, a discriminação racial é crime, estão em vigor ações afirmativas. Destas, a mais bem-sucedida é a política de acesso por cotas a universidades públicas, confirmada na Lei 14.723/2023, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no início da semana. A longa caminhada, por algum tempo, secundarizou um debate ora central. A reparação pela escravidão ganha espaço, na forma de pesquisa e registro históricos, admissão de envolvimento e pedido de desculpas, construção de monumentos, repatriação de patrimônio sequestrado, compensação financeira.

José de Souza Martins* - O agronegócio e o Enem

Valor Econômico

Estamos apenas no meio do caminho da constituição da propriedade privada da terra no Brasil e da sua harmonização com o que é próprio da dinâmica do capital

Porta-vozes de setores do agronegócio fizeram queixas e reclamações contra questões contidas na primeira fase da prova nacional do Enem. Aquela parte da prova que é feita para averiguar quem dos participantes tem formação e capacidade de interpretação de textos que os habilitem a ingressar no curso superior. É fato estranho que porta-vozes de setores do agronegócio tenham manifestado desconforto em relação a questões da prova do Enem que supostamente não correspondem à ideia que os vinculados a esse ramo da economia têm de si mesmos e do que é próprio dele.

Não sendo o agronegócio necessariamente aquilo que os agronegocistas supõem que seja, é mais do que compreensível que seja ele incluído por educadores como tema de um exame desse tipo. Como comentou o jornalista Octavio Guedes, na GloboNews, as perguntas tiveram por objetivo avaliar a competência de interpretação de texto de referência. A problematização foi feita pelo autor desse texto e não pelos educadores responsáveis pelo exame. Nem pelo governo.

A queixa do agronegócio pressupõe equivocadamente o direito de censura contra o conhecimento crítico. Educação é um ramo especializado na produção e distribuição do conhecimento, mesmo sobre vaca e soja. A queixa é um tiro pela culatra.

César Felício - A polarização alimenta islamofobia e antissemitismo

Valor Econômico

No Brasil, perigo pode ser exacerbado por iniciativas que partem tanto do governo quanto da oposição

A polarização social cada vez mais cristalizada polui a visão da opinião pública sobre a guerra de Gaza e alimenta dois monstros: o antissemitismo e a islamofobia. Esse é um fenômeno mundial e esperado, uma vez que não há questão internacional que mobilize tanto a atenção quanto às relacionadas a Israel e Palestina. No Brasil, contudo, esse perigo pode ser exacerbado por iniciativas que partem tanto do governo quanto da oposição.

A começar da oposição: há uma apropriação evidente da identidade judaica e do sionismo pelo arco de forças unidos no bolsonarismo, com um estímulo muito mal disfarçado do governo de Israel. O processo teve um ponto de aceleração no dia 8, quando a administração de Netanyahu tomou duas atitudes que o colocaram no debate político brasileiro.

Naquela quarta-feira, o embaixador de Israel, Daniel Zonshine, encontrou-se publicamente com o ex-presidente Jair Bolsonaro, na Câmara dos Deputados. No mesmo dia, a conta oficial nas redes sociais de Netanyahu anunciou que o Mossad tinha colaborado com a Polícia Federal para frustrar ataques terroristas do Hezbollah no Brasil.

Vera Magalhães - Haddad ganha tempo, mas depende de Lira

O Globo

Jogo do presidente da Câmara tem custo, mas oferece ao ministro menos riscos e mais chance de vitória que a disputa com os colegas de Esplanada

Fernando Haddad ganhou tempo e avançou algumas casas no difícil tabuleiro posto diante de si desde que foi nomeado ministro da Fazenda, mas está longe de vencer a guerra pelo rumo da política econômica. Como diria a música do Coldplay: ninguém disse que seria fácil, mas ninguém também avisou que seria assim tão difícil.

O tempo de que o titular da Fazenda agora dispõe se conta em semanas, no máximo em meses, para fazer virar receita uma série de ideias hoje dispersas em Medidas Provisórias e Projetos de Lei em tramitação nas duas Casas do Legislativo.

Isso demandará negociações caso a caso, tendo Arthur Lira e Rodrigo Pacheco como potenciais aliados, mas, a depender do rumo que as conversas tomarem, também virtuais obstáculos ao avanço das matérias. O tempo é curto, os interesses em jogo são enormes, e os lobbies em atuação são influentes.

Andrea Jubé - Sustentar déficit zero tornou-se uma questão de honra para o ministro

Valor Econômico

Objetivo é se comprometer com a responsabilidade fiscal e recuperar a credibilidade do país junto a investidores nacionais e estrangeiros

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, acumulou mais uma vitória com a reunião de ministros desta quinta-feira, que selou a decisão do governo de não apoiar uma emenda à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para alterar a meta fiscal de 2024. O prazo para eventual modificação esgota-se nesta sexta-feira.

Sustentar a meta de déficit zero até o fim tornou-se uma questão de honra para Haddad a fim de se comprometer com a responsabilidade fiscal e recuperar a credibilidade do país junto a investidores nacionais e estrangeiros. Mesmo que uma parcela de empresários e investidores considere o número duvidoso, e trabalhe, nos bastidores, com uma meta palatável de até 0,30% do PIB.

Claudia Safatle - Haddad ganha tempo para obter receita

Valor Econômico

Vitória do ministro é condicionada ao sucesso na aprovação do pacote de medidas necessário ao aumento da arrecadação

Apesar de o deputado Lindbergh Farias, (PT-RJ), vice-líder da maioria na Câmara, ter apresentado emenda ao Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) sugerindo que o déficit primário do próximo ano seja de 1% do Produto Interno Bruto (PIB), o governo não quis dar seu apoio a essa emenda.

Afinal, há cerca de uma semana o Palácio do Planalto havia dado aval para o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, investir na aprovação do pacote de medidas para garantir a meta de zerar o déficit primário no próximo ano. O assunto estava, portanto, resolvido.

Bruno Boghossian - Haddad ganha tempo

Folha de S. Paulo

Haddad costurou acordo e conseguiu vitória, mas sabe que o resultado é provisório

Fernando Haddad entrou na briga da meta fiscal com uma desvantagem geográfica. O ministro tem a confiança de Lula para gerenciar as contas do governo, mas seu principal adversário nessa queda de braço, Rui Costa (Casa Civil), ocupa uma sala a poucos metros do presidente e despacha com ele diariamente.

O ministro da Fazenda teve que suar para ganhar terreno na disputa. Prestes a ser derrotado, conseguiu o apoio de ministros não palacianos (como Renan Filho, dos Transportes), argumentou que não faltará dinheiro para obras e pediu crédito a Lula para aprovar novas medidas de arrecadação antes de definir o déficit para o ano que vem.

O que Haddad costurou nas últimas semanas foi um acordo para ganhar tempo. Dentro ou fora do palácio, ninguém acredita que o déficit ficará zerado. Lula topou manter essa previsão por enquanto, mas todos sabem que esse número vai mudar —em março, como quer o ministro da Fazenda, ou em dezembro, como quer o chefe da Casa Civil.

Fábio Pupo - Haddad vence por ora, mas enfrentará acerto de contas em breve

Folha de S. Paulo

Propostas para elevar receitas patinam no Congresso com riscos para a credibilidade do arcabouço e governo

O ministro Fernando Haddad (Fazenda) pode ter vencido por ora a batalha para manter a meta de zerar o déficit do governo em 2024, mas agendou um inevitável acerto de contas sobre o tema.

Por um lado, a preservação do alvo recoloca o governo na busca pelo equilíbrio fiscal após o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ter criado tumulto ao lançar a chance de mudança. Ele afirmou que a meta não precisaria ser zero, que alcançar esse objetivo seria muito difícil e que um déficit de até 0,5% do PIB (Produto Interno Bruto) não seria nada.

Vinicius Torres Freire - Uma boa notícia de Lula, que agora pode cuidar do que importa

Folha de S. Paulo

Déficit zero continua; governo pode cuidar de imposto mais justo e desenvolvimento verde

Não vai haver mudança na meta de equilibrar receitas e despesas em 2024, diz o governo. Vai levar um tempo para consertar o estrago feito pela hipótese de cancelar o "déficit zero", aventada pelo próprio presidente da República. Mas é uma boa notícia, que se soma à possibilidade agora maior de que as taxas de juros nos EUA não fiquem tão salgadas por tanto mais tempo.

O governo promete se dedicar a atividades úteis. No ano que vem, vai propor a reforma do imposto de renda, mudança com a qual pretende reduzir desigualdades gritantes. Antes disso, vai apresentar medidas que cancelam privilégios tributários. Em breve, diz que vai mostrar o plano de desenvolvimento econômico "verde".

E daí?

Eliane Cantanhêde – E o corte de gastos, cadê?

O Estado de S. Paulo

Haddad ganhou mais uma, a do déficit zero, mas a guerra continua. E é contra Lula e PT

Há vitórias e vitórias. A do ministro Fernando Haddad na questão do déficit fiscal em 2024 é basicamente retórica, de marketing, e pode ter os dias contados. O principal ministro do governo Lula ganhou uma (mais uma...) batalha, mas a guerra continua, porque o presidente suspendeu, mas não cancelou a possibilidade de revisão do déficit zero na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Agora, Haddad que se vire.

Como sempre, Lula está dividido entre o velho populismo e o pragmatismo responsável e causou o maior rebuliço ao dizer que não era “preciso” déficit zero e que, “para a Fazenda, dinheiro bom é no Tesouro, mas para ele, dinheiro bom é em obras”. Lindo para os leigos, grave para quem entende do riscado e sabe o quanto o tripé macroeconômico é importante para países, governos, populações – principalmente, a mais vulnerável.

Luiz Carlos Azedo - Aliança de Haddad com Lira e Pacheco garante deficit zero

Correio Braziliense

Muitos no governo associam essa meta ao baixo crescimento econômico, daí a pressão para aumentar os investimentos e gastos, mesmo que isso tenha impacto na inflação

O governo descartou a possibilidade de alterar a meta fiscal de deficit zero para 2024, ou seja, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, venceu a queda de braços com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, com argumentos técnicos nas reuniões entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ministros da área econômica. Houve uma trégua nessa disputa, até março do próximo ano. Articulações de bastidores com o Congresso foram decisivas, porque também garantiram o apoio dos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), para aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) sem alteração dessa meta.

O relator da Lei de Diretrizes Orçamentárias no Congresso, deputado Danilo Forte (União-CE), anunciou, nesta quinta-feira, que manterá o deficit zero na proposta a ser aprovada pelo Congresso, a pedido do próprio governo. Logo depois, o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, confirmou a posição do Palácio do Planalto. Haddad e Padilha se aliaram na defesa da meta.

Poesia | 🌸 Todo Dia Poesia #20 🌸 Vladimir Maiakovsk

 

Música | Casuarina - Dia de Graça (com Teresa Cristina)

 

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Cláusula de barreira melhora qualidade da democracia

O Globo

Desde que foi adotada, já houve dez uniões partidárias. Movimento de consolidação deverá se intensificar

As eleições municipais do ano que vem tornarão perceptíveis os benefícios da redução no número de partidos, forçada pela cláusula de barreira, ou desempenho, que garante acesso a recursos dos fundos eleitoral e partidário apenas às legendas que alcançarem um percentual mínimo de votos. Adotada progressivamente desde 2018, ela já propiciou dez uniões partidárias, uma a cada seis meses, segundo revelou reportagem do GLOBO. Na última, aprovada na semana passada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), PTB e Patriota se fundiram para criar o Partido Renovação Democrática (PRD).

Ricardo José de Azevedo Marinho* - Casa-Grande & Senzala no Pós-Segunda Guerra Francês

Aqui está uma bela obra sobre Gilberto Freyre oferecida às leitoras e leitores pela historiadora Cibele Barbosa, pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco do Recife. Escrita histórica e geopolítica da raça: a recepção de Gilberto Freyre na França é um livro chave para compreender a riqueza das relações intelectuais que marcaram o período 1950-1970 entre a França e o Brasil e não só. O livro é fruto da sua tese de doutorado defendida em 2011 perante a Universidade de Paris-Sorbonne e vencedor do 1º Concurso Internacional de Ensaios - Prêmio Gilberto Freyre 2020-2021.

A riqueza da obra aparece antes de tudo no lugar dado pela historiadora a abordagem que situa a grande obra de Gilberto Freyre na diversidade do pensamento social brasileiro. Mas a sua principal fortuna está na descrição da rede de sociabilidade estabelecida entre Gilberto Freyre e os intelectuais franceses como Lucien Febvre, Fernand Braudel, Roger Bastide entre outros que saudaram a moderna escrita da história. Ao conhecerem a obra de Gilberto Freyre publicada no Brasil em 1933, Casa-grande & senzala é uma revelação para os intelectuais franceses que notavelmente integraram essa elaboração da formação da sociedade brasileira, essa civilização em seus conhecimentos da história. A recepção da obra de Gilberto Freyre tem como ponto de partida trocas intelectuais com os franceses.

Merval Pereira - Lugar de fala

O Globo

Hoje, mais do que nunca, exigem-se dos ocupantes de cargos públicos transparência e comportamento probo, que não podem ser apenas presumidos pelos cidadãos, mas têm de ser comprovados no cotidiano.

A necessidade de existência de regras bem definidas de comportamento de autoridades de vários níveis ficou evidenciada nos dias recentes por casos de diversas naturezas. A surpresa com que foi recebida a divulgação de um código de conduta pela Suprema Corte dos Estados Unidos, com o objetivo de impedir que se perpetue a imagem na opinião pública de que aqueles nove magistrados se sentem acima dos cidadãos comuns, inatingíveis pelas leis, mostra como mudaram os tempos desde sua fundação, em 1789.

Hoje, mais do que nunca, exigem-se dos ocupantes de cargos públicos transparência e comportamento probo, que não podem ser apenas presumidos pelos cidadãos, mas têm de ser comprovados no cotidiano. Essa necessidade já estava explicitada pelo imperador Júlio César em 62 a.C., ao dizer: “A mulher de César, não basta ser honesta, tem de parecer honesta”. De lá para cá, nossos césares convenceram-se de que, por si sós, são respeitáveis e respeitados, por isso é necessário que se produzam normas e regras de conduta nos diversos níveis de poder.

Malu Gaspar – Uma cilada para Dino e Lula

O Globo

A ordem no governo Lula é abafar o mais rapidamente possível o caso da mulher de um líder de facção criminosa do Amazonas recebida em audiências por secretários do Ministério da Justiça. Neste feriado, dois dias depois da primeira reportagem do Estado de S. Paulo sobre as visitas de Luciane Barbosa, a “dama do tráfico amazonense”, uma tropa de integrantes do primeiro e do segundo escalão fez postagens de desagravo a Dino.

O coro foi puxado pelo presidente da República, que atribuiu as denúncias a “ataques artificialmente plantados” — ou, nas palavras do titular dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, “claramente coordenados”. Subindo o tom na defesa do chefe, o secretário nacional do Consumidor, Wadih Damous, falou em “mentira adotada como padrão de jornalismo”.

Na superfície, a manifestação de Lula foi apenas uma defesa enfática de seu ministro. Indo mais fundo, o que emerge é outra coisa. Observadores privilegiados da guerra intestina que se desenrola em Brasília pela nomeação para a próxima vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) não têm dúvida de que Lula buscou traçar um “risco no chão”, impondo um freio não à imprensa ou às fake news, mas a seus próprios aliados.

Afinal, embora tenham circulado informações falsas afirmando que Dino se encontrara com a tal “dama do tráfico”, não foi isso que o jornalismo profissional trouxe à tona.

Míriam Leitão -Os negros no horizonte da República

O Globo

Na visão do ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, a República é um horizonte que só se realiza com a inclusão dos negros

Estamos entre o dia da República, ontem, e o dia da Consciência Negra, na próxima segunda. O que liga os dois? Na visão do ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida, o republicanismo, que nasceu restrito, precisa da inclusão de cada vez mais brasileiros: “a República é um horizonte”, diz ele. Um dia da consciência negra é pouco para tanto trabalho. Mesmo o Novembro Negro, que o ministro quer que se institua, ainda é insuficiente. Porque a tarefa é nacional. “Me diga um país que conseguiu se desenvolver discriminando 50% da população?”.

Nesta segunda metade de novembro, o Brasil tem a chance de pensar em duas datas que nos constituem e que podem nos dar um horizonte. A inclusão dos negros em todos os campos da atividade brasileira, a remoção incessante de barreiras à ascensão do povo preto não é o atendimento de reivindicações de uma parcela da população. É a realização do projeto de República, e a garantia de que haja desenvolvimento.

Martin Wolf* - Afrouxamento monetário à vista

Valor Econômico

Inflação em queda põe BCs no ponto mais difícil do ciclo monetário

As taxas de juros dos bancos centrais atingiram um pico nos Estados Unidos e na zona do euro? Se sim, com que rapidez elas poderão cair? Começando na metade de 2021, os bancos centrais tiveram que apertar significativamente suas políticas monetárias. Mas o que eles terão de fazer a seguir é incerto. Independentemente do que os banqueiros centrais possam dizer sobre o que pretendem fazer, os acontecimentos sempre têm a última palavra. Se, como muitos agora esperam, o núcleo da inflação cair rapidamente em direção a suas metas, eles terão de flexibilizar suas políticas.

Embora a perda de credibilidade seja prejudicial quando a inflação fica alta demais, ela também o é quando a inflação fica baixa demais. Um retorno da inflação abaixo da meta e à política monetária de “puxar a corda” seria altamente indesejável. O momento de responder a esses riscos parece próximo - mais próximo do que os bancos centrais admitem, especialmente tendo em conta as defasagens na transmissão do aperto passado. Jerome Powell, presidente do Federal Reserve (Fed), e Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu (BCE), declararam seu plano de não flexibilizar tão cedo. As taxas de intervenção permanecem estáveis há algum tempo: a taxa dos fed funds está em 5,5% desde julho e a taxa de depósito do BCE está em 4% desde setembro.

Nilson Teixeira* - A necessária regulação dos lobbies

Valor Econômico

PL do lobby é um grande avanço, mas há espaço para aperfeiçoamentos

A existência de organizações destinadas ao convencimento de agentes públicos em prol de redações de políticas públicas, leis, atos executivos, licitações e contratos que beneficiem ou protejam seus membros é legítima em um ambiente democrático. Todavia, essas organizações têm demonstrado uma influência excessiva no Brasil, a ponto de obterem redações de leis que pendem em demasia e de forma recorrente contra o bem comum. A manutenção de injustificáveis privilégios para alguns setores da sociedade durante a tramitação da reforma tributária é um exemplo do poder desmedido dessas organizações frente aos interesses da coletividade.

Eugênio Bucci* - O entretenimento engole a política

O Estado de S. Paulo

Quando as decisões que afetam a ordem do comum repelem o entendimento do que seja o bem comum, é porque vai dar ruim. O conceito de República se desfaz na poeira do tempo

Você olha e fica boquiaberto. Mas como pode ser? Você esfrega os olhos, não é possível que esteja vendo o que vê. O modo como as pessoas reagem às notícias desperta no seu espírito uma incredulidade perplexa. Tudo na política – tudo mesmo, sem exceção – virou uma questão de torcida organizada, de arrebatamento de almas (pequenas) e de furor irracional. Nos tempos da covid a gente viu de perto: a hidroxicloroquina vai dar certo porque eu tenho fé; a ivermectina vai salvar vidas porque eu acredito; a vacina chinesa carrega um chip oculto que vai rastrear os desejos de consumo da vizinha, eu sei, eu vi um vídeo na internet. Parece loucura. É loucura.

A polarização se faz de ânimos conflagrados, não mais de opiniões divergentes. A metáfora da ágora grega não serve mais para representar o debate público. A imagem da disputa de pontos de vista entre seres racionais perdeu a validade. Agora, as multidões se sentem em guerras santas, em cruzadas sanguinárias, se sentem no Coliseu de Roma apontando o polegar para baixo. O script do tempo são os linchamentos virtuais. O fundamentalismo corre solto. Intolerância na veia. Nos Estados Unidos, os numerosos radicais do Partido Republicano trabalham com o dogma tácito de que as eleições de 2020 foram roubadas, e ai de quem discordar. Para muita gente, o aquecimento global é um mito fabricado. Eis o colégio eleitoral do nosso tempo.

Roberto Macedo* - Taxa do PIB em 2024: metade da de 2023?

O Estado de S. Paulo

Seria importante que a classe política, Lula e a sociedade em geral dedicassem à fragilidade do crescimento econômico ao menos a atenção que deram à discussão da reforma tributária

Venho insistindo que desde a década de 1980 o nosso Produto Interno Bruto (PIB) passa por um período de estagnação que meu dicionário define como um em que a economia cresce abaixo do seu potencial. Nas três décadas anteriores à de 1980, o crescimento médio anual foi de 7,2% (1950), 6,1% (1960) e 8,8% (1970) e nas quatro seguintes foi de 3,0% (1980), 1,8% (1990), 3,4% (2000) e 1,9% (2010), conforme dados do Ipeadata. Creio que o leitor concordaria que, com uma boa arrumação da economia, em particular do seu setor público, o PIB poderia crescer bem mais. O Brasil vem crescendo menos que muitos países emergentes.

Insisto nessa visão pois ela é pouco percebida pela classe política e pela sociedade em geral. Sem crescer bem mais, este país do futuro vai continuar sem chegar lá e acumulando este passado de baixo crescimento que continua se repetindo.

Celso Ming - Afinal, qual é o limite do progresso?

O Estado de S. Paulo

Neste aniversário da República, vale tomar como tema do dia o que vai cravado no final da Bandeira Brasileira: Progresso.

Antes de seguir, cabe lembrar que o significado original das principais cores da bandeira vem dos tempos do Império e não se referem nem ao "verde das nossas matas" nem ao "amarelo do nosso ouro", expressões que, na sua criação, nada têm a ver com o sentido da heráldica adotada. O campo verde é o da Casa de Bragança, a do Imperador Pedro I; e o losango amarelo, o da Casa de Habsburgo (Áustria), a da Imperatriz Leopoldina. O globo azul com as estrelas substituiu na República o brasão imperial. O lema “Ordem e Progresso" é de inspiração positivista, de grande influência no pensamento do Brasil da época.

A ideia de progresso é relativamente nova na história da humanidade. Toma forma a partir da Revolução Industrial, no século 18. O pensamento antigo partia do pressuposto de que a trajetória humana era progressivamente declinante. Desde Hesíodo (O trabalho e os dias) e Ovídio (Metamorfoses dos Deuses), a história começa com a idade do ouro que, em seguida, vai se deteriorando em prata, bronze, ferro e daí para pior.

William Waack - Desperdiçando o depois

O Estado de S. Paulo

A postura atual do Brasil no conflito de Gaza limita as opções

A política externa de potências regionais médias com escassa capacidade de projetar poder, como é o caso do Brasil, precisa de sutileza, credibilidade e reputação. No caso do conflito em Gaza, o presidente brasileiro escolheu falar grosso, arruinar a credibilidade e buscar reputação com um dos lados envolvidos.

Israel está sendo criticado com veemência, contundência e palavras duras pronunciadas por países democráticos, que consideram inaceitável a matança de civis na operação militar contra o terrorismo do Hamas. Esses mesmos países, porém, não igualam Israel ao Hamas, como Lula insiste – por mais que denunciem o sofrimento imposto aos civis em Gaza.

Ao desprezar esse tipo de sutileza, Lula perde a credibilidade de uma política externa que pretende defender princípios consagrados. Ela sofre fortemente com relativismos frente ao conceito de democracia, como ocorreu com a Venezuela, ou quando se denuncia como crime de guerra a morte de crianças em Gaza, mas não quando a Rússia as deporta da Ucrânia.

Luiz Carlos Azedo - Conselho aprova pausa na guerra, mas Israel não aceita

Correio Braziliense

A resolução da ONU reflete uma mudança de postura do governo dos Estados Unidos, que se absteve na votação, ao lado da Rússia e do Reino Unido

Imaginem um terremoto na Faixa de Gaza maior do que aquele que ocorreu em fevereiro passado na Síria e na Turquia, quando morreram 7, 2 mil pessoas e 35 mil ficaram feridas. Todos os países da região, inclusive Israel, se mobilizariam para socorrer as vítimas, enviando bombeiros, médicos, enfermeiros, psicólogos e outros profissionais. Doações de mantimentos e medicamentos, bem como equipamentos hospitalares e de construção civil, seriam providenciados, com a mobilização de organizações humanitárias para fazer com que tudo isso chegasse aos flagelados no menor espaço de tempo possível. Feridos e desabrigados seriam levados para hospitais e abrigos, respectivamente.

As imagens da destruição causada pelos bombardeios de Israel em Gaza são muito piores do que as de um terremoto daquelas proporções, mas nada disso está sendo feito, muito pelo contrário, a destruição continua. Apesar de o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), pela primeira vez, aprovar uma resolução sem vetos sobre a guerra na Faixa de Gaza, que possibilitaria a mobilização humanitária descrita acima, Israel já avisou que não pretende acatar a decisão e continuará os ataques contra o Hamas, como aconteceu no hospital Al Shifa, ocupado desde quarta-feira.

Marcos Augusto Gonçalves - Política criminosa de Netanyahu é derrota moral de Israel

Folha de S. Paulo

Em mundo que muda, país perde apoio e argumentos com supremacismo no poder

É um sinal de que as coisas não andam bem no mundo do sionismo real quando vemos porta-vozes de Israel se desdobrando para tentar explicar a diferença entre o morticínio de crianças e civis provocado pelo Hamas e o morticínio de crianças e civis provocado por Binyamin Netanyahu.

Lembro-me aqui de atrocidades do socialismo soviético, vistas por intelectuais comunistas como efeitos colaterais da luta inarredável contra os inimigos da grande revolução. Eram claros os sinais, então, de que havia algo de podre no reino do socialismo real.

Já escrevi que Israel não é um Hamas às avessas, mas o país e seus aliados precisam querer manter essa diferença. Não borrá-la, no final das contas, a favor do antissemitismo e das desconfianças consideráveis que rondam a criação de um estado judeu na Palestina. A colonização acintosa da Cisjordânia é outro parafuso central dessa engrenagem ideológica que gira em falso.

Bruno Boghossian - Os decibéis de Lula na guerra

Folha de S. Paulo

Retórica da indignação impulsiona condenação da violência, mas mantém Brasil em papel vago

Em um mês, a reação de Lula à guerra no Oriente Médio passou por quatro movimentos distintos. Nos primeiros dias, as manifestações condenaram os atentados do Hamas, seguindo a cautela histórica do Itamaraty. Depois, o presidente investiu em missões de repatriação e se desviou de ciladas ideológicas iniciais. Na sequência, usou o palco da ONU para emitir as primeiras censuras aos ataques de Israel.

Agora, Lula soltou algumas amarras. Disse que o conflito havia se tornado "um genocídio", responsabilizou as forças militares israelenses pela morte de crianças e afirmou que a conduta de Israel "é uma atitude igual ao terrorismo" do Hamas.

Maria Hermínia Tavares - A excelência cria deveres

Folha de S. Paulo

A Reforma Tributária pode colocar entre parênteses o arranjo vencedor que destaca USP, Unicamp, Unesp e Fapesp

Neste ano, USP e Unicamp ocupam o topo do Ranking Universitário feito por esta Folha. A Unesp, também paulista, ocupa um honroso 6º lugar entre 203 instituições.

O reconhecimento deve-se ao esforço coletivo dos milhares que dão vida às suas faculdades e aos seus institutos, laboratórios, centros especializados, núcleos de pesquisa, observatórios, hospitais, museus e bibliotecas. Mas, além da atuação dos seus integrantes, a força das universidades paulistas vem do fato de estarem no centro de um ecossistema de produção de conhecimentos e formação de quadros, nutrido por uma poderosa agência de financiamento —a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo)— e entrelaçado a institutos públicos e privados de pesquisa; a departamentos similares em empresas; a grandes estruturas estatais, como o SUS e a rede pública de educação; a importantes instituições de cultura.

Ruy Castro - Protegendo os governados

Folha de S. Paulo

Governador considerado um dos mais ineptos do país proíbe nas escolas livros de autores consagrados

Graças a Deus, fui educado por Drácula, Frankenstein, Jack, o Estripador, a Múmia, o Lobisomem, o Médico e o Monstro, Fu Manchu e estrelas que tais da alta literatura. Li-os por volta dos 10 ou 11 anos, nos livros de bolso da editora Tecnoprint, as famosas Edições de Ouro, com texto integral e tradução competente. Eram vendidos em displays verticais em bancas de jornal e pontos de ônibus, ao alcance da mesada de qualquer criança. Não me consta que alguma delas tenha cravado os caninos na mãe ou aberto seu cachorro à faca para lhe perscrutar as tripas. Não éramos idiotas, sabíamos o que estávamos lendo. Mil anos depois, ainda conservo aquelas edições originais.

Thiago Amparo - O calor tem cor e tem classe

Folha de S. Paulo

O clima quente ao extremo expõe as injustiças climáticas, como racismo e aporofobia

Está calor? Sim. Para todo mundo de forma igual? Não. Quantos aparelhos de ar-condicionado ou umidificador de ar você tem em casa? Em SP, apenas 210 das 5.600 escolas da rede estadual possuem sistema de refrigeração (3,7%), segundo dados oficiais; em 12 escolas em Guarulhos as paredes e telhas são de chapa de aço, superaquecidas. Você trabalha ao ar livre sob o sol ou em lugares fechados sem proteção ao calor? Você tem descanso remunerado ou possui flexibilidade de horário?

Você utiliza um transporte de qualidade, confortável e refrigerado todos os dias? Na capital paulista a média de deslocamento pela cidade é de 2h26min; em 2023, a percepção de que os ônibus estão mais cheios chegou a 27%, maior índice registrado em cinco anos pela pesquisa da Rede Nossa São Paulo. Ilhas de calor em SP, agravadas pela poluição automobilística e pela distribuição desigual de mobilidade urbana impactam mais pessoas periféricas, revelou nesta semana estudo do Instituto Peregum.

Poesia | Soneto XXXV | Um Poema de William Shakespeare

 

Música | Francis Hime - "Parceiros" | 50 anos de música

 

quarta-feira, 15 de novembro de 2023

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Conflito em Gaza exige mais equilíbrio de Lula

O Globo

Ao receber brasileiros repatriados, presidente fez paralelo descabido entre Israel e grupo terrorista Hamas

Felizmente o governo federal, graças à ação conjunta do Itamaraty e da FAB, obteve sucesso na repatriação de 22 brasileiros e dez palestinos com vínculos com o Brasil, que esperavam para sair de Gaza desde os ataques do grupo terrorista Hamas em 7 de outubro. A operação, cercada de tensão e de uma negociação sensível com os governos israelense e egípcio, coroa com êxito a iniciativa que já trouxera de volta de Israel cerca de 1.400 brasileiros em oito voos durante uma semana.

Infelizmente, porém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou a chegada do voo para proferir um discurso político em que, ao criticar os ataques de Israel que atingem civis, fez um paralelo descabido. “Se o Hamas cometeu um ato de terrorismo pelo que fez, o Estado de Israel também está cometendo vários atos de terrorismo”, afirmou. Num momento em que o antissemitismo cresce no mundo e, na contramão da nossa tradição, também floresce no Brasil, discursos inflamatórios que comparem um Estado democrático a um grupo terrorista em nada contribuem para um clima construtivo que reduza os danos da guerra.

Vera Magalhães - Dino incomoda muita gente

O Globo

Episódio da 'dama do tráfico' abre nova frente de ataques a ministro, que enfrenta oposição a sua nomeação para o STF

O ministro Flávio Dino (Justiça) tem um espírito brincalhão e costuma fazer graça quando questionado a respeito das várias arestas que coleciona desde que assumiu uma das pastas mais empepinadas da Esplanada sob Lula.

Até tentou submergir nos últimos meses, quando percebeu que o fogo que o atingia vinha de todos os lados, e não apenas da oposição bolsonarista com que manteve enfrentamento sobre a democracia ainda na transição e mais fortemente depois do 8 de Janeiro, episódio em que teve, com sua pasta, papel central. Mas as controvérsias parecem ir a seu encontro, o que não é nada circunstancial. Afinal, se fatos de março ou maio têm vindo à tona agora, é porque há gente buscando e municiando a imprensa de informações.

O episódio da “dama do tráfico Amazonense”, alcunha pela qual Luciane Barbosa Farias é conhecida, é o mais recente a servir para fustigar tanto a capacidade de Dino de conduzir a política de segurança pública do país quanto a possibilidade de Lula indicá-lo para a cadeira vaga desde outubro no Supremo Tribunal Federal.

Elio Gaspari - Dino precisa de uma GLO

O Globo

Na segunda-feira, os repórteres André Shalders e Tácio Lorran revelaram que Luciane Barbosa Farias, mulher do traficante Tio Patinhas, do Comando Vermelho, esteve duas vezes no Ministério da Justiça reunindo-se com servidores. Horas depois, o ministro Flávio Dino correu a explicar-se:

— Nunca recebi, em audiência no Ministério da Justiça, líder de facção criminosa ou esposa.

Ninguém havia dito que Dino havia recebido “a dama do tráfico amazonense”, condenada a dez anos de prisão.

Quem recebeu a Madame Tio Patinhas foram o secretário de Assuntos Legislativos do ministério, o secretário nacional de Políticas Penais, o diretor de inteligência penitenciária e a ouvidora nacional de serviços penais. Em todos os casos, a senhora acompanhava um grupo recomendado por uma ex-deputada estadual fluminense que é vice-presidente da Comissão de Assuntos Penitenciários da Associação Nacional da Advocacia Criminal do Rio de Janeiro (Anacrim-RJ).

Luiz Carlos Azedo - O gabinete do ministro Flávio Dino tem cheiro de queimado

Correio Braziliense

O ministro passa por um processo de isolamento político e qualquer desgaste que sofra, como nesse caso da "dama do tráfico", favorece os que desejam outro nome no Supremo

Quem tem um secretário de Assuntos Legislativos como Elias Vaz não precisa de inimigos. Ex-vereador na Câmara de Goiânia por quatro mandatos e ex-deputado federal, membro do alto escalão do Ministério da Justiça, não poderia se comportar como aquele parlamentar que posa para selfies nos salões e corredores do Congresso quando um suposto eleitor ou correligionário pede. Mas foi o que fez no exercício do cargo, ao receber Luciane Barbosa Farias, mulher de Tio Patinhas, chefe do Comando Vermelho no Amazonas, que foi preso em 2022 e cumpre pena de 30 anos.

O encontro foi revelado pelos repórteres do Estadão André Shalders e Tácio Lorran e teve muita repercussão no Congresso. O deputado Amom Mandel (Cidadania-AM) chegou a apresentar uma notícia crime à Procuradoria-Geral da República (PGR), na qual solicita uma investigação sobre as reuniões no Ministério da Justiça com a participação da esposa do traficante e da ONG Instituto Liberdade do Amazonas, uma em março, com a Secretaria de Assuntos Legislativos, e outra em maio, com a Secretaria Nacional de Políticas Penais.

Bruno Boghossian - As portas giratórias do Ministério

Folha de S. Paulo  

Reação de Dino mostra que, querendo ou não, ministro reconheceu problema em visitante ligada ao CV

Flávio Dino ofereceu um termômetro preciso do incômodo provocado pela revelação das visitas feitas ao Ministério da Justiça pela mulher de um líder do Comando Vermelho. O chefe da pasta gastou energia para tentar se desvincular do caso, disse ser alvo de adversários e classificou o uso de seu nome na história como "calúnia" e "vil politicagem".

Dino tem uma boa dose de razão. Não há registro de que ele tenha recebido Luciane Barbosa Farias, esposa do traficante amazonense conhecido como Tio Patinhas, ou que soubesse do encontro dela com secretários de sua pasta. Mas o tom de indignação mostra que o ministro, querendo ou não, reconheceu o tamanho do problema.