O Estado de S. Paulo
Trump agrava a situação fiscal dos EUA a ponto de deflagrar uma crise nos mercados globais
Um número assombrou os investidores na semana passada: a dívida pública federal dos Estados Unidos acabou de ultrapassar a barreira dos US$ 40 trilhões. Esse deveria ser um problema só dos americanos, mas a repercussão de seus efeitos será sentida em todo o mundo, incluindo o Brasil. A má notícia é que o presidente Donald Trump está agravando a situação fiscal do país a ponto de deflagrar uma séria crise nos mercados globais.
Uma prévia disso aconteceu na semana passada:
a taxa paga pelos títulos do Tesouro americano de 30 anos bateu em 5,31%, maior
nível desde o início da grande crise financeira mundial, em 2007. O governo
Trump ficou desconfortável e quis baixar essa taxa à força, anunciando um
aumento no volume de recompra de papéis da dívida de prazos mais longos (de 10
a 30 anos). Os investidores digeriram mal o anúncio. Viram nele uma forma de
intervenção, distorcendo a livre formação de preços e não resolvendo a origem
do problema: o crescente déficit fiscal dos EUA. Sem falar na pressão que Trump
faz para o Federal Reserve cortar os juros básicos, ainda que a inflação não
endosse tal movimento.
O alívio nas taxas dos papéis do Tesouro
durou menos de 24 horas. A medida ressuscitou o chamado “debasement trade”,
estratégia na qual os investidores reduzem a exposição ao dólar (ou a aplicações
em moeda americana, como a dívida pública), buscando refúgio em ativos como
ouro e bitcoin. Na semana passada, o bitcoin subiu 22%, enquanto o ouro ganhou
5,5%. O índice DXY, que mede a variação do dólar ante uma cesta de seis moedas
fortes, fechou no menor nível em três meses. A aposta é de que Trump seguirá
adotando medidas para degradar o valor do dólar.
Enquanto isso, cresce o temor com a
trajetória da dívida pública. No ano fiscal de 2026, que acaba em setembro, o
governo dos EUA terá pagado US$ 1,1 trilhão em juros da dívida. O serviço da
dívida já é a terceira maior despesa do Orçamento americano, atrás apenas dos
programas federais de Saúde e dos benefícios da Previdência Social. A projeção
é de que o déficit fiscal chegue em 6% do PIB ao fim do ano. Os cortes de
impostos aprovados em 2025 e os gastos com a guerra no Irã contribuíram para
piorar o déficit. E mais: Trump quer aumentar o orçamento de gastos militares e
de Defesa de US$ 1 trilhão, em 2026, para US$ 1,5 trilhão em 2027.
Se nada for feito, os investidores devem
cobrar juros mais altos para rolar a dívida pública dos EUA. Por tabela, as
taxas de títulos de governos ao redor do mundo acabam subindo. O dólar não será
a única vítima. •

Nenhum comentário:
Postar um comentário