Folha de S. Paulo
Além de termos relevância econômica menor,
EUA têm outros interesses por aqui
Ataques americanos devem continuar mesmo
depois do fim do governo Trump
O Canadá é o
destino de 14% do valor total das exportações americanas de bens, uns US$ 350
bilhões por ano. Fica apenas atrás do México, que compra US$ 380 bilhões
dos Estados
Unidos. Para começar, pois o assunto vai além disso, trata-se de muito
dinheiro. Mas Donald Trump e
cia. barbarizam o Canadá.
O Brasil é o destino de 2,3% do valor das exportações de bens americanas. Para começar, é pouco dinheiro, é impacto pequeno em quantidade e qualidade na cadeia de produção e na segurança econômica dos Estados Unidos. Além disso, grande parte do governo Trump, do establishment e megaempresas têm outros interesses no ataque ao Brasil.
Na segunda, o ministro do Desenvolvimento e
Comércio, Márcio
Elias Rosa, com apoio do Itamaraty, conversa com Jamieson Greer, Representante
de Comércio dos EUA. Se houver ao menos conversa inicial de isentar esse ou
aquele produto dos novos impostos de importação ("tarifas"), já vai
ser lucro. É a opinião mesmo dentro do governo.
Greer apita cada vez menos, como se viu nas
negociações com o Canadá, quando foi atropelado pelo secretário de Comércio,
Howard Lutnick. No nosso caso, deve ser atropelado também pelo secretário de
Estado, Marco Rubio, que quer dar cabo da esquerda latino-americana, diz
que o Brasil não é amigo e gostaria de fazer desta região um protetorado.
O bando
de Trump queria submissão do vizinho Canadá. Os termos finais do que
poderia ser um "acordo" não foram apresentados, mas o que vazou
indica que Trump e cia. queriam submeter a política comercial do Canadá à dos
Estados Unidos, entre outros ataques à soberania (e até ao francês do Quebec).
No caso do Brasil, há indícios de que o
governo americano quer bananizar a eleição brasileira, embora a encrenca não
tenha prazo para acabar. No mínimo, empresas favorecidas pelos impostos de
importação de Trump vão fazer lobby pela permanência da proteção. Mais grave,
empresas financeiras e de tecnologia viram em Trump um modo
de tentar se proteger de concorrência (Pix) e de impostos e
regulações.
Outras começam a fazer pressão para tirar uma
cascona da situação —o
agro americano, caindo pelas tabelas, quer socorro. Gente do establishment,
não necessariamente trumpista, não gosta do desenvolvimento de sistemas de
pagamentos e similares que fujam do controle ou da influência americana (o Pix
é só um deles).
Rubio
é pré-candidato à sucessão de Trump e já tem sua turma. Há gente ainda
mais direitista e nacionalista do que Rubio, nazistóides de fato. Ainda que
Trump seja manietado por uma derrota nas eleições de novembro para o Congresso
ou se retire em 2029, o establishment interessado na política agressiva (ou de
guerra) não vai se retirar. Pode ser pior se o Partido Republicano fizer o
presidente em 2028.
No curto prazo, para ser otimista, não temos
instrumentos de retaliação econômica. Montar coalizão comercial para se
defender dos EUA é difícil, leva tempo e não há grande estratégia comercial ou
econômica. Coalizão política talvez seja contraproducente em termos econômicos
(como em investimento) e não costuma dar certo ("não-alinhados", G77,
"Sul Global", Brics e essas conversas).
É também risco de ficarmos sujeitos a outros
poderes. Mas precisamos pensar no que fazer se quisermos um dia crescer.
Depende de projeto econômico de longo prazo (não temos), que depende de novo
acordo político (difícil achar que teremos).
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