quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Candidatos no olimpo, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Candidatos fogem de confronto e encerram entrevistas ao ouvir questões incômodas

Flávio Bolsonaro estava à vontade. Escoltado por Paulo Skaf, desfilou pelos salões da Fiesp como novo escolhido do empresariado paulista. O senador esbanjou bom humor até se deparar com um grupo de repórteres. Mudou de semblante ao ouvir uma pergunta sobre o caso “Dark horse”, que revelou suas relações com Daniel Vorcaro.

“Gente, olha só... vocês vão parar no tempo?”, reagiu, sem disfarçar a irritação. “Não adianta, vocês não vão me colocar na mesma página desse cara. Hoje o governo Lula é que deve explicações. Vão cobrar explicações dele”, ordenou, antes que uma assessora encerrasse a entrevista.

O candidato do PL engrossou com os jornalistas na noite de segunda-feira. Na manhã de terça, foi a vez de Lula abandonar uma coletiva após ser questionado sobre os rolos do filho Fábio Luís. O presidente havia caminhado até os repórteres ao fim da cerimônia do Dia do Soldado. Falou o que quis sobre soberania e investimentos em Defesa. Ao ouvir uma pergunta sobre Lulinha, deu as costas e bateu em retirada.

Lula e Flávio são muito diferentes, mas têm adotado táticas semelhantes. Querem fazer campanha no olimpo, a salvo do escrutínio e do contraditório. Por isso, fogem de entrevistas longas, sabatinas e debates. Preferem falar em ambientes controlados, onde não precisam enfrentar temas incômodos.

O presidente passou a abrir o palácio a youtubers e influenciadores que só faltam lhe pedir autógrafo. O senador reeditou as lives em que o pai pregava para a bolha da extrema direita. No domingo, os dois se uniram no boicote ao debate da Band. Usaram desculpas variadas: a presença de nanicos, o risco de pegadinhas, o formato previamente aceito por seus próprios assessores.

O mau comportamento dos presidenciáveis já foi imitado por candidatos a governador. Eduardo Paes e Sergio Moro também faltaram aos primeiros debates no Rio e no Paraná. Esconderam-se atrás da liderança nas pesquisas, descrevendo como estratégia o que foi apenas soberba e desrespeito ao eleitor.

Se pudessem, Lula e Flávio se limitariam a recitar discursos e gravar peças de propaganda. Os dois só confirmaram presença na bancada do Jornal Nacional, onde falarão nos próximos dias, porque sabem que o custo da ausência seria maior.

 

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