CartaCapital
O credo do novo liberalismo, como o do velho,
reza que é tempo de abandonar a pretensão de influir no ânimo dos
capitalistas
Os debates eleitorais sugerem uma tensão permanente nas relações entre a economia e a democracia. Os candidatos inclinados à direita, a despeito de suas convicções autoritárias, acham possível reduzir essa tensão por meio do encolhimento do Estado e da redução de suas funções, despolitizando a economia. Estamos, assim, diante de um paradoxo que postula a convivência entre liberalismo econômico e autocracia política.
Contra essa intrusão abominável da política,
Paul Krugman, ainda em seus tempos conservadores, rebelou-se, recorrendo à
retórica do método, no livro The Accidental Theorist: “O verdadeiro economista
não começa com a visão política, mas com o relato de como o mundo funciona
(itálico do autor). Esse relato quase sempre assume a forma de um modelo – uma
representação simplificada do mundo que ajuda a desbravar as complexidades.
Dispondo-se de um modelo, é possível averiguar o seu grau de compatibilidade
com os fatos; se a compatibilidade for razoavelmente boa, indaga-se sobre os
tipos de grandezas e as modalidades de opiniões excludentes nele implícitas.
Assim, a opinião política emana do modelo, não ao contrário”.
A aventura metodológica do economista Krugman
quer dizer, na essência, o seguinte: as políticas de intervenção e de
coordenação pública devem limitar-e a corrigir o mundo quando ele não funciona
(“falhas do mercado”). Krugman partilhava o ponto de vista de que, em
princípio, os mercados são formas de organização econômica e social que, em sua
lógica evolutiva, devem encaminhar-se para um estágio em que serão capazes de
oferecer informações cada vez mais completas para guiar as decisões dos
participantes. Reconheceu, é verdade, que, como o Nirvana não
está próximo, teremos de conviver com os males da intervenção
pública ainda por um longo tempo.
O credo do novo liberalismo, como o do velho,
reza que é tempo de abandonar a pretensão de influir no ânimo dos capitalistas.
Se pretendemos mais riqueza no futuro, devemos desobrigá-los de conceder a
outrem os benefícios de sua compulsão “egoísta” de acumular
riqueza. Quaisquer constrangimentos à busca do próprio interesse, afirmam,
podem desencadear reações “negativas”, chegando ao ponto de paralisar a máquina
de crescimento capitalista e inviabilizar o funcionamento dos próprios
dispositivos de proteção e compensação “social” que se imaginou criar.
O mal é a política. Se o Estado se limitasse
a cumprir os seus deveres de guardião da livre concorrência, de bom
administrador das finanças e da moeda, tudo correria às mil maravilhas. Mas a
política dos interesses e os interesses da política se intrometem
frequentemente no jogo da economia, quebrando a harmonia de interesses
promovida pela ação dos “sujeitos racionais”.
No célebre artigo O Fim do Laissez-Faire,
John Maynard Keynes ironizou a ideia de que a busca do interesse privado
levaria necessariamente ao bem-estar coletivo. “Não é uma dedução correta,
segundo os princípios da teoria econômica, afirmar que o egoísmo esclarecido
leva sempre ao interesse público. Nem é verdade que o autointeresse é, em
geral, esclarecido.”
Conservador, Keynes professava a crença de
que a sociedade e o indivíduo são produtos da tradição e da história. Tinha
horror ao utilitarismo de Bentham e cultivava os valores de uma moral
comunitária, antivitoriana e, portanto, radicalmente antiutilitarista. Isso não
quer dizer que recusasse o programa da modernidade, empenhado no avanço das
liberdades e da autonomia do indivíduo. Não acreditava, porém, que a promessa
pudesse ser cumprida numa sociedade individualista em que os detentores de
riqueza orientam obsessivamente o seu comportamento em direção às vantagens do
ganho monetário.
O “amor ao dinheiro”, dizia, é o sentimento
que move o indivíduo na economia mercantil-capitalista. Fator de progresso e de
mudança social, the love of money pode transformar-se em um tormento para o
homem moderno. Seus efeitos negativos precisam ser neutralizados mediante a
ação jurídica e política do Estado, sobretudo por meio da atuação de “corpos
coletivos intermediários”, como, por exemplo, um Banco Central dedicado à
gestão consciente da moeda e do crédito.
Keynes acreditava que a cura para os males do
capitalismo deve “ser buscada, em parte, pelo controle da moeda e do crédito
por uma instituição central e, em parte, por um acompanhamento da situação dos
negócios, subsidiado por abundante produção de dados e informações”. E falava
“da direção inteligente pela sociedade dos mecanismos profundos que movem os
negócios privados”. Particularmente, dos processos que envolvem as decisões de
investimento, ou seja, a criação de riqueza nova.
Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital, em 02 de setembro de 2026.

Nenhum comentário:
Postar um comentário