sábado, 29 de agosto de 2026

Uma nova política para um novo mundo do trabalho, por Ivan Alves Filho*

Tenho buscado refletir sobre as mutações em curso no aparato produtivo. Com efeito, a automação, a robotização e a inteligência artificial apontam para uma profunda mudança no exercício do trabalho humano. O que está acontecendo, em parte, é uma reinvenção do próprio trabalho, com a formação de um proletariado digital, reunindo os trabalhadores do algoritmo. Este é um ponto central da realidade atual. 

Mesmo se a IA ainda repete o que está armazenado nos bancos de dados, isto é, comunica e não cria, ela tende a se tornar um fator de produção e precisará ser regulada, as instâncias públicas tendo um papel central nisso. Conforme escrevi uma vez, “hoje, a luta se desloca cada vez mais para as plataformas digitais, controladas atualmente pelo grande capital. O embate em torno delas é fundamental para o futuro da Humanidade sem exploração. Há, também, o risco de minorias técnico-burocráticas se apoderarem do poder, o que coloca a batalha pelo conhecimento na ordem do dia”.

Com o recuo do trabalhador envolvido em atividades diretamente produtivas, resta saber se o modo de produção capitalista poderá deslocar a seu anseio por lucros para outros setores, como aqueles que atuam de forma indireta na vasta cadeia produtiva. Em uma resenha que fiz para o livro do engenheiro Alfredo Maciel, intitulado Sorriso escondido – Memórias em prosa e verso, da Aquarius Produções Culturais, eu me perguntava o seguinte: “até que ponto o capitalismo não estaria gerando uma base material que não se adequa mais à extração da mais-valia? Ao mesmo tempo, este sistema econômico pode estar operando um deslocamento no processo da extração do sobretrabalho para outras áreas, ligadas por exemplo a um tipo de produção de corte mais imaterial. As plataformas digitais já indicam isso, apresentando-se como um novo terreno para a prática da luta de classes. Isto é, a exploração da força de trabalho não se limitaria mais à exploração da função diretamente produtiva.” Um fato é certo: o capitalismo não poderá levar até o fim a automação do trabalho humano, pois sem salário não há capital, simplesmente. Tampouco existe mais-valia extraída de robô. 

Quando Karl Marx e Friedrich Engels publicaram o Manifesto do Partido Comunista, em janeiro de 1848, a França apresentava 70% de sua população no campo e a Alemanha pouco menos, 60%. Somente a Inglaterra, pátria da Revolução Industrial, havia traçado de fato um caminho em direção ao capitalismo. Mesmo assim, os dois militantes e pensadores alemães perceberam com acuidade para onde estava soprando os novos ventos do desenvolvimento das forças produtivas. Hoje, estamos vivendo uma situação muito parecida, com profundas alterações na composição das classes sociais. A história das lutas travadas nos últimos dois séculos demonstra que as intervenções políticas da classe trabalhadora acompanham sempre as mudanças no aparato produtivo. Assim, o movimento anarquista correspondeu à fase artesanal da indústria e o movimento comunista tem que ver com o período do chão da fábrica. Ambos lutaram e sonharam com o estabelecimento de uma sociedade sem classes sociais. Ainda que alguns ativistas continuem a buscar esse objetivo, nós não estamos mais na fase artesanal e tampouco na era das fábricas. Existe uma busca muito grande por alternativas, das cooperativas ao trabalho por conta própria. O Brasil possui cerca de dez milhões de artesãos, por exemplo, e mais de 15 milhões de microempreendedores. Hoje, na grande indústria, o trabalho morto (grosso modo, aquele das máquinas, o capital constante, incorporando o trabalho das gerações anteriores) tende cada vez mais a suplantar o trabalho vivo (aquele dos operários, expresso em salários). 

Mais: tomando por base a obra Grundrisse de Marx, Alfredo Maciel destaca em seu ensaio a possibilidade de generalização da exploração da força de trabalho social. Resta averiguar como isso se daria. No Brasil mesmo, com a Abolição da Escravatura, em 1888, quando a classe dominante escravista se “suicidou” enquanto classe social, ela adotou outras formas de extração do sobretrabalho, seja por meio das relações de produção de tipo feudal (meia, corveia, barracão), seja recorrendo diretamente à exploração do trabalho assalariado em ambiente fabril. A questão hoje é saber se alguma outra forma de exploração do trabalho humano irá se suceder às formas atuais presentes no modo de produção capitalista – e, nesse caso, qual seria ela?

Essas indagações são fundamentais para a construção de uma política para esse novo mundo do trabalho que se apresenta diante de nós. Se o Brasil quer novamente se dotar de um projeto de nação - e não apenas de um plano de governo ou, o que é ainda pior, de um mero propósito de perpetuação de poder pessoal - essa me parece ser uma questão incontornável.

E ausente, até o momento, dos debates em torno das eleições presidenciais de 2026. Ainda há tempo.

*Ivan Alves Filho, historiador

Nenhum comentário: