O Globo
Não há mais o favoritismo do presidente Lula,
e o representante do ex-presidente Jair Bolsonaro resiste, tudo devido aos
escândalos que cercam as duas candidaturas.
A campanha eleitoral mais desanimada dos últimos tempos segue seu ritmo sem que se possa antever o que sairá das urnas. Não há mais o favoritismo do presidente Lula, e o representante do ex-presidente Jair Bolsonaro resiste, tudo devido aos escândalos que cercam as duas candidaturas. A cada dia fica mais evidente que não existe uma terceira via com capacidade de competir com os dois favoritos. O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, que era considerado a melhor alternativa, a cada aparição em debates ou entrevistas vai se tornando menor, revelando que os muitos anos de política o desgastaram mais que ao presidente Lula.
O ex-governador de Minas Romeu Zema já
assumiu estar na disputa não para ganhar, mas para ajudar o Partido Novo a
fazer uma bancada que resista às cláusulas de barreira. Também em São Paulo, o
ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad assumiu disputar o governo do estado
apenas para dar um palanque a Lula, admitindo implicitamente que não ganhará.
Do jeito que a volatilidade eleitoral vai se revelando pesquisa após pesquisa,
o PT passa a tentar ganhar no primeiro turno, pois teme perder no segundo. Há
um movimento claro de antipetismo ascendente, que resiste à frágil candidatura
de Flávio em nome de seu pai. É a vontade de ver Jair subindo a rampa do
Palácio do Planalto com a eleição de Flávio que motiva o eleitorado a aturar um
candidato fraco.
A anistia prometida por todos, menos por
Lula, dá esperanças ao eleitorado de direita, pois sabe que, Flávio vitorioso,
Jair voltaria a governar por meio de sua interposta pessoa. Outro qualquer que
vença a eleição, duvido que cumprirá a promessa de anistiá-lo, pois criaria o
corvo que poderia arrancar-lhe os olhos. Assim como Dilma tentou colocar Lula na
chefia da Casa Civil para livrá-la do impeachment, também Flávio deve levar o
pai para governar por ele, dando a essa gestão uma característica exótica que
complicaria mais ainda seu destino.
Na sabatina da Globo com os candidatos,
Caiado e Zema revelaram-se cópias amareladas de Bolsonaro. Caiado mostrou-se um
político autoritário, que quer mudar uma reforma tributária recém-aprovada,
depois de 30 anos de discussão. Comparou gato com lebre ao falar de anistia aos
envolvidos na tentativa de golpe. Ao mesmo tempo, não ter vacinação
obrigatória, defender o governo de El Salvador, que não respeita os direitos
humanos, dizer que não houve tentativa de golpe, como Zema, tudo faz com que os
dois ex-governadores sejam candidatos semelhantes a Flávio. Por que votar na
cópia?
Eis aí, talvez, a explicação para que esta
eleição presidencial mobilize tão pouco a população. É um filme a que todos nós
já assistimos, e sabemos que não termina bem. Um candidato que já teve três
mandatos e quer um quarto. Outro, que já teve um mandato, quer ter um novo por
meio do filho, para chamar de seu, e os dois não têm nada de novo a oferecer.
Quando Lula venceu a primeira vez, em 2002, representava um sopro novo na
política brasileira para a maioria do eleitorado. Os dois mandatos dos tucanos,
com Fernando Henrique à frente depois de vencer duas vezes no primeiro turno,
haviam se esgotado com a desvalorização do real. Quando Bolsonaro venceu em
2018, representava uma mudança radical depois do governo desastroso de Dilma e
da prisão de Lula por acusações de corrupção que retornam até hoje.
A família Bittar, sócia do famoso sítio de Atibaia, está de volta agora com as estripulias de Lulinha. A mesma pessoa que dizia morar no sítio paulista para anular a acusação de que era, na verdade, de Lula e sua família, agora aluga uma casa em Brasília onde Lulinha e a lobista Roberta Luchsinger alegadamente faziam negócios. Os Bolsonaros continuam envolvidos em negócios obscuros. Antes era a rachadinha, agora são os milhões da cinebiografia do ex-presidente, financiada por dinheiro do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, cujo paradeiro ainda não foi identificado. Sem falar na tentativa de golpe.

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