Correio Braziliense
Não são números que se escondem atrás de
eufemismo. É gente que abre a loja de manhã sabendo que uma parcela vai vencer
antes do fechamento de caixa
Nos últimos dados do Banco Central, a inadimplência
das empresas voltou a subir: 3,2% na carteira ampliada, um pouco mais entre as
menores. Em pesquisas aplicadas trimestralmente com pequenos negócios em todo o
país, 28% já declaram ter alguma dívida em atraso, e mais da metade de quem tem
compromisso em aberto vê o pagamento consumir 30% ou mais dos custos mensais do
negócio. Não são números que se escondem atrás de eufemismo. É gente que abre a
loja de manhã sabendo que uma parcela vai vencer antes do fechamento de caixa.
Dito isso, sem meio-termo: esse retrato não é sinônimo de fracasso pessoal. É sinônimo de um sistema que ainda trata o pequeno empreendedor como um risco a ser precificado, quando deveria tratá-lo como um agente a ser conhecido.
Explico a diferença. Precificar risco é o que
um banco faz quando olha para um CNPJ recém-aberto e enxerga apenas ausência de
histórico: sem garantia, sem colateral e sem grade de score, portanto caro ou
fechado. É o motivo pelo qual a taxa média de juros no crédito livre para
pessoa jurídica segue na casa dos 24% ao ano, mesmo quando a Selic dá sinais de
trégua. Conhecer, por outro lado, é reconhecer que aquele mesmo CNPJ tem uma
trajetória territorial e uma reputação construída com fornecedores e clientes,
um capital social que nenhuma nota de crédito tradicional capta, mas que vale
alguma coisa na hora de prever se o negócio vai honrar um compromisso.
Essa distinção não é retórica, ela muda o
desenho de política pública. Um Estado que só sabe punir inadimplência tem uma
ferramenta: cobrança, que no limite termina em negativação e execução. Um
Estado que sabe reconhecer trajetória tem um leque bem mais largo. Pode
diagnosticar antes de o atraso virar protesto, ou reorganizar prazo antes de
empurrar mais crédito. E pode sentar o empreendedor e o banco na mesma mesa com
dados na mão, em vez de dívida vencida em cobrança, sem tratar quem está
atrasado como alguém que fracassou moralmente. Na maior parte dos casos que a
pesquisa capta, o que pesa no caixa não é imprudência: é custo de insumo
subindo enquanto o cliente escasseia e o juro caro corrói uma margem que já
nasceu fina.
Aqui é onde a pauta deixa de ser só de crise
e vira pauta de desenvolvimento. O Brasil tem hoje mais de 24 milhões de
pequenos negócios. Cada um desses CNPJs é, ao mesmo tempo, unidade produtiva e
projeto de vida de alguém, muitas vezes o único ativo que uma família teve
chance de construir. Tratar o endividamento desse universo como problema
técnico de cobrança é desperdiçar a oportunidade de tratá-lo como o que ele
realmente é: um ponto de alavancagem para inclusão econômica em escala
continental. Um pequeno negócio que sai de uma reestruturação de dívida
bem-feita não volta ao ponto de partida: volta mais forte, porque atravessou um
processo que o obrigou a organizar o próprio caixa e entender a estrutura de
custo antes de negociar de uma posição menos frágil.
Já existem iniciativas nascendo com esse
espírito, dentro e fora do poder público: programas que combinam diagnóstico
prévio, reorganização de passivo e crédito responsável numa sequência pensada,
em vez de empurrar linha de financiamento para quem ainda não sabe quanto deve
nem para quem deve. É um desenho mais trabalhoso do que simplesmente abrir uma
linha de crédito emergencial: exige montar protocolo, capacitar gente e
negociar condição de verdade com o banco, não apenas anunciar. Mas é o tipo de
trabalho que, historicamente, separa política pública que resolve de política
pública que só comunica.
Isso não é ingenuidade otimista. É reconhecer
que o mesmo dado que assusta, quase três em cada 10 pequenos negócios em
atraso, é também o dado que permite agir com precisão, porque hoje sabemos
exatamente que porte e que setor está mais exposto. Antes, o Estado enxergava o
pequeno negócio endividado só quando ele já tinha fechado. Agora existe
instrumento para enxergar antes, e para responder com política de
reconhecimento, não com política de sanção.
O problema já está posto, e nenhuma nota
otimista o apaga. O que ainda está em aberto é o tipo de resposta: tratar o
pequeno empreendedor endividado como estatística de risco a ser gerida, ou como
sujeito econômico a ser reconhecido e, a partir desse reconhecimento,
reconstruído.
*Giovanni Bevilaqua, Doutor em Economia pela Universidade de Brasília

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