Valor Econômico
Existe a convicção no Palácio do Planalto que
a eleição será novamente decidida por estreita margem de votos, provavelmente
com uma parcela importante dos chamados "eleitores-pêndulo" reagindo
a cada revelação dos vários escândalos em curso no país. São monitorados com
lupa, portanto, os possíveis desdobramentos do caso que envolve a empresária Roberta
Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e as tratativas da
lobista pela Esplanada dos Ministérios.
A avaliação é que os danos até agora só não foram maiores porque houve a tentativa de viabilizar a comercialização do “produto errado” para o Ministério da Saúde. Isto é, ela poderia ter tentado vender qualquer remédio para dor de cabeça, por exemplo, que a intermediação teria mais chances de ser bem-sucedida. Mas o que veio a público, por enquanto, foi a articulação para a aquisição de frascos de canabidiol.
Segundo as investigações, essa negociação
visava a aquisição pelo Ministério da Saúde, por dispensa de licitação, em um
negócio que seria supostamente direcionado para a empresa de Antônio Carlos
Camilo Antunes, que ficou conhecido como “Careca do INSS” depois do escândalo das
fraudes nas aposentadorias e pensões.
Importante ponderar que todos os citados
negam qualquer tipo de irregularidade. E que o “erro”, neste caso, não se trata
das discussões sobre a conveniência clínica ou eventuais falsas polêmicas
envolvendo o canabidiol.
O uso medicinal de produtos derivados de
cannabis tem avançado em diversos países e é um debate que, inclusive, demorou
a ser enfrentado no Brasil. Há diversos estudos científicos sobre os potenciais
benefícios e eventuais riscos residuais desses medicamentos, que podem ser
administrados em tratamentos como distúrbios neuropsiquiátricos, dores crônicas
e epilepsia.
O tema chegou a ser judicializado e só mais
recentemente a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) atualizou o
marco regulatório sobre a fabricação e importação de produtos de cannabis para
uso medicinal humano. Ou seja, o suposto lobby de Roberta Luchsinger se deu em
torno de um produto que à época sequer tinha autorização da Anvisa.
Para fontes do governo, a intenção do seu
grupo seria conseguir o aval do Ministério da Saúde e, com este carimbo, passar
a ter também portas abertas para fechar contratos robustos com Estados e
prefeituras. Um baita negócio. Porém, esse não é um processo simples.
A incorporação de novas tecnologias no âmbito
do SUS precisa passar por uma comissão, cujas reuniões são gravadas e
disponibilizadas ao público. O mesmo ocorre quando esse colegiado precisa
deliberar sobre a exclusão ou alterações de tecnologias, assim como a respeito
de protocolos clínicos e diretrizes terapeuticas. No fim das contas, tudo
indica que a própria burocracia envolvida nesse tipo de compra acabou criando
as barreiras que garantem, neste momento, um discurso ao governo de que não foi
fechado contrato entre as pessoas investigadas e Ministério da Saúde.
Foi o que o presidente Lula disse em outras
palavras, por exemplo, em entrevista à TV Globo na semana passada. “Até agora
não existe uma prova de um centavo público”, afirmou. “Essa mulher conseguiu
liberar o dinheiro que ela disse que estava atrás? Ela conseguiu liberar? Tem
prova que tem dinheiro público? Porque aí é que está o crime.”
Mas, em crises como esta, sempre é bom
diferenciar as eventuais consequências jurídicas do impacto político das
denúncias.
Na visão de interlocutores do presidente, os
efeitos jurídicos podem mesmo estar relativamente contidos. Isso porque, de
fato, o contrato não foi fechado com a administração federal. Algumas mensagens
trocadas pela empresária com o filho do presidente mostram até certa frustração
em relação ao andamento dos negócios.
Além disso, há quem acredite que as provas
coletadas durante as investigações podem ser anuladas pela Justiça, se surgirem
indícios de que foram coletadas de forma "heterodoxa".
Mas o impacto político é outra coisa. E este,
inclusive, já existe: a lobista chegou ao gabinete presidencial e a outros
auxiliares diretos de Lula.
Foi por isso que, diante das revelações sobre
as conexões da empresária com seu ex-chefe de gabinete, o presidente Lula
convocou uma série de ministros para tentar mapear o potencial estrago que sua
campanha pode enfrentar. Segundo relatos, recebeu como resposta que nada de
errado havia sido feito. Mas logo depois surgiram notícias sobre reuniões que
Roberta Luchsinger manteve em pastas da área social, gerando desconforto
adicional no Palácio do Planalto. Cresce também o receio de que a empresária,
chamada de “pilantra” por Lula na mesma entrevista, conclua que será abandonada
pelos parceiros e comece a falar, porque não tem mais nada a perder.
Diferentemente do discurso da oposição, o
governo não trata seus problemas como "página virada". Está certo,
pois sabe que as próximas semanas serão movimentadas. Afinal, apenas nas
primeiras horas de setembro já houve um repentino crescimento no interesse nas
redes sociais por Augusto Cury (Avante), a campanha de Renan Santos foi
temporariamente limitada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias
Toffoli, notícias no caso “Dark Horse” geraram novo constrangimento a Flávio
Bolsonaro (PL) e, logo na sequência, mais revelações sobre as conexões entre o
ex-banqueiro Daniel Vorcaro com o poder movimentaram o mundo político.

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