O Globo
Será preciso reformar o Supremo, a começar
pela prática daninha de presidentes indicarem amigos
E essas eleições aí? Nas ruas, já começam a
perguntar pelo processo eleitoral e confesso que não tenho resposta fácil. O
Brasil anda muito complicado, temos de fazer um esforço permanente para ligar
os fios, preencher lacunas, enfim, entender o que se passa.
A historiadora e psicanalista Élisabeth
Roudinesco fez uma palestra interessante no Brasil com o título “Ainda podemos
sonhar com outra vida?”. Sinto que as pessoas na rua me fazem precisamente esta
pergunta:
— Ainda podemos sonhar com outro país?
Roudinesco faz uma digressão sobre uma famosa ideia popularizada por Gramsci: é preciso aliar o pessimismo da inteligência ao otimismo da vontade. Segundo ela, a inteligência anda junto ao pessimismo porque pressupõe uma distância crítica da realidade para que a gente não se iluda. Parar por aí, porém, pode significar um mergulho na nostalgia, uma recusa a mudar o curso da história.
Todas essas teorias são complexas. No Brasil,
às vezes parecem inaplicáveis. A crise é muito profunda, com deputados gastando
uma grande parte do Orçamento, ministros do STF associando-se a banqueiros
desonestos, escândalos como combustível de campanha.
Ainda assim, precisamos sonhar com outro
país. Meus sonhos são modestos. Gostaria de ver o Brasil aproveitando seus
recursos naturais de forma sustentável, mantendo sua posição de importante
interlocutor ambiental no mundo. Gostaria de ver o país defendendo a paz e a
solução dos conflitos pelo diálogo, mas bastante mais preparado para se
defender, uma vez que já não se respeitam as leis internacionais.
É preciso completar a transição energética,
digitalizar o governo para facilitar a vida de cidadãos e empresas, avançar na
educação. Será uma grande felicidade liberar milhões que vivem em áreas
ocupadas pelo tráfico ou pela milícia. E também liberar do medo quem caminha
pelas cidades.
Não sigo enunciando um programa, pois não sou
candidato. É preciso deixar o espaço do outro, para que coloque também seus
sonhos na mesa. No fundo mesmo, não acredito numa separação rígida entre
inteligência e vontade, razão e emoção.
Sou leitor do neurocientista António Damásio,
e ele se ocupa de criticar essa separação. Coração e cabeça andam muito mais
próximos do que parece. Mas, para que a gente consiga sonhar com um outro país,
será preciso enfrentar esses gargalos.
Não creio que basta punir um juiz que faz
acordos milionários com o crime financeiro. Será preciso reformar o tribunal, a
começar pela prática daninha de presidentes indicarem amigos ao STF. Isso
arruinará a possibilidade de justiça no país. Temos regras descritas na
Constituição, mas não as seguimos. A polarização tem sido introjetada no
Supremo.
Mesmo com certo desencanto com o processo democrático ao longo desses anos, precisamos insistir nele. Pelo menos, podemos legar algumas pequenas vitórias aos que virão e, quem sabe, o esforço de gerações acabará vingando.

Um comentário:
Emoção e razão são coisas bem distintas e distantes e,na hora da votação,a emoção prevalece.
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