terça-feira, 8 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Congresso dá passo correto rumo à economia do futuro

Por O Globo

Leis com incentivos a data centers e regras para minerais críticos são fundamentais para modernizar país

Depois de muita protelação, o Congresso enfim aprovou na semana passada duas leis essenciais para preparar o Brasil aos desafios econômicos do futuro. Na terça-feira, os senadores chancelaram um Projeto de Lei restabelecendo estímulos fiscais à instalação de data centers. No dia seguinte, referendaram o Projeto de Lei dos Minerais Críticos, com regras e incentivos para exploração e beneficiamento de diversos minérios, entre eles as terras-raras.

Com matriz enérgica limpa, o Brasil tem potencial para se tornar um expoente em data centers, o dínamo que armazena e processa informação no mundo digital. Sem eles, não há como acessar aplicativos de banco, chamar carros, ver filmes no streaming, entrar em redes sociais e, sobretudo, usar inteligência artificial (IA). Grandes consumidores de eletricidade e água, os data centers têm sido alvo de protestos em comunidades rurais americanas, sobretudo em razão do aumento do custo da energia. O Brasil tem uma enorme vantagem comparativa no fornecimento de energia e água — e pode atrair para cá o investimento rechaçado por lá.

Chancelado pela Câmara em fevereiro, o texto da lei aprovada na semana passada restaura o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), que confere isenção de impostos federais por até cinco anos na compra de componentes eletrônicos ou produtos de tecnologia para novos projetos de data centers. Como contrapartida, as empresas devem respeitar critérios de sustentabilidade e atender a demanda de energia elétrica por meio de fontes renováveis ou de baixa emissão.

No setor de minerais críticos, o Brasil também conta com vantagens comparativas notáveis. O país abriga a segunda maior reserva mundial de terras-raras, conjunto de 17 elementos químicos. Eles estão nos microfones, nas telas sensíveis ao toque ou na peça que faz os celulares vibrar. São essenciais para turbinas eólicas, carros elétricos, motores de jatos militares e mísseis guiados a laser. A China é a líder mundial no setor. Conta com a maior reserva, domina 69% da extração e mais de 90% do refino. Em mais de uma ocasião, os chineses usaram seu poder de mercado como arma de barganha. Como resposta, americanos, japoneses e europeus buscam novos fornecedores.

Para tornar o mercado brasileiro mais atraente, a nova legislação oferece incentivos fiscais não apenas para extrair os minérios, mas também para beneficiá-los antes de exportar. A lei estabelece destinação obrigatória mínima de recursos a projetos de inovação, ciência e tecnologia. O refino é uma tarefa difícil. Em alguns casos, exige mais de cem etapas. As informações sobre cada uma são um dos maiores segredos chineses. Levando em conta a geologia específica do Brasil, será preciso alterá-las e criar tecnologia própria.

As leis aprovadas na semana passada são apenas o começo. Há muito ainda a fazer para o país assumir uma posição de destaque nos negócios do futuro. O papel do governo é essencial, mas nada será feito sem envolvimento da iniciativa privada e da academia. Pelo menos, o Congresso deu um primeiro passo na direção correta.

Infraestrutura precisa acompanhar ritmo de expansão urbana do Brasil

Por O Globo

Cidades ganharam 6 mil km² em quatro anos, mas falta investir em transporte, saneamento e energia

As cidades brasileiras continuam a se expandir. De 2019 a 2022, o Brasil urbano ganhou quase 6 mil km², crescimento de 12,3%, de acordo com o “Mapeamento das Áreas Urbanizadas” do IBGE. Brasília está em primeiro lugar no ranking de municípios em que os núcleos urbanos mais cresceram, com 72 km². O crescimento se dá em cidades-satélites como Taguatinga ou Ceilândia. São Luís foi a segunda colocada.

A urbanização acompanha a evolução econômica. O campo se esvazia, à medida que a agropecuária se mecaniza, e as novas gerações vão para a cidade atrás de educação e empregos. A transformação não ocorre sem choques. A carência de investimentos em água, luz, esgoto, gás ou internet tende a degradar a qualidade de vida nas novas manchas urbanas. Grandes parcelas da população se veem obrigadas a migrar para longe das zonas centrais, pressionando a demanda por serviços de transportes. O resultado pode ser visto no dia a dia frenético das metrópoles. “O Brasil já é um dos países mais urbanos do mundo, o que não quer dizer mais urbanizado”, diz o arquiteto e urbanista Zeca Brandão, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Faltam saneamento básico, bom sistema de mobilidade urbana, espaços públicos, não ter déficit habitacional e contar com infraestrutura para a dimensão do território urbano.”

O crescimento das manchas urbanas é inexorável. Ocorre mesmo em cidades que tomaram medidas de contenção com cinturões verdes, como os criados por Londres entre os anos 1930 e 1940 ou por Seul em 1971. “Em ambos os casos, o crescimento saltou por cima dos cinturões e continuou de forma dispersa”, diz o arquiteto e urbanista Washington Fajardo, ex-secretário de Planejamento Urbano do Rio. Seu diagnóstico é consensual entre urbanistas: o problema brasileiro não é crescer a área urbana, mas crescer mais rápido do que a capacidade da infraestrutura.

Em metrópoles como São Paulo ou Rio, o movimento de expansão rumo à periferia, mais horizontal que vertical, ocorre ao mesmo tempo que o Centro se esvazia. Cria-se um paradoxo: amplas áreas com infraestrutura instalada são progressivamente abandonadas, enquanto ocupam-se áreas que exigem investimentos básicos.

Já existe nos municípios consciência do problema. Têm proliferado projetos de revitalização de áreas centrais, a exemplo do carioca e do paulistano. Cidades como Rio, São Paulo, Recife, Belo Horizonte, Porto Alegre, São Luís, Manaus, Salvador, Campo Grande, Campinas e Niterói se reuniram para criar a Rede Brasileira de Urbanismo em Áreas Centrais. Ao mesmo tempo, o governo federal destina recursos de habitação a novas moradias, em geral nas periferias. “O governo pisa no acelerador do Minha Casa, Minha Vida e não consegue gerar soluções nem para as capitais”, diz Fajardo. “O MCMV responde por metade do mercado residencial formal, mas os investimentos em transporte de alta capacidade não acompanham esse ritmo de crescimento horizontal.” Falta, diz ele, um “Meu Metrô, Minha Vida”. Faz sentido.

Extremismo alemão impõe derrota ao projeto europeu

Por Folha de S. Paulo

AfD vence pleito regional e pode ser a primeira sigla de ultradireita a governar um estado desde o nazismo

O partido tem seções estaduais classificadas como extremistas; premiê Merz fala em reforma política, mas pode ser tarde para o país

A segunda-feira (7) foi pródiga em sinais funestos para os valores que sustentam a política tradicional e o projeto europeu do pós-guerra.

Enquanto a Sérvia enterrava com honras militares e multidões nas ruas um criminoso de guerra condenado e conhecido como o "açougueiro da Bósnia", Ratko Mladic, um partido alemão que esposa seus conceitos de exclusão étnica obtinha uma vitória eleitoral expressiva.

Na véspera, a Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla germânica) havia vencido o pleito regional da Saxônia-Anhalt, disparando alarmes. O fato de alguns de seus líderes já terem adotado discursos revisionistas, como o questionamento do Holocausto, dá credibilidade ao temor.

A AfD apoia a Rússia na guerra contra a Ucrânia e é líder em desinformação digital. Ademais, tem seções estaduais classificadas como extremistas, e a mesma designação federal foi dada em 2025, tendo sido suspensa para análise judicial neste ano.

Não que a Saxônia-Anhalt seja tão importante: está em último lugar no ranking de PIB per capita do país. Mas fica no coração da antiga Alemanha Oriental, cuja integração em 1990 foi parte central do projeto da União Europeia, formada dois anos depois.

Berlim fracassou em equalizar o abismo entre as zonas comunista e capitalista, e a pobreza relativa no leste gerou nostalgia da República Democrática Alemã.

Assim, o líder da AfD na Saxônia-Anhalt, Ulrich Siegmund, fez campanha pilotando uma antiga motoneta alemã oriental Simson, dando um toque local à fórmula usual de culpar o governo e os imigrantes por tudo.

A sigla precisa formar coalizão para viabilizar um governo, tarefa na qual fracassou em 2024, ao vencer na vizinha Turíngia.

Faltam à AfD três cadeiras para atingir a maioria no Parlamento local, algo que poderá ocorrer de forma inusitada, com apoio de radicais de esquerda. Se obtiver sucesso, será algo inédito para a extrema direita desde a vitória nacional nazista de 1933.

O premiê Friedrich Merz fez um ato de contrição pública, até porque quem perdeu o pleito foi a sua sigla conservadora União Democrata-Cristã (CDU). Ele pregou uma "reforma do sistema político", algo vago e tardio.

A AfD, maior partido de oposição no Parlamento federal, já é o preferido do eleitorado. Merz lidera uma gestão impopular, dada a estagnação econômica, e tenta evitar adiantar a eleição geral de 2029, sob risco de ver radicais colherem uma vitória histórica.

Com Giorgia Meloni à frente do mais longevo governo italiano do pós-guerra e Marine Le Pen forte na disputa pela Presidência francesa em 2027, a ultradireita vive momento de força no continente —inspirada por Donald Trump do outro lado do Atlântico.

Em comum, ambas arrefeceram o discurso. A AfD adota retórica similar, mas seu passado e sua composição são mais problemáticos, num país-chave para a equação política da Europa.

Irresponsabilidade fiscal agrava concentração de renda

Por Folha de S. Paulo

Dados do IR mostram alta da desigualdade, juros elevados por gastos de Lula favorecem ganhos de capital

Estimativa referente a 2024 aponta a parcela da renda nacional detida pelo milésimo mais abonado da população em 13,1%, ante 10,2% em 2020

Quando se trata de distribuição de renda no Brasil, há um número que o Palácio do Planalto gosta de repetir e outro que prefere não ver.

O primeiro é o índice de Gini, elaborado pelo IBGE a partir de pesquisa domiciliar sobre rendimentos recebidos pelas famílias, captando com maior precisão os oriundos do trabalho e de benefícios sociais, segundo o qual a concentração atingiu 0,506, numa escala de 0 a 1, em 2024 —o menor nível da série iniciada em 2012.

O segundo é um indicador baseado em dados das declarações do Imposto de Renda das pessoas físicas, que alcança mais amplamente os chamados ganhos de capital, como de aplicações financeiras, aluguéis, dividendos e outros. Com tal metodologia, a participação dos estratos mais ricos na renda nacional está em alta.

Segundo cálculos do economista Sérgio Gobetti e outros autores, a fatia do 1% mais rico passou de 20,4% em 2017 para 24,3% em 2023. A do 0,1% subiu de 9,1% para 12,5%, absorvendo cerca de 85% daquele acréscimo.

Estimativa do mesmo pesquisador, com base nos lançamentos de 2024, aponta a parcela da renda nacional detida pelo milésimo mais abonado da população em 13,1%, ante 10,2% em 2020. Quase um terço da variação recente seria atribuível à renda financeira.

A coexistência dos dois indicadores em direção oposta demonstra que políticas distributivas, quando não acompanhadas de disciplina fiscal, têm efeito limitado em ambiente de instabilidade macroeconômica.

A valorização do salário mínimo eleva benefícios previdenciários e assistenciais. O Bolsa Família e outros programas do gênero dão proteção aos mais pobres. Esse conjunto contribuiu para a queda do Gini domiciliar.

O que reduz a eficácia desse esforço é a trajetória das contas públicas. A dívida saltou de 71,7% do Produto Interno Bruto no fim de 2022 para 82,5% em julho deste 2026. A incerteza provocada por essa escalada, ao lado das pressões inflacionárias resultantes dos gastos do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), contribui para o aumento dos juros.

Famílias mais ricas, detentoras de ativos financeiros, apropriam-se dessa remuneração.

Sinais de esgotamento do modelo atual aparecem na perda de impulso da atividade econômica e no endividamento privado. No ano passado, ademais, o Gini do IBGE piorou marginalmente, para 0,511. É razoável supor que a concentração no extremo superior não tenha recuado.

Trata-se de uma redistribuição torta de renda, que não gera transformação social duradoura.

Precisamos falar sobre Alcolumbre

Por O Estado de S. Paulo

No auge de uma crise em que se exige dos chefes de Poderes compromisso firme com a institucionalidade, o presidente do Senado faz a única coisa que sabe: atua em causa própria

O senador Davi Alcolumbre (União-AP) não está à altura da presidência do Senado. Isso já era mais ou menos claro desde que ele se tornou presidente pela primeira vez, em 2019. Mas agora, no auge de uma crise institucional gravíssima no Supremo Tribunal Federal (STF), cuja atuação está sujeita justamente aos freios constitucionais do Senado, Alcolumbre se revela por inteiro como é: um político exclusivamente preocupado com seus interesses pessoais, e que maneja suas prerrogativas não em prol da República, mas para extrair delas vantagens pessoais e blindagem para si próprio e para os amigos.

Cabe ao Senado processar, julgar e, se necessário, afastar ministros do Supremo e o procurador-geral da República. É uma atribuição concebida para que um Poder da República possa servir de contrapeso a outro. Alcolumbre parece ter encontrado serventia mais paroquial para ele. O que deveria ser freio institucional virou moeda de poder.

Segundo informou o jornal O Globo, o ministro do STF Alexandre de Moraes, encalacrado no escândalo do Banco Master em razão de sua relação promíscua com o banqueiro Daniel Vorcaro, se reuniu com Alcolumbre por várias horas antes de partir para a ofensiva contra André Mendonça. Algum tempo depois, já no plenário, Alcolumbre foi cobrado sobre os pedidos de impeachment contra Moraes. Irritou-se.

Alcolumbre saiu em defesa de Alexandre de Moraes quando foi questionado pelo senador e candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL). “Todo mundo esqueceu que pediram R$ 130 milhões para a mesma pessoa para fazer um filme. E agora o culpado só é o ministro Alexandre de Moraes”, disse o presidente do Senado, referindo-se ao pedido que Flávio Bolsonaro fez ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ou seja, em vez de prestar contas sobre o exercício de uma prerrogativa constitucional, respondeu com uma ameaça política.

Ora, não se trata apenas de proteger um amigo ou ainda de alfinetar um inimigo. Alcolumbre tem muito mais coisas em jogo nessa história do que o bom funcionamento das instituições. Alexandre de Moraes é aliado, e André Mendonça, desafeto. O caso Master, no centro da guerra que hoje dilacera o Supremo, também passa muito perto do senador. Foi Alcolumbre quem indicou o presidente da Amprev, fundo de pensão dos servidores do Amapá que aplicou R$ 400 milhões em títulos do banco. O senador ainda esteve na faustosa degustação de charutos e uísque oferecida por Daniel Vorcaro em Londres, em 2024. Vorcaro relatou ter se encontrado com Alcolumbre inclusive na residência oficial do Senado, e esses encontros também ajudam a dimensionar a proximidade entre o banqueiro e o senador. Tudo isso ainda está pendente de explicações por parte do presidente do Senado.

Mendonça, por sua vez, está à frente das investigações do Master que avançaram sobre personagens próximos a Alcolumbre. Na maior crise moral vivida pelas instituições brasileiras em décadas, o sistema de autoproteção já está em pleno funcionamento. E o presidente do Senado parece agir para preservá-lo.

André Mendonça não virou desafeto de Alcolumbre por causa do Master. Os dois já carregam uma inimizade de cinco anos. Em 2021, como presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Alcolumbre reteve por mais de quatro meses a indicação de Mendonça ao Supremo, resistiu a marcar sua sabatina e trabalhou para derrotá-lo. Neste ano, a proximidade do advogado-geral da União, Jorge Messias, com Mendonça também pesou na guerra conduzida pelo presidente do Senado contra a indicação de Messias ao STF. Em ambos os casos, não atuou apenas como presidente da Casa, a quem cabe conduzir o rito. Interferiu diretamente na disputa e atuou nos bastidores para produzir o resultado que desejava, simplesmente porque queria emplacar os amigos Augusto Aras em vez de Mendonça e Rodrigo Pacheco em vez de Messias.

Alcolumbre tem uma concepção bastante peculiar de como o Senado deve conter eventuais abusos do Supremo. A prerrogativa constitucional parece servir conforme o ministro, o interesse e a ocasião. Ora, não é assim que se comporta o presidente de um Poder da República. Uma atuação como essa já seria deplorável mesmo se Alcolumbre fosse vereador de um dos 16 municípios do Amapá. Na presidência do Senado, é inaceitável.

Reforma da Previdência deve ser profunda

Por O Estado de S. Paulo

Grupo de economistas apresenta aos candidatos a presidente uma reforma da Previdência sustentável e de longo prazo. Recomenda-se prestar atenção

Não há solução fácil ou mágica para a Previdência Social, mas solução há – e, a despeito de não frequentar os discursos dos principais candidatos à Presidência, por se tratar de tema obviamente impopular, o problema será incontornável para o próximo governo e a próxima legislatura federal. Por isso, mesmo que haja questões prementes de curto prazo a atrair a atenção de eleitores e de políticos em busca de votos, é preciso prestar atenção a propostas que ofereçam caminhos racionais para reverter a evidente insustentabilidade da Previdência tal como é hoje.

Um desses estudos foi apresentado por um respeitável grupo de economistas capitaneado pelo especialista em Previdência Paulo Tafner, com o apoio do ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga. Seu mérito é alterar a Previdência de modo a tornar desnecessária uma nova reforma no curto prazo, a exemplo do que aconteceu com a reforma aprovada em 2019 e que já está caduca – exatamente porque não foi profunda o bastante.

A proposta começa pelo óbvio: defende a elevação da idade mínima. A ideia é que tanto os homens como as mulheres, nas áreas urbana e rural, possam receber a aposentadoria aos 67 anos de idade. Hoje, nas áreas urbanas, as mulheres se aposentam com 62 anos, e os homens, com 65, e na área rural, com 55 e 60 anos, respectivamente.

Ademais, propõe a aprovação de um gatilho para a correção automática da idade mínima, conforme haja aumento da expectativa de vida. Isso dispensaria todo o esforço de reunir maiorias legislativas a cada vez que o sistema previdenciário se desequilibra por razões demográficas.

Para superar a resistência à mudança da idade mínima para as mulheres, os economistas sugerem a concessão de um crédito de tempo de contribuição equivalente a um ano e meio por filho, limitado a cinco filhos.

O Benefício de Prestação Continuada (BPC), que hoje não exige tempo mínimo de contribuição, seria substituído por uma renda mínima para o idoso. Diferentemente do que ocorre hoje, só receberá um salário mínimo quem tiver contribuído por 20 anos. Do contrário, a parcela corresponderá a 60% do piso. Trata-se de um engenhoso instrumento de desvinculação que poderá melhorar as contas públicas e premiar quem contribui.

São propostas também correções de rotas, como o aumento da arrecadação do Microempreendedor Individual (MEI) e do Simples Nacional. E, não menos importante, os economistas advogam pela diminuição da carga tributária das empresas, que, por pagarem menos contribuição previdenciária, ficarão obrigadas a contratar seguro privado para cobrir acidentes.

A título de transição, os especialistas defendem a adoção de um sistema previdenciário misto, no qual conviveriam o regime de repartição solidária (modelo atual) e o de capitalização (modelo em que cada trabalhador tem sua própria conta previdenciária e esse patrimônio é investido no mercado financeiro). A gestão caberia ao INSS e à iniciativa privada.

Ainda que se possa questionar um ou outro aspecto dessa proposta, o fato é que o tema é incontornável. O País tem hoje 35 milhões de idosos, ou 16,6% da população. E a população cresce cada vez menos, o que significa que o fardo de sustentar a Previdência será repartido por cada vez menos contribuintes. “O problema da Previdência, se hoje já é grande, vai passar a ser gigantesco”, disse Paulo Tafner. No ano passado, o rombo do INSS foi de R$ 320 bilhões.

Não faz muito tempo, o governo Jair Bolsonaro e o Congresso empenharam esforço político para aprovar mudanças nas aposentadorias. Houve inegáveis avanços com a reforma de 2019, como o aumento da idade mínima, mas parte do impacto fiscal previsto para dez anos, de R$ 800 bilhões, já foi comprometida pela política de aumento real do salário mínimo do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo o time de Tafner, a despesa com Previdência, se nada for feito, saltará dos atuais 8% para 17% do PIB em 2100. Se adotada na íntegra a reforma que ele propõe, a despesa ficará em 10% do PIB. Ou seja, evita-se o colapso.

Celina não desiste

Por O Estado de S. Paulo

Governadora do Distrito Federal volta a recorrer ao STF para obrigar a União a socorrer o moribundo BRB

O governo do Distrito Federal voltou a pedir ao Supremo Tribunal Federal (STF) que obrigue a União a conceder garantias para um empréstimo para socorrer o BRB. É a segunda vez que a governadora Celina Leão (PP) recorre à Corte para tentar salvar o banco – e a própria pele política – e repassar o custo dessa bondade ao Tesouro Nacional, ou seja, a todos os contribuintes do País. Compreensivelmente, não há ninguém disposto a ajudá-los a se livrar do enrosco em que se meteram por escolha própria.

Impressiona, embora não surpreenda, a desfaçatez do governo distrital. O BRB agoniza em praça pública desde a malfadada tentativa de compra do Banco Master, operação que selaria uma relação antiga e suspeita entre o empresário Daniel Vorcaro e a cúpula da instituição financeira, indicada pelo ex-governador Ibaneis Rocha (MDB).

Vorcaro está preso desde março, e o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, desde abril. Ibaneis deixou o cargo para disputar o Senado e desistiu da carreira política. O Banco Central, felizmente, vetou a operação em setembro do ano passado, liquidou o Master em novembro e várias instituições que participavam do esquema desde então.

Mas o BRB continua vivo, ainda que respirando por aparelhos. E, a despeito disso tudo, a governadora Celina Leão, vice de Ibaneis, lidera as pesquisas de intenção de voto e tem boas chances de vencer a disputa em outubro, desde que consiga evitar a falência do banco – ao menos até as eleições.

Logo, tudo o que Celina precisa neste momento é ganhar tempo e, para isso, a governadora está disposta a quase tudo, menos a apresentar o balanço do BRB, a única coisa que os bancos querem ver antes de aceitarem emprestar dinheiro para socorrer uma instituição financeira potencialmente falida.

Antes fosse exagero. Foi a própria Celina quem admitiu, em um provável ato falho, que não vai publicar as demonstrações financeiras antes de obter o empréstimo; do contrário, segundo ela, o banco seria liquidado. Desde então, a governadora tem feito bastante barulho para tentar fazer com que todos esqueçam o que ela disse.

Sua manobra mais recente foi revelada pelo Estadão: a reclassificação de gastos correntes como investimentos, uma acintosa tentativa de maquiar as contas do Distrito Federal e melhorar sua nota de crédito, tão baixa que impede a União de conceder aval a empréstimos. Não funcionou, de modo que restou a ela tentar arrancar essa garantia por vias judiciais.

Desta vez, Celina cobra o cumprimento do acordo mediado pelo ministro do STF Luiz Fux, em maio, que, obviamente, não avançou – nem poderia. Faltou combinar com os bancos, que, embora não tenham participado da pajelança no Supremo, receberam a incumbência de repassar R$ 6,6 bilhões ao governo do Distrito Federal sem qualquer garantia firme de que verão a cor do dinheiro novamente.

Tudo indica que o BRB não tem chance de salvação e só permanecerá artificialmente vivo até que as urnas sejam fechadas. Mas, no que diz respeito a socorros a entes federativos quebrados, o histórico das decisões do STF costuma ser bastante favorável a quem não inspira a menor confiança.

Estouro da meta de 1,5º C aumenta o desafio climático

Por Valor Econômico

Cada fração de aumento no aquecimento global traz mais riscos à vida humana, às economias e desestabiliza os ecossistemas do planeta

O histórico Acordo de Paris, de 2015, falhou em conter o implacável crescimento das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE), que elevam a temperatura na superfície do planeta. Já não é mais possível cumprir a meta de limitar o aquecimento global a 1,5º C acima dos níveis pré-industriais neste século, reconheceu a ONU na semana passada. Alguns estudos apontam que esse limite poderá ser ultrapassado em 2029 ou no mais tardar nos primeiros anos da década de 2030, de acordo com a WWF. Isso significa que os governos em todo o mundo terão de gastar mais em adaptação para enfrentar eventos climáticos extremos que se tornarão mais frequentes.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o melhor cenário que o planeta pode esperar agora é um aquecimento de cerca de 1,8º C neste século. Mas isso se os países implementarem todas as políticas climáticas prometidas no Acordo de Paris. Além de pouco plausível, visto o esforço muito aquém do necessário empregado até agora pelos governos nacionais, o segundo maior emissor de GEE do mundo, os EUA (depois da China), responsáveis por pouco mais de 11% das emissões globais em 2025, segundo dados da União Europeia, pulou fora novamente do Acordo, com o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Ele também tem boicotado todas as iniciativas de descarbonização e transição energética implementadas pelo governo do democrata Joe Biden.

Cientistas alertam que com base nas atuais políticas climáticas das nações e nas tendências observadas, o aquecimento global caminha para atingir 2,6° C até o fim do século, ultrapassando a outra meta crítica de 2°C do Acordo de Paris. Com o aquecimento atualmente em cerca de 1,4°C — essa medida baseia-se em uma média de 20 anos, em vez de nas temperaturas de um único ano —, comunidades em todo o globo vêm enfrentando ondas de calor, inundações, secas e perda de ecossistemas cada vez mais severas. Esse aquecimento já desencadeou o processo de não retorno (“tipping points”) dos recifes de corais do planeta — ecossistema que sustenta cerca de 25% da vida marinha e contribui para a economia e a proteção costeira de mais de 100 países.

O relatório da Global Coral Reef Monitoring Network — uma organização mundial de cientistas e conservacionistas —, também divulgado na semana passada, constatou que os recifes de coral do mundo sofreram uma redução de 9,5% no período de 2020 a 2024, em comparação com os anos de 1980 a 2009. Somente em 2024 ocorreu a maior queda na cobertura de corais registrada em um único ano, afetando 87% dos recifes em todo o planeta.

Cientistas temem que o fenômeno El Niño em curso — que pode ser um dos mais intensos na história recente — muito provavelmente provocará mais um evento global de branqueamento no próximo ano, na esteira de um intenso e semelhante processo iniciado em 2023 e que se encerrou apenas em 2025. Não dá tempo para os corais se recuperarem.

Eventos globais de branqueamento de corais ocorriam aproximadamente uma vez por década. Mas, desde 2010, têm ocorrido a cada quatro ou seis anos, segundo o relatório. O branqueamento acontece quando os corais perdem as algas simbióticas de que necessitam para sobreviver por causa do estresse provocado pelo aquecimento das águas. Corais branqueados podem se recuperar, mas precisam de tempo para isso. Se a água ao redor estiver quente demais por um período prolongado, eles morrem.

Cada fração adicional de grau de aquecimento intensifica a ocorrência de fenômenos climáticos extremos destrutivos, por exemplo o derretimento de geleiras — como a que causou a recente tragédia no Nepal —, a perda de ecossistemas e a submersão de ilhas e cidades costeiras. Por isso, ao reconhecer o “overshoot” de 1,5º C, o Pnuma faz a ressalva de que isso não deve ser interpretado como motivo para abandonar a meta. É um alerta para que os governos ajam com mais rapidez, ambição e abrangência para reduzir as emissões.

O objetivo agora, segundo a ONU, deve ser intensificar a captura de carbono — principal gás de efeito estufa — e estocá-lo no subsolo para o mundo retornar a 1,5°C o mais rapidamente possível. E a melhor e mais eficiente maneira de fazer isso é com reflorestamento, uma vez que as tecnologias de remoção de CO2 da atmosfera ainda estão muito distantes de entregar qualidade e preços para ter a escala necessária. A mensagem é clara: o esforço de mitigação deve continuar, concomitante com a adaptação.

O Brasil pode ser um protagonista nesse esforço global. Estudos apontam que o país poderia alcançar emissões líquidas zero de GEE até 2040. Isso seria possível priorizando o fim do desmatamento de áreas nativas até 2030 e promovendo um forte investimento em reflorestamento e restauração, estimulando a agricultura sustentável, os sistemas agroflorestais e o manejo integrado do solo.

COP da Desertificação também deixa a desejar

Por Correio Braziliense

Líderes reunidos na Mongólia não conseguiram chegar a um acordo que viabilize um mecanismo global de combate à seca, evidenciando, mais uma vez, a crise profunda pela qual passa o multilateralismo

Fora dos holofotes, a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) acaba de ser concluída na Mongólia com um desfecho similar ao das últimas edições da correlata mais famosa, a COP do Clima. Líderes reunidos em Ulaanbaatar não conseguiram chegar a um acordo que viabilize um mecanismo global de combate à seca, evidenciando, mais uma vez, a crise profunda pela qual passa o multilateralismo. Ainda que não faltem dados científicos e extremos climáticos que demonstrem a gravidade da questão, prevaleceram entraves já conhecidos, como a oferta limitada de financiamento e a oposição ativa dos Estados Unidos às políticas verdes.

Secretária executiva da UNCCD, Yasmine Fouad verbalizou o caminho a ser seguido no início da convenção: "À medida que a seca se intensifica e a degradação da terra se acelera, a conferência deve impulsionar soluções práticas e viáveis — desde a restauração de terras e solos degradados até o fortalecimento da relação entre terra e água — para que as comunidades possam prosperar". Ao que parece, o roteiro ficou para a próxima edição da cúpula: em 2028, no Egito, que já defendeu a adoção internacional de acordo legais obrigatórios, pondo fim à dinâmica de compromissos voluntários. 

Não há outra saída. Estima-se que cerca de 40% das terras do mundo estão degradadas e, dessa forma, mais vulneráveis à desertificação. Dados das Nações Unidas indicam que, desde 2000, a frequência e a duração das secas aumentaram 29% em todo o planeta. Em um relatório mais detalhado sobre os efeitos do fenômeno entre 2023 e 2025, a organização internacional mostrou que ninguém está a salvo: 90 milhões de pessoas no leste e sul da África enfrentaram fome aguda em razão da pior seca já registrada; níveis recordes de baixa dos rios em 2023 e 2024 na Bacia Amazônica levaram à morte em massa de peixes e botos ameaçados de extinção; no mesmo período, os níveis de água no Canal do Panamá caíram tanto que as travessias foram reduzidas em mais de um terço; e a escassez de água afetou agricultura, turismo e abastecimento doméstico em países da Europa, como a Espanha.

O relatório alertou, ainda, que o custo econômico de um episódio de seca é atualmente duas vezes maior do que era em 2000, com um aumento projetado pela OCDE de 35% a 110% até 2035. Também lembrou que o El Niño 2023-2024 agravou os efeitos dos extremos climáticos para muitas sociedades e ecossistemas vulneráveis. Então secretário da UNCCD, Ibrahim Thiaw ressaltou, à época, que a seca não era mais uma ameaça distante. Ao contrário: "Uma assassina silenciosa que se instala sorrateiramente, consome recursos e devasta vidas em câmera lenta." 

Nada adiantou. Mesmo tendo sobre a mesa de negociação o extenso compilado de dados da UNCCD, a expectativa de que o El Niño 2026-2027 seja o pior dos últimos 50 anos e a pressão da sociedade civil organizada, os delegados em  Ulaanbaatar não tiraram do papel estratégias robustas de combate à desertificação. A diplomacia climática segue desfalecida. E recebeu novo baque em seguida: o reconhecimento inédito feito pela ONU de que a meta do Acordo de Paris não será cumprida.

 Há de se ressaltar que o Brasil protagonizou um dos poucos pontos positivos na Convenção da Desertificação ao apresentar nova meta voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra (NDT). O compromisso é de cobrir 3,67 milhões de quilômetros quadrados com medidas de recuperação ou restauração (163 mil) e de prevenção, conservação e manejo sustentável (3,5 milhões) até 2030. Anfitrião da biodiversidade e com quase 40 milhões de pessoas vivendo em áreas suscetíveis à desertificação, o país tem a obrigação de executar o prometido e seguir trabalhando pela ruptura da inércia diplomática que ameaça a sobrevivência do planeta.

O hidrogênio verde também é nosso

Por O Povo (CE)

A emissão da primeira nota fiscal indicando o hidrogênio verde (H2V) como combustível começa a dar forma àquilo na qual se tem apostado, quanto à sua viabilidade econômica. Uma situação que, a depender do que se consiga como avanço a partir de agora, pode trazer ganhos importantes para o Ceará diante do protagonismo que temos assumido desde quando o debate se instalou no País.

Aqui demos os primeiros passos na concretização do que se tinha apenas como ideia com o surgimento, cinco anos atrás, do primeiro hub de hidrogênio verde no Brasil. A questão, desde ali, é que talvez não tenhamos sido eficientes nos passos seguintes no sentido de termos garantida a manutenção do grau de pionerismo observado nos primeiros passos.

A primeira nota que identifica o novo combustível foi emitida no Sudeste, em São Paulo. Caracteriza-se, a partir disso, a viabilidade comercial de um projeto que, talvez, não tivesse como ter avançado até o estágio atual sem que, lá atrás, a persistência cearense houvesse garantido os primeiros passos, com as dificuldades que o pionerismo impõe em tais casos.

O anúncio da emissão de primeira nota do H2V pela Associação Brasileira da Indústria do Hidrogênio Verde (ABIHV) também precisa ser comemorado entre nós, até porque, segundo indica o discurso de vozes oficiais, trata-se ainda de um registro de escala pequena quando comparado ao volume inserido nos projetos cearenses de exploração. Diz respeito a uma planta da White Martins no município paulista de Jacareí com capacidade para produzir 800 toneladas anuais do produto para a indústria de vidro.

Para efeito comparativo, segundo números citados pelo presidente do Complexo Industrial e Penitenciário do Pecém, Max Quintino, o projeto mais avançado que há hoje no Ceará, chamado de Casa dos Ventos, prevê uma produção de 400 mil toneladas de H2V somente na primeira fase. No total, lembra ele, são seis pré-contratos e uma previsão de 4,2 milhões de toneladas produzidas por ano, números que indicam, por si, a força econômica do que está em jogo.

O Ceará partiu na frente, tem grandes projetos encomendados, mas, parece hora de os resultados efetivos começarem a gerar, de mamneira efetiva, a transformação econômica que os discursos em defesa do hidrogênio verde costumam apresentar.

O evento da emissão de primeira nota por outro estado, que sequer na região Nordeste está localizado, pode não ter força para tirar de nós o reconhecimento por termos chegado primeiro na discussão, mas deve servir de alerta para a necessidade de darmos passos mais firmes no rumo de concretização de um potencial que representa um diferencial competitivo, em nosso favor, que precisa ser transformado em negócios concretos. 

 

Nenhum comentário: