segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Reflexão do dia – Joaquim Nabuco

"A nossa constituição não é imagem dessas catedrais góticas edificadas a muito custo e que representam no meio da nossa civilização adiantada, no meio da atividade febril do nosso tempo, épocas de passividade e de inação; a nossa constituição é pelo contrário de formação natural, é uma dessas formações como a do solo onde camadas sucessivas se depositam; onde a vida penetra por toda a parte, sujeita ao eterno movimento, e onde os erros que passam ficam sepultados sob as verdades que nascem. (...)

"A nossa constituição não é uma barreira levantada no nosso caminho, não são as tábuas da lei recebidas dos legislador divino e nas quais não se pode tocar porque estão protegidas pelos raios e trovões... Não, senhores."(...)

"A nossa constituição é um grande maquinismo liberal, e um mecanismo servido de todos os órgãos de locomoção e de progresso, é um organismo vivo que caminha, e adapta-se às funções diversas que em cada época tem necessariamente que produzir." (...)

"Senhores, era o partido conservador que devia tomar as dores pela constituição e desejar que ela fosse o monumento de uma lingua morta, uma espécie deTalmude, cujos artigos pudessem ser opostos uns aos outros pelos interpretes oficiais."

(NABUCO, Joaquim. Reforma Constitucional. Discurso Pronunciado em 29 de abril de 1879. In: FREYRE, Gilberto (seleção e prefácio). Discursos Parlamentares. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1950, p. 72.)

Gramsci entre Marx e Maquiavel:: Alberto Aggio

DEU EM GRAMSCI E O BRASIL

Francesca Izzo. Democrazia e cosmopolitismo in Antonio Gramsci. Roma: Carocci, 2009. 246p.

Apresentado ao público recentemente, este último livro de Francesca Izzo é composto por uma série de ensaios, todos eles já publicados, integral ou parcialmente, em revistas acadêmicas ou em coletâneas anteriores. Francesca é professora de História das Doutrinas Políticas, na Universidade de Nápoles, e faz parte da Fundação Instituto Gramsci, de Roma.

O livro é uma potente reflexão sobre o pensamento de Gramsci e de muitas de suas interpretações, bem como das repercussões políticas que estas ensejaram no decorrer da segunda metade do século XX e princípios deste novo século, junto à grande área do pensamento crítico vinculado à esquerda. Um escopo que envolve intelectuais e políticos que, afirmando ou negando as características marcadamente incidentes daquele pensamento na realidade contemporânea, se debruçaram sobre ele de maneira profunda.

Afirma-se aqui efetivamente uma abordagem nova de Gramsci, na medida em que não se está em busca da compreensão do seu pensamento senão a partir da sua radical historicidade. Toda a trama conceitual gramsciana é abordada a partir de uma questão que Francesca Izzo reputa ser a essencial para compreendê-lo: a questão da modernidade e de sua crise. É desse ponto de partida que a autora busca a concepção gramsciana de democracia, bem como seu alcance.

Evidentemente, a partir dessa perspectiva, o livro somente poderia fazer sentido se enfrentasse, de início, o debate com as principais referências da filosofia política que tematizaram o pensamento de Gramsci a partir daquele núcleo (modernidade/democracia), no seu nexo com a dinâmica política e ideológica das sociedades contemporâneas. É assim que Izzo repassa as formulações e expõe agudas criticas a um conjunto de trabalhos diretamente vinculados ao exercício de reflexão das temáticas gramscianas, desde aqueles produzidos por autores como Norberto Bobbio até Massimo Cacciari, passando por Asor Rosa, Toni Negri, para mencionar apenas alguns deles. Por outro lado, Izzo também não deixa de dispensar um tratamento crítico a autores, como Deleuze, Guattari ou mesmo Foucault, que, colocando justas questões a respeito das diversas problemáticas que envolvem a crise contemporânea, rejeitam um nexo produtivo entre democracia e modernidade.

Há um pano de fundo na seleção dos autores e temas aqui trabalhados. Trata-se do que Izzo define como “ideologia italiana”, produzida desde os anos sessenta a partir da abordagem das diversas dimensões da chamada “crise do marxismo” e que acabou por constituir “o referente cognitivo do processo de decomposição das forças históricas do movimento operário italiano” (p. 7). A vaga chamada de pós-modernista haveria produzido e disseminado no plano cognitivo não só uma visão pessimista e niilista da modernidade, mas também induzido e até mesmo possibilitado que se aprofundasse a fratura entre democracia e modernidade.

Em tal “ideologia”, os supostos limites inelutáveis da modernidade condicionariam qualquer perspectiva política nela baseada, vista como inclinada ao autoritarismo, quando não ao totalitarismo. Como se pretende demonstrar no livro, as leituras que foram se cristalizando sobre o pensamento de Gramsci, nesse contexto, obedeceram precisamente a esse paradigma. Condenado o marxismo, Gramsci seria um pensamento irrecuperável para iluminar o presente e o futuro.

Por essa razão, o ponto de partida de Francesca Izzo é precisamente a relação Gramsci e Marx, e, a partir daí, isto é, de uma leitura afirmativa dessa relação (não em termos ortodoxos e muito menos dogmáticos), pensar os termos da inovação gramsciana. As suas orientações gerais são apresentadas em quatro pontos.

Em primeiro lugar, a de que os Cadernos do cárcere “oferecem uma teoria, articulada e conceitualmente densa, do Moderno e da sua crise, são sobretudo um exemplo único, no panorama do pensamento do século XX, de uma teoria global de modernidade baseada numa reelaboração das categorias do materialismo histórico” (p. 20).

Em segundo lugar, a de que essa teoria não se reduz a um humanismo ou mesmo um positivo tecnicismo (do homem como produtor da técnica) produtor de uma identificação entre sujeito e objeto. Nela, o sujeito moderno não nasce no plano da consciência, mas se constitui a partir de “um princípio-fundamento complexo, formal e material: é o Estado territorial”. No cerne da crise desse Estado, para Gramsci, o que se anunciava não era a sua mera dissolução e dispersão em vários fragmentos, “mas a constituição de um princípio de subjetividade, o partido, não de base territorial, mas cosmopolita, que reelabora, sem cancelá-lo, o núcleo ‘democrático’ da modernidade” (p. 21).

Nesse aspecto, a inovação presente na leitura que Izzo faz do texto de Gramsci merece uma nota mais específica. A reflexão em torno do nexo entre Gramsci e Maquiavel, trabalhado pela autora, nos leva diretamente a uma parábola nem sempre explorada. Afirma Izzo: “Assim como o Príncipe maquiaveliano anunciava a formação do grande sujeito da política moderna, o Estado, da mesma forma, o ‘Moderno Príncipe’ anuncia uma circunstância estatal (statualità) que se desenvolve no terreno da democracia não mais exclusivamente territorial. Gramsci delineia uma teoria do partido que não pertence às famílias do estatalismo corporativo ou totalitário, ou do antiestado, que celebraram sua pompa entre os anos trinta e sessenta do século passado. Acima de tudo, ela finca suas raízes naquela complexa passagem de época e carrega as próprias marcas do industralismo e do cosmopolitismo” (p. 164). A nota é relevante, entre outros aspectos, porque estabelece uma formulação bastante interessante da noção de sujeito moderno no pensamento de Gramsci.

Em terceiro lugar, Izzo observa as dimensões de continuidade ou mesmo de desenvolvimento que existem no pensamento de Gramsci com a estrutura lógica e histórica que advém de Hegel e Marx. O Gramsci de Izzo é efetivamente um aprofundamento ulterior daqueles clássicos, sobretudo no que se refere à concepção de história que está presente nos Cadernos, sem contudo padecer, segundo a própria autora, de qualquer automatismo ou mesmo determinismo, ainda que “progressista”.

Por fim, Izzo reafirma que a elaboração da filosofia da práxis por Gramsci não se efetua em ruptura com Marx, como insistiram por tantos anos e por distintas razões tanto Bobbio como Del Noce. A autora reconhece evidentemente que, depois de um percurso de assimilações e formulações filosóficas claramente tortuosas, cheias de sugestões neoidealistas e/ou mesmo gentilianas, o que predomina nos Cadernos é a autonomia intelectual que Gramsci assimila de Marx, e, por meio dela, se capacita para ler e pensar historicamente as condições necessárias de uma reforma intelectual e moral.

Em síntese, o que se observa nessa profunda revisão dos estudos e do próprio texto gramsciano empreendida por Izzo é a sua inclinação em conjugar os dois polos marcantes nas mais recentes interpretações a respeito do seu pensamento. Izzo explicita a imperiosidade de se compreender Gramsci tanto como um leitor produtivo de Marx, isto é, como um pensador atento às grandes transformações epocais que marcaram e marcam a sociedade contemporânea, notadamente a partir do estabelecimento do industrialismo, quanto como um leitor imaginativo de Maquiavel, do qual extrai, da mesma forma, o elemento histórico da política moderna em toda a sua dimensão de essencialidade, criatividade e abertura.

Democrazia e cosmopolitismo in Antonio Gramsci se insere numa perspectiva de leitura do pensador italiano que visa recuperar não somente a sua vitalidade, mas efetivamente sua atualidade. Baseado em investigações pontuais solidamente apresentadas e densamente documentadas, o que se registra aqui é um Gramsci liberto do “gramscismo” que marcou sua difusão e assimilação mundial, mas muito distante de um improvável reencontro com o “obreirismo” dos anos de combate, que marcou o “conselhismo” do início de sua trajetória como dirigente político. É, efetivamente, um Gramsci também distante do “altermundismo” como forma de expressão do antagonismo social, sem a mediação da política. O Gramsci que Izzo nos apresenta e sobre o qual nos convida a refletir é aquele que indica uma percepção própria da democracia, qual seja, a de “uma possibilidade inscrita na morfologia do moderno”; e este último concebido como um campo “aberto a formas de subjetividade não integralmente previsíveis e jamais definitivas”.

Alberto Aggio é professor de História da Unesp/Franca; bolsista sênior da Capes na Universidade Roma III.

Marchinhas de carnaval (Cachaça não é água)

Agora é hora da folia. E depois dela?:: Marco Antonio Rocha

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Quarta-feira sempre desce o pano.

É o que dizia Chico Buarque de Holanda em Sonho de um Carnaval. Mas nesta quarta-feira, depois de amanhã, no Brasil-2010, o pano sobe: "Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo" - diria Fiori Gigliotti no seu inesquecível bordão. Aliás, dois soberbos espetáculos do ano: eleições para presidente da República e Copa do Mundo. Os brasileiros terão um olho na África do Sul, outro nas urnas de outubro. Torcendo para que o ano não seja um desengano.

Não será, se os candidatos à sucessão de Lula tomarem tento do que realmente é preciso fazer para que a economia brasileira continue surfando na onda de bonança e, sobretudo, se o setor privado brasileiro sair da modorra de só falar de juros ou impostos e se empenhar, de fato, em avanços tecnológicos e da produtividade.

Por enquanto, a sucessão de Lula está emaranhada no passado, mais do que comprometida com o futuro. Na oposição e na situação os discursos são sobre quem teve mais méritos e quem merece mais créditos pelo que já foi feito no País, e não sobre o que se pretende fazer para que as boas perspectivas não se desvaneçam. Pode ser que depois de quarta-feira essa fala entediante ceda lugar a alguma coisa de mais "sustança" - como se diz - para a moderna consciência cidadã. Tomara, pois o momento é crítico e o País não pode perder o foco da oportunidade que a economia mundial está abrindo nem perder tempo com um debate ideológico ultrapassado.

Quem revisar um pouco da história recente da economia brasileira verá que uma oportunidade como essa apareceu no final da 2ª Guerra Mundial, durante a qual as grandes potências em luta disputaram avidamente matérias-primas estratégicas, alimentos e outros fornecimentos brasileiros, o que encheu nossas burras de ricas divisas internacionais - que seriam dilapidadas logo depois pelos governos de um país completamente infantil em termos de planejamento estratégico (que nem existia) e de defesa dos seus próprios interesses. O azar foi que o fim da guerra e a oportunidade por ele oferecida coincidiram com o fim de uma ditadura de cerca de 15 anos num Brasil que se viu, por isso mesmo, mais empenhado em criar uma democracia (que nunca tinha tido) do que em cuidar das suas finanças e do seu futuro. Qualquer semelhança com o período de 1985 para cá deveria ser tema de estudos...

A oportunidade que aparece agora é dupla, vem de fora e de dentro. As grandes economias do mundo não estão em guerra como em 1939-45, mas buscam um lugar estável e promissor para ancorar seus capitais, depois do vendaval financeiro de 2008. Dos quatro Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) - não duvidemos - o Brasil é o mais promissor e o mais estável no que se refere a oportunidades de investimentos. Digam o que disserem e escrevam o que escreverem, é um rematado idiota o investidor institucional ou individual que, em busca de oportunidades, acredite numa Rússia, cheia de máfias estranhas, onde até o governo é mafioso; ou numa Índia, com dezenas de dialetos, de seitas, de castas, de religiões e milhões de famintos; ou numa China, com população maior e quadro cultural ainda pior, além de um governo que pode fuzilar quem lhe aprouver sem dar satisfações ao mundo; e menospreze o Brasil como plataforma de bons negócios...

Mas, ao cenário externo propício, junta-se uma novidade interna importante, que vem sendo identificada por diversos economistas e analisada em publicações especializadas: a rápida ascensão das classes mais baixas de renda para faixas mais altas, causando, na prática, uma expansão inusitada da classe média brasileira, em tempo relativamente curto.

O professor Yoshiaki Nakano, em artigo publicado no jornal Valor (Dinamismo Doméstico, 9/2/2010, página A11), dizia que "a economia brasileira se está convertendo numa economia com mercado de consumo de massa das maiores do mundo". E quantificava sua opinião estimando que a classe "C", nos últimos 15 anos, passou de 32% para 52% da população, o que representa hoje "mais de 90 milhões de consumidores incorporados ao mercado". E, já que estamos em tempo de Copa, basta dizer que isso equivale à população inteira do Brasil na Copa de 1970 - "Noventa milhões em ação, salve a seleção..." era o hino.

Ora, um dos principais fatores entre os que contribuíram para tornar gigantes as economias gigantes do mundo moderno foi a formação de um grande mercado interno de consumo de massa, que atrai investimentos externos, estimula investimentos internos, aumenta a produção, reduz os preços médios e gera empregos, num círculo virtuoso contínuo. O fenômeno que o professor Nakano aponta cresceu sobre dois pilares: o fim da inflação galopante, a partir de 1994, e o início das políticas afirmativas de distribuição de renda, acentuadas a partir de 2003. E teve três instrumentos: disciplina fiscal dos governos (ainda incompleto), câmbio flutuante e metas de inflação - mantidos por FHC e por Lula da Silva.

Há riscos adiante - de ressurgimento da inflação e de crise cambial. Por isso os economistas afirmam que o programa vitorioso precisa ser reforçado para exorcizar os riscos, ainda neste próximo mandato governamental. Mas quem já ouviu os presumíveis candidatos falando disso? Ou seus seguidores? Ou seus partidos? Quem apresentou algum programa antiborrasca?

Só o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, tem feito advertências. No governo, o PT está para aprovar, depois do carnaval, um programa que, se for o que já se divulgou, é pró-borrasca. E tanto no governo como na oposição o papo é de fofoqueiras de telenovela.

Mais seriedade e debates menos levianos sobre um verdadeiro projeto nacional são o que desejamos para depois do carnaval. E na campanha eleitoral.

Marco Antonio Rocha é jornalista.

FHC: Atirador de elite

DEU NA REVISTA ISTOÉ

FHC ataca Dilma, obriga PSDB a defender sua gestão e assume o papel de porta-voz da oposição na eleição presidencial

Jorge Felix

"Dilma não é líder, é reflexo de um líder"

"Ela é dogmática"

"Ela é muito dura, uma pessoa autoritária"

"Ela tem uma visão ultrapassada"

A cada campanha presidencial, Fernando Henrique Cardoso tem uma tarefa muito mais árdua do que a batalha eleitoral: convencer o candidato do seu próprio partido, o PSDB, a defender os seus oito anos de governo. Nem José Serra, em 2002, nem Geraldo Alckmin, em 2006, aceitaram a missão. Desta vez, FHC parece ter perdido a esperança. Diante da demora de Serra em confirmar-se na disputa e das críticas do PT, decidiu ele mesmo assumir a defesa de seus feitos. Por um lado, ampliou o risco para os tucanos. Por outro, retesou o debate eleitoral com uma só frase sobre a ministra-candidata: “Dilma não é líder.” A frase de FHC, apesar de ter lustrado um pouco a imagem da oposição – até então inibida pela popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e temerosa em cair na polarização tão almejada pelo PT –, saiu depois de ele mesmo ouvir reclamações por ter defendido seu governo em artigo nos jornais “O Globo” e “O Estado de S. Paulo”. Com o título “Sem medo do passado”, FHC fez o que nunca um candidato tucano quis: listar o que considera os méritos de seu governo, inclusive, segundo ele, as privatizações. E aceitou a comparação: “Se o lulismo quiser comparar, sem mentir e sem descontextualizar, a briga é boa. Nada a temer.” Mas Serra não gostou.

Na opinião do governador, FHC estaria fazendo o que os estrategistas do PT sempre apontaram como o melhor para a candidatura oficial, ou seja, a comparação dos dois governos. O fato é que FHC procura resgatar algo que o PSDB perdeu com suas estratégias malsucedidas em 2002 e 2006. O ex-presidente ainda busca um herdeiro e, agora, corre o risco de ver o candidato Serra elogiar mais os méritos sociais do governo Lula do que defender as privatizações tucanas – tal como ocorreu com Alckmin e como pregam aqueles que apostam na “campanha do pós-Lula”. A amigos, FHC confessa que atribui a esse erro o fato de algo tão forte como o Plano Real, que o elegeu no primeiro turno em 1994 e 1998, hoje nem sequer ser levado em consideração pelo eleitor na hora de apertar o botão na urna eletrônica. O PSDB, ao abrir mão da defesa de FHC, segundo avalia o próprio, deixou escapar o seu maior trunfo administrativo: ter derrubado a crônica e alta inflação. Esse feito, na avaliação do ex-presidente, poderia ter um impacto eleitoral maior e mais duradouro do que qualquer programa Bolsa Família. Mas os candidatos do PSDB, nas últimas campanhas, tinham outras preocupações. Serra, em 2002, apostou demais em seu cacife pessoal e negou o programa econômico comandado pela equipe de seu desafeto monetarista Pedro Malan. Já Alckmin teria partido para a campanha com mágoas depois da tumultuada escolha de seu nome como candidato.

FHC era a favor de Serra e, por isso, o então governador nunca aceitou o papel de defender as realizações do governo do ex-presidente. Agora FHC decidiu provocar o debate e, com isso, criou uma situação sem volta para o candidato tucano. Quando Serra decidir entrar na disputa – o que por FHC já teria ocorrido –, ele dificilmente conseguirá fugir da defesa da gestão do ex-presidente. Pode até ignorar a era FHC no horário eleitoral, mas em entrevistas e debates, certamente, será posto o tema. É por isso que Serra tratou de agir rápido e está trabalhando para o debate voltar ao rumo que ele quer, isto é, a comparação entre o seu governo em São Paulo e o de Lula e ataques somente a Dilma, jamais ao presidente “mito”. Nesta segunda empreitada, foi auxiliado por todo o tucanato. Na terça-feira 9, o senador Tasso Jereissatti (CE) disse que Dilma é “uma liderança de silicone”, tentando esquentar as críticas à ministra com uma imagem distante da acadêmica sociologia de FHC. Na quinta-feira 11, o presidente voltou a mostrar que o atirador de elite do PSDB, por enquanto, é ele mesmo e, em entrevista ao jornal “The Miami Herald”, voltou a acertar a mira: “Ela é mais próxima do PT. Lula tem mais independência do PT. Ele é um negociador. Ele tem a habilidade de mudar de opinião. Eu não acho que Dilma faria isso porque ela é mais – talvez isso seja muito duro – dogmática. Ela tem uma visão ultrapassada a favor de uma maior interferência (do Estado na economia).” E continuou: “Ela é muito dura, uma pessoa autoritária.”

No entanto, no que diz respeito à comparação entre os dois governos, Serra pode ser surpreendido. Se o paralelo entre a gestão de FHC e a de Lula, logo feito pela imprensa, deixa o primeiro em desvantagem na área social – embora a metodologia seja contestada pelos tucanos por não ter sido levada em conta a conjuntura econômica do momento de cada governo –, o primeiro exercício de confronto entre os períodos Serra e Lula também derruba teses do PSDB, como a disciplina fiscal. Um estudo do economista-chefe do Banco Santander, Alexandre Schwartsman, divulgado na quarta-feira 10, revelou que o rigor fiscal de Serra e de Lula foi o mesmo. Os gastos de Serra cresceram, desde 2006,1,3 ponto percentual do PIB paulista, enquanto os investimentos subiram 0,8 ponto percentual. Já o governo Lula ampliou os gastos correntes em 0,9 ponto e os investimentos em apenas 0,4. “Os mesmos fatores que seguram os investimentos federais parecem também segurar os estaduais”, diz Schwartsman. Em resumo: defender gestões ou comparar governos é uma tarefa que parece simples. Mas não é.

Serra aproveita carnaval para ganhar exposição no Nordeste

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Aliados do governador e da ministra da Casa Civil montaram esquema para evitar que pré-candidatos se encontrassem na comemoração

Tiago Décimo

Apesar de negar que estivesse em busca de voto, o governador de São Paulo, José Serra, dedicou os últimos dois dias a comparecer a festas de carnaval no Nordeste, região considerada estratégica para o PSDB na eleição. No Recife e, depois, em Salvador, o potencial candidato tucano à Presidência posou para fotos com foliões, deu entrevistas e se encontrou com líderes políticos locais. O bom desempenho eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nos Estados do Nordeste, na última eleição, levou a cúpula do partido a trabalhar para, pelo menos, tentar diminuir a desvantagem.

A programação de Serra foi montada de modo que ele não encontrasse, nem por acaso, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à Presidência, que também passou os dois últimos dias acompanhando o carnaval na região. A articulação das agendas ficou a cargo do deputado Jutahy Magalhães Júnior (PSDB-BA) e do presidente da Assembleia baiana, Marcelo Nilo, que recentemente trocou o PSDB pelo PDT para ficar na base do governador Jaques Wagner (PT). "Passamos três horas, na noite de ontem (sábado), montando as programações dos dois, para que ficasse bom para todo mundo", declarou Jutahy.

Na prática, os "acertos de agendas" mostraram-se precisos, a ponto de, na tarde de ontem, Dilma e Serra ficarem separados apenas por uma parede de pano, que marcava os limites entre o camarote da prefeitura, onde estava a ministra, do espaço de uma emissora de TV, onde Serra assistia aos desfiles.

Tanto Jaques Wagner quanto o prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro, disseram ter convidado Serra para os camarotes oficiais - os únicos visitados por Dilma. "Chamei o governador Serra como governador da Bahia, por ele representar o principal Estado do País", disse Wagner. "Mas sei que é natural que ele fique com os políticos do grupo dele", completou o governador.

"BANHO DE CARNAVAL"

Enfrentando uma verdadeira maratona de desfiles, Serra apareceu visivelmente abatido, na manhã de ontem, no Circuito Osmar (Campo Grande) do carnaval de Salvador. Ele negou estar cansado, mas a aparência, apesar de sorridente, não refletia o discurso.

Cumprindo um "banho de carnaval", como definiu, o governador desembarcou às 3h30 de sábado no Recife, onde participou do Galo da Madrugada. Horas antes, havia assistido à abertura dos desfiles em São Paulo. Depois do Recife, seguiu para Salvador. Acompanhou os desfiles de trios do Circuito Dodô (Barra-Ondina), no Camarote Daniela Mercury. Ficou ali até depois das 2 horas, vendo as atrações, acenando para o público que passava no circuito e tirando fotos com as pessoas que se divertiam no camarote.

Pela manhã, acompanhado por políticos locais do PSDB e do DEM, já estava no Circuito Osmar, vendo os trios passarem mais uma vez. Ficou no local até o fim da tarde, visitando os camarotes das emissoras locais de TV, antes de voltar para São Paulo, onde disse ter "coisas a resolver". Segundo a equipe que acompanha Serra, porém, ele irá ao desfile das escolas de samba do Rio, hoje à noite.

O governador disse que a maratona não tem relação com sua possível candidatura. "Não vim aqui como palanque eleitoral, vim para curtir pessoalmente", alegou. "Fiquei bastante impressionado com o que vi. A festa está ainda maior, mais animada e até mais organizada do que na última vez que vim, na década de 90." O deputado federal ACM Neto (DEM-BA), porém, garantiu que o paulista nunca esteve na folia baiana.

Sem confetes e serpentinas:: Marcílio de Moraes

DEU NO ESTADO DE MINAS

Na história recente do Brasil, bastava um feriado prolongado para arrefecer os ânimos de adversários e salvar a pele dos acusados. Em Brasília, o carnaval não será suficiente para abafar a crise no governo do Distrito Federal. Entre a sexta-feira e a quarta-feira de cinzas não haverá nada que faça esquecer a prisão de um governador de estado por suspeita de suborno de testemunhas na investigação de um suposto esquema de pagamento de propina a aliados. Pelo contrário. O fato de escolas de samba dos carnavais de São Paulo e do Rio trazerem enredo lembrando os 50 anos de Brasília sem praticamente nenhuma menção à crise política pode reforçar a lembrança dos fatos recentes na capital federal. São três meses de sucessivos escândalos, com farta divulgação de imagens e informações sobre mandos e desmandos na política local.

Acostumado a ver escândalos ocorrerem sucessivamente sem que os acusados do momento sejam punidos antes de novas denúncias surgirem e outros políticos se verem envolvidos em suspeitas de crimes e atos ilícitos, o brasileiro não perdeu a esperança de pôr fim ao reinado de impunidade que se instalou na política brasileira, mesmo que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subestime essa capacidade ao afirmar que a prisão de um governador é ruim para o Brasil e para a consciência política brasileira.

No dia seguinte, como sempre, ele se corrigiu e disse esperar que o fato sirva como exemplo. Foi assim também quando afirmou que as imagens não falavam por si ao comentar os vídeos de políticos de Brasília recebendo maços de dinheiro num suposto esquema de corrupção. Lula errou de novo ao aliviar o discurso para comentar a situação de um acusado, ainda que adversário político. Foram justamente as imagens, que como diz o dito popular valem por mil palavras, as provas que decretaram a prisão do governador do Distrito Federal por tentativa de suborno de testemunhas.

Colocando-se na condição de vítima, o governador preso e afastado José Roberto Arruda e seu ex-partido, o DEM, consideraram desproporcional a decretação da prisão pela Justiça ao lembrarem que o mesmo não ocorreu quando políticos petistas, tucanos, peemedebistas e de outras legendas se viram envolvidos em denúncias de envolvimento em um esquema de pagamento de propina a aliados. Esquecem-se de que o tratamento diferente dado ao suposto crime de políticos de outras legendas não os absolve dos delitos que supostamente cometeram e que a diferença em um dos casos, o dos petistas, pode estar quase que apenas na ausência de imagens.

Entre o escândalo dos petistas e o dos democratas de Brasília, os brasileiros viram uma sucessão de outras denúncias de abusos, irregularidades e desvios de recursos públicos ocupar a imprensa no últimos anos. Em praticamente todos os casos, imperou a impunidade. Desproporcional para alguns, mas marco para outros, a prisão do governador do Distrito Federal e um agora provável afastamento do cargo por um processo de impeachment são emblemáticos para os políticos que se acostumaram a conviver com a impunidade.

As entidades que combatem a corrupção ganham força e vão ampliar a divulgação dos nomes dos políticos envolvidos em fraudes e irregularidades e processados pela Justiça e o projeto de iniciativa popular que impede a candidatura de pessoas condenadas em primeira instância ganha fôlego. Antes de ser preso, Arruda disse a um auxiliar que “toda crise passa”. Sem dúvida. Mas cada uma traz a sua marca, que fica mais ou menos profunda na memória dos eleitores. Como a crise no DF deve permanecer por mais tempo na mídia, os deputados federais e senadores que querem angariar votos em outubro podem ser pressionados pela opinião pública – embora alguns se lixem para ela – a não fazer vista grossa para a proposta que recebeu 1,5 milhão de assinaturas. Costumamos dizer que o ano no Brasil só começa depois do carnaval. Em Brasília, começou antes e não teve intervalo para confetes e serpentinas.

Ricardo Noblat:: Fica, Arruda!

DEU EM O GLOBO

“Podíamos ter expulsado o Arruda no primeiro minuto, demos uma semana e só piorou”.(Demóstenes Torres, senador do DEM)

Louve-se a franqueza de Lula ao saber da prisão do governador José Roberto Arruda, do Distrito Federal, decretada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Segundo Gilberto Carvalho, seu chefe de gabinete, Lula ficou triste com a notícia, pois considerava “ruim para a consciência política do Brasil” que um governador fosse parar na cadeia.

Parem de implicar com Lula: além de sincero, ele foi coerente.

Em novembro último, depois de assistir aos vídeos que mostravam Arruda e deputados recebendo dinheiro vivo, além de empresários reclamando do alto valor de suas contribuições para o mensalão do DEM, ele havia dito de cara limpa que as imagens não falavam por si.

Mil vezes mais a sinceridade esporádica de Lula ao cinismo e à mentira que orientam o comportamento diário e as declarações da maioria dos nossos políticos. Na tarde da última quinta-feira, por exemplo, Arruda entregouse à polícia se dizendo vítima de uma armação diabólica de desafetos. Só faltou garantir que a História, um dia, o absolverá.

O vice dele, Paulo Octávio, assumiu o governo e afirmou em entrevista ao jornalista Gerson Camarotti que seu gesto era de puro desprendimento.

Dono de 16 empresas que empregam cinco mil pessoas, está convencido de que doravante passará a correr sério risco. “A decisão do fico foi uma demonstração de responsabilidade”, gabou-se.

Não foi. Membro da comissão de frente do escândalo, Paulo Octávio discutiu com parentes e advogados se o melhor para seus negócios não seria a renúncia à condição de vice. Pensou em simular uma doença para se dar como impedido de suceder a Arruda. Por fim, cedeu ao argumento de que a renúncia soaria como uma confissão de culpa.

Arruda e Paulo Octávio são crias políticas de Joaquim Roriz, que governou o Distrito Federal quatro vezes. Roriz pintou e bordou sem constrangimento.

Fez coisas que Deus duvida — da doação de terra pública em troca de votos ao uso escrachado do Banco Regional de Brasília.

Respondeu a dezenas de processos e escapou de todos.

Suas crias devem ter imaginado que eram tão espertas como ele. E que poderiam até superá-lo. Como observou um leitor do meu blog, Arruda conseguiu o que Roriz tentou sem êxito: ser preso.

Pior: só havia um meio para ser preso — se Arruda interferisse na produção de provas contra ele mesmo e coagisse testemunhas. Foi o que fez. Magnífico! Caso tivesse procedido com cautela, Arruda seria processado pelo STJ por improbidade administrativa. O processo se arrastaria até o fim do seu mandato no próximo dia 31 de dezembro. Com Arruda sem direito a foro especial a partir dessa data, o processo seria remetido para a primeira instância da Justiça. Tudo então se tornaria mais fácil para ele.

Salvo a Polícia Federal e o Ministério Público, ninguém em Brasília tem ideia do volume e da gravidade das provas recolhidas contra Arruda, Paulo Octávio e demais envolvidos no escândalo que deixou o Distrito Federal desgovernado.

O que existe hoje é um simulacro de governo sujeito a ser varrido do mapa de uma hora para a outra.

“A organização criminosa instalada no governo do Distrito Federal continua valendose do poder econômico e político para atrapalhar as investigações e, assim, garantir a impunidade”, afirmou Roberto Gurgel, procuradorgeral da República, horas depois da prisão de Arruda. Gurgel pediu a nomeação de um interventor para o Distrito Federal.

Caberá ao Supremo Tribunal Federal aceitar ou não o pedido de Gurgel. Os deputados da Câmara Legislativa começam a emitir sinais de que topam aprovar o impeachment de Arruda para evitar a ação higiênica de um interventor.

A essa altura, é desprovida de qualquer lógica a hipótese de Arruda simplesmente ser solto e reassumir o governo.

Reassumir para quê? Para se valer de novo do cargo e tentar reescrever o seu destino? A Justiça não foi tão longe para no fim produzir uma aberração.

Luiz Carlos Bresser-Pereira: Especulação contra o euro

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Esse ataque especulativo é mais uma comprovação da necessidade de regulação cerrada de bancos e fundos

OS MERCADOS financeiros são incorrigíveis. Agora a especulação se dirige contra o euro, ou, mais especificamente, dirige-se contra a Grécia, para depois atacar Portugal e, em seguida, a Espanha -os países mais frágeis da zona do euro.

O preço dos "credit default swaps" visando proteger os credores contra uma possível quebra da Grécia aumentou do índice 120 em outubro para 419 no dia 9. Quem compra esses instrumentos a um preço tão elevado aposta na quebra do país, o que transformará esse alto preço em grande lucro -uma aposta com forte componente autorrealizador. Quanto mais se aposta, mais dificuldade tem o país de se refinanciar e maior é a possibilidade de quebra.

Não creio, porém, que os especuladores ganharão desta vez. É verdade que o euro tem um ponto fraco: faltam à União Europeia, de um lado, uma autoridade federal para cobrar maior responsabilidade fiscal e maior transparência dos governos, e, de outro, mais recursos para vir em seu socorro se se veem em dificuldade. Entretanto, embora a Comissão Europeia não conte com esses recursos, os governos europeus e seus ministros da Finanças contam.

O governo conservador grego derrotado nas últimas eleições foi irresponsável no plano fiscal e no plano cambial; endividou o Estado e o país. O deficit público foi a 12,7%, e o deficit em conta-corrente, a 14% do PIB. E o governo mentiu em relação aos números. O novo primeiro-ministro, George Papandreou, porém, é economista keynesiano competente e prudente que já está tomando uma série de medidas de ordem fiscal. E a União Europeia vai certamente dar o apoio necessário à Grécia.

A alternativa seria a Grécia pedir apoio do FMI, mas não creio que os europeus concordarão com isso. A Grécia é um país que já está bem inserido na zona do euro -e o apoio do FMI a ela representaria um apoio à zona do euro, algo que os grandes países da região não admitirão. Essa alternativa foi adotada para os países do Leste Europeu, mas esses são países recém-chegados à União Europeia. O grande aumento de capital que o Fundo aprovou foi justificado pela necessidade de salvar esses países, cujos deficit -o público e principalmente o deficit em conta-corrente- haviam subido de forma irresponsável; na verdade, foi aprovado para salvar os grandes bancos ocidentais que de forma igualmente irresponsável emprestaram para empresas daqueles países com o apoio do FMI porque estariam "crescendo com poupança externa".

A União Europeia foi duramente atingida pela crise financeira global, porque alguns dos seus grandes bancos acompanharam a onda de especulação baseada em "inovações financeiras", e em parte porque as exportações de seus países sofreram com a crise. O endividamento das famílias, porém, não foi tão grande como nos EUA, e apenas na Espanha houve uma bolha imobiliária. A zona como um todo não apresentava nem os deficit públicos e em conta-corrente apresentados pelos EUA. Na crise, depois de uma breve depreciação em relação ao dólar, o euro voltou a se apreciar, indicando o maior equilíbrio da economia europeia.

Por tudo isso, estou seguro de que os especuladores acabarão perdendo essa parada. Mas esse ataque especulativo é mais uma comprovação da necessidade de regulação cerrada dos bancos e dos "hedge funds". Criar dinheiro é uma capacidade inerente ao sistema financeiro porque ele cria crédito e financia o desenvolvimento econômico, mas dinheiro é um bem público poderoso e perigoso que as sociedades democráticas precisam manter sob controle.

O QUE PENSA A MÍDIA

EDITORIAIS DOS PRINCIPAIS JORNAIS DO BRASIL
Clique o link abaixo

Dalva de Oliveira canta "Estrela do Mar" (1952)

Después de Lula ¿qué?:: Juan Arias

DEU EM EL PAIS (ESPANHA)

El presidente brasileño ha renunciado a presentarse a un tercer mandato que podría haber ganado fácilmente. Sus posibles sucesores, la ex guerrillera Dilma Rousseff y el socialdemócrata José Serra, seguirán su senda

La pregunta: después de Lula ¿qué?, es decir, cómo será Brasil sin Lula, no es retórica. Es un interrogante que se empiezan a hacer no sólo los analistas políticos, sino el hombre de a pie. Una cosa es cierta: va a haber, históricamente, un antes y después de Lula, el ex tornero que tomó las riendas del país hace casi ocho años, y que ha conseguido colocar a Brasil entre las potencias emergentes del mundo junto con India y con China.

Lula deja un país con 20 millones menos de miserables que han pasado a tener categoría de ciudadanos y han entrado en el mercado de consumo. Hoy, Brasil, con sus casi 200 millones de habitantes, pretende tener una silla en el Consejo de Seguridad de la ONU. Lula hizo visible a Brasil y a sus posibilidades económicas y culturales, en la escena mundial.

No se dejó arrastrar por el señuelo de intentar una tercera victoria electoral, modificando para ello la Constitución, alegando, en limpio espíritu democrático, que "mejor que la continuidad en el poder es la alternancia, para la salud de la democracia". Se puede afirmar sin duda que se ha tratado de un gesto de generosidad política teniendo en cuenta que, de haberse presentado para un tercer mandato, hubiese ganado plebiscitariamente.

El presidente ex sindicalista consiguió algo que, cuando llegó al poder en 2003 parecía un imposible: desplazarse desde la izquierda de su partido, el Partido de los Trabajadores (PT), y poner en marcha, durante sus dos mandatos, una política económica neoliberal que dio seguridad y garantías a los inversores extranjeros. A la vez -en una especie de cuadratura del círculo- ha sabido conjugar esa política, aplaudida por los banqueros, con fuertes y vistosas políticas sociales, con las que conquistó a millones de pobres y gentes sencillas, ante quienes se presentó como un buen padre, aunque la oposición le califica de asistencialismo. "Hoy los pobres tenemos más comida en la mesa y podemos tener una tarjeta de crédito", me decía un jardinero, orgulloso de haber podido abrir una cuenta en el banco con 10 reales (4 euros).

Lula sale de escena, pero sabe que volverá, quizás ya en el 2014. Pero de momento sale. Y a partir del 1 de enero próximo, Brasil será un Brasil sin Lula. ¿Qué va a pasar? Nada. Seguirá siendo un país con instituciones democráticas consolidadas; un país que no sólo ha conseguido salir, sin quebrarse, de la crisis mundial, sino que ya está creciendo; un país sin posibilidades de golpes de ningún tipo y que, a pesar de algunos ribetes populistas, en algunos momentos -por la influencia sobre todo del chavismo- no se ha dejado arrastrar por el populismo de turno en América Latina.

Brasil es un país que va a seguir siendo respetado y admirado en el mundo, incluso ya sin Lula, porque fue él quien tuvo el coraje de respetar los cimientos democráticos que habían construido los ocho años de Gobierno de su antecesor, el socialdemócrata Fernando Henrique Cardoso.

Faltan cuatro meses para una contienda presidencial que va a ser dura y reñida, pero democrática. De no haber sorpresas de última hora, ni un solo analista político apostaría en un escenario diferente al que ya se está formando, con dos únicas candidaturas capaces de ganar las presidenciales de octubre: la de la ministra y ex guerrillera, Dilma Rousseff, de origen húngaro, que es la candidata preferida de Lula, una especie de sombra suya. Si ella venciera, las elecciones serían en realidad un tercer mandato de Lula y asegurarían la continuidad de un cierto lulismo, la política personal que Lula ha llevado a cabo, alejándose incluso de las directrices de su partido.

Pero Dilma, al mismo tiempo, no es Lula. Es casi un anti-Lula, porque más que una iluminada y una improvisadora como él, es una gestora, que carece del carisma desbordador de su jefe, que nunca se había presentado anteriormente a unas elecciones, ni para alcalde, y que llegó tarde al Partido de los Trabajadores que oficialmente la va a escoger como candidata en las próximas semanas, aunque no era su elección preferida. Lo fue siempre y sólo de Lula, que la escogió por ser mujer, por ser dura y fuerte de carácter. El mandatario piensa que si fue capaz de sobrevivir a la tortura, podrá tener firme el timón del país. Además, ella va a seguir las huellas de Lula más que las de su partido.

Dilma es más de izquierdas que Lula, que en verdad nunca lo fue. Dilma militó en los movimientos revolucionarios de la extrema izquierda que luchaban a favor de la dictadura del proletariado durante la dictadura militar. Fue encarcelada y torturada por los militares y hoy de aquel pasado le queda sólo un fuerte sentido social. Su pasión es la gestión del poder.

Si ganase Dilma, dicen los expertos en opinión, habrá ganado Lula, su fuerza de convicción. Si perdiese, habría perdido ella, que no habría sabido capitalizar el apoyo de Lula que, desde hace un año, la lleva del brazo a todas partes, hasta a una audiencia, el año pasado, con el papa Benedicto XVI.

Hoy, los sondeos la dan perdedora ante el socialdemócrata y gobernador de São Paulo, José Serra, aunque cada mes, ella va aumentando su índice de aprobación, que está en torno al 30% frente al 40% de su contrincante. Dilma crece en la medida en que los pobres van sabiendo que es la candidata preferida de Lula.

Serra, supondría la alternancia normal, ininterrumpiendo de alguna forma, la continuidad del PT en el poder, y del lulismo. Al igual que Dilma, el gobernador de São Paulo, un avezado en política que ha sido parlamentario y dos veces ministro, además de alcalde de la ciudad de São Paulo y hoy gobernador de dicho Estado con altísimo índice de aprobación, es también más un gestor que un carismático del poder. Es una persona seria, aunque entrañable, nada populista, que ya disputó en 2002 las presidenciales con Lula al que llevó al segundo turno y de quien siempre ha sido amigo personal. Su campaña no sería "contra Lula", sino "después de Lula". Se sitúa a la izquierda de Lula y pondría el acento en algunos baches que ha dejado el Gobierno actual.

Con Serra, Brasil sería un país sin Lula, pero aún con Lula, en el sentido que el gobernador paulista no niega ninguna de las conquistas sociales de su Gobierno, ni del brillo que el ex metalúrgico ha dado a Brasil en el mundo. Serra luchó en los movimientos estudiantiles durante el tiempo de la dictadura y tuvo que exiliarse largos años.

Lula desea que la campaña sea una especie de plebiscito entre lo que por el país hizo el Gobierno de su antecesor en sus ocho años y lo que él ha conseguido. Sería como preguntar a la gente si quieren seguir con las conquistas por él conseguidas o volver al pasado. Sin duda, es un falso dilema que Serra, si aceptara ser candidato, se encargará de desenmascarar. Para Serra, su Gobierno no sería una fotocopia del pasado socialdemócrata de Cardoso, sino una página nueva. Su programa, que estaría preparándole un equipo de sabios, estaría enfocado en "perfeccionar" lo que Lula comenzó y no quiso o no pudo llevar a cabo, y en mejorar aquellos campos en los que los ciudadanos se sienten más frustrados y aún insatisfechos, como educación, sanidad, seguridad ciudadana, reforma política, reforma fiscal y lucha contra la corrupción, sin contar la aún gran injusticia de Brasil: la tremenda disparidad entre ricos y pobres, entre blancos y de color, entre escolarizados y analfabetos.

Sin Lula ahora, y quizás con Lula mañana de nuevo, Brasil es un país que se ha subido ya al tren cierto que lo llevará a consolidar el milagro de su desarrollo. Las diferencias del posible sucesor de Lula, que no será ya un líder carismático, no van a separar un ápice a Brasil de su vocación de querer contar en la escena mundial, de su apuesta por la democracia y por un cierto e indiscutible liderazgo en América Latina y quizás, algún día, más allá.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Reflexão do dia – Gilberto Freire

"Um Brasil que tem (...) um político, um parlamentar da grandeza e da atualidade de Nabuco, não deve deixar que essa grandeza seja esquecida, principalmente em época marcada pela desconfiança de que todo político brasileiro seja um politiqueiro, e todo homem público, um mistificador (...). Nabuco é uma das maiores negações dessa lenda negra com que se pretende desprestigiar entre nós a vida pública (...). Os brasileiros de hoje, os moços, os adolescentes, (...) é este o Nabuco que precisam conhecer de perto: o político que foi também um homem de bem. O político que não separou nunca a ação da ética".


(Gilberto Freire, na Câmara de Deputados em 1947, citado por Rubens Ricupero, no artigo de hoje na Folha de S. Paulo)

Um gramsciano a serviço da união dos povos :: Marco Aurélio Nogueira

DEU NO BLOG POSSIBILIDADES DA POLÍTICA

Demorei uns dias para escrever esse texto. Sem demagogia. Fiquei um tempo em estado de choque, sem ânimo para definir o que dizer.

Quarta-feira, 20 de janeiro, soube da morte de Giorgio Baratta.

Poucos brasileiros sabem quem foi ele. Era conhecido e admirado por marxistas gramscianos, com quem mantinha relações estreitas, aqui no Brasil e em diversas partes do mundo. A todos encantava com sua ironia fina, seu conhecimento enciclopédico, sua admiração incondicional por Gramsci – uma admiração que não o cegava nem o fechava em tolos dogmatismos. O seu sempre foi um Gramsci aberto, plural, em busca de atualização, condição indispensável para que continuasse a ser útil para o esforço de compreensão do mundo. “O mundo grande, terrível e complicado”, como costumava falar Giorgio, exige muita tenacidade, muito empenho e muita flexibilidade. Gramsci era, para ele, o principal marxista equipado para este movimento de compreensão.

Giorgio morreu aos 72 anos, de câncer, contra o qual lutou obstinadamente nos últimos meses. Estive com ele em janeiro de 2009, em Roma, data da foto reproduzida acima. Depois, conversamos por e-mail algumas vezes. Nunca me passou pela cabeça que poderia estar doente, depois daquela tarde fria em que passeamos pelas ruelas do Trastevere. Na ocasião, Giorgio me pediu para lhe enviar um exemplar do meu livro sobre Joaquim Nabuco, As desventuras do liberalismo, porque achava que se o lesse iria conhecer melhor o Brasil. Meses depois, numa troca de e-mails, ele me lembrou do pedido. Respondi que enviaria o livro com enorme prazer, assim que saísse a segunda edição, revisada e atualizada, prometida pela Paz e Terra para fevereiro de 2010. Se eu soubesse...

Ele amava o Brasil. Com sinceridade. Vivia em busca de pontes que ligassem italianos e brasileiros, Nápoles e Bahia, Itália, África e Brasil. Seu livro Le rose e i quaderni (2000) foi traduzido e publicado no Brasil (As roas e os cadernos (RJ, DP&A, 2007). É uma excelente amostra do programa teórico, político e cultural a que se dedicou Baratta.

Em agosto de 2008, publiquei neste blog um texto sobre ele, tentando resumir sua vasta atividade cultural e sua rica personalidade intelectual.

Giorgio ensina filosofia na Universidade de Urbino, Itália. Marxista erudito, de imaginação larga e fôlego inesgotável, dedicou-se a uma batalha incansável para agitar idéias, unir povos e experiências e produzir cultura de esquerda. Sua relação com o pensamento de Gramsci foi intensa e original. Ele não era um estudioso em busca do verdadeiro Gramsci, mas sim um teórico que desejava usar Gramsci para interpretar as urgências do presente.

Esteve entre os fundadores da International Gramsci Society e era presidente da IGS Itália. Fundou e dirigiu a network Immaginare l’Europa e a associação cultural Terra Gramsci, na Sardenha. Foi um organizador cultural ativo e também um artista, que se envolveu com a música, o teatro e o cinema. Concebeu, produziu e/ou dirigiu dois filmes: Gramsci l’ho visto cosí, direção de Gianni Amico, e New York e il mistero di Napoli. Viaggio nel mondo di Gramsci raccontato da Dario Fo.

Além de As Rosas e os Cadernos, seus últimos livros foram Antonio Gramsci in contrappunto (2007) e Leonardo tra noi (2007), ambos publicados por Carocci editore. Colaborou com vários verbetes no Dizionario gramsciano 1926-1937, que acaba de ser publicado na Itália.

No site IGS Itália, podem ser vistas as dezenas de manifestações de pesar que foram feitas por ocasião de sua morte.

Giorgio Baratta deixará saudade.

Poder do tempo, tempo do poder:: José Augusto Guilhon Albuquerque

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO /Aliás

No enigmático processo eleitoral de 2010, Serra espera enquanto Lula tem pressa

Que o tempo é dinheiro tornou-se uma evidência a priori no mundo capitalista, diferentemente das sociedades ditas primitivas e daquelas, como a nossa, em que a longa transição para a universalização do mercado ainda retém regiões significativas da cultura, das ideologias e do sistema de trocas, que recusam a moeda como equivalente universal de valor. Uma das contribuições mais notáveis de Marx para a compreensão do capitalismo é sua definição da determinação do valor da força de trabalho: é o tempo de trabalho necessário à reprodução da força de trabalho.

Com isso Marx estabeleceu as bases conceituais para que todos os valores na sociedade capitalista tenham um princípio de equivalência medido pelo tempo. Daí a concluir que tempo é dinheiro e, portanto, é poder, não é mais do que um passo, já que o dinheiro é reconhecidamente um dos principais recursos de poder.

Mas estamos no nível dos conceitos. As pessoas não se orientam apenas pelo mercado e não se comportam sempre, nem exclusivamente, como se o seu tempo fosse dinheiro. As pessoas que dispõem de mais tempo não têm mais dinheiro nem mais poder do que as que têm menos tempo. Ao contrário, acredita-se popularmente que os mais poderosos "não têm tempo para nada".

Na verdade, os mais poderosos - entre eles os mais ricos - podem ter tempo para tudo, porque não se trata da quantidade de tempo de que um indivíduo dispõe: teoricamente todos dispõem de tempo igual, 24 horas por dia. Trata-se de como se administra o tempo, e especialmente o tempo dos outros. O tempo - esse tempo que é dinheiro e que é poder - é elástico uma vez que se pode - dispondo de tempo e dinheiro - administrar o tempo dos outros. A verdade verdadeira é que nem todos somos iguais perante o tempo.

Nesse sentido a contribuição de Maquiavel é mostrar que a desigualdade entre os grandes e o povo, que está na base da constituição do Estado, também se aplica ao tempo, seu significado e seu uso. Assim, antes mesmo de sua equivalência ao dinheiro, Maquiavel mostrava a equivalência do tempo ao poder.

Todos conhecem a máxima maquiaveliana, segundo a qual, o Príncipe, para conservar o poder, deve fazer de uma vez todo o mal que precisa ser feito, e distribuir as benesses pouco a pouco, ao longo do tempo. O tempo joga, portanto, a favor do Príncipe e em detrimento do povo. A necessidade torna o povo refém do imediato, impossibilitado de administrar seu próprio tempo. Assim sendo, o tempo só é poder para quem pode administrar seu próprio tempo e o dos demais.

Existe uma versão folclórica da diferença entre o tempo de quem exerce o poder e o tempo dos demais. Essa versão consiste na noção de que quem exerce o poder se faz esperar, cujo corolário é que o mais poderoso chega por último. Ela só tem vigência no Brasil porque nossa sociedade ainda tem um pé no atraso senhorial e o tempo não é totalmente dinheiro, mas sobretudo prestígio, hierarquia.

Mais interessante é a administração do tempo no processo eleitoral porque, neste caso, a máxima de que nem todos são iguais diante do tempo tem implicações estratégicas. Por exemplo, nem todos têm a mesma possibilidade de desencadear o processo eleitoral, e quem exerce esse poder está administrando o tempo do adversário e, portanto, limitando seu acesso a esse recurso de poder.

Em condições normais pode-se supor que quem não está no poder tem pressa e, portanto, interesse em desencadear a oposição, pondo o governo na defensiva. Quem está no poder, ao contrário, tem interesse em prolongar ao máximo sua prerrogativa, escolher o momento mais adequado a seus interesses e adiar ao máximo a hora em que deixa de ser o supremo mandatário para se tornar um competidor entre outros - ou para ser um mero observador de outros competidores, caso não possa concorrer a mais um mandato.

Este é apenas mais um dos enigmas do atual processo eleitoral: com mais de dois anos de antecedência ao período eleitoral "normal", o Príncipe, como se fosse povo, condena-se ao imediatismo e, como se fosse oposição, abre mão de sua prerrogativa de fazer o tempo e a hora de sua sucessão, para tornar-se um competidor entre outros. Mais que isso, o Presidente Lula apostou numa vitória antecipada na disputa por sua própria sucessão, ao definir as eleições municipais de 2008 como plebiscitárias. E fez mais que isso: escolheu ele mesmo seu oponente e a hora e o lugar em que iria derrotá-lo - em São Paulo. Em vão: não houve plebiscito nem derrota do opositor, nem decisão antecipada de 2010.

Com isso, a campanha arrasta-se a perder de vista. E só se pode entendê-la se admitirmos que Lula tornou-se chefe da oposição a José Serra. Escolhe a candidata, dita a estratégia, faz os comícios mas não poderá ser o cabeça de chapa.

O poder do tempo é o de ser um recurso de poder, que tem duas mãos: quem não sabe administrar o tempo corre o risco de ser administrado por ele.

*Professor titular de Relações Internacionais aposentado do Departamento de Economia da FEA-USP e autor de O Intervencionismo na Política Externa Brasileira (Revista Nueva Sociedad).

Rubens Ricupero:: Dois aniversários

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Nabuco e Brasília convidam a refletir sobre a degradação entre nós da antiga dignidade da função pública

Não parece haver nada em comum entre os 50 anos de Brasília e o centenário da morte de Joaquim Nabuco. Ambas as datas convidam, no entanto, a refletir sobre a degradação entre nós da antiga dignidade da função pública.

Fui dos primeiros voluntários a trabalhar em Brasília, aonde cheguei em 10 de março de 1961. Éramos um punhado de pioneiros unidos pela ilusão de que vivíamos momento único: passado a limpo, o Brasil repartia com alma nova e purificada.

No plano cultural, Brasília dava expressão à utopia racional e funcionalista do modernismo. No político, correspondia à refundação do país. Longe das quarteladas da Vila Militar e da agitação das ruas, a alva cidade voltava as costas à corrupção da Corte, simbolizada pela Gaiola de Ouro, a Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro.

Antes de completar quatro anos, o sonho tinha acabado. O golpe de 1964 inaugurou ditadura que ocupou quase a metade da vida da nova capital. Estava pronta a cena para a invasão de aventureiros rapaces empenhados no saqueio sistemático do planejamento urbanístico. O penúltimo governador esmerou-se na irresponsabilidade de semear favelas monstruosas ao distribuir lotes para comprar votos de miseráveis; o atual é preso por flagrante de atos pornográficos de corrupção explícita que nos devolvem aos tempos de governadores coloniais embarcados acorrentados para Lisboa.

Em lugar do Te Deum, a festa dos 50 anos se deveria abrir com um Réquiem pelo assassinado Plano Piloto de Lúcio Costa e Niemeyer. E prosseguir com o sermão de um Vieira redivivo mostrando como a corrupção destrói primeiro a capital, isto é, a cabeça, depois o corpo e a alma da nação. Se a corrupção continuar a ser alentada sob pretexto de governabilidade, se a Justiça se limitar a espasmos de energia, sem acabar com a impunidade, talvez haja ainda menos a comemorar em mais meio século. Brasília confirmará de modo irônico a profecia de Malraux de que seria "a mais bela ruína do século 20".

Quando morreu Nabuco, cem anos atrás, Domício da Gama se queixou: "Machado de Assis, Euclides da Cunha, Joaquim Nabuco fazem falta a meu coração de brasileiro confiado no futuro de uma nação que teve dessas inteligências". Mais que a inteligência, porém, essa trindade inigualada nos deixou o exemplo da austeridade a serviço do interesse público, os dois primeiros como funcionários, o último também como político.

Parlamentar incomparável, Nabuco sempre se bateu por ideias, pela Abolição, no início, pela Federação, mais tarde. Jamais foi ministro no Império ou na República, nunca teve poder nem dinheiro. Merece nesta hora de cinismo que se lembre o que dele disse Gilberto Freire na Câmara dos Deputados em 1947:

"Um Brasil que tem (...) um político, um parlamentar da grandeza e da atualidade de Nabuco, não deve deixar que essa grandeza seja esquecida, principalmente em época marcada pela desconfiança de que todo político brasileiro seja um politiqueiro, e todo homem público, um mistificador (...). Nabuco é uma das maiores negações dessa lenda negra com que se pretende desprestigiar entre nós a vida pública (...). Os brasileiros de hoje, os moços, os adolescentes, (...) é este o Nabuco que precisam conhecer de perto: o político que foi também um homem de bem. O político que não separou nunca a ação da ética".

Rubens Ricupero , 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.

Tucanos avaliam hora ideal para lançar Serra

DEU EM O GLOBO

Dirigentes adiam ao máximo apresentação da candidatura ao Planalto, afinados com estratégia do governador

Flávio Freire

SÃO PAULO. Não há mais dúvida no ninho tucano: o governador paulista, José Serra (PSDB), decidiu que concorrerá este ano à Presidência. Diante do quadro favorável nas pesquisas, resta somente, para a direção do partido, saber até que ponto é possível esticar a corda em relação ao momento ideal para lançar a candidatura.

Ao avaliar os prós e contras de uma campanha antecipada, a cúpula prefere evitar uma exposição desnecessária do governador nesta reta inicial. A direção tucana estaria atendendo ao apelo do governador, que rechaça a tese de que o lançamento da candidatura apenas em março ou abril favoreceria a campanha da ministra de Dilma Rousseff (PT).

— A nossa campanha, neste momento, é a de não dar pretexto a ninguém sobre a candidatura.

Não faz sentido expor o Serra por aí. Claro que Serra já é o candidato, disso não há dúvidas, mas a hora é de preparar nossa base para a campanha deste ano — diz o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE).

Resultado de pesquisa eleitoral alerta tucanos Para o dirigente tucano, há reflexos mais positivos do que negativos nessa estratégia.

— Com o Serra distante da eleição, fica para o juízo da população apenas a candidatura de Dilma. O desgaste é maior quando se entra numa campanha, e quanto mais tempo você está nela, mais estará sujeito a críticas. Tanto que nem Marina (Silva), nem Ciro (Gomes) colocaram o bloco na rua oficialmente — analisa o senador pernambucano, um dos mais próximos do governador paulista.

A ofensiva da campanha petista, porém, acendeu a luz amarela no campo oposicionista, principalmente após a divulgação da recente pesquisa CNT/Sensus. Nela, Dilma cresceu cinco pontos percentuais, e aparece tecnicamente empatada com Serra. Ainda assim, o PSDB não pretende antecipar a entrada do tucano na disputa.

A convenção nacional do PSDB está marcada para junho.

Até lá, o partido concentrará esforço nas negociações em torno do candidato a vice. Embora o governador de Minas Gerais, o tucano Aécio Neves, já tenha descartado a possibilidade de assumir o posto, há quem ainda defenda seu nome, sobretudo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, principal defensor de uma chapa puro-sangue, com Aécio de vice. Em meio às especulações, o governador mineiro decidiu entrar de férias nesta semana.

Ficará 11 dias afastado da política. Uma possível chapa purosangue é, ainda hoje, a ideia mais defendida no partido.

Refratário à antecipação de seu nome, Serra conta com apoio a essa posição dentro do partido. O governador tem exigido dos líderes tucanos que evitem o confronto com Dilma. Ele prefere que o debate fique na esfera de comparações do governo Lula com o de Fernando Henrique Cardoso.

Assim, elimina qualquer chance de sua administração ser transformada em vidraça na atual conjuntura. O ex-presidente endossa a cautela do governador.

— Acho que ele tem que esperar mais um pouco — disse semana passada Fernando Henrique, que não tem escondido seu apreço por uma chapa purosangue. — Todos sabem da minha amizade com o Aécio, e acho que ele vai tomar a decisão mais acertada.

Aos poucos, Serra começa a tratar do assunto com um pouco mais de tranquilidade. Contou quarta-feira, após encontro com a cantora Madonna, que teria falado com ela sobre a disputa pela Presidência.

Serra deverá se desincompatibilizar do cargo que ocupa até 3 de abril. Com isso, deverá assumir o governo de São Paulo o vice-governador, Alberto Goldman, também tucano e que foi ministro dos Transportes na gestão de Fernando Henrique Cardoso.

Folia com cara de campanha

DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

RUMO ÀS ELEIÇÕES

Três presidenciáveis acompanharam o desfile do Galo da Madrugada ontem. José Serra caminhou entre os populares. Dilma e Ciro ficaram no camarote

Nada melhor do que a Festa de Momo para os políticos, de olho nas eleições que se avizinham, circularem pelos polos do País, testarem a popularidade e posarem para fotos. Os principais presidenciáveis prestigiaram, ontem, o desfile do Galo da Madrugada, acompanhados dos líderes políticos da região. Com disposição, sorrisos no rosto e troca de elogios, a ministra Dilma Rousseff (PT) e o deputado federal Ciro Gomes (PSB) curtiram o bloco carnavalesco, mas não arriscaram “brincar” fora dos camarotes. Já o governador de São Paulo, José Serra, pré-candidato do PSDB, circulou rapidamente para cumprimentar os foliões.

A ministra Dilma chegou ao Palácio às 10h40 e foi logo brincando com o presidenciável do PSB, que já estava no local. “Ciro, pensei que sua camisa ia ser igual a minha.” Ambos usavam a camisa oficial do camarote de Eduardo. Azul com desenho de bichos, mas com animais diferentes. À imprensa, Dilma afirmou que ali “não era momento para discutir a aliança (para a campanha)”. “Minha relação com Ciro é especial.”

A comitiva deixou o Palácio das Princesas por volta das 11h e fez a pé o trajeto até os camarotes na Avenida Guararapes. O prefeito do Recife, João da Costa, de Olinda, Renildo Calheiros, o deputado Armando Monteiro (PTB) e o secretário das Cidades, Humberto Costa (PT), faziam parte do grupo. No percurso, apenas o governador foi bastante cumprimentado. Dilma e Ciro foram pouco reconhecidos pelos populares. Já no camarote, a petista fazia sinal de ok e o desenho de um coração para os populares.

Tanto Dilma quanto Ciro justificaram a passagem pelo Estado não por força da campanha que se avizinha, mas para “prestigiar o maior bloco do mundo”. Ciro, inclusive, disse ter vindo para mais de 15 desfiles do Galo. A ministra da Casa Civil veio à festa pelo segundo ano.

Na entrevista à imprensa, no Palácio, Ciro voltou a disparar contra Serra. “É importante que ele venha para cá (o Galo) para conhecer uma vezinha o que é vida real.” Indagado sobre o que acha de Serra buscar uma identificação com o Nordeste, Ciro soltou: “É mais fácil um boi voar (do que acontecer essa identificação)”.

JOSÉ SERRA

Com uma camisa azul e calça caqui, Serra se esforçou ao máximo para ser simpático e popular na rápida passagem pelo Carnaval do Recife. Ficou um pouco mais de uma hora no desfile do Galo. Chegou 20 minutos após o início. Tempo suficiente para aproveitar o camarote oficial do clube para fazer imagens e dar entrevistas. Tudo era registrado por uma equipe de televisão contratada por seus assessores. O ponto alto, no entanto, foram os 20 minutos que decidiu descer do camarote para caminhar no meio da multidão e sentir “o cheiro do povo”, termo utilizado pelos correligionários.

Quando desceu, Serra se deparou com foliões que já eufóricos com o Galo. Protegido por seguranças, o governador paulista tentava, mesmo com o som dos trios elétricos, conversar, cumprimentar e tirar fotos com as pessoas. Mas era o tempo todo empurrado. Era o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) que o apresentava, aproximando-o da população.

Serra confessou que se surpreendeu com a receptividade das pessoas e disse que “nunca” teve medo do povo. “Vi muita amizade e carinho. Fiquei felicíssimo de ter vindo, andado entre as pessoas”, falou. Na caminhada, foi reconhecido por alguns e provocado por outros. “Voto em Dilma (Rousseff)”, disse uma eleitora. Serra apenas sorriu. Dilma e Serra seguiram para Salvador.

Brasília-DF :: Luiz Carlos Azedo

DEU NO CORREIO BRAZILIENSE

com Norma Moura

Nada será como antes


Uma coisa é certa, nada será como antes no Distrito Federal depois da prisão do governador José Roberto Arruda (sem partido), por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), referendando liminar do ministro Fernando Gonçalves. E, ainda, da rejeição do pedido de habeas corpus do governador pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello, contrariando muitas expectativas.

Dificilmente Arruda voltará ao cargo. Especula-se que renunciará ao mandato para sair da cadeia e responder em liberdade ao processo criminal, pois assim não poderia utilizar o poder de governador para embaralhar e obstruir a ação da Justiça no escândalo do Distrito Federal, razão pela qual passará o carnaval em cana. --> --> --> -->

Na vontade

O governador em exercício, Paulo Octávio (DEM), quer permanecer no cargo, mas enfrenta quatro pedidos de impeachment e um de intervenção federal no GDF feito pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel (foto). Sinal de que a crise continua firme e forte.

Liberou

A base governista na Câmara Legislativa, acuada pela prisão de Arruda, resolveu votar a admissibilidade do pedido de impeachment do governador na próxima quinta-feira, na expectativa de que com isso se evite uma intervenção federal. Beneficiado por essa linha de atuação, Paulo Octávio largou a mão de Arruda.

Interventor

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu o tom das declarações sobre Brasília, mas não está convencido de que a intervenção federal seja a melhor solução para o GDF. É uma engenharia muito complicada às vésperas das eleições. Porém, se prepara para a eventualidade de ter que montar uma equipe de governo.

Nomes

A intervenção federal no GDF só deve ser decidida em março, mas já começaram as especulações sobre o nome do possível interventor. O PSB defende o nome do ex-ministro do STF Sepúlveda Pertence. Os petistas começam a falar do ex-deputado federal e advogado Sigmaringa Seixas.

Descanso

Entro em férias. Nesse período, a coluna será assinada pela colega Samanta Sallum, com a colaboração de Norma Moura.

Embate

O deputado federal Geraldo Magela (foto) se prepara para disputar a vaga de candidato a governador do Distrito Federal pelo PT nas prévias da legenda, pressionado pela militância petista. Sem tradição na legenda, o ex-ministro Agnelo Queiroz, egresso do PCdoB, sofre um ataque especulativo dos adversários, mas não desiste da candidatura.

Corda/ O governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), reforçou a segurança do camarote do governo na avenida Marquês de Sapucaí. O presidente Lula e Dona Marisa não irão mais, mas Cabral receberá a visita de Madonna no desfile de hoje.

Pesquisa/ O ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, que luta para ser o pré-candidato do PT ao governo de Minas, não esconde que prefere uma pesquisa na base aliada para decidir quem será o candidato do PT ao governo de Minas. O ministro do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, prefere as prévias.

Teimosia

O deputado distrital José Antônio Reguffe está sendo pressionado pela cúpula do PDT a concorrer a uma vaga de deputado federal, mas pretende lançar sua pré-candidatura a governador depois do carnaval. Cristovam Buarque bateu o martelo: é candidato ao Senado, não quer saber do GDF.

Bandeira

Engavetado no fim do ano passado, o projeto Ficha Limpa deve enfrentar novo bombardeio quando for a votação na Câmara. O projeto recebeu 1,3 milhão de assinaturas

Nevoeiro

“Ninguém sabe que coisa quer./Ninguém conhece que alma tem/nem o que é o mal nem o que é o bem./(Que ânsia distante perto chora?)/Tudo é incerto e derradeiro/tudo é disperso, nada é inteiro”, Fernando Pessoa, em Mensagem.

Elio Gaspari

DEU EM O GLOBO

A anarquia militar é praga do século passado

A exoneração do general Maynard Santa Rosa do Departamento Geral de Pessoal do Exército veio bem e veio tarde.

Ele deveria ter sido disciplinado quando criticou a conduta do governo na demarcação da reserva indígena de Roraima. Um cidadão tem todo o direito de achar que a Comissão da Verdade será uma “Comissão da Calúnia”, mas militar, de cabo a general, não pode expressar publicamente suas opiniões políticas. Muito menos atacar um decreto presidencial.

Foram muitas as pragas da vida brasileira no século passado. Uma das piores foi a anarquia militar. Entre os Dezoito do Forte de 1922 e a bomba do Riocentro de 1981, ocorreram pelo menos 20 episódios relevantes de insubordinação militar, um a cada três anos. Alguns fracassaram, outros prevaleceram. Uns tiveram apoio popular, outros foram produto da pura vontade dos quartéis. Uns agradaram à esquerda, outros à direita.

Em mais de meio século de anarquia, a pior bagunça ocorreu precisamente durante os 21 anos de ditadura militar. Em 1969, o país virou uma casa de Mãe Joana.

O presidente Costa e Silva teve uma isquemia cerebral, seu sucessor legal, o vice Pedro Aleixo, foi impedido de assumir o cargo, e a cúpula militar resolveu escolher seu sucessor.

Os generais entendiam que o povo não tinha a educação necessária para escolher um presidente. E aí? Quem escolhe? Os comandantes militares? Nem pensar, assim como voto do enfermeiro não podia valer o mesmo que o de um médico, o de um general que comandava uma mesa não valia a mesma coisa que o de um comandante de tropa. Fez-se a eleição mais manipulada da história nacional.

Tão manipulada que não se conhecem sequer as regras do processo que escolheu o general Emílio Médici. Sobrevivem apenas duas tabelas que não fazem nexo.

Durante a ditadura, a anarquia produziu e institucionalizou um aparelho repressivo que se deu à delinquência da tortura, do assassinato de cidadãos e do extermínio de militantes de organizações esquerdistas. Começaram combatendo os grupos que, entre 1966 e 1973, se lançaram num surto terrorista.

Terminaram com um pedaço dessa máquina fazendo seu próprio terrorismo, botando bombas em instituições acadêmicas, bancas de jornais e entidades como a OAB e a ABI.

Quem namora pronunciamentos militares deve contemplar duas fotografias: a dos Dezoito do Forte, heroica, com os oficiais caminhando desafiadoramente pela Avenida Atlântica, alguns deles para a morte, e a do Puma do Riocentro com o corpo dilacerado do sargento do DOI. São cenas diferentes, mas têm a mesma nascente

A verdade do comissário Tarso Genro

Na briga em torno do Programa Nacional de Direitos Humanos estabeleceu-se um conflito entre os canibais e os antropófagos (parece que essa imagem é de Jorge Luis Borges). De um lado alinharam-se as vivandeiras de uma ditadura falecida.

De outro, hierarcas do governo que se dedicam a organizar eventos, aspergir a Bolsa-Ditadura e simular investigações.

O governo de Nosso Guia não quer buscar verdade alguma. Um episódio relacionado com aquilo que se denomina Guerrilha do Araguaia expõe a falsidade.

(No Araguaia teria havido uma guerrilha que começou com a fuga do chefe político —João Amazonas, em 1972 — e terminou com a fuga do chefe militar — Angelo Arroyo, em 1974.)

Nela desapareceram pelo menos 70 pessoas, na maioria jovens militantes do PCdoB. Havia engenheiros, médico, geólogo, enfermeira, três ex-estudantes de física, um de astronomia, outra de alemão.) Há duas semanas, numa entrevista ao repórter Valdo Cruz, o comissário Tarso Genro tratou do caso e, referindo-se à ação da tropa, disse o seguinte: “Participaram dos combates no Araguaia, mas aquilo é combate militar, não é repressão política no porões.” Caso típico de manipulação stalinista da História. O comissário mente.

Em dois anos, deram-se no Araguaia, no máximo, dez enfrentamentos. Depois de dezembro de 1974 não se sabe de um só. Nessa época, desorganizados, escondiam-se na mata pelo menos 35 sobreviventes. Uns foram capturados, outros renderam-se.

No dia 18 de janeiro de 1974, dois meses antes de tomar posse na Presidência da República, o general Ernesto Geisel teve o seguinte diálogo com o tenente-coronel Germano Arnoldi Pedroso, quadro do Centro de Informações do Exército e chefe de sua segurança:

— Vem cá, e como é que está aquela operação lá em Altamira?

— Lá em Xambioá? Tenho a impressão de que, se prosseguir como tem sido executada, mais uns dois ou três meses liquida-se aquilo lá.

— Mas eles conseguiram alguma coisa?

— Atualmente já pegaram quase trinta.

— Trinta? — Trinta. (....)

— E esses 30, o que eles fizeram? Liquidaram? Também?

— Também.

— Hein?

— Alguns na própria ação. E outros presos, depois. Não tem jeito não.

Combate, comissário?

Bola da vez

Para o bem de todos e felicidade geral da nação, o STJ botou na cadeia o governador José Roberto Arruda.

Pode ser mais difícil, mas há procuradores no Ministério Público e investigadores da Polícia Federal acreditando que devem pedir a prisão preventiva do empresário Fernando Sarney.

Quiromancia

Corre pela política do Rio um exercício de quiromancia eleitoral capaz de levar desassossego a Dilma Rousseff.

Marina Silva pode ganhar a eleição presidencial na cidade.

Esta informação vale pela ansiedade que provoca hoje. Nada a ver com o resultado de outubro, que geralmente contradiz as previsões feitas em fevereiro

CubaNet

Está na Venezuela o comandante Ramiro Valdés, segundo homem da hierarquia cubana e comissário das telecomunicações do país. É ele quem cuida do isolamento eletrônico de Cuba.

Nas suas palavras: “A internet é um instrumento global de extermínio”.

Apelidado “El Chivo” (Bode), por conta de seu cavanhaque, o comandante é um remanescente do ataque de Fidel Castro ao quartel Moncada, em 1953.

No ano passado, uma equipe do comissariado de internet do governo brasileiro reuniu-se com ele em Havana. Há dois anos, “El Chivo” passou pelo Brasil.

A dúvida é se ele veio aprender ou ensinar.

Malvadeza

De um escorpião: “O desempenho do prefeito Gilberto Kassab durante a enchente paulista formou uma nuvem sobre a cabeça do governador José Serra. Ele pode virar o seu Celso Pitta.” (Kassab foi secretário de Planejamento do prefeito Pitta, que por sua vez foi o poste de Paulo Maluf.)

Lula, o PT e suas heranças: 2002 e 2006 :: Pedro S. Malan

DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Este artigo foi publicado neste espaço em julho de 2006. É republicado hoje sem nenhuma alteração. Por duas razões: a primeira, porque como na letra do samba de carnavais de outrora, "recordar é viver"; a segunda, muito mais importante, porque o autor acredita que o texto talvez possa reter certo interesse, à luz da insistência do governo atual num confronto plebiscitário, com foco no passado, em vez de um olhar à frente, como, creio eu, seria melhor para o País, onde há tanto por fazer. Portanto, peço ao eventual leitor que adicione, ao título do artigo e onde mais couber, o ano de 2010.

"A opinião que tens de tua importância te porá a perder", dizia uma das inscrições nas vigas da biblioteca de Montaigne, cujos Ensaios há séculos encantam seus leitores. O tema da vaidade dos homens lhe era caro. O belo ensaio a ele dedicado começa bem: "Talvez não haja vaidade maior do que sobre ela escrever de forma tão vã." Afinal, sempre vale lembrar o Eclesiastes: vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

Não sei bem por quê, estas lembranças por vezes me vêm à mente ao ler os pronunciamentos de nosso presidente, cada vez mais encantado consigo mesmo e com o que considera não só como seu superior entendimento das coisas deste mundo, como sua autoproclamada capacidade de transformá-lo. Em arroubo recente, informou-nos que "só Deus conseguiria consertar em quatro anos o que não foi feito em 500 anos". Ele (Lula), por exemplo, precisaria de oito anos para começar a corrigir erros e omissões seculares e pôr o País no rumo certo, deixando uma extraordinária herança a seu sucessor.

Mas falemos antes sobre as heranças, já por eles construídas, com que Lula e o PT chegaram a 2002 - e chegam às eleições de 2006.

Em 2002, Lula e o PT tinham uma história de mais de 20 anos e, portanto, uma herança que consigo carregavam. Fazia parte dessa herança a ferrenha oposição ao lançamento do Real em 1994, chamado de "pesadelo", de "estelionato eleitoral" e com duração por eles prevista para poucos meses. Fazia parte dessa herança a oposição às mudanças constitucionais que permitiriam ampliar os investimentos privados em infraestrutura. Fazia parte dessa herança a oposição às privatizações, à redução do número de bancos estaduais e à abertura comercial. Fazia parte dessa herança o plebiscito pela suspensão dos pagamentos das dívidas externa e interna e pelo "rompimento" com o FMI. Fazia parte dessa herança a oposição do PT à Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) no Congresso, a tentativa de derrubá-la no STF e a aprovação, em dezembro de 2000, por seu Diretório Nacional, de texto em que o PT declarava sua posição: "A LRF precisa ser radicalmente modificada porque o preço da responsabilidade fiscal não pode ser a irresponsabilidade social." Fazia parte da herança com que o PT e Lula chegaram a 2002 o programa de governo aprovado em dezembro de 2001 pelo seu congresso nacional, a mais alta instância decisória do partido, e que tinha como subtítulo A ruptura necessária com tudo aquilo que ali estava.

Essa herança, como é sabido, teve consequências já em 2002. A taxa de câmbio desvalorizou-se em mais de 50% nos seis meses que antecederam a eleição de outubro (de R$ 2,4 em março/abril para R$ 3,7 por dólar em setembro/outubro), o risco País chegou a multiplicar-se por quatro no período, chegando a 2.400 pontos em outubro, e a inflação em 2002 alcançou 12,5%, tendo mais da metade deste aumento sido registrada nos últimos três meses do ano. Como bem notou Armínio Fraga em longa e excelente entrevista ao jornal Valor (23/6), "a economia estava na UTI, mas isto era a consequência de expectativas em relação ao que o próximo governo faria". E havia fundadas razões para essas expectativas.

A gradual desconstrução dessa herança foi um processo, timidamente iniciado em fins de junho de 2002 com carta-compromisso do candidato e ainda não concluído, porque há sérias divisões e ambiguidades não resolvidas no PT, no próprio governo e nas forças que o apoiam, como mostra a experiência pós-Palocci, em particular no que diz respeito à forte expansão recente do gasto público.

Passados quatro anos, é cada vez mais claro que a gradual desconstrução da herança construída pelo PT para si próprio em 2002 foi facilitada por três ordens de fatores: um contexto internacional extraordinariamente favorável no quadriênio 2003-2006 (só comparável ao quadriênio 1970-1973, afirma estudo recente do FMI); uma política macroeconômica não-petista (nenhuma das "estrelas econômicas" do PT ocupou qualquer posição relevante na área mais sensível da política macroeconômica, graças ao médico Palocci e ao apoio que este recebeu de Lula até o final de 2005); e uma herança não-maldita de inúmeros avanços institucionais e mudanças estruturais que foram de enorme serventia ao novo governo, nos mais variados setores, inclusive os sociais, e aos quais o governo Lula soube dar continuidade, ainda que pretendendo ter inventado a roda - em alguns casos, com desfaçatez e hipocrisia.

Entretanto, o contexto internacional, que permitiu que o Brasil reduzisse extraordinariamente a sua vulnerabilidade externa, não será tão favorável nos próximos quatro anos. O ministro Palocci, assim como pessoas-chave de sua equipe, não mais emprestam seu concurso ao governo. E, nos últimos quatro anos, houve poucos avanços institucionais, andamento de processos de reforma e melhoria de contextos regulatórios - pelo contrário.

O discurso sobre "herança maldita", que marcou o imaginário petista, era não só objetivamente equivocado, como trazia seu prazo de validade estampado no rótulo: afinal, em menos de quatro anos o governo Lula se apresentaria ao eleitorado com sua própria herança. E, em modernas democracias, o que se pode - e deve - esperar de um governo é que entregue a seu sucessor um país um pouco melhor do que recebeu de seu antecessor. Como fez FHC, sem achar que a "verdadeira" História do País começou com ele e sua gestão.

Qualquer governo, em qualquer país do mundo, não só tem seus próprios erros e acertos, como também constrói sobre avanços alcançados na vigência de administrações anteriores. O governo Lula não foi, não é e não será exceção a esta regra. Reconhecê-lo, difícil como possa parecer para a vaidade humana, é algo que só beneficiaria a governabilidade futura, qualquer que venha a ser o resultado das urnas de outubro.

Pedro S. Malan, economista, foi ministro da Fazenda no governo FHC

EDITH PIAF & ISABELLE BOULAY «Rien de rien»

A tempestade FHC

DEU NA REVISTA VEJA

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso inaugura o estilo "nem paz, nem amor": diz que topa "ir para o pau" com o PT, chama Dilma Rousseff de "autoritária" e impõe ao PSDB a defesa de seu legado na disputa presidencial deste ano

Fábio Portela

"O presidente Lula passa por momentos de euforia que o levam a inventar inimigos e enunciar inverdades. Para ganhar sua guerra imaginária, distorce o ocorrido no governo do antecessor, autoglorifica-se na comparação e sugere que se a oposição ganhar será o caos."

"A estratégia do petismo-lulista é simples: desconstruir o inimigo principal, o PSDB e FHC (muita honra para um pobre marquês...). Por que seríamos o inimigo principal? Porque podemos ganhar as eleições."

"Dilma não é líder. É reflexo de um líder."

Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República (PSDB)

Há quem o ame e quem o odeie. Mas uma coisa é indiscutível: no mundo da política, ninguém fica indiferente a ele. Quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) fala, os outros escutam. Foi o que ocorreu na semana passada, quando FHC assinou em sua coluna quinzenal no jornal O Estado de S. Paulo um artigo intitulado "Sem medo do passado". Com o texto, ele entrou de vez na campanha eleitoral – e, pelo visto, não sairá dela tão cedo.

Em dois movimentos, fez o que a oposição foi incapaz de fazer nos últimos sete anos: enfrentou duramente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, acusando-o de "enunciar inverdades" e "distorcer" fatos para inflar as realizações do PT, e defendeu vigorosamente as conquistas econômicas e sociais do seu próprio governo (1995-2002), enfileirando estatísticas que revelam que o desempenho dos tucanos no poder foi muito mais positivo do que tenta fazer crer a propaganda oficial. FHC entrou nessa briga depois de o Palácio do Planalto alardear que tentaria reduzir a eleição a um processo plebiscitário, orientado a partir da comparação do governo dele com o de Lula.

"O PT fica ameaçando o tempo todo comparar os governos, como se isso amedrontasse o PSDB. Isso é conversa.

Com o artigo, mostrei ao nosso pessoal que é possível defender o que foi feito com toda a tranquilidade. Temos resultados para mostrar. Se o PT quiser ir para o pau, nós vamos para o pau", diz Fernando Henrique.

O discurso belicoso do ex-presidente elevou o moral da tropa. Tucanos que andavam ressabiados diante do crescimento nas pesquisas da candidata do PT, Dilma Rousseff, voltaram a bater as asas, e FHC passou a semana recebendo telefonemas de congratulações.

"O presidente Fernando Henrique colocou em brios pessoas que ajudaram a transformar o país durante seu mandato. Parecia que a gente estava com vergonha de afirmar o legado do PSDB só porque o Lula está bem nas pesquisas. Isso não tem sentido", diz Arthur Virgílio, líder tucano no Senado. Até o governador de São Paulo, José Serra, candidato do partido à Presidência, enviou a FHC um e-mail dizendo que ele havia sido "muito feliz" nas suas considerações.

Fernando Henrique se animou. Afinal de contas, nas duas últimas campanhas presidenciais, o PSDB parecia tentar esconder o governo dele – que, se cometeu alguns erros, colecionou acertos em número muito superior. FHC, então, decidiu aumentar o bombardeio ao inimigo. Em São Paulo, disse que a ministra Dilma não é boa candidata por não ser, sequer, uma líder. Ao jornal americano Miami Herald, classificou-a de "autoritária" e "dogmática" e acrescentou que ela poderá se aproximar do venezuelano Hugo Chávez caso vença a eleição. Os petistas estrilaram com a saraivada, mas sua candidata, desacostumada de sofrer tamanho bombardeio, limitou-se a dizer que se orgulha do governo ao qual pertence e que seu líder é o presidente Lula.

"Nós temos orgulho do nosso governo e temos orgulho do líder que nos lidera neste governo, que é o presidente Lula."

Dilma Rousseff, pré-candidata a presidente (PT)

A nova fase "nem paz, nem amor" de FHC anima a militância, mas embute dois riscos para o PSDB. O primeiro é que as críticas do ex-presidente acabem, involuntariamente, aumentando a estatura política de Dilma. Por esse raciocínio, FHC deveria se confrontar apenas com Lula, que ocupa o cargo que já foi dele um dia – e não com Dilma, figura comparativamente menor, que jamais recebeu um voto na vida. O segundo risco é que, se o PSDB entrar na campanha determinado a comparar exaustivamente os resultados dos governos anteriores, estará desperdiçando um tempo precioso. Mais importante do que falar sobre o passado, é discutir o futuro.
O Brasil precisa debater o que o próximo presidente da República vai fazer – e não comparar o trabalho dos que já passaram. Essa armadilha preocupa alguns tucanos, mas FHC é o primeiro a dizer que a defesa de seu governo não deve ser, nem de longe, prioridade de campanha:
"Entrei nessa discussão para dar um basta às ameaças do PT. Não podemos ter receio de fazer comparações, mas é óbvio que a campanha do PSDB não é essa. Seria um erro eleitoral ficar discutindo o passado. Temos de olhar para a frente e discutir o que o Serra e Dilma podem oferecer ao país. É aí que vamos ganhar a eleição".