quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Combate ao crime exige respeito à evidência empírica

O Globo

É lamentável desprezo às câmaras em fardas e louvável iniciativa que reverteu a proliferação de armas

No combate à violência, governos não deveriam abrir mão de políticas públicas de sucesso comprovado. É o caso das câmeras acopladas a uniformes de policiais, estratégia usada com bons resultados no exterior e em pelo menos oito estados brasileiros. Não só para reduzir as mortes causadas pela polícia, mas também para proteger os próprios agentes de acusações infundadas, dando mais transparência às ações contra o crime.

Infelizmente o governador paulista, Tarcísio de Freitas (Republicanos), tem desprezado os avanços do programa implantado em gestões anteriores. Afirmou que não investirá em novas câmaras nas fardas, sob a alegação de que não oferecem segurança ao cidadão. Ora, os números mostram que, entre 2019 e 2022, seu uso contribuiu para reduzir em 76,2% os civis mortos em operações policiais (nos quartéis onde não eram usadas, a queda foi de 33,3%). Diversas pesquisas científicas corroboram a eficácia da política.

A incoerência fica maior quando se observam os números atuais. No ano passado, primeiro do governo Tarcísio, os civis mortos por PMs em serviço aumentaram 34%, para 333, de acordo com levantamento do portal g1 com base nos dados do Ministério Público. No ano anterior, haviam sido 248, patamar mais baixo já registrado.

Merval Pereira - Pós-Lula

O Globo

Vivemos o que parece ser o epílogo do presidencialismo de coalizão — tal como cunhado pelo cientista político Sergio Abranches—, que perdeu a eficácia e a funcionalidade

Se o Congresso levar adiante a ameaça de derrubar o veto do presidente Lula ao calendário de liberação de emendas parlamentares, estará dado o passo, talvez definitivo, para a ruptura institucional que se vislumbra há algum tempo no tenso relacionamento entre Executivo e Legislativo. As emendas, que serviram como instrumento do Executivo para controlar os acordos no Congresso, mormente no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, agora tornam-se a arma do Legislativo para retirar de seu antigo controlador o poder que lhe resta de ditar os rumos do governo, até administrativos.

Seria uma decisão claramente inconstitucional, que impediria o Executivo de gerenciar o Orçamento no que é possível ainda controlar, já que as emendas hoje são impositivas e o pagamento seria compulsório de acordo com os interesses dos parlamentares, e não os da administração pública. Se o impasse for rompido por uma negociação que mantenha o veto, mas garanta a liberação da verba ainda no primeiro semestre, como querem os parlamentares, teremos superado um obstáculo, mas nada indica que estará superada a crise de relacionamento, pois os parlamentares querem ter controle sobre o próprio orçamento, que não necessariamente corresponde ao projeto político do governo em exercício.

Míriam Leitão - O intenso debate do clima no Brasil

O Globo

Negociador-chefe do ambiente, embaixador André Corrêa do Lago, avalia que este ano o país deve fazer um grande debate nacional sobre os desafios que enfrentará na questão climática

O embaixador André Corrêa do Lago, negociador-chefe de clima e meio ambiente do Brasil, acha que 2024 é fundamental para o debate interno brasileiro na área ambiental. Ele alerta que para a agricultura brasileira o “ponto de não retorno” da Amazônia será uma tragédia. Por outro lado, diz que a delegação brasileira que vai às COPs é sobretudo da sociedade civil, do setor privado, dos estados e municípios. “A mudança do clima no Brasil está realmente integrada no debate nacional e isso faz do Brasil um país contemporâneo.”

Eu o entrevistei ontem na GloboNews para falar das três COPs, a que acabou em Dubai, a deste ano no Azerbaijão, e a que ocorrerá em Belém, em 2025. Secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores, ele está de volta ao posto de negociador que exerceu por muito tempo e explica a maneira como o Brasil foi recebido no retorno às negociações do clima.

Simon Johnson e Daron Acemoglu* - Offshore sujo ameaça a democracia

Valor Econômico

Restrição a paraísos fiscais e cobrança mais por transparência nos fluxos financeiros transnacionais deve ser uma prioridade política do G7 em 2024

As democracias em todo o mundo enfrentam duas grandes ameaças: uma crise de legitimidade e regimes autoritários cada vez mais agressivos. O que liga ambos e os tornam muito mais perigosos é o pernicioso efeito das transferências de dinheiro sujo, especialmente aquelas que circulam por meio de paraísos fiscais offshore e jurisdições com excessivo sigilo financeiro. Restringir estes paraísos fiscais e exigir mais transparência nos fluxos financeiros transfronteiriços deveria ser uma grande prioridade política para todos os países do G7 em 2024.

A ameaça interna à democracia é uma erosão da legitimidade. Nas economias industriais, como EUA e Europa, as novas tecnologias, o aumento dos fluxos de capitais transfronteiriços e a redução das barreiras ao comércio aumentaram a produtividade média e criaram o crescimento econômico ao longo do último meio século, mas os benefícios desse crescimento não foram amplamente compartilhados. A desigualdade nesses países aumentou drasticamente desde meados da década de 1970, com milhões de pessoas sentindo-se agora deixadas para trás.

O apoio à democracia está sendo minado pela crença de que o jogo econômico é “manipulado”, com as pessoas que já são poderosas e privilegiadas ganhando mais - por vezes às custas do resto. Embora essa crença possa ser exagerada, está de acordo com a realidade da evasão fiscal.

Assis Moreira* - Um Brasil mais leve para a concorrência global

Valor Econômico

Brasil precisa ficar mais ágil na corrida com os outros países nesse universo da neoindustrialização e incertezas geopolíticas

Após deixar em março a presidência do Novo Banco do Desenvolvimento (NDB), o Banco do Brics, para dar lugar à Dilma Rousseff, Marcos Troyjo passou a lecionar na Universidade de Oxford, na cátedra antes ocupada por Iván Duque, ex-presidente da Colômbia, e também no Insead (França). Nesse período, ele visitou 18 países em contatos com autoridades, investidores e acadêmicos, e os questionamentos sobre o Brasil foram inevitáveis.

Para Troyjo, a convergência de crises atualizou a noção de policrise, com a pandemia mais grave que o mundo experimentou desde a gripe espanhola, depois a situação geopolítica mais delicada na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, e uma economia mundial que ainda não se recuperou na esteira de frouxidão fiscal e monetária que levou o centro macroeconômico mundial a fortes turbulências inflacionárias.

Maria Clara R. M. do Prado - O valor agregado nas exportações

Valor Econômico

Defesa de maior participação de produtos industrializados na pauta de exportações volta a ganhar espaço, mas Brasil parece fadado a ser especializado no setor primário

De acordo com as últimas estimativas do governo, a balança comercial brasileira fechou o ano passado com saldo positivo de US$ 95,96 bilhões, um recorde que ultrapassou todos os prognósticos. O resultado, que se deveu à queda da ordem de 11,3% nas importações (devido a preço), representou incremento de 59,1% sobre o superávit comercial de US$ 61,525 bilhões em 2022 e reforça a zona de conforto nas contas externas do país.

Ao contrário do que se dizia, a redução da taxa de crescimento da China não tem afetado negativamente o comportamento da balança comercial brasileira. Ainda é cedo para se prever o futuro tendo em vista as incertezas a respeito do rumo que tomará o comércio internacional, se será mais ou menos intervencionista ou se tenderá para os acordos bilaterais ao invés dos regionais. Nem mesmo se sabe se será possível salvar a Organização Mundial do Comércio (OMC) da estagnação na qual mergulhou nos últimos anos.

William Waack - Em busca de contrapeso

O Estado de S. Paulo

Na queda de braço com o Congresso o governo espera ajuda do Judiciário

A decisão política de Lula de enfrentar o Congresso via vetos revela um componente abrangente. Parece que ele não entendeu que preside um governo de minoria.

A falta de uma maioria no Legislativo – algo que o presidente reconhece em público – não explica, sozinha, a questão. Nesse sentido, aliás, o Brasil apenas repete a experiência recente de vários países na América do Sul, não importa o campo ideológico do chefe do Executivo.

É gritantemente óbvio que a falta de votos no Congresso, somada ao inédito avanço do poder do Legislativo sobre o Executivo, cria imensas complicações políticas. Agravadas pelo fato de que o governo não dispõe de decisivo apoio político e/ou social quando Lula fala de raposas tomando conta do galinheiro.

Felipe Salto* - A privatização do Orçamento público

O Estado de S. Paulo

A falta de planejamento, que já se pode classificar como um problema antigo do País, combina-se agora com o uso descarado dos espaços fiscais pelo Legislativo

Sob uma ótica relativamente moderna, o processo orçamentário deve orientar-se por resultados, e não pela disputa por recursos e carimbos. Contudo, a ausência de planejamento tem levado à privatização do Orçamento público, guiada por interesses cada vez menos associados ao desenvolvimento econômico integrado da Nação. Nem os programas orçamentários são avaliados e melhorados nem o espaço discricionário é usado adequadamente.

Uma análise da proposta orçamentária da União para 2024 pode ser útil. A Lei Orçamentária Anual ainda não havia sido sancionada até o envio desta coluna para os editores. Por isso, trabalho com as informações do relatório exarado pela Comissão Mista de Orçamento do Congresso.

Roberto Macedo* - Problema das emendas parlamentares se agravou

O Estado de S. Paulo

Valor de emendas tem aumentado muito, equivalendo no Orçamento de 2024 aos recursos destinados ao PAC

Mas por que constituem um problema e qual a natureza desse agravamento? O principal problema é de natureza política. Já fui candidato a deputado federal e aprendi que o voto de opinião sobre um candidato é prejudicado pela existência de muitos deles. Quando isso ocorre é difícil escolher, e em economia houve quem ponderou e chamou essa situação de “quando mais é menos”. A pessoa faz a escolha e fica insegura quanto à conveniência dela. O ideal seria o voto distrital, em que em cada distrito haveria, se tanto, meia dúzia de candidatos viáveis nas eleições para o Legislativo, e não centenas deles, como ocorre hoje. O debate entre eles contribuiria para esclarecer suas qualidades.

Aprendi também que os prefeitos e vereadores municipais têm grande influência nos resultados das eleições estaduais e federais, dada a sua relação com os eleitores locais, em torno dos quais passam a atuar como cabos eleitorais. Certa vez, conversando sobre minha candidatura com o ex-governador de São Paulo Mário Covas, ele disse que “iria me arranjar uns prefeitos”, mas faleceu logo depois.

Celso Ming - 2024 e o que está por vir

O Estado de S. Paulo

No último domingo, esta Coluna observou como as projeções econômicas feitas no início de 2023 para todo o ano deram errado. As apostas de analistas e consultores ficaram longe do alvo. Como a dinâmica dos fatos nem sempre coincide com as previsões dos entendidos, é melhor não se apegar a números frios, mas tentar avaliar as tendências. Então, vamos lá.

Na área externa, a balança comercial tem tudo para continuar a dar show, especialmente pelo forte superávit da balança comercial (exportações menos importações) continuará alavancada pelo aumento das exportações de petróleo e de grãos, a despeito dos estragos de safras agrícolas que poderão ser provocadas pelo fenômeno El Niño.

Vinicius Torres Freire - Milei quer revolução por decreto

Folha de S. Paulo

Presidente quer aprovação integral de pacote porque recebeu mandato das urnas

Por alguns meses, discutiu-se qual seria o plano econômico de Javier Milei para a Argentina. No limite, um grande problema de seu programa seriam enormidades tais como acabar com o Banco Central e a dolarização.

Milei ainda diz que esses dois objetivos são o ponto final de sua administração. Mas isso que pareciam duas reviravoltas terminais parecem mais abstrações perdidas na névoa do futuro. A revolução de Milei é agora.

Não há ainda ou propriamente um plano econômico, nem mesmo um projeto de dar cabo do déficit do governo, um objetivo central.

Existe é um plano de virar o país do avesso de tal modo que essa Argentina refeita quase por decreto terá estabilidade de preços, ganhos de produtividade e crescimento duradouro.

Não há plano de implementação progressiva, articulado com a sociedade, metas, mudanças institucionais que fundamentem o próximo passo, nada disso. A ideia é explodir esta Argentina de fato decrépita e esperar que, quando os seus pedaços voltarem ao chão, todos se encaixem, de modo novo e funcional.

Conrado Hübner Mendes* - Tarcísio quer ver pobre morrer mais

Folha de S. Paulo

Câmeras corporais aumentam segurança e atrapalham corrupção institucional

"Qual a efetividade da câmera corporal na segurança do cidadão? Nenhuma."

Tarcísio de Freitas não é burro, nem cínico, nem charlatão. É apenas mais um governador paulista, com dinheiro no banco, em tom tecnocrático, resumindo a política de segurança pública brasileira: matar pobres, preferencialmente pretos. E crianças por bala "perdida", código para irresponsabilização do Estado gravado com sangue na cartilha retórica da polícia.

Enquanto outros governadores falavam "quem não reagiu está vivo" e "a polícia vai atirar para matar", Tarcísio adota o idioma da efetividade. Só faltou revelar para qual fim. Câmeras corporais instaladas em uniformes policiais dificultam o projeto histórico de "efetividade" da letalidade.

Bruno Boghossian - O primeiro teste da segurança

Folha de S. Paulo

Balanço com possível redução no número de mortes ajudaria a desmontar mitos, mas números ainda devem dizer pouco

Pouco antes de mudar de emprego, Flávio Dino fez uma promessa. Na sabatina para a vaga no STF, ainda em dezembro, o ministro se referiu a dados preliminares e anunciou que o país terminaria 2023 com uma queda nas mortes violentas intencionais. "Com a graça de Deus, neste ano nós vamos ter redução", disse.

Animado com os números coletados nos últimos meses, o governo resolveu mergulhar de cabeça no debate da segurança pública. O tema, antes tratado com uma dose cavalar de hesitação no entorno de Lula, virou prioridade no Ministério da Justiça e foi o foco do primeiro vídeo de propaganda divulgado pelo Palácio do Planalto em 2024.

Maria Hermínia Tavares* - Onde mora o perigo

Folha de S. Paulo

A polarização é obra de lideranças e sua sobrevida e intensidade dependerão muito do incerto futuro de Bolsonaro e da disposição da direita de buscar rotas mais civilizadas

polarização política inquieta todos quantos aspiram a uma democracia sólida e estável para o país. A lembrança da invasão da Praça do Três Poderes pelas hordas bolsonaristas, a completar um ano na segunda-feira que vem, serve de alerta para os riscos de novas sortidas da direita radical. Contorná-los requer clareza sobre os perigos da divisão dos brasileiros entre "nós" e "eles".

Recomendo, por oportuno antes de tudo, o último episódio de 2023 do podcast "Fora da política não há salvação", no qual o cientista político Claudio Couto (FGV-SP) entrevista seu colega Antonio Lavareda (Ipesp), reconhecido estudioso da opinião pública. Retomo aqui algo daquela proveitosa conversa.

Ruy Castro - O pior dos três mundos


Folha de S. Paulo

O Brasil teve Jânio, Collor e Bolsonaro, um de cada vez. Com Milei, a Argentina pode ter os três de uma vez

Por acaso em Buenos Aires na semana das eleições na Argentina, tive vários déjà-vus diante da vitória de Javier Milei. Por mais que seu adversário Sergio Massa fosse um desastre, era óbvio que, ao votar em Milei, os argentinos não sabiam o que estavam fazendo. Nós sabemos. Do seu tipo de político, já tivemos no Brasil três devastadoras amostras: Jânio Quadros (1961), Fernando Collor (1990) e Jair Bolsonaro (2019).

Assim como estes, Milei se promove como um antipolítico, caído do céu para fazer uma faxina. Cada qual com seu gimmick: Jânio tinha uma vassoura como símbolo, Collor disparava contra os "marajás" e Bolsonaro se fazia de vestal. Milei se exibe com uma motosserra. E cada qual tinha um estilo da comunicação: Janio falava pelos "bilhetinhos", Collor, pela televisão, e Bolsonaro, pelas redes sociais. Talvez Milei use seu falecido cachorro como boneco de ventríloquo.

Poesia | A esperança - Fernando Pessoa

 

Música | Samba-enredo do Império da Tijuca para o Carnaval 2024

 

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Vitórias de Haddad impressionam, mas falta controlar gasto

O Globo

Sucesso em 2023 é inquestionável, mas arrecadar mais não bastará para cumprir metas fiscais agressivas

Depois de um ano como ministro da Fazenda, Fernando Haddad destacou suas conquistas em entrevista exclusiva ao GLOBO. A primeira foi o novo arcabouço fiscal, que tranquilizou — ao menos por ora — o mercado sobre o compromisso do governo em controlar a dívida pública. A segunda foi a reforma tributária, que começa a corrigir o sistema de impostos mais disfuncional do mundo.

Em 2023, Haddad contribuiu para um debate econômico racional, feito nada desprezível tendo em vista o retrospecto de gestões petistas. Teve a sabedoria de evitar os ataques estéreis à taxa de juros que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desferiu contra o Banco Central. Derrotou a resistência em seu próprio partido e conquistou o apoio de lideranças do Congresso para aprovar os projetos cruciais a sua gestão. O resultado de tudo isso se vê nos indicadores: dólar em queda, inflação sob controle, recuperação na renda e crescimento acima da expectativa no início do ano. Êxitos inquestionáveis.

Na entrevista, ele foi sábio ao deixar a arrogância de lado e realçar que, nos embates com setores do PT, foi Lula a decidir pelo caminho que seu instinto ou sua experiência anterior como presidente indicavam como correto. No sistema presidencialista, se o presidente não arbitra, nada anda.

Vera Magalhães - Ministro chama Lula para mediar conflito

O Globo

Ministro sabe que enfrentará tormenta maior em 2024 que no primeiro ano de mandato

Demorou um ano para que Fernando Haddad reagisse publicamente a uma campanha persistente do PT de confrontação da política econômica e fiscal. Quando o fez, o ministro da Fazenda claramente instou o presidente Lula a ser mais proativo na mediação desse conflito. Por que logo agora? Porque Haddad sabe que o mar que enfrentará em 2024 será mais tormentoso que no primeiro ano do mandato.

Sem PEC da Transição, com uma meta fiscal bem mais apertada e a folhinha indicando o mês de março logo ali, o ministro anteviu que o primeiro trimestre seria uma fustigação sem trégua de sua agenda por parte do próprio partido. A resolução do Diretório Nacional do PT que chama a política fiscal de “austericídio” foi a confirmação do que estaria por vir. Os embates com a Casa Civil ao longo de 2023 também foram um prenúncio de que, no ano dois, a pressão por gastos e pela ideia de um Estado indutor de crescimento econômico só cresceria.

Bernardo Mello Franco - Haddad, Gleisi e o pós-Lula

O Globo

Ministro da Fazenda e presidente do PT não admitem, mas querem a mesma coisa

Fernando Haddad terminou 2023 como o ministro mais forte do governo Lula 3. A economia cresceu acima do esperado, enquanto a inflação e o desemprego caíram. Mesmo assim, o petista passou o ano na mira do próprio partido.

Em dezembro, o PT afirmou em resolução que o Brasil “precisa se libertar, urgentemente, da ditadura do BC ‘independente’ e do austericídio fiscal”. Haddad não foi citado, mas encarou as últimas duas palavras como um ataque à sua política de déficit zero.

Em entrevista ao GLOBO, o ministro da Fazenda passou recibo da irritação. “Não dá para celebrar Bolsa, juros, câmbio, risco-país, PIB que passou o Canadá, e simultaneamente ter a resolução que fala que está tudo errado, tem que mudar tudo”, queixou-se.

Ele ainda reclamou do modo como dirigentes petistas celebraram os números da economia nas redes sociais. “Meu nome não aparece. O que aparece é assim: ‘A inflação caiu, o emprego subiu. Viva Lula’. E o Haddad é um austericida”, protestou.

José Eduardo Faria* - Mais crises à vista

Folha de S. Paulo

PEC que limita decisões de ministros põe STF diante de uma encruzilhada

Qual é o alcance da autoridade jurisdicional de uma corte suprema para rever a constitucionalidade de atos dos outros Poderes e declarar inconstitucional uma proposta de emenda constitucional aprovada adequadamente no plano formal —mas discutível no plano substantivo— pelo Legislativo?

A relação entre democracia e jurisdição constitucional se esgota na tomada de uma decisão judicial? Questões como essas surgiram quando o Senado aprovou uma PEC limitando as decisões monocráticas do Supremo Tribunal Federal, sob a justificativa de evitar que a Justiça estaria invadindo as áreas de atuação do Executivo e do Legislativo.

Em resposta a elas, dois fatos não podem ser desprezados. Como, pela Constituição, o STF detém o poder derivado concedido pelo poder constituinte originário para controlar a constitucionalidade das leis, essa prerrogativa sempre implica risco de crise institucional. Além disso, conscientes dos absurdos da ditadura militar, os constituintes incluíram na Constituição cláusulas pétreas em matéria de direitos e estrutura de poder. Com isso, a Constituição transferiu temas do campo da política para o campo do direito, com o objetivo de evitar que novas configurações do Legislativo resultantes de maiorias parlamentares episódicas gerassem caos jurídico no país.

Wilson Gomes* - Uma agenda de Ano-Novo

Folha de S. Paulo

É fundamental aceitar que conservadores representam interesses legítimos

De tanto ouvir a objeção de que só sei apontar o dedo para o comportamento da esquerda, sem nunca indicar caminhos, resolvi mostrar que sou mais que um comentarista rabugento. Tomei a liberdade de escrever cinco propostas de Ano-Novo para esquerdistas e progressistas, começando hoje com essas duas abaixo.

Em primeiro lugar, é fundamental aceitar de uma vez por todas que os conservadores não apenas representam interesses legítimos presentes em sociedades pluralistas, como também possuem uma legitimidade democrática tão válida quanto a de qualquer outra posição política. Se na democracia, há lugar para a esquerda e para progressistas, tem de haver lugar também para a direita e para conservadores. É simples assim.

Ademais, conservadores constituem uma força política consistente, que não dá sinais de desaparecimento ou redução em um horizonte próximo. Antes, continuam a prosperar eleitoralmente, mantendo um foco claro na conquista de mandatos parlamentares.

Notadamente os de matriz evangélica popular, adotam uma estratégia eleitoral eficiente e de longo prazo, com uma base organizada, ampla capilaridade e presença em áreas onde outras forças políticas têm dificuldade de entrar, como as comunidades dominadas por facções. E sabem mobilizar e direcionar votos populares como só católicos e sindicalistas foram um dia capazes de fazer.

Bruno Boghossian - O bingo do populismo autoritário

Folha de S. Paulo

Políticos dessa espécie jogam com a ideia de que podem descumprir as regras do jogo para entregar resultados

Javier Milei não economiza nos superlativos. No penúltimo dia de 2023, ele alertou para uma "catástrofe social de proporções bíblicas" e insinuou que parlamentares que se opõem a seu programa querem um "país devastado". Por fim, pediu que "os argentinos de bem" exijam que o Congresso aprove seus planos.

Com a mensagem de fim de ano, Milei tenta completar o bingo do populismo autoritário em tempo recorde. Em três semanas no cargo, o presidente restringiu protestos, ameaçou usar a força contra opositores e pediu superpoderes para governar numa "situação de emergência nacional". Agora, ele tenta pressionar o Congresso de fora para dentro.

Hélio Schwartsman - Impacto profundo

Folha de S. Paulo

Eventual segundo mandato de Donald Trump tende a ser mais destrutivo que o primeiro

Em poucos dias terá início o processo de primárias nos EUA, que determinarão os dois principais candidatos a enfrentar-se na eleição presidencial de novembro. Este ano, porém, a menos que ocorra uma intervenção direta do inesperado, os nomes já estão definidos. Serão o presidente Joe Biden, pelos democratas, e o ex-presidente Donald Trump, pelos republicanos. E, a julgar pelas pesquisas de hoje, são grandes as chances de Trump voltar ao poder.

Elio Gaspari - A rainha que ri

O Globo

Num tempo de celebridades pasteurizadas e poucas rainhas que riem, Margrethe II da Dinamarca, com 83 anos nas costas e 52 de reinado, anunciou que no dia 14 entregará o trono a seu filho Frederik, de 55 anos. Como a mãe, ele também ri.

Para quem acompanha a Casa Real inglesa, com suas rainhas circunspectas, reis tristes e espirais de maledicências, o sorriso dessa rainha era um bálsamo. Dentuça, Margrethe ri desde criança. Ela tem o sorriso no rosto e uma certa alegria na alma. Enquanto os ingleses fazem das crises de sua monarquia uma atração cultural, as realezas nórdicas sabem ficar longe dos holofotes.

Numa época em que grifes cultivam celebridades, e celebridades cultivam grifes, Margrethe desenha suas próprias roupas. Octogenária, mantém um estilo “que se danem”. Com cores vivas e acessórios pesados, ecoa destaques de escolas de samba. Talvez por isso tenha sido convidada para desenhar cenários e figurinos para o filme “Ehrengard, a ninfa do lago”, da Netflix.

Roberto DaMatta - Quando as comidas nos comem

O Globo

Tempos natalinos e carnavalescos são tempos, reitero, de gastar em vez de economizar e do desfilar exibicionista

Quando eu era jovem e metido a teórico da vida social, escrevi no livro “Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro”, em 1979, que havia três modos de ritualizar. O primeiro, reforçando os elos sociais existentes; o segundo, neutralizando vínculos estabelecidos; e o terceiro — certamente o mais divertido e contraditório —, invertendo rotinas e fazendo tudo ao contrário. Cantar, em vez de discursar; desfilar dançando, em vez de trotar firme para o emprego; beber, pular e ficar “sem fazer nada”, em plena liberdade, em vez de trabalhar; e, por fim, mas não por último, instituindo o Rei Momo como desgovernante, esquecendo esses nossos administradores estadomaníacos, dedicados a desmanchar o feito e fazer desmanchando, com a conhecida ineficiência e o gozo dos privilégios de seus cargos.

Zeina Latif - Dia de olhar o copo meio cheio

O Globo

A capacidade prosseguir com reformas, apesar da alternância de poder, é elemento valioso para potencializar o crescimento de longo prazo

A função principal dos economistas não é fazer projeções macroeconômicas. E tampouco há instrumentos bons o suficiente para isso. Essa foi uma contribuição de Robert Lucas. O Nobel de Economia em 1995, que faleceu ano passado, mostrou a dificuldade de se prever o efeito das políticas econômicas, devido a mudanças de comportamento da sociedade, que reage a elas de forma pouco previsível.

Um exemplo: os déficits orçamentários recorrentes podem impactar mais ou menos a inflação e os juros, dependendo de como os investidores julgam o compromisso do governo com ajustes no futuro.

O papel social dos economistas é, com base em evidências, prover diagnósticos e recomendações de ação estatal e, assim, fomentar o debate público. É um importante contraponto ao otimismo incurável de políticos da situação. Como resultado, muitas vezes os alertas dos economistas alimentam sua fama de pessimistas.

Vinicius Torres Freire – O século em erros de previsão do PIB

Folha de S. Paulo

Projeções de mercado em geral são otimistas e estiveram muito erradas em 15 de 22 anos

Os erros de previsão de crescimento do Brasil foram um assunto do Ano Velho. Neste 2024, conviria fazer uma rabanada desse pão dormido. A ideia aqui não é promover um seminário a fim de incrementar a precisão das estimativas, o que é válido, claro. Mas de refazer a pergunta de 2023: algo mudou na economia? O tamanho da mudança é relevante? Altera diagnósticos do que é preciso fazer no país?

Antes de prosseguir, segue um lembrete dos erros deste século, baseado nas estimativas recolhidas semanalmente pelo Banco Central, a profecia de "o mercado" —no caso, a previsão feita no final de um ano para o seguinte, comparada aos dados do PIB "da época" (sem revisões).

Desde 2000, a média aritmética do crescimento do Brasil foi de mísero 1,84% ao ano (2,3%, depois das revisões); a média do tamanho do erro foi de 1,91 ponto percentual (o valor absoluto de previsões menos o PIB divulgado à época). Enorme. É como tentar passar por uma porta e bater de cara na parede. Mesmo quando se eliminam anos de epidemia (2020-21), a média do crescimento fica em 1,98% ao ano; o erro, em 1,74 ponto.

Bruno Carazza - 2024, um ano para muitas reflexões sobre o passado e o futuro

Valor Econômico

Efemérides nos lembram de democracia, estabilidade econômica e combate à corrupção

Esse peculiar costume ancestral que nós humanos temos de celebrar mais uma volta completa do nosso planeta em torno do sol tem o poder de nos deixar pensativos. Refletimos sobre os erros e acertos do ano que se finda e, sobretudo, expomos nossos desejos e traçamos metas para o novo ciclo que se inicia.

Vem de tempos imemoriais o hábito de anotar a posição dos principais astros no céu a cada noite. A regularidade das observações permitiu a diferentes povos criar seus calendários e, muito depois, chegar à conclusão de que a Terra gira em torno do sol.

Tiago Cavalcanti* - Queremos pagar imposto como os ricos

Valor Econômico

Os 10% mais ricos responderam por 41,6% do total de deduções no Imposto de Renda

Aproveitando o recesso acadêmico na Universidade de Cambridge, tive a oportunidade de desfrutar do nosso calor humano, da culinária e da natureza do nosso país. Em uma conversa com amigos, discutimos o significado de pertencer à classe média no Brasil e se o governo deveria tributar proporcionalmente mais ou não os mais ricos.

De forma geral, havia a percepção de que a maioria fazia parte da classe média e não da rica no país, e que a tributação deveria ser progressiva. Ou seja, a percepção geral era de que os mais ricos deveriam pagar uma proporção maior de seus rendimentos em impostos, e a grande maioria dos amigos não pertencia à classe rica.

Então, comentei que, se fizéssemos uma fila em que todos os adultos do país fossem ordenados por renda, da maior para a menor, em qual decil de renda cada um achava que estaria: entre os 10%, 20% ou 30% mais ricos, ou mais próximo da mediana - 50% mais ricos, que deveria ser a classe média? A maioria ainda tinha a percepção de que estaria mais próximo da mediana, ao invés dos 10% mais ricos.

Marcelo Godoy - A democracia desafiada

O Estado de S. Paulo

Ainda podemos viver juntos? Cerimônia do dia 8 repõe a questão diante do desafio do ‘nós’ contra ‘eles’

No dia 8, os chefes dos três Poderes vão se reunir em Brasília para lembrar o maior ataque à democracia durante a Nova República. Governadores identificados com a direita estarão ausentes do evento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva será o último a falar antes do descerramento de uma placa alusiva aos fatos e da entrega simbólica do exemplar da Constituição roubado do Supremo. Ou seja: passado um ano, a desunião e a polarização permanecem.

Em seu livro A Democracia Desafiada, o professor Marco Aurélio Nogueira relembra a pergunta originalmente feita por Alain Touraine: afinal, poderemos viver junto? “A possibilidade de convivência nas sociedades em que vivemos depende essencialmente da existência de um pacto mínimo sobre o que significa viver juntos”, escreve Nogueira.

Nicolau da Rocha Cavalcanti* - Noticiar de forma sóbria e séria

O Estado de S. Paulo

Não há exercício responsável de cidadania onde o olhar sobre a realidade é simplesmente superficialidade

Em resenha de um livro sobre o jornal The New York Times, Alan Rusbridger – que foi editor do jornal The Guardian entre 1995 e 2015 – falou do desafio contemporâneo de noticiar de forma sóbria e séria. Ao ler sobre isso, veio-me à mente a trajetória do Estadão, um jornal cuja história, cuja identidade, apesar de todas as vicissitudes, foi sempre marcada por este ideal: cobrir e analisar os fatos de forma sóbria e séria.

Nestes tempos de grandes transformações na produção e no consumo da informação, é oportuno refletir sobre em que consiste esse ideal e qual é sua relevância pública. Certamente, há muitas coisas que podem e devem mudar no jornalismo. E há outras tantas que devem permanecer exatamente como sempre foram. Distingui-las bem é tarefa de toda instituição que deseja perdurar no tempo.

José Pastore* - Desastre anunciado: a reoneração da folha de pagamento

Correio Braziliense

O custo da contratação sobe ainda mais quando se consideram as despesas com vale transporte, vale alimentação, auxílio creche, licenças (maternidade e paternidade), cotas (deficientes e aprendizes), obrigações de segurança e outro

Depois de mais de um ano de discussão, o Congresso Nacional aprovou a Lei 14.784/2023 que permite às empresas de 17 setores que empregam cerca de 9 milhões de trabalhadores a contribuir para a Previdência Social recolhendo entre 1% e 4,5% do seu faturamento. O diploma foi vetado pelo presidente Lula, mas mantido pelos representantes do povo.

A Medida Provisória 1.202/2023 praticamente anula a referida lei e restabelece o pagamento de alíquotas elevadas ao INSS a partir de 1º de abril de 2024. O ministro Fernando Haddad argumentou que a desoneração não tem efeito na geração de empregos. Ele podia ter defendido essa ideia, com calma, durante as longas discussões da referida matéria.

O Brasil é um dos países que mais oneram a contratação formal. O trabalho é onerado com três tipos de despesas. Em primeiro lugar, há as contribuições sociais obrigatórias (INSS, FGTS, salário educação etc.) que somam 35,80% do salário nominal. Em segundo lugar, há as despesas ligadas à remuneração do tempo não trabalhado (férias, abono de férias, 13º salário, aviso prévio etc.) que chegam a 52,08%. Em terceiro, há a incidência de todos os encargos do primeiro grupo sobre o segundo — o que gera uma despesa de 14,55%. No total, são 102,43% sobre o salário nominal. (José Pastore, Encargos Sociais: implicações para o salário, emprego e competitividade, Brasília, Sebrae, 1994). Na prática, um salário de R$ 2 mil custa para empresa, mais de R$ 4 mil.

Poesia | A flor e a náusea - Carlos Drummond de Andrade

 

Música | PORTELA Carnaval 2024 - Samba Enredo

 

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Desmatamento no Cerrado impõe dever aos estados

O Globo

Engajamento de governadores é crucial para sociedade saber o que é legal e ilegal — e deter a devastação

A área desmatada no Cerrado aumentou 3% de agosto de 2022 a julho de 2023, segundo dados do Inpe. Em anos anteriores, o aumento foi maior (25% em 2022 e 2020, 8% em 2021). Seria um erro, porém, se estender em comemorações. Os 11 mil km2 desmatados foram a maior extensão para o período desde 2015. A situação lembra a vítima de enchente que celebra que a chuva amainou com água até a cintura. De 2003 a 2022, uma área equivalente ao estado de São Paulo virou pasto ou lavoura.

A perda da vegetação nativa é o resultado previsível da expansão da atividade econômica. Hoje o Cerrado responde pela maior fatia da agropecuária brasileira (54% da produção agrícola e 44% do rebanho bovino). Com tecnologia e empreendedorismo, tornou-se referência mundial de produtividade e um dínamo para a economia. O debate, portanto, não deve opor a produção a qualquer preço à conservação ambiental. O desafio é a coexistência. A cada ano fica mais óbvio que o ritmo atual de desmatamento, legal ou ilegal, é insustentável. A estação seca e as temperaturas aumentam, e a água escasseia.

Merval Pereira - Lá como cá

O Globo

O que está em jogo é a sobrevivência do sistema de governo vigente na Argentina e no Brasil

Muito mais dramaticamente na Argentina do que entre nós, dois governos eleitos democraticamente enfrentam seus Congressos como marca da decadência do presidencialismo que, nos dois países, tem sofrido os percalços do populismo, seja de direita, seja de esquerda.

Não é preciso entrar no mérito das disputas para entender: o que está em jogo é a sobrevivência do sistema de governo vigente na Argentina e no Brasil. O extremista de direita Javier Milei foi eleito por uma maioria popular que, pelas pesquisas de opinião, já perdeu, num paradoxo perfeito da tragédia que los hermanos vivem.

Os mesmos que o colocaram no poder acatando promessas alucinadas de passar a motoserra em tudo o que estivesse pela frente hoje se assustam com a potência de seu corte. Lula — populista dito de esquerda, eleito por pequena maioria para livrar o país de um extremista de direita que ameaçou transformar nossa frágil democracia em retrógrada ditadura revolucionária — enfrenta uma máquina política ainda controlada pela direita e não consegue ampliar o apoio que recebeu nas urnas.

Míriam Leitão - O ano econômico terá boas novas

O Globo

Mesmo com um bom cenário de indicadores, não será um ano fácil. O Ministério da Fazenda terá várias batalhas pela frente

Este ano vai ser diferente daquele que passou. O crescimento não será concentrado em um único setor, nem apenas em um período do ano. A agropecuária, que sustentou o PIB de 2023, deve entrar na conta do produto com o sinal negativo. O primeiro trimestre, que foi o mais forte no ano, pode ser mais fraco agora. O ano terá um crescimento mais espalhado pelos trimestres. A queda dos juros vai ocorrer ao longo de várias reuniões e isso deve ajudar a atividade. A economia também será favorecida pela melhora da renda, pelo aumento real do salário mínimo e pela própria atividade. Apesar de serem menores do que no ano passado, a safra e o saldo comercial serão importantes para manter o ritmo econômico.

Pela natureza da estatística de crescimento, o PIB é sempre a comparação de um período contra o outro. A agricultura apesar de poder registrar queda, colherá a segunda melhor safra da história. O saldo comercial que deu um pulo de US$ 62 bilhões para perto de US$ 100 bilhões no ano passado será menor este ano, mesmo assim será o segundo maior da história. É o que prevê a MB Associados que tem uma projeção de US$ 87 bilhões.