quarta-feira, 5 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

TSE na luta contra as fake News

Correio Braziliense

A política é feita de diálogo entre diferentes, e muitas vezes divergentes, e não de inimigos que precisam se anular

A democracia é um valor inegociável. A afirmativa é inquestionável para as sociedades depois do pós-guerras, mas cada vez mais o modelo democrático como o conhecemos até hoje se vê ameaçado, com tentativas populistas e golpistas de perpetuação no poder ao redor do planeta. É preciso que as instituições combatam com o vigor necessário essas iniciativas para que nações não se vejam envoltas em regimes totalitários. Ao tomar posse no comando do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta segunda-feira, a ministra Cármen Lúcia prometeu combater "a mentira digital" contra as eleições, dando sequência ao que fez o ministro Alexandre de Moraes como presidente da corte eleitoral, a quem ela exaltou. À frente do TSE nos próximos dois anos e responsável por conduzir as eleições municipais, Cármen Lúcia promete não dar trégua ao que considera ser o que corrói a democracia.

Vera Magalhães - Governo fraco vai ao sabor do vento

O Globo

Ao minimizar dificuldades no Congresso e se omitir em questões cruciais, Lula evidencia momento de crise de governabilidade

Lula tem como uma de suas características mais essenciais o fato de, em público, nunca reconhecer que as coisas vão mal em casa. No máximo, distribui uns puxões de orelha, reconhece um tropeço ou outro, mas falhas estruturais em seus governos ou nos do PT, aí não.

A semana começou com o presidente tardiamente reunindo seus líderes para colocar uma fechadura na porta arrombada do Congresso. Escalados para relatar o tom do encontro, o ministro Alexandre Padilha, deputados e senadores presentes trataram de minimizar as últimas derrotas, creditando-as somente ao fato de o governo não ter maioria no Parlamento para temas da “pauta de costumes” — uma redução grosseira do tamanho do problema.

Mas nem bem raiou o dia seguinte, e o resultado do PIB levemente mais gordinho no primeiro trimestre já transformou a (leve) cautela da véspera em euforia, com Lula cravando nas redes sociais que os dados seriam a “prova” dos acertos do governo.

Bruno Boghossian – Uma coalizão pela metade

Folha de S. Paulo

'Pacto de governabilidade' com o centrão exibe um governo que depende de uma bancada conservadora

As derrotas sofridas no Congresso levaram o governo Lula a traçar de maneira nítida os limites de atuação política deste mandato. Operadores do presidente deixaram claro como nunca que o Planalto pretende se concentrar na agenda econômica e poupar energias quando o assunto esbarrar na pauta conservadora.

Essa escolha foi apresentada de maneira crua pelo líder do governo no Congresso. O senador Randolfe Rodrigues disse à Folha que o "pacto de governabilidade" de Lula com partidos de centro-direita (em especial PSD, União Brasil, PP e Republicanos) envolve "emprego e comida na mesa", sem incluir temas de costumes e segurança pública.

Luiz Carlos Azedo - Taxação das blusinhas sai de pauta e gera impasse

Correio Braziliense

Relator do projeto de lei que institui o Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover) disse que a alíquota de 20% em compras internacionais até US$ 50 é um “corpo estranho”

O plenário do Senado adiou para esta quarta-feira a votação do projeto de lei que institui o Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover). O relator da matéria, Rodrigo Cunha (Podemos-AL), retirou do parecer o “jabuti”, aprovado na Câmara na última semana, que estabelece a cobrança de uma alíquota de 20% sobre as compras internacionais de até US$ 50. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), diante da retirada, reclamou com o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e pediu para adiar a votação. As bancadas do MDB, União Brasil e PP são a favor da manutenção da taxação.

O pedido de adiamento foi feito pelo líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), que argumentou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende vetar uma série de dispositivos que são parte da taxação. Esse encaminhamento criou mais um atrito com Lira, que revelou ter negociado a aprovação da cobrança com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, por intermédio do líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE). Ele avisou a Haddad que negociava com “um só governo”.

Wilson Gomes - É isto um debate público?

Folha de S. Paulo

Começo a duvidar de que haja um sentimento sincero de ultraje moral nessa conduta

Na semana passada, escrevi sobre como valores como tolerância, racionalidade e confiança recíproca foram drenados do debate público nacional, deixando em seu lugar a aridez dos conflitos buscados a todo custo e sem razão substancial. O que torna impossível tanto uma convivência política não beligerante quanto a negociação de projetos comuns.

Expresso esse lamento não por alguma nostalgia de um passado mítico em que o lobo pastava com o cordeiro ou por alguma utopia de futuro em que cidadãos socráticos resolvem seus inevitáveis desacordos numa troca aberta e leal de razões, orientada exclusivamente pelo princípio de que o melhor argumento deve prevalecer.

Vivemos em uma sociedade pluralista, em que as diferenças são cada vez mais numerosas e conscientemente elaboradas. Ou a nossa jovem democracia, um projeto experimental perene, encontra uma maneira de acomodar e negociar essas diferenças, ou será substituída por um regime autocrático liderado pela parte mais forte, como se tentou fazer em 8 de janeiro.

Elio Gaspari - Há fumaça no acordo com os planos

O Globo

No escurinho de Brasília, o filme termina ferrando as vítimas

Sente-se forte cheiro de queimado no acordo verbal fechado há duas semanas pelas operadoras de saúde com o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. À primeira vista, foi um alívio. Depois de cancelarem os planos de dezenas de milhares de pessoas, inclusive de uma senhora de 102 anos, freguesa da Unimed desde 2009, com mensalidade de R$ 9.300, as empresas comprometeram-se a suspender o massacre.

À segunda vista, o negócio não é bem assim. Pelo menos 30 mil vítimas ficarão sem contrato, e a Pax Liresca durará enquanto tramitar, nas palavras do doutor Lira, “uma proposta legislativa que tenha a possibilidade de inovar”.

Tradução: o problema foi remetido ao escurinho de Brasília. Todas as malfeitorias das operadoras baseiam-se em leis ou normas produzidas naquele mundo de sombras. É só lembrar que, em 2020, as operadoras relutaram em cobrir o pagamento dos testes de laboratório para detecção da Covid-19. Afinal, o rol de procedimentos da Agência Nacional de Saúde não falava de testes para uma doença que havia acabado de aparecer. A negociação com Lira teria impedido a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Depois da CPI da Americanas, impedi-las tornou-se um serviço público.

Fernando Exman - Lira dá as cartas e prepara novos passos

Valor Econômico

O café de Arthur Lira segue quente. Nos últimos dias, ele lembrou a todos que contam os dias para vê-lo longe da presidência da Câmara como é poderosa a sua cadeira, ainda que a campanha para a sua sucessão já esteja na rua.

A despeito das reservas que seu nome enfrenta no Palácio do Planalto, enviou alertas aos seus interlocutores de que eram inevitáveis as derrotas do governo nas sessões em que o Congresso apreciou vetos presidenciais. Tinha o termômetro do plenário, e avisou que de nada valeria adiar as votações. Em outra frente, decidiu avocar a solução de questões polêmicas envolvendo setores econômicos que vinham sendo adiadas pelo Executivo, mas receberam acolhimento no caleidoscópio de interesses que refletem a atuação do Legislativo.

Hélio Schwartsman - Tem arenque na praia

Folha de S. Paulo

Esquerda utilizou fake news para se opor a PEC sobre terrenos de marinha

Sou contra a mal chamada PEC das Praias, mas o que me impressiona nesse caso é que a polarização está gerando um nível de ruído que compromete a própria discussão.

Opositores da emenda afirmaram que ela levaria à privatização das praias do país. Seria um ótimo argumento contra a medida, se ele fosse verdadeiro, mas não é. A PEC nem trata de praias, mas dos terrenos de marinha, isto é, áreas que ficam acima da linha da areia —mais especificamente, o que fica na faixa das 15 braças craveiras (33 metros) a contar da preamar média de 1831— e já são hoje concedidas a particulares mediante o pagamento de taxas específicas. Pelo atual regime, quem ocupa legalmente um terreno de marinha já pode fazer uso privativo dele e nele construir. Pode também transmiti-lo a terceiros, inclusive herdeiros. Em algumas situações, já pode até comprá-lo e tornar-se proprietário de fato e de direito.

Lu Aiko Otta - Drenagem urbana sob holofotes após RS

Valor Econômico

Obras de drenagem têm recebido pouca atenção porque são caras e seus benefícios não são percebidos com facilidade pela população

À beira do Lago Paranoá, a 4,4 quilômetros do Palácio do Planalto, tratores rasgam a terra vermelha para construir um grande reservatório, com capacidade de 96 mil metros cúbicos, para as águas pluviais de Brasília. Como todo o planeta, a capital federal enfrenta os efeitos da mudança do clima. As chuvas de verão têm colocado as avenidas cuidadosamente planejadas da cidade debaixo d’água com uma frequência que não se via há apenas uma década.

Historicamente, obras de drenagem têm recebido pouca atenção porque são caras e seus benefícios não são percebidos com facilidade pela população. Por isso, os políticos que eventualmente as patrocinam têm dificuldade em colher dividendos, comentou o economista Gesner Oliveira, ex-presidente da Sabesp e sócio da GO Associados. “Tivemos de viver uma tragédia como a do Rio Grande do Sul para o problema se tornar mais concreto.”

Zeina Latif - Tranquilidade aparente

O Globo

A precaução passa por recuperar a capacidade fiscal do Estado

O mundo se defronta com muitos problemas que eram ignorados ou desconhecidos na virada deste século, por falta de informações ou instrumentos para análise. No entanto, crise financeira, pandemia, guerras e eventos climáticos mudaram essa percepção. Uma boa caracterização do atual estado do mundo é de grandes incertezas.

Apesar disso, os atuais níveis de volatilidade nos mercados mundiais estão próximos das mínimas históricas, em meio à valorização de ativos, deixando uma impressão de calmaria. Não é bem assim. O que ocorre é a incapacidade de traçar cenários nessas circunstâncias, e o problema está na dificuldade de atribuir probabilidades a essas fontes de incerteza.

Vinicius Torres Freire - PIBão, PIBinho e os anos 20

Folha de S. Paulo

Lula 1 e 2 foi de PIBão, década de 10 foi de desastre e 2024 corre o risco

A economia brasileira cresceu 0,8% no primeiro trimestre de 2024 em relação ao último trimestre de 2023, como previsto. Para o número ficar menos impalpável, vamos fazer o exercício de imaginar que a economia crescesse a esse ritmo, trimestre ante trimestre, até o fim deste ano. O crescimento de 2024 seria de algo perto de 2,2%. Em 2023, havia sido de 2,9%. Em 2022, de 3%.

Ruim? Dadas as expectativas e previsões, muito erradas em 2022 e 2023, de modo algum.

Dado o crescimento médio que se viu de 2017 a 2019, de 1,4% ao ano, também não (trata-se do período entre a Grande Recessão de 2014-2016 e a epidemia, de 2020).

Dadas as previsões de crescimento potencial de 1,5%, também não é um ritmo ruim. Crescimento potencial: em tese e sem mudanças produtivas relevantes, o crescimento regular que o país poderia ter sem correr o risco de alta da inflação ou passar por outros desequilíbrios incapacitantes, por exemplo.

Marcelo Godoy - Banda podre da polícia agradece

O Estado de S. Paulo

Coronel diz que decisão de permitir desligar as câmeras só interessa a quem ‘faz coisa errada’

O coronel José Alexander de Albuquerque Freixo concluiu 33 dias de caminhada até Santiago de Compostela. Deve ter ido procurar respostas. Ex-subcomandante da PM paulista, ele foi destituído pelo governador Tarcísio de Freitas quando este preparava o fim das gravações contínuas das câmeras corporais da polícia.

Uma primeira resposta foi dada por Albert Camus. Ele contava que o pai, ao assistir à execução de um facínora na guilhotina, vomitou. E concluía: “A Justiça que faz vomitar o homem justo não é Justiça”. Há quem acredite combater o crime só com a força. A autorização para os PMs desligarem as câmeras vai além dessa dimensão; ela afeta a eficiência policial. Esta não existe sem comando e controle.

Nicolau da Rocha Cavalcanti - O Brasil invisível aos olhos da esquerda

O Estado de S. Paulo

Sem compreender o país que governa, o exercício do poder torna-se fonte de perplexidade, confusão, divisão e ineficácia

A Presidência de Jair Bolsonaro fez muito mal ao País (cf. artigo A machadada totalitária de Bolsonaro, 13/10/2022). Mas a verdade é que, mesmo após o término do seu governo, mesmo depois de a Justiça Eleitoral declará-lo inelegível, continuamos enredados na irracionalidade, no acirramento de ânimos, na ausência de diálogo sobre os temas fundamentais do País.

É possível – trata-se de uma escolha – continuar responsabilizando Jair Bolsonaro pelo atual estado de coisas. Afinal, ele causou danos profundos e duradouros na política, na administração pública, no ambiente informativo, no imaginário coletivo. Mas, a meu ver, essa escolha, além de diversionista, é improdutiva. É preciso exigir de quem está agora no poder, nas várias esferas, a capacidade de reagir a tudo isso. Nessa matéria, a responsabilidade recai especialmente sobre Luiz Inácio Lula da Silva.

Martin Wolf - O nacionalismo ameaça a ordem mundial

Valor Econômico

Ocidente precisa sobreviver como uma comunidade de democracias liberais e terá perdido a luta se o nacionalismo autoritário destruir isso

próximo presidente dos Estados Unidos declara que seu país não cumprirá mais o compromisso assumido sob o tratado da Otan, de sair em defesa de um membro da organização. Os europeus não conseguem encontrar um substituto confiável. Temendo a ameaça de uma Rússia revanchista, alguns passam a ser leais à Rússia e à China. A Europa se dissolve.

Isso é plausível? Espero que não. Mesmo assim, por trás do pesadelo está a realidade. Estamos entrando em um período de ressurgimento do nacionalismo, da xenofobia e do autoritarismo.

Como Oscar Wilde poderia ter observado: “Eleger Donald Trump presidente uma vez pode ser considerado um infortúnio, mas elegê-lo duas vezes parece descuido”. Sua volta indicaria algo muito perturbador sobre o estado da superpotência ocidental.

Robert Kagan, da Brookings Institution, observa em um podcast que fez comigo que a proximidade de Trump com o poder se deve a forças antiliberais poderosas. As implicações dessas atitudes para a democracia dos EUA são preocupantes. Mas essa preocupação não está limitada ao âmbito interno.

Poesia | Graziela Melo - A morte

A morte

É uma meia volta

que não tem volta!

Só tem ida!

É como

um beco

que não tem

saída!

No dia,

os vivos

te molham

em copioso

pranto...

mas logo

esquecem

do teu

encanto

e se reengajam

nas seduções

da vida!

Poesia | Ferreira Gullar recitando Poema Sujo 001 (IMS)

 

Música | Um Carioca vive morrendo de amor Dori Caymmi e Joyce Moreno, MPB4, Zé Renato

 

terça-feira, 4 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Greve nas federais passou do limite

O Globo

Depois de dois meses, universidades perdem prestígio e competitividade, enquanto alunos são quem mais sofre

A greve de professores e servidores de colégios, institutos e universidades federais completou dois meses sem nenhuma perspectiva de solução. Alunos que perdem aula já veem ameaçadas formatura, obtenção do diploma e a chance de conseguir emprego. Além deles, ninguém parece preocupado. E o governo não tem feito o bastante.

Estima-se que hoje a paralisação afete, em diferentes estados, pelo menos 52 universidades, 79 institutos federais e 14 unidades do Colégio Pedro II. Embora a adesão à greve não seja total, a rotina universitária está irremediavelmente comprometida. Serviços foram suspensos e há casos em que o bandejão deixou de funcionar, prejudicando estudantes mais vulneráveis.

Merval Pereira - Ser humano

O Globo

Nunca, como nos anos recentes, os ministros do Supremo mostraram-se tão humanos na capacidade de cometer erros em consequência de situações pessoais que influenciam suas decisões

A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia assume a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com duas missões, uma interferindo na outra. Seu mandato, que se encerra dois meses antes das eleições presidenciais de 2026, terá como objeto principal aprovar normas que protejam os candidatos do uso da inteligência artificial para distorcer informações ou mentir pela boca de adversários com o uso de deepfake.

As medidas tomadas agora terão repercussão não apenas nas próximas eleições municipais. Ao mesmo tempo, porém, ela terá de fazer isso com a moderação que lhe é característica, impedindo que a legislação protetiva termine se transformando em instrumento de polarização política.

Bernardo Mello Franco - 'Algoritmo do ódio'

O Globo

Ministra culpa big techs por "vírus" da desinformação, mas não revela antídoto para combatê-lo

Ao assumir a presidência do Tribunal Superior Eleitoral, Cármen Lúcia prometeu combater o "algoritmo do ódio" nas redes sociais.

A ministra fez uma advertência às chamadas big techs: vai responsabilizá-las pela enxurrada de desinformação que contamina o debate político.

"A mentira espalhada pelo poderoso ecossistema digital das plataformas é um desaforo tirânico contra a integridade das democracias", justificou.

Maria Cristina Fernandes - Discurso cita ‘mentira’ 15 vezes e frustra aposta em brandura

Valor Econômico

Quem esperava que a ministra Carmen Lúcia assumisse o TSE com uma postura mais branda que a de Moraes foi desenganada por seu discurso de posse

Quem esperava que a ministra Carmen Lúcia assumisse o Tribunal Superior Eleitoral com uma postura mais branda do que aquela de seu antecessor, ministro Alexandre de Moraes, foi desenganada por seu discurso de posse. Cotejado com aquele de Moraes, em setembro de 2022, o de Carmen Lúcia foi ainda mais contundente. A brevidade de uma fala de apenas 12 minutos não a impediu de citar “mentira”, por 15 vezes, e, por seis, “ódio”. “A mentira espalhada pelo ecossistema digital é um desaforo tirânico contra integridade da democracia”, disse.

Sem deixar de agradecer, “como cidadã e juíza”, a contribuição de Moraes para a garantia da democracia brasileira, não teve dúvida em interromper o ministro quando ele, ainda na presidência do TSE, quis convidar o diretor-geral do tribunal a lhe dar o termo de posse antes que Carmen Lúcia cumprisse a formalidade de declarar que aceitava o cargo.

Luiz Carlos Azedo - Cármen Lúcia comandará as eleições da inteligência artificial

Correio Braziliense

Uma das maiores dificuldades da Justiça Eleitoral em eleições municipais e proporcionais é julgar em tempo hábil os casos que chegam aos tribunais

A ministra Cármen Lúcia, do STF, assumiu a presidência do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o desafio de comandar eleições municipais que serão um laboratório para o uso político da inteligência artificial (IA) pelos candidatos. A ministra já comandou a Corte, nas eleições municipais de 2012, mas nem de longe as situações são semelhantes: àquela época, não havia a polarização política que existe hoje, embora já houvesse uma insatisfação difusa na sociedade, nem as redes sociais e as fakes news tinham o peso que têm hoje na formação de opinião dos eleitores.

Míriam Leitão - Razões da boa notícia do PIB

O Globo

Dados do 1º trimestre mostram crescimento maior do que era previsto. Desemprego e inflação em baixa completam a lista de boas notícias

O primeiro trimestre do ano foi bom, o PIB cresceu 0,8%, mais do que o inicialmente previsto pelo mercado. Além disso, houve queda do desemprego e queda da inflação, dois dados que não costumam cair juntos. Isso é ainda mais notável quando há um aumento da renda, como houve. Entre janeiro e março deste ano, o Brasil exportou US$ 78,3 bi, 3,2% mais do que no ano passado. Tanto a exportação, quanto o saldo de US$ 19 bi, foram recordes. O ano começou melhor do que o esperado, mas deve crescer menos do que o ano passado, ainda que de forma mais distribuída pelo país e pelos setores. A tragédia do Rio Grande do Sul vai ter um impacto forte no segundo trimestre, mas o efeito da recuperação também será sentido este ano ainda.

Luiz Schymura - Com o déficit nominal nas alturas, conta nenhuma fecha

Valor Econômico

Não há como negar que o notável processo de aprimoramento institucional dos últimos 25 anos no front fiscal

Na pauta econômica, o tema que tem tirado o sono do atual governo está no campo fiscal. Se, por um lado, há a necessidade de recursos para financiar tanto o sistema público já em operação como as políticas públicas que foram promessas de campanha, do outro, o Executivo tem que assegurar um resultado fiscal que não comprometa a saúde financeira das contas públicas. Contudo, na visão de muitos analistas, em virtude dos contextos nacional e internacional, o governo federal está errando a mão ao sancionar gastos públicos excessivos.

Luiz Gonzaga Belluzzo - BCs, instituições de planejamento?

Valor Econômico

Salvo pequenos incidentes, a economia no pós-Segunda Guerra deslizou nos trilhos do crédito dirigido, dos controles de capitais entre os países, do gasto público amparado em sistemas fiscais progressivos

Em recente edição, o Valor informou: “MP cobra medidas para identificar eventual desvio de finalidade do Copom”. O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) ofereceu uma representação ao tribunal para “adoção das medidas necessárias a identificar eventuais desvios de finalidade pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central na definição da taxa Selic”.

O subprocurador-geral do MPTCU, Lucas Furtado, assina o documento. Na peça, o subprocurador menciona que as projeções do relatório Focus “exercem grande influência” na decisão do Copom e que as instituições financeiras que respondem à pesquisa “podem ter interesse na manipulação do índice para ganhos próprios e privados indevidos e em prejuízo aos interesses públicos e ao erário”.

Vamos recordar.

Michael Stott - Os desafios diante de Sheinbaum no México são enormes

Financial Times / Valor Econômico

Mexicanos escolheram a promessa da continuidade na cruzada pela justiça social do presidente Andrés Manuel López Obrador

O segredo da vitória esmagadora de Claudia Sheinbaum nas eleições presidenciais do México, no domingo, pode ser resumido em uma palavra: redistribuição.

Os mexicanos mais pobres foram os grandes vencedores no mandato do presidente Andrés Manuel López Obrador, que mais do que duplicou o salário mínimo e expandiu os programas de assistência social, embora a economia mal tenha crescido, em termos per capita, desde a sua posse em 2018.

Os eleitores relevaram os números alarmantes dos crimes violentos e os temores sobre a erosão das instituições democráticas. Preferiram recompensar Sheinbaum, uma aliada próxima do presidente nacionalista de esquerda, pelas promessas de continuar e aprofundar sua cruzada por justiça social em um país com níveis elevados de pobreza e desigualdade.

Depois de 30 anos de livre comércio com os EUA e o Canadá, o norte do México prosperou, mas muito pouco dessa riqueza chegou ao centro e ao sul do país, ou aos grupos de renda mais baixa.

Eliane Cantanhêde - Cármen contra o ódio e o medo

O Estado de S. Paulo.

Fake news proliferam e deixam a incômoda sensação de guerra perdida

Sai a audácia de Alexandre de Moraes e entra a cautela de Carmen Lúcia, mas a presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) continua numa batalha contra as fake news e a Inteligência Artificial nas eleições municipais de outubro que passa a incômoda sensação de guerra perdida. Além de o Congresso não ajudar, leis e regras não são suficientes mesmo. A guerra político-eleitoral, que já não é ética nem moral, muitas vezes se torna insana na reta final.

Carlos Andreazza - Haddad assombrado

O Estado de S. Paulo

O governo é Dilma 3 e a despesa – a constante do natimorto fiscal – crescerá sempre

Fernando Haddad vê fantasminhas. O espírito do arcabouço fiscal o ronda. É a alma penada da regra natimorta que o atormenta. Fantasmão, o da credibilidade perdida. Natural que o chame de ruído.

Antes fosse. Lula é coerente e dá materialidade ao espectro. Obstinado por um Estado como alavanca do crescimento. “Não teria aceitado o novo marco fiscal se isso tivesse mudado substancialmente” – disse o ministro da Fazenda ao Valor.

O governo é Dilma 3 e o presidente não pode ser acusado de estelionato eleitoral. A raia fiscal foi improvisada para corridas à larga. Não há rumor. Há constatação tardia.

Bruno Boghossian - Quanto vale uma polícia melhor e mais responsável?

Folha de S. Paulo

Argumento da austeridade fiscal de Tarcísio é verniz para sabotagem de câmeras corporais

Tarcísio de Freitas procurou muitas desculpas para se livrar das câmeras corporais da Polícia Militar. Na campanha, dizia que o equipamento tirava a privacidade dos agentes. Eleito, alegou que as gravações não tinham efetividade na segurança do cidadão. Agora, ele poliu o discurso com um argumento financeiro.

O edital para a contratação de novas câmeras para a PM permite que os policiais deixem o equipamento desligado. Segundo Tarcísio, a gravação contínua "gera muitos custos ao estado pela necessidade de armazenamento". O governador afirmou que o sistema atual gasta dinheiro para guardar um material que, "no final das contas, não serve para nada".

Hélio Schwartsman - Lula afasta centristas

Folha de S. Paulo

Se tivermos em 2026 outro pleito apertado, presidente poderá arrepender-se de não ter cultivado relações mais próximas

Lula foi eleito —por um triz, registre-se— porque parte ponderável do centro político decidiu opor-se a Jair Bolsonaro. Durante a campanha, o petista disse várias vezes que governaria com uma frente ampla. Mas, por razões que não cabe aqui discutir, Lula não quis consolidar e perenizar essa aliança.

A principal figura desse grupo, o vice-presidente Geraldo Alckmin, que, na transição, chegou a ser apontado como peça-chave do futuro governo, não encontrou muito espaço e anda apagadíssimo. Outra centrista, a ministra do Planejamento, Simone Tebet, produz propostas que nem sequer são discutidas no entorno de Lula, pois são vistas como muito neoliberais. E nem falo do revisionismo histórico do PT, que gera teses que espantam potenciais aliados, como a de que a corrupção na Petrobras não passou de uma armação ou a de que o problema da Venezuela é excesso de democracia.

Dora Kramer - O delírio sobre Lira

Folha de S. Paulo

Governo erra ao espalhar que Lira é pato manco na presidência da Câmara

Nada mais falso e danoso para o andamento dos interesses do Planalto no Congresso que a disseminação da ideia de que Arthur Lira seja um pato manco na presidência da Câmara.

Desde a virada do ano isso é sussurrado aos ouvidos de analistas permeáveis a qualquer versão vinda do Palácio. Se a história faz algum sentido, e essa até faria fosse outro o personagem, sapecam-lhe o carimbo de "bastidor", e a coisa se espalha por Brasília como tradução da realidade.

No caso específico, essa prática é o pano de fundo do rompimento do deputado com o ministro Alexandre Padilha. Justa ou injustamente, Lira julgou ter identificado no gabinete de Padilha a origem dos sussurros sobre a desidratação de seu poder.

Alvaro Costa e Silva - Presidencialismo de descoalizão

Folha de S. Paulo

Governo refém do Congresso inviabiliza planos de combate à violência

Com quatro meses no Ministério da Justiça e tentando impor um estilo mais discreto e sem embates diretos com a oposição —se comparado ao tempo de Flávio Dino—, Ricardo Lewandowski prepara uma emenda constitucional para ampliar o poder do governo no combate à criminalidade. Uma espécie de SUS que, em vez da saúde, cuidaria da violência.

Criado em 2018, o Susp (Sistema Único de Segurança Pública) só existe no papel. E, ao contrário do SUS, não está na Constituição, a qual determina que segurança é tarefa dos estados. Aí começa o busílis. Alguns governos estaduais veem na atuação da Polícia Militar um palanque político, misturando serviço público com campanha eleitoral. "Queremos uma população segura e não um policial vigiado", disse Tarcísio de Freitas sobre câmeras corporais.

Joel Pinheiro da Fonseca - Trump acaba de ficar mais forte

Folha de S. Paulo

Se vencer, ainda que preso, ex-presidente sairá de cabeça erguida para se sentar no Salão Oval

Os EUA não têm lei da ficha limpa. Trump será candidato a presidente mesmo com sua condenação criminal, e nada poderá impedi-lo, nem mesmo se for preso quando o juiz sentenciá-lo em julho. Mais do que isso: é o favorito e acaba de ficar mais forte.

Primeiro, o lado técnico: os EUA já tiveram um candidato à Presidência preso. Era o socialista Eugene Debbs na eleição de 1920. Não tinha a menor chance, mas pôde concorrer e receber quase 1 milhão de votos em sua cela em Atlanta sem problema algum. O mesmo valerá para Trump. E, se pode ser candidato, pode vencer.

Ferreira Gullar conta como escreveu "Poema sujo"

 

Música | Maria Bethânia e Zeca Pagodinho - Amaro a Xerém

 

segunda-feira, 3 de junho de 2024

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Lei é fraca para impedir campanha eleitoral antecipada

O Globo

Dispositivos vagos e punições leves funcionam como incentivo para que candidatos e partidos ignorem proibições

É patente a deficiência da legislação eleitoral para coibir a propaganda antecipada. Ao estabelecer como início oficial da campanha o dia 16 de agosto, logo depois de esgotado o prazo para registro das candidaturas, a intenção da Justiça Eleitoral é garantir um mínimo de equilíbrio de forças entre quem busca reeleição — e detém controle da máquina administrativa — e os opositores. Infelizmente, os termos da lei são inócuos e as punições, multas entre R$ 5 mil e R$ 25 mil, leves demais. Por isso a campanha antecipada se tornou tão frequente. Os processos para investigar propaganda antes do prazo legal já são mais que o dobro do registrado no último pleito municipal — passaram de 329 para 682, segundo levantamento feito pelo GLOBO em Tribunais Regionais Eleitorais.

Entrevista | Bernie Sanders*: Mundo enfrenta mais crises hoje do que em toda minha vida

Por Fernanda Perrin / Folha de S. Paulo

Em entrevista à Folha, senador e ícone progressista americano afirma que Biden precisa ser mais forte na disputa com Trump para deixar claro que defende trabalhadores

NOVA YORK - Bernie Sanders, 82, nem pensa em deixar a política. "O mundo hoje enfrenta mais crises do que em qualquer momento da minha vida", diz. Senador desde 2007, o americano anunciou que vai concorrer a um novo mandato na eleição deste ano —o que motivou imediatamente comparações com o presidente Joe Biden, 81, no noticiário do país.

"Se alguém é meio velho e fraco e não pode fazer o trabalho, acho que é um fator. Mas, cá entre nós, eu não acho que estou tão fraco assim ainda", diz Bernie à Folha ao ser questionado sobre o porquê de a idade ter se tornado um tema tão central nos EUA neste ano.

Principal voz da ala progressista da política americana, ele é uma das esperanças da campanha de Biden para recuperar o apoio do eleitorado jovem, insatisfeito com a economia e com o apoio do presidente a Israel na guerra em Gaza. Judeu, Sanders aceitou o papel, mas não esconde as críticas à aliança com Tel Aviv. Para ele, a Casa Branca não deveria mais enviar dinheiro ao governo de Binyamin Netanyahu.

"Acho que o presidente terá que ser mais forte do que é para deixar claro que defende os trabalhadores", afirma Sanders, sobre o desafio na disputa contra Donald Trump em novembro. Em sua visão, o maior problema de Biden é de comunicação.

Recentemente, Sanders se encontrou com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e com uma delegação de congressistas brasileiros envolvidos na CPI do 8 de Janeiro. O americano elogia a proposta de taxação dos super-ricos defendida pelo país à frente do G20 e, embora afirme que não tem acompanhado o terceiro mandato de Lula, cita o petista como exemplo de líder de esquerda.

Fernando Gabeira - Não vendam nossas praias

O Globo

Com as mudanças climáticas, as áreas marinhas precisam ser ampliadas, e não entregues à especulação

Os senadores garantem que não querem privatizar as praias. Será? A PEC que tentam votar retira da União a propriedade exclusiva não só de praias, mas também de uma faixa de terra chamada “terrenos de marinha”, uma área de 33 metros na margem de rios, lagos e contorno das ilhas.

Ao mesmo tempo que nos garantem que são bonzinhos, empreendimentos como os da empresa Due, associada ao jogador Neymar, anunciam a criação de um Caribe brasileiro, um conjunto de empreendimentos imobiliários numa região de 100 quilômetros entre Pernambuco e Alagoas.

Miguel de Almeida - O Brasil visto por Einstein

O Globo

Aos olhos dele, o comportamento dos brasileiros se explica pelo clima

Foram necessários apenas cinco minutos e 13 segundos, o tempo do eclipse em maio de 1919, para que as teorias de Albert Einstein fossem comprovadas. Sobral, no interior do Ceará, e a ciência seriam outras a partir dali. De Londres, Einstein e uma plateia de estudiosos analisavam os dados enviados por cientistas desde um laboratório precariamente instalado na cidadezinha cearense. Diante do eclipse às 9 da manhã, parte da população de Sobral, assustada com o repentino escurecimento, escondeu-se dentro da igreja. Poderia ser o anunciado fim de mundo. Atordoados, os galos da vizinhança voltaram a cantar com a chegada da inesperada noite.

Bruno Carazza - Bem ou mal, as instituições continuam funcionando?

Valor Econômico

Livro de Marcus Melo e Carlos Pereira apresenta explicação para resiliência e ineficiência da democracia brasileira

N a semana passada, o Congresso impôs uma acachapante derrota de 366 a 137 votos na apreciação do veto do presidente Lula ao projeto que proíbe a “saidinha” de presos. Não foi a primeira vez.

“Como seria possível um líder político dos mais experientes e tido como sagaz na arte de negociar estar sofrendo tantos reveses no Legislativo a ponto de se colocar na posição de refém de exigências das principais lideranças do Congresso e dos seus novos (velhos) aliados do Centrão?”

A pergunta é feita pelos cientistas políticos Marcus André Melo e Carlos Pereira no penúltimo capítulo de “Por que a Democracia Brasileira não Morreu?”, que acaba de chegar às livrarias.