sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Penas contra réus do 8 de Janeiro despertam dúvida

O Globo

Nos recursos, STF deverá esclarecer se pode haver condenação simultânea por golpe e abolição do Estado de Direito

É um acinte à democracia a proposta de anistiar os 898 réus acusados pela violência contra as sedes dos três Poderes no fatídico 8 de janeiro de 2023. Passados dois anos, 371 foram condenados à prisão e 527 a penas alternativas. Outros tantos esperam o fim do julgamento. A todos foi garantido amplo direito de defesa, como prevê a Constituição. Quem defende a anistia sustenta um raciocínio absurdo, segundo o qual tudo não passou de vandalismo espontâneo. É como se, sem objetivo nem organização, os criminosos tivessem trocado um passeio no zoológico na Asa Sul pela invasão do Congresso, do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Palácio do Planalto. Como se não estivessem acampados em quartéis do Exército clamando por golpe de Estado, com base em teorias estapafúrdias sobre fraude eleitoral. A intenção golpista ficou evidente desde o primeiro vidro estilhaçado.

Fernando Abrucio - Hugo Motta só terá força se tiver uma agenda

Valor Econômico

Presidente da Câmara precisa garantir o equilíbrio entre os grupos políticos, mas não pode deixar de lado uma proposta que o torne não só o chefe de um Poder

O novo presidente da Câmara federal, Hugo Motta, terá um desafio enorme pela frente. Sempre é muito complexo comandar essa casa congressual, e a maioria dos seus comandantes desde a Nova República enfrentou muitas dificuldades políticas posteriores, quase como uma maldição relacionada ao cargo. Mas há três fatores contextuais que tornam essa tarefa ainda mais complicada: a substituição de uma liderança muito forte, o desequilíbrio institucional vigente e o fortalecimento do discurso e de práticas antissistêmicas. Para fugir do pior, Motta dependerá da escolha de suas agendas.

Na verdade, Motta só se sairá bem se tiver uma dupla agenda: uma voltada para dentro, baseada no que é consensual entre os deputados e que possa fortalecer o projeto de reeleição da maioria deles; e outra orientada para fora, capaz de lhe dar autonomia e estatura frente à sociedade e à classe política. Em outras palavras, ele precisa garantir o equilíbrio entre os grupos políticos parlamentares, mas não poderá deixar de lado a construção de uma proposta que o torne não só o chefe formal de um Poder, mas uma liderança política efetiva.

Encontro marcado com o litígio – Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Motta e Alcolumbre terão de gastar saliva para convencer Dino a liberar emendas

Os presidentes da Câmara e do Senado têm encontro marcado para o próximo dia 27 com o ministro Flávio Dino, no Supremo Tribunal Federal. Ainda não sabemos se haverá representante do Executivo, como ocorrido em agosto do ano passado, quando celebrou-se um acordo entre os três Poderes para resolver o enrosco das emendas parlamentares.

Sabemos, contudo, que o festejo da ocasião resultou em pouco ou quase nada. O Congresso Nacional aprovou uma lei incompleta em relação à exigência constitucional de transparência e se aferra a ela para argumentar que fez a sua parte. Não fez.

Governo na reta final - Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Não dá para empurrar o governo com a barriga, sem perceber as grandes tempestades que se formam no horizonte

No começo da segunda etapa do governo, a imprensa, aqui e ali, comenta sobre uma reforma ministerial. O tema é apresentado, às vezes, como uma troca de cadeiras, na verdade elas são o sujeito em movimento, as pessoas apenas se sentam e levantam.

Em outros momentos, o termo usado para a reforma ministerial é acomodação. Ela seria destinada a acomodar os ex-presidentes do Senado e da Câmara que, agora, ficaram no sereno.

De qualquer maneira, a reforma seria apenas um movimento burocrático, destinado a acomodar os aliados e, no máximo, melhorar ligeiramente as relações com o Congresso.

Sinal amarelo – Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Alerta amarelo para o governo: os estrategistas do bolsonarismo descobriram como competir com o julgamento do golpe e do próprio ex-presidente Jair Bolsonaro e já estão em ação, começando a criar uma falsa onda na internet a favor do impeachment do presidente Lula. O objetivo não é tirar Lula da Presidência, até porque sabem que não têm a menor chance, mas sim tumultuar, dividir o noticiário e principalmente ocupar as redes sociais.

De repente, do nada, gente que acreditava nos horrores que Jair Bolsonaro dizia na pandemia e que votou em Pablo Marçal passou a perguntar: “Vai ter impeachment do Lula?” Você reage: “Nunca ouvi falar nisso. Por que motivo?” E o coitado: “Ué! Por todas essas coisas aí”. Que “coisas”? Ele não tem a menor ideia. Foi um, dois, três... Aí passou a soar estranho.

Negacionistas são só os outros – Vera Magalhães

O Globo

Lula prometeu gestão técnica no meio ambiente, mas disputa pela Margem Equatorial evidencia predomínio da política sobre a ciência

Um dos memes que bombam entre os que exibem seu estilo de vida nas redes sociais é aquele em que o sujeito aparece tomando todas numa noite e malhando na seguinte, com a legenda: “Um pouco de droga, um pouco de salada”. A viagem de Lula à Região Norte — com Davi Alcolumbre na Margem Equatorial num dia e as obras da COP-30 no outro — se encaixa perfeitamente nessa maneira de dividir a agenda.

O exercício de analisar as declarações dos governantes à luz do que prometeram e, sobretudo, do contraponto que fizeram a seus opositores é sempre necessário. Sob essa lente, não há outra classificação para a investida de Lula contra o Ibama — órgão que acusou de “lenga-lenga”, expressão que, no dicionário, pode ser sinônimo de “mimimi”, uma das favoritas da extrema direita para desqualificar a ciência — que não seja de negacionista.

Quem disputa redes com o PL é o Psol e o PSB, não o PT - César Felício

Valor Econômico

Um balanço da plataforma de monitoramento Datatora, da consultoria Torabit, indica o tamanho do problema do PT nas redes sociais. Os parlamentares da sigla se esforçaram para competir com os bolsonaristas do PL nas redes sociais em relação a dois temas: a anistia aos envolvidos em atos golpistas no 8 de janeiro e o afrouxamento das regras da lei da Ficha Limpa. Tramitam dois projetos na Câmara, ambos com potencial para beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao contrário do que ocorreu em outras polêmicas, a direita não ganha por W.O nas métricas sobre estes temas, mas não por causa do PT.

José de Souza Martins - São Paulo e a revolução urbana

Valor Econômico

A capital deixará de ser anômala periferia central e a facilidade dos deslocamentos poderá revitalizar a administração estadual e devolver ao centro a função cultural

O exame do traçado da rede de transportes de passageiros sobre trilhos em funcionamento e em projeto na cidade de São Paulo e nas regiões adjacentes, em diferentes níveis de extensão em direção ao interior e ao litoral, revela que estamos a caminho de grandes transformações na função da capital.

Será fácil notar que está em acelerado desenvolvimento um novo desenho situacional da capital com implícita reformulação de suas funções. Está em andamento a possibilidade da revolução urbana como tem acontecido em outros países, tendo por referência cidades de grande porte.

Marcada para viver'- Bernardo Mello Franco

O Globo

Na cena final do documentário “Cabra Marcado para Morrer”, Elizabeth Teixeira engrena um discurso de improviso contra as desigualdades brasileiras. “Democracia sem liberdade? Democracia com salário de miséria e de fome? Democracia com o filho do operário sem direito de estudar?”.

Gravada em 1981, a fala resume o espírito combativo da paraibana. Ela já havia amargado o assassinato do marido, a prisão na ditadura e o afastamento forçado dos filhos. Nunca perdeu a capacidade de se indignar.

O filme nasceu por acaso. Eduardo Coutinho viajava pelo Nordeste quando esbarrou num protesto contra a morte de João Pedro Teixeira, líder das Ligas Camponesas. O cineasta filmou o ato, que reuniu três mil trabalhadores rurais. Dois anos depois, voltou ao local para contar a história do lavrador, recrutando a viúva e o povo da roça como atores amadores.

Desigualdade degradante – Flávia Oliveira

O Globo

O povo do samba sabe quanto é raro contar com amparo, cuidado, assistência do poder público, de empregadores, das agremiações

Faz quatro décadas, Martinho da Vila compôs para a escola de samba que o batiza o conjunto de versos em exaltação à gente que faz o espetáculo mais importante da cultura brasileira. O artista invocava glória aos que, no ano inteiro, trabalham em mutirão para materializar a festa. São escultores, pintores, bordadeiras; carpinteiros, vidraceiros, costureiras; figurinista, desenhista e artesão. Essa “gente empenhada em construir a ilusão” — como nos versos de “Pra tudo se acabar na quarta-feira” da Unidos de Vila Isabel — segue explorada numa cadeia produtiva que, em 2024, rendeu R$ 5 bilhões em movimento financeiro e R$ 200 milhões em arrecadação de ISS pelos serviços relacionados à folia, segundo estimou a própria Secretaria municipal de Desenvolvimento Urbano e Econômico. Neste ano, com o calendário alongado do feriado em março, deverá render ainda mais.

Furor tarifário faz de Trump passageiro do passado - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Trump também ameaçou taxar em 100% os países do Brics — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul —, se quiserem “brincar com o dólar”

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, determinou tarifas recíprocas a países que cobram taxas de importação de produtos americanos. Os memorandos assinados nesta quinta-feira, porém, são menos formais do que o “tarifaço” contra parceiros comerciais, entre os quais o Canadá, o México e o Brasil, cujo aço e alumínio passarão a pagar 25% de imposto para entrar no mercado norte-americano. Os principais alvos são países com os quais os EUA têm deficit na balança comercial — ou seja, gastam mais com importações do que recebem com exportações. Mas esse não é o caso do Brasil, que importa mais do que exporta.

O homem que inventou Trump - Simon Schwartzman

O Estado de S. Paulo

Diagnóstico de Bannon sobre a debilidade e a vulnerabilidade da democracia dos EUA, e de outras que tentam emulá-la, continua a valer e deve preocupar

Em uma longa entrevista ao jornalista Ross Douthat no The New York Times de 31/1/2025, Steve Bannon, a quem se atribui ter levado Donald Trump à sua primeira vitória em 2016, mostra-se articulado, culto, divertido, e quase convence. De família pobre, democrata dos tempos de John F. Kennedy, formado pela Harvard Business School, Bannon se define como populista e nacionalista. A pax americana, segundo ele, que se impôs ao mundo ocidental após a 2.ª Guerra, é uma construção que tem no topo uma elite bilionária, sustentada por uma grande burocracia de pessoas com títulos universitários – a “classe dos diplomados”, incluindo generais, professores universitários e jornalistas da grande imprensa –, e na base grupos de interesse formados por sindicatos e organizações que se articulam em nome de direitos sociais para receber partes do bolo. Tudo à custa do little guy, o homem do povo que é enviado para matar e morrer em guerras longínquas, cujos valores e estilos de vida são corroídos pelas políticas identitárias financiadas com recursos públicos e cujos empregos e salários são aviltados pelos imigrantes e a concorrência de investimentos em outros países.

Trump, livre-comércio na pancada - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Em vez de elevar impostos de importação, EUA querem que países se abram para produtos americanos

Até agora, Donald Trump estava entretido com promessas de barrar importações por meio de impostos maiores. Isto é, com protecionismo, não se sabia quanto e por quanto tempo, com objetivos incertos ou variáveis. Chegou a dizer que cobriria parte do grande déficit do governo com o dinheiro de tributos sobre importados.

Nesta quinta, Trump disse que quer fazer o contrário. Vai exigir que outros países derrubem restrições aos produtos americanos, impostos de importação ("tarifas") ou outras. Trump deu mais ênfase a abertura comercial, na negociação ou na pancada.

Nova ordem trumpiana - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Presidente americano busca gerar um ambiente caótico que o beneficia; governança global e equilíbrio dos Poderes preocupam

A estratégia de Donald Trump é entupir os EUA e o mundo de declarações, decretos e ações concretas altamente controversos, criando o ambiente caótico no qual ele tende a prosperar.

Como ninguém sabe distinguir direito o que é factoide, tática de negociação e o que é para valer, a resultante é a incerteza. Na confusão, Trump vai testando interlocutores e os limites de seu próprio poder.

Trump vs. Trans - Ruy Castro

Folha de S. Paulo

O que ele diria ao saber que Mickey, Minnie, Donald, Chita, Rin-Tin-Tin e Lassie pertencem ao grupo LGBTQIA+?

O déspota americano Donald Trump proibiu as atletas trans de competirem nas categorias femininas dentro dos EUA. As entidades de direitos civis já protestaram e os órgãos internacionais do esporte também. Se cada país tiver regras próprias não será possível haver eventos como a Copa do Mundo ou os Jogos Olímpicos —que, não por acaso, terão suas próximas versões sediadas nos EUA. Trump não quer saber da possibilidade de elas serem transferidas ou de os EUA serem banidos das competições. Confia em seu bullying à base de murros e ofensas.

Os feitos de "Ainda estou aqui" vão muito além do Oscar - Roberto Fonseca

Correio Braziliense

Se "Ainda estou aqui" será premiado ou não com o Oscar, saberemos apenas no domingo de carnaval. O filme, no entanto, já fez história e os feitos precisam ser lembrados

A votação para escolha dos ganhadores do Oscar está em andamento. Daqui até terça-feira, as 9,9 mil pessoas habilitadas vão entregar à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas os escolhidos nas categorias. Se Ainda estou aqui será premiado ou não, saberemos apenas na noite do domingo de carnaval (e quem sabe avançando pela madrugada de segunda-feira). O filme, no entanto, já fez história e os feitos precisam ser lembrados.

O primeiro deles é que serviu para reaproximar o brasileiro do Oscar. Depois de mais de duas décadas sem participar das categorias principais, o cinema nacional ocupa local de protagonismo com as indicações para melhor atriz, melhor filme internacional e melhor filme. Com isso, detalhes sobre o processo de votação (com conclusão duas semanas antes da cerimônia), o colégio eleitoral (52 brasileiros estão na lista) e as regras para evitar empates (na categoria principal, por exemplo, os votantes precisam elencar os 10 longas indicados em ordem de preferência, do melhor ao pior) passaram a fazer parte do nosso dia a dia.

Como a alta dos juros impacta o acesso à educação? - Nivio Lewis Delgado*

Correio Braziliense

Em 2023, 24% dos jovens brasileiros entre 18 e 24 anos de idade não estudavam nem trabalhavam. A situação é pior do que em boa parte dos países desenvolvidos, conforme levantamento divulgado neste ano pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)

O acesso ao ensino superior no Brasil registrou o maior crescimento dos últimos dez anos em 2023. Nesse período, o número de matrículas nas redes pública e privada subiu 5,64% — avanço impulsionado pelo incremento do volume de estudantes nos cursos de ensino a distância (EAD). Os dados fazem parte do Censo da Educação Superior.

Embora positivo, o resultado ainda é insuficiente, frente ao potencial de aumento de ingressantes. A mesma pesquisa, realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), aponta que apenas 21% dos alunos que concluem o ensino médio na rede estadual entram para a universidade no ano subsequente. Mas, afinal, por que isso acontece?

O valor da incerteza e o desvalor de Trump - Elimar Nascimento*

Este é um artigo inspirado no belo livro de Eugênio Bucci – Incerteza, um ensaio. Como pensamos a ideia que nos desorienta (e orienta o mundo digital), publicado pela Editora Autêntica em 2023. Mas também na obra magnífica de Edgar Morin, conhecido como o filósofo da complexidade, que poderia muito bem ser chamado de o filósofo da incerteza, pois é ao perscrutar essa noção que o pensador francês navega em grande parte de sua obra. Não para eliminá-la, mas para dela cuidar. Não se pode ter o objetivo (impossível) de eliminar a incerteza, mas sim de com ela conviver e aprender a viver.

Normalmente, não vemos com bons olhos a incerteza. Preferimos sempre a zona de conforto. No senso comum, incerteza está associada a risco, perigo, ameaça e medo. No entanto, a incerteza tem um lado positivo, ou seja, há uma incerteza produtiva. Nela se sustenta o progresso do conhecimento, pois a incerteza gera dúvidas, que geram perguntas que, por sua vez, nos obrigam a produzir informações. E, com estas, produz-se o conhecimento, seja o científico, seja o do bom senso. Incerteza e conhecimento são os dois elos extremos da cadeia do saber. Quanto maior a incerteza, maior a produção de informações.

Morre Cacá Diegues, diretor de ‘Bye bye Brasil’, ‘Deus é brasileiro’ e ‘Tieta do Agreste’

Por Leda Rielli, g1 Rio e TV Globo

Um dos cineastas mais conhecidos do país, ele foi um dos fundadores do Cinema Novo. Ele era ocupante da cadeira 7 da ABL e foi enredo da escola de samba Inocentes de Belford Roxo.

O cineasta Cacá Diegues morreu na madrugada desta sexta-feira (14). Ele tinha 84 anos e morreu após complicações em uma cirurgia.

Carlos José Fontes Diegues nasceu em Maceió no dia 19 de maio de 1940. Ele se mudou para o Rio de Janeiro com 6 anos de idade.

Na capital fluminense, passou a infância e adolescência no bairro de Botafogo, na Zona Sul.

Cacá Diegues foi um dos fundadores do Cinema Novo ao lado de Glauber Rocha, Leon Hirszman, Paulo Cesar Saraceni, Joaquim Pedro de Andrade e outros cineastas.

Poesia | Tecendo a manhã, de João Cabral de Melo Neto

 

Música | Fagner, Zé Ramalho - Chão de Giz

 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Brasil volta a ser visto como lugar bom para corruptos

O Globo

No ranking da Transparência Internacional, país caiu para a 107ª posição, sua pior colocação

O Brasil obteve no ano passado a pior colocação no ranking sobre percepção de corrupção da ONG Transparência Internacional desde que ele começou, em 2012. Há dez anos, estava no mesmo patamar de Bulgária, Grécia, Itália e Romênia. De lá para cá, todos melhoraram. O Brasil foi exceção. Agora estamos empatados com Argélia, Nepal e Níger. No Judiciário, o desmonte do combate à corrupção ficou patente em decisões favoráveis a implicados pela Operação Lava-Jato que haviam confessado crimes. Em vez de corrigir os erros da operação, optou-se por anulações indiscriminadas. No Legislativo, o inchaço das emendas parlamentares passou a irrigar esquemas de desvio de dinheiro público. Não surpreende que o Brasil tenha despencado da 69ª posição, alcançada em 2012, e hoje esteja no 107º lugar entre os 180 países avaliados no ranking da Transparência.

Do hiperpresidencialismo ao presidencialismo congressual - Gustavo Binenbojm*

O Globo

O poder de editar medidas provisórias foi severamente limitado pela Emenda Constitucional 32/2001

O sistema político brasileiro sofre de uma crise de governabilidade. Parte do problema advém do quadro partidário fragmentado, da falta de presidentes populares nos últimos 15 anos e da polarização ideológica. Mas não é possível ignorar nem minimizar a relevância das mutações havidas na lógica de funcionamento do próprio sistema presidencialista, evidenciando uma redistribuição de forças entre os Poderes Legislativo e Executivo.

Os primeiros 15 anos de vigência da Constituição de 1988 foram marcados por forte predomínio do Poder Executivo. Embora nos debates constituintes houvesse uma influente corrente parlamentarista, a verdade é que, no fim das contas, o presidencialismo prevaleceu, e sua vitória acabou ratificada em plebiscito poucos anos depois. O presidente da República se impunha ao Congresso com poderes cumulativos: chefe de Estado, chefe de governo e da administração, comandante em chefe das Forças Armadas, além de titular da execução orçamentária e financeira. Em sua versão original, a Carta de 88 ainda dava ao presidente o poder de editar medidas provisórias com força de lei. Podiam tratar de qualquer assunto e eram fartamente reeditadas, ainda quando não apreciadas pelo Parlamento. Isso tudo, somado ao poder de nomeação para cargos comissionados e funções de confiança, conferia ao governo ascendência sobre o Congresso e a condução da própria pauta legislativa. O termo hiperpresidencialismo foi cunhado para expressar essa dinâmica política.

Malu Gaspar – O efeito Trump e a anistia

O Globo

Esqueça a guerra de tarifas que avança sobre o aço brasileiro, a proposta de transformar a Faixa de Gaza num resort ou a possibilidade de a guerra na Ucrânia acabar com a entrega de parte do território do país à Rússia de Vladimir Putin. De todas as mirabolâncias perpetradas por Donald Trump neste início do mandato, a que mais reverbera na direita brasileira é a ofensiva sobre a Usaid, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional.

Mais conhecida pela ajuda humanitária que presta em regiões pobres, como a África Subsaariana, a América Central e a Ásia, a Usaid financia de iniciativas de aleitamento materno e prevenção da Aids a programas anticorrupção e debates sobre transição de gênero.

Criada por John Kennedy nos anos 1960, para aumentar a influência americana contra a potencial expansão da revolução cubana ou do comunismo russo, a Usaid já colaborou com a ditadura brasileira e foi usada pelo governo Bush para financiar a reconstrução do Iraque depois da queda de Saddam Hussein. Atua ao gosto do freguês. Seu orçamento, de US$ 40 bilhões por ano, é apenas 0,6% do total de US$ 6,75 trilhões. Mas, para Trump, a Usaid é um dreno de dinheiro que só serve para pagar a “mídias de notícias falsas” e promover “boas histórias sobre os democratas”.

O embaixador e a COP dos desafios – Míriam Leitão

O Globo

André Corrêa do Lago, presidente da COP30, vai criar comitê de economistas para que Brasil aproveite as oportunidades da nova economia na Conferência

O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, vai criar um conselho de economistas, brasileiros e estrangeiros, para assessorar a presidência da Conferência. Ele quer que a economia esteja na discussão, e, por isso, adianta que o ministro Fernando Haddad está muito empenhado na questão. Admite que há uma mudança significativa com a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e defende a tese de que não há conflito entre explorar o petróleo na Foz do Amazonas, se for essa a decisão, e a posição de liderança do Brasil nas negociações do combate às mudanças climáticas. O importante, segundo ele, é saber “como é que vamos pegar esse trem que está passando a uma velocidade razoável na Estação Brasil”.

Lula critica Ibama e constrange Alckmin, França e Marina – Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

A Petrobras mantém uma queda de braços com o Ibama, que não autoriza a estatal a perfurar poços no litoral do Amapá, na região da Margem Equatorial da Amazônia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou duramente o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), nesta quarta-feira (12), pelo que chamou de "lenga-lenga" na questão da exploração de petróleo na Margem Equatorial da Amazônia, no litoral do Amapá, Região Norte do país. Chegou a dizer que o órgão parece agir como se fosse contra o governo, durante entrevista à Rádio Diário FM, do Macapá, onde deve se encontrar, nesta quinta-feira, com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

As declarações atingem diretamente o presidente do órgão, Rodrigo Agostinho, ex-prefeito de Bauru e ex-deputado federal do PSB, o que deixa constrangidos o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB); o ministro do Empreendedorismo, Márcio França (PSB); e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede), à qual o Ibama está subordinado. Agostinho vem promovendo o fortalecimento da capacidade operacional do órgão, principalmente com o uso de tecnologia na fiscalização e combate ao crime ambiental.

Reforma é o desempate entre Rui Costa e Haddad - Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

O batismo de 2025 foi dado por um egresso da finada frente ampla: “Temos nos ocupado muito com renda e emprego mas, no fundo, as pessoas só se preocupam com a inflação”

A crença de que o ano só começa depois do carnaval ganhou ainda mais adeptos com a previsão de que o Orçamento será votado em março. Mas não é preciso esperar esta aprovação, inequívoca visto que o Congresso hoje é seu sócio quase majoritário. Tampouco é preciso aguardar a reforma ministerial ou a equação para as emendas para se concluir que o ano começou antes mesmo da troca de calendário.

Seu ponto de partida foi dado por um graúdo integrante deste governo egresso da finada frente ampla que o elegeu: “Temos nos ocupado muito com a renda e o emprego mas, no fundo, as pessoas só se preocupam com a inflação”. Esses dois polos estão representados pelos ministros da Casa Civil e da Fazenda. O peso de cada um deles sobre o presidente da República define rumos mais do que toda a Esplanada.

Proposta do Brasil no Brics sobre pagamentos - Assis Moreira

Valor Econômico

Reorientação de exportações para países geopoliticamente alinhados cresce no comércio global

O Brasil, na presidência do Brics, enviou aos membros do grupo nesta semana uma proposta visando facilitar o pagamento das transações do comércio intrabloco - e que evita falar diretamente de desdolarização.

É verdade que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por mais de uma vez disse “sonhar” com uma moeda comum para o Brics e questionou por que “todos os países precisam fazer seu comércio lastreado no dólar, por que não podemos fazer comércio lastreado na nossa moeda?”.

Preços, contratos e Trump - Jorge Arbache

Valor Econômico

Ambiente de incertezas e imprevisibilidade pode ser especialmente prejudicial no contexto de vulnerabilidades fiscais e pressões inflacionárias nos EUA

A imprevisibilidade e as intervenções econômicas do presidente Donald Trump têm suscitado preocupações sobre possíveis impactos negativos na economia dos Estados Unidos. Isto porque posturas polêmicas e agressivas combinadas com mudanças e reversões abruptas de política estão gerando incertezas nos mercados. As recentes ameaças de punição a empresas manufatureiras que não produzirem nos EUA colocaram ainda mais gasolina nesta fogueira. Embora algumas medidas anunciadas ainda não tenham entrado em vigor, a mera possibilidade de mudanças já foi suficiente para abalar mercados.

O Brasil diante de Trump - William Waack

O Estado de S. Paulo

Não parece haver boas opções para enfrentar quem não diferencia entre amigos e inimigos

Não há muita margem de manobra para o Brasil frente a Trump. No plano geral geopolítico, o presidente americano está desfazendo a ordem internacional que nos foi vantajosa. No plano imediato das tarifas impostas contra exportações de aço e alumínio brasileiras, o espaço de resposta é reduzido comparado ao que aconteceu no primeiro mandato de Trump.

A causa imediata é a probabilidade de que Trump implemente tarifas elevadas para outros setores. O agro aguarda isso a qualquer momento. É séria e real a ameaça de Trump de impor reciprocidade nas tarifas. Em outras palavras, mesmo que o Brasil retalie aqui ou ali, o buraco é bem maior.

Governo Trump, o fascínio da dominação - José Serra

O Estado de S. Paulo

Já de início, a ação de Donald Trump foi pautada por uma virulência típica dos impérios em declínio

Os primeiros movimentos do segundo governo Trump vão mostrando um líder em transição para o autoritarismo ilimitado. A dúvida que fica é se esse perfil é uma estratégia política, no contexto das políticas interna e externa da América, ou uma efetiva intenção de recolocar os Estados Unidos no papel de controlador imperial do mundo.

A segunda hipótese parece mais provável. A retórica que levou Trump ao poder teve como pilar o “Make America Great Again”. Em verdade, essa mensagem já confessa que a hegemonia americana passa por fortes questionamentos. Trump apostou (e ganhou) em mostrar o declínio para assumir o posto de timoneiro da recuperação do poder americano.

Sua ação já de início foi pautada por uma virulência típica dos impérios em declínio. Os impérios contemporâneos constroem uma hegemonia baseada em relações comerciais, financeiras, culturais, tecnológicas e étnicas. Há uma espécie de dependência de todos em relação ao centro do império, seja para vender produtos, seja para lastro financeiro e creditício, mas os outros aspectos dos costumes e da própria construção dos valores sociais estão presentes no conceito de hegemonia.

Tarefa da Fazenda é cortar R$ 35 bilhões - Felipe Salto

O Estado de S. Paulo

O histórico de contingenciamentos aponta que é possível, mas também ressalta a importância de contenção já no início do ano

Em janeiro, o governo central deve ter registrado superávit primário de R$ 89,3 bilhões, pouco acima da projeção da Warren Investimentos, de R$ 88,2 bilhões. Os dados são do portal Siga Brasil, coletados por minha equipe no último dia 10. O Siga compila dados do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), permitindo a antecipação do resultado do Tesouro Nacional.

No mesmo mês do ano passado, o superávit primário foi de R$ 79,5 bilhões ou R$ 83,1 bilhões quando corrigido pela inflação. A melhora de R$ 6,2 bilhões no resultado deu-se com altas reais de 4,6% da receita líquida (receita total menos transferências a Estados e municípios) e de 3,2% da despesa, na comparação com janeiro de 2024.

O lenga-lenga sobre tarifas e dólar - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Explicações peremptórias sobre tarifas, câmbio ou rito da economia são conversa fiada

Assim que Donald Trump anunciou o aumento de imposto de importação sobre aço e alumínio apareceram estatísticas detalhadas de exportações brasileiras, tabelas de "quem ganha e quem perde" e outras especulações sobre qual pode ser o efeito desse de tantos decretos sinistros.

Nesta quarta, Jerome Powell, presidente do Fed, disse que não tem ideia de qual vai ser o efeito das "tarifas", que depende de extensão, tamanho e duração dos impostos. "Em alguns casos, não chega muito ao consumidor, em alguns casos, chega... Depende de fatos que ainda estamos para ver".

Atitudes de Trump atingem os pilares da ordem internacional - Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Discursos lembram política de áreas de influência típica de potências europeias no séc. 19

Analistas da política norte-americana se esforçam para distinguir, na enxurrada de decretos executivos expelidos pelo presidente Donald Trump, o que é para valer e o que é apenas para obter —pela intimidação— acordos mais vantajosos.

Seja qual for a intenção, o desastre é monumental e fere não apenas os habitantes do país, cuja grandeza passada o novo ocupante da Casa Branca prometeu ressuscitar —seja lá o que ele quis dizer.

No plano externo, palavras e atos do presidente atingem igualmente pilares da chamada ordem internacional baseada em regras —ou ordem liberal. Obra lapidada do Ocidente democrático, depois da Segunda Guerra Mundial, seu objetivo era reduzir o risco de novos conflitos generalizados e estabelecer limites à pura política de poder e ao exercício da força bruta nas relações entre países. Além de buscar soluções negociadas para problemas que ignoram fronteiras ­—como a crise ambiental ou as pandemias. Seu instrumento foram os numerosos organismos e arranjos multilaterais que se multiplicaram em torno das Nações Unidas e de entidades como o FMI e o Banco Mundial.

Os 12 trabalhos do autocrata - Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

A cartilha da erosão democrática disparada por Trump

Não há receita rígida para desmontar a democracia. A ordem de fatores e a dose variam. Mas o roteiro contemporâneo combina 12 tarefas. Invariavelmente. Um programa de transferência de tecnologia da autocratização. Aqui um resumo temático.

1. O autocrata e o Povo. Induza confusão entre vitória eleitoral e mandato ilimitado. A identificação existencial entre povo genuíno e líder eleito apaga a distinção entre maiorias e minorias. Estas, ou se aliam, ou são excluídas. Não há diversidade: "povo" de um lado contra os moralmente depravados de outro.

2. O autocrata e a Verdade. Estigmatize e inviabilize instituições de produção de informação, ciência e imaginação crítica. Ataque universidades, vigie salas de aula, intimide cientistas, professores, jornalistas. Invoque intenções maliciosas no que fazem.

Poesia | Em louvor da aprendizagem, de Bertolt Brecht

 

Música | Milton Nascimento - Nos bailes da vida

 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Alta dos gastos parafiscais alimenta incerteza

O Globo

Despesas fixas por fora do Orçamento deverão dobrar ou triplicar neste ano, alcançando pelo menos 1% do PIB

A forte expansão do gasto público desde a volta do PT ao Planalto é responsável não apenas pelo aumento do endividamento público, mas também pela alta dos preços — apesar de a inflação de janeiro ter ficado em 0,16%, melhor resultado do mês desde o Plano Real, o acumulado em 12 meses continua acima da meta (4,56% ante 4,5%). Talvez esse seja o motivo mais evidente para o cidadão comum dar atenção ao desarranjo fiscal. Merecem especial atenção aquelas despesas que, apesar de crescentes e recorrentes, não entram oficialmente no Orçamento. Conhecidas como parafiscais, incluem o financiamento de políticas públicas por fundos estatais, sua exclusão dos cálculos do arcabouço fiscal, o incentivo artificial ao consumo pelos bancos públicos, investimentos de estatais ou aumento do crédito subsidiado pelo BNDES com fins e garantias duvidosos e toda sorte de “criatividade contábil”.

Fuga para a frente? - Vera Magalhães

O Globo

Ideia de uma 'fuga para frente' a partir de um grande acordo esbarra em dificuldades nos casos envolvendo Bolsonaro

As últimas semanas têm sido pródigas em balões de ensaio com saídas para lá de heterodoxas para resolver impasses políticos, judiciais ou institucionais. Das condenações do 8 de Janeiro à expectativa diante da iminente denúncia de Jair Bolsonaro, ex-ministros, militares e outros assessores pelas tratativas para um golpe ainda antes da posse de Lula, passando pelo imbróglio das emendas, muita gente parece empenhada em desenhar uma “fuga para a frente”, como bem definiu um observador com vista para a Praça dos Três Poderes.

A expressão, de origem francesa, costuma designar aqueles movimentos para tentar resolver um problema escondendo o passivo debaixo do tapete. Nesse balaio, sobram ideias à procura de quem as leve adiante. Pouca gente responsável pelos desígnios do Legislativo ou do Judiciário acredita que alguma delas prospere.

De Pedro II@edu para Lula@gov – Elio Gaspari

O Globo

Estimado presidente,

Li que vosmecê prepara uma reforma do ministério e resolvi lhe escrever, com um aviso amargo: as trocas de ministros são um pesadelo inútil e, ao cabo, de nada adiantam.

Imagine que, na manhã de 23 de julho de 1890, acordei bem, mas havia-me sucedido uma coisa que não acontecia havia anos. Eu havia sonhado, e mal infelizmente, com a maçada da organização ministerial. Em quase 50 anos, passei por aquilo 36 vezes.

Naquele dia, se eu não tivesse sido deposto e desterrado, teria completado 50 anos de reinado em nossa terra. A maçada da organização do ministério assombrou-me quando levava uma vida de paz e rotina na Riviera Francesa. Meus dias eram cronometrados.