domingo, 25 de maio de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Regras para praias devem respeitar o bom senso

O Globo

Elas são o espaço mais democrático do país — e, como toda democracia, precisam de normas para funcionar

Costuma-se dizer que as praias são o espaço mais democrático do país. E com razão. Qualquer um, independentemente de posição social ou aparência, pode chegar e ocupar seu lugar ao sol. Não tem de mostrar identidade, CPF ou carteira de vacinação. Tampouco pagar ingresso — é verdade que, dependendo do local, o banhista será compelido a alugar cadeira, guarda-sol e a consumir os produtos do ambulante “dono” do pedaço. Mas a areia é vasta. É justamente por ser o lugar de todos que regras mínimas de convivência se impõem. Ou o lazer se transforma em pandemônio.

A música a todo volume na caixa de som pode agradar ao dono do aparelho — mas desagrada a outros tantos, que preferem o barulho do mar à playlist de gosto incerto. O esporte à beira d’água é diversão para a confraria, mas incomoda quem não quer levar boladas. O churrasquinho do ambulante mata a fome, mas precisa ser fiscalizado para não causar danos à saúde. Em calçadões e ciclovias, o frenético vaivém de banhistas, corredores, skatistas, ciclistas, bicicletas elétricas e patinetes se traduz não apenas em desordem, mas também em risco de acidentes.

O Brasil no espelho do mundo - Luiz Sérgio Henriques*

O Estado de S. Paulo

O descompasso entre o mundo amplo da economia e o âmbito estritamente nacional da política terminou por produzir seus frutos daninhos na forma de uma imensa crise da globalização

Não importam muito nossa condição de Ocidente periférico, de “outro Ocidente” ou, ainda, a ideia mais forte de que metabolizamos, com expressividade, o barroco ibérico e terminamos por produzir, com ameríndios e negros, uma modernidade alternativa – o fato é que, seja como for, temos sido assediados por perguntas estrategicamente decisivas sobre a nova estrutura do mundo ainda em formação e, nela, a posição do Brasil.

O século 21, tudo indica, não será mais predominantemente norte-americano e menos ainda europeu. Com velocidade surpreendente, envelheceu a ideia de uma modernidade baseada na expansão contínua da mercantilização de todas as coisas e de todas as relações humanas. Já podemos dizer com certeza que a modernidade dita neoliberal, que se disseminou com o colapso do socialismo de Estado, pecou por déficit crescentemente intolerável de imaginação política. A interdependência entre os sistemas econômicos deu muitíssimos passos à frente, com a circulação instantânea do dinheiro, a mundialização das cadeias de valor, a mobilidade intensa de mercadorias e pessoas. E uma vasta classe média global, apesar das desigualdades, apareceu no cenário.

Haddad é refém da cultura petista do rechaço e da economia do afeto - Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

O ajuste é de R$ 52 bilhões, mesmo assim, o déficit das contas públicas deve chegar a R$ 76,6 bilhões ( 0,6% do PIB). O ministro da Fazenda apanha dos dois lado

No seu artigo publicado na Carta Capital n° 1363 (datada de 28 de maio de 2025), intitulado “Absurdos da 'ciência' econômica, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo discorre sobre as limitações dos modelos macroeconômicos contemporâneos. Parte de uma definição de John Mayard Keynes – autor da Teoria geral do emprego, do juro e da moeda (Saraiva), de1836, sua obra prima – sobre o perfil ideal dos economistas.

Keynes virou do avesso a teoria clássica do emprego de “A riqueza das nações” (Nova Fronteira), de Adam Smith, obra publicada em 1776, ao analisar a Grande Depressão causada pelo crack da Bolsa de Nova York de 1929. O consenso da época era de que a economia chegaria espontaneamente e naturalmente ao equilíbrio. E quem quisesse trabalhar encontraria emprego, bastava aceitar salários mais baixos. Keynes inverteu esse modelo clássico de causa e efeito.

Para a teoria clássica, o desemprego era uma escolha causada pelo alcoolismo e/ou pelo jogo. Devido à prolongada recessão, Keynes concluiu que o desemprego era involuntário, porque a ausência de demanda aprisionava empresas e trabalhadores num círculo vicioso de subprodução e desemprego. A solução, segundo ele, era os governos gastarem mais, para investir na economia, de modo que a procura global dos produtos crescesse. Isso estimularia as empresas a admitirem mais trabalhadores.

Contradições - Merval Pereira

O Globo

O aumento do IOF afetará a classe média, que pretendia viajar para o exterior e terá seus custos aumentados. Uma classe que o governo petista precisa reconquistar para viabilizar sua reeleição

As contradições do governo Lula se acumulam à medida que os objetivos imediatos de recuperar a popularidade para garantir a reeleição se chocam com as promessas de campanha que não podem ser cumpridas sem criar obstáculos ao objetivo maior, que é manter o poder. Lula venceu a eleição de 2022 no pressuposto de que faria um governo de união nacional, reunindo em torno de si uma aliança suprapartidária. Na prática, temos o PT dominando as principais áreas do governo, e os representantes das demais forças políticas de centro-esquerda relegados a um segundo plano.

A barafunda criada pelo aumento do IOF é exemplar desse paradoxo. A necessidade de aumentar a arrecadação para tentar equilibrar as finanças nacionais, sem que os cortes necessários sejam feitos, faz com que o país contradiga sua intenção de entrar para a OCDE, a reunião dos países mais desenvolvidos do mundo. Ou revela que o governo Lula não tem como prioridade essa participação.

Direita avança com pauta conservadora em legislativos do país

Por Camila Turtelli e Dimitrius Dantas / O Globo

Direita fortalece pautas estratégicas do bolsonarismo em assembleias e câmaras municipais para vencer em 2026

Projetos de escolas cívico-militares, leitura da Bíblia em colégios, projeto anti-Oruam e homenagens a Bolsonaro ganham força no país

Fora do governo federal desde 2022, representantes da direita têm encontrado um novo campo de articulação política longe dos holofotes de Brasília. A estratégia envolve emplacar projetos e iniciativas que envolvem bandeiras ligadas ao bolsonarismo em câmaras municipais, assembleias legislativas e governos estaduais, para que sirvam de base para um movimento que visa a pavimentar o caminho para retomar o poder em 2026. Essas proposições são inspiradas no trinômio “Deus, pátria e família”, o que reforça o vínculo de integrantes da vertente política com grupos religiosos.

Um dos principais itens desse movimento de base é a expansão das escolas cívico-militares. Embora o programa federal lançado no governo de Jair Bolsonaro tenha sido encerrado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, houve uma ampliação do modelo pelo país. A iniciativa consiste na gestão compartilhada das instituições de ensino entre educadores e militares, categoria que forma uma das bases do bolsonarismo.

O fenômeno Tony Rueda - Bernardo Mello Franco

O Globo

Antonio Rueda é um fenômeno. Sem nunca ter disputado uma eleição, entrou para o clube das figuras mais poderosas da política nacional. O advogado pernambucano despontou como faz-tudo de Luciano Bivar. Após um rompimento que virou caso de polícia, tomou o lugar do chefe no comando do União Brasil.

Resultado da fusão dos antigos DEM e PSL, a legenda não tem ideias, só interesses. Ao mesmo tempo que controla três ministérios do governo Lula, flerta com o bolsonarismo e ensaia lançar um candidato de oposição em 2026.

Na quarta-feira, Rueda deu uma longa entrevista ao GLOBO. A conversa ajuda a entender a natureza de seu partido e a debilidade do que se convencionou chamar de base do governo.

Apesar dos cargos que controla na máquina federal, o mandachuva do União fez discurso de opositor. Disse que o governo “não consegue fazer entregas” e “se enfraquece dia a dia”. “Logo no começo do mandato, o governo surfou politicamente na onda do 8 de Janeiro. Hoje essa página é passado”, sentenciou.

Amazônia como última mensagem - Míriam Leitão

O Globo

O recado final de quem fez da Amazônia seu último projeto e que nos alertou para o privilégio de ter esta floresta

Sebastião Salgado permanecerá porque sua obra seguirá mostrando as dores agudas ou a exuberante beleza do planeta. Extremos de vida. Para ele, a vida era em preto e branco e nunca em meios-tons. Ficará de pé também o pedaço que replantou da outrora dominante Mata Atlântica, hoje recolhida a alguns recantos, como o que ele e Lélia construíram. Nesta semana, o contraste entre a mensagem que ele quis deixar e o que temos feito será mais gritante. A Câmara pretende votar em regime de urgência o PL da devastação nos próximos dias.

É truque dos apoiadores do projeto. Depois desta, virá a semana do Meio Ambiente. No dia 5 de junho, uma quinta-feira, será o Dia do Meio Ambiente. Os defensores do projeto acham que não cairá bem aprová-lo nessa data e, por isso, querem correr.

Os horrores impostos à população palestina- Dorrit Harazim

O Globo

De uma hora para outra, começou-se a denunciar o uso da fome como ferramenta de subjugação

Foi a contragosto que o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu anunciou, nesta semana, a decisão de entreabrir uma fresta nas inenarráveis condições impostas à Gaza hermeticamente bloqueada desde março. Era preciso estancar a incômoda “campanha global contra alegações de fome extrema no território e aliviar as pressões de nossos aliados na Europa e Estados Unidos”. Por uma questão de relações públicas, decidira que não lhe restava outra opção — as imagens de crianças famélicas em feroz disputa por um punhado de farinha exigiam correção de curso. Era preciso dar um respiro àquele chão ainda chamado de seu por 2,2 milhões de palestinos.

As tarefas que a realidade nos impõe - Claudio de Oliveira*

O que está posto? Penso que:
1) Ascensão da extrema-direita;
2) Reglobalização;
3) nova geopolítica;
4) Nova revolução tecnológica com a IA;
5) Crise do Clima.

Que fazer?
1) Frente ampla democrática nos planos nacional e internacional para isolar a extrema-direita;
2) Política externa não-alinhada e sem retórica anti-Ocidente;
3) Trabalhar contra uma nova Guerra Fria, pelo multilateralismo, pelo fortalecimento e criação de órgãos de governança global, pela negociação dos conflitos internacionais e pela cooperação econômica;
4) Incorporar o Brasil nos grande centros dinâmicos do capitalismo;
5) Modernizar o capitalismo brasileiro para abrir um novo ciclo de expansão de modo a criar riqueza e renda;
6) Diante do Estado deficitário, atrair investimentos privados nacionais e estrangeiros para um novo ciclo de desenvolvimento;
7) Investir pesadamente em pesquisa, ciência e tecnologia, buscando os diferenciais do Brasil principalmente na biotecnologia (não conseguiremos concorrer com a China na produção em larga escala de fogão e geladeira, mas poderemos concorrer com produção de vacinas, remédios, por exemplo), em tecnologias de fontes renováveis de energia, etc;
8-Reformar o Estado e a tributação para garantir o financiamento sustentável do Estado do Bem-Estar Social (a distribuição da riqueza não deve estar focada em transferência de rendas pelo Estado, por seus limites evidentes, mas no aumento da produtividade na economia privada e uma boa tributação).

O acerto de Netanyahu com a Justiça – Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Até Trump já desistiu da ideia de desterrar palestinos defendida agora por Netanyahu

O premiê Binyamin Netanyahu admitiu em público pela primeira vez que pretende “colocar em prática o plano do presidente Donald Trump”, referindo-se a expulsar os palestinos da Faixa de Gaza. O próprio Trump já abandonou a ideia, ao constatar que nenhum país árabe aceitaria o desterro dos palestinos.

Em reunião fechada do gabinete, Netanyahu admitiu que a destruição das casas dos palestinos de Gaza é proposital, para tornar inviável sua permanência, segundo o jornal The Times of Israel. O bloqueio da entrada de ajuda humanitária e os bombardeios são parte da mesma estratégia.

Os ministros das Finanças, da Segurança Nacional e das Relações Exteriores defendem a expulsão dos palestinos e a anexação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, onde vivem desde a expansão árabe do século 7.

Viver não é aprender? - Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Pix, INSS e IOF: governo tropeça em siglas, posts e versões, oposição faz a festa

Vivendo e aprendendo, mas o governo parece não aprender nunca. Depois da crise do Pix, tão recente, a do IOF também começa com ministros batendo cabeça, evolui com o desprezo aos setores atingidos, explode com um anúncio mal planejado e executado e acaba num recuo vexaminoso, com a oposição soltando fogos, rojões e disparos certeiros nas redes sociais. O Congresso, claro, entra na festa.

Sem planos, o gasto avança sem rumo - Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Para ampliar com segurança o investimento governamental, as autoridades precisam reordenar seus gastos e economizar no custeio

Faz tempo, muito tempo, havia no Brasil uma prática muito difundida, há quase um século, entre engenheiros, economistas e até em alguns meios políticos. Construído entre 1965 e 1978, o Complexo de Urubupungá, formado pelas hidrelétricas de Ilha Solteira, Jupiá e Três Irmãos, é um produto dessa prática. A produção de energia elétrica na Bacia do Rio Paraná era uma ideia bem definida mais de dez anos antes, na primeira metade dos anos 50, quando o engenheiro Lucas Nogueira Garcez governava o Estado de São Paulo. Essa história é um exemplo daquela prática, batizada como planejamento.

Outras derrapadas do governo Lula - Celso Ming

O Estado de S. Paulo

As lambanças do da equipe econômica na edição do pacote tributário destinado a reduzir o rombo fiscal não se limitaram à imposição do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre investimentos em fundos no exterior, rapidamente revertida pela equipe econômica, tão logo percebeu que caracterizava controle do fluxo de capitais. Elas se estenderam para outras decisões que integraram o cardápio do dia.

É o caso da imposição de um IOF de 5% sobre aportes mensais acima de R$ 50 mil em planos de previdência privada denominados Vida Gerador de Beneficio Livre (VGBL). O governo não diz como se cobrará esse imposto se o aplicador fizer vários investimentos pouco abaixo de R$ 50 mil por mês em várias instituições financeiras, dado que uma desconhece o que acontece na outra. Vai que o sujeito aplica, no mesmo dia, R$ 49 mil no Bradesco, outros R$ 49 mil no Safra e outros R$ 49 mil no Icatu. Não há mecanismo que compartilhe informações instantâneas entre instituições. Se a decisão for montá-lo a partir de agora, então a medida provisória não pode entrar em vigor na data da publicação, como pretendido.

O IOF encrenca nossa vida - Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Bagunça e tretas escondem o fato de que o gasto cresceu e que IOF é droga ruim

A revisão bimestral das contas do governo foi uma bagunça. Fez a alegria de quem trata desse assunto chato e enrolado sem se ocupar de substância e efeitos econômicos, deitando e rolando na treta e na fofoca, em "bastidores".

Sim, quem não gosta de Fernando Haddad no governo —um monte de gente— aproveitou a ocasião para fritar ainda mais o ministro. Sim, política de corredor de palácio tem certa relevância, mas a maior parte é espuma e não depende de fofoca, mas de problemas reais. O problema de fundo é que Luiz Inácio Lula da Silva não comprou nem o plano moderado de Haddad de fazer funilaria e pintura nas contas do governo, que precisam de troca de motor e de freio.

Além da fofoca e da rendição no IOF sobre fundos que aplicam no exterior, quase se esqueceu do seguinte e essencial:

Centrão fecha cerco a Tarcísio - Catia Seabra

Folha de S. Paulo

No momento em que petistas e bolsonaristas lutam para sobreviver aos estilhaços do escândalo do INSS, Tarcísio é o preferido da vez

O governador Tarcísio de Freitas bem que tentou escapar de mais um palco montado pelo centrão para projeção de seu nome à Presidência da República.

No início de maio, ele alegou agenda cheia para justificar ausência na filiação do secretário da Segurança Pública de São PauloGuilherme Derrite, ao PP. Se a intenção era mesmo escapulir, como dizem seus aliados, não funcionou. Para garantir a presença de Tarcísio, o evento foi adiado por duas semanas.

Na festa desta quinta (22), enquanto índices de criminalidade batem recorde em São Paulo, o chefe da segurança pública foi aclamado como candidato ao Senado ou até herdeiro de Tarcísio.

Trump contra Harvard - Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

A guerra contra universidades é mais uma prova de que o americano pretende destruir a democracia

Na última semana, Trump proibiu a Universidade Harvard, a melhor do mundo, de receber estudantes estrangeiros. A decisão foi uma escalada dramática da guerra trumpista contra as universidades americanas, que já tinha atingido outras grandes escolas, como Columbia.

A decisão veio após Harvard se recusar a aceitar uma lista de demandas contida em uma carta do governo Trump de 11 de abril. Trata-se de um documento histórico importante para a análise do trumpismo.

Tempo paroxístico de monstros - Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Cabe remontar ao sentido da palavra ‘monstrum’ para ponderar as evidências de formas voltadas para a destruição

Num dos episódios da série distópica "Black Mirror", soldados são programados por um chip cerebral para alterar a apreensão da realidade: olhando para pessoas comuns, supostamente inimigas, enxergam monstros. Ou seja, seres anômalos, fora dos parâmetros normais. "Monstrum", na Antiguidade, era o sinal dado aos homens pelos deuses de que uma coisa terrível estava para acontecer.

A palavra latina tem a mesma origem de "mostrar", mas acabou desviando-se da ideia de tornar algo visível para designar disformidades reais ou imaginárias, como Drácula e Frankenstein. Em termos de comportamento, costuma-se atribuir monstruosidade a figuras como HitlerStalin, Pol Pot, Bokassa, Pinochet e uma esteira de bárbaros nessa linha.

Imortalidades - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Novo livro de Eduardo Giannetti da Fonseca esmiúça as possibilidades seculares e religiosas de transcender a morte

"Imortalidades", o mais recente livro de Eduardo Giannetti da Fonseca, é muito bom. Trata do que possivelmente é o tema mais relevante que existe —a vida como a experimentamos é tudo o que há ou podemos transcendê-la?— e o faz com erudição, rigor e arte.

Antes de continuar, o alerta que costumo lançar quando o autor do livro que resenho é meu amigo. Sempre tento ser objetivo, mas a própria definição de amizade já embute uma boa dose de benevolência. Ciente disso, cabe ao leitor aplicar os descontos que julgar necessários.

"Imortalidades" consiste de 235 microensaios —forma a que Giannetti parece ter aderido definitivamente— que podem ser lidos de modo mais livre do que um texto corrido. Neles, o autor traça uma radiografia panorâmica das várias imortalidades que podemos conceber e as destrincha, recorrendo à ciência, à filosofia e à literatura.

Igualdade - Edilberto Pontes Lima:

O Povo (CE)

A desigualdade não é apenas uma estatística incômoda: é uma ameaça concreta à coesão social, à democracia e à esperança. Vivemos tempo em que poucos acumulam cifras incompreensíveis e muitos lutam por dignidade básica

Li recentemente o livro Igualdade, que é basicamente a reprodução de um instigante diálogo entre o economista francês Thomas Piketty e o filósofo americano Michael Sandel. O livro reconhece os avanços ao longo da história da humanidade, tanto na ampliação do acesso a bens e serviços, quanto nos direitos de participação política, mas aponta os imensos abismos ainda existentes. Ao longo da leitura, lembrei de uma reflexão cortante de Adam Smith, em A Riqueza das Nações: "Tudo só para nós e nada para outras pessoas parece ser, em qualquer época do mundo, a máxima vil dos que dominam a humanidade."

Não é uma frase de um panfleto revolucionário, mas de um pensador que fundou as bases do liberalismo econômico. E, no entanto, apesar dos progressos em várias áreas, a denúncia, como ressaltam Piketty e Sandel, ainda ecoa com força no mundo de hoje.

A nova elite política do estado do Rio de Janeiro: poder, território e disputa de hegemonia rumo a 2026 - Paulo Baía*

O Rio de Janeiro, esse território onde a beleza convive com a miséria, o esplendor urbano contrasta com a violência estrutural e a cultura vibrante se choca com os fantasmas do autoritarismo, segue sendo um dos principais laboratórios sociopolíticos do Brasil. Terra de contradições históricas, o estado fluminense abriga, em sua paisagem física e simbólica, a síntese das dinâmicas nacionais. E mais uma vez, às vésperas das eleições gerais de 2026, sua elite política se reorganiza, revelando os contornos de uma disputa que transcende partidos, ideologias e classes, assumindo contornos de luta civilizatória.

A elite política fluminense, como ensinam Wright Mills, Florestan Fernandes e Pierre Bourdieu, não se constrói apenas na esfera formal do jogo institucional. Ela é tecido vivo, bordado na intersecção de territórios, redes econômicas, grupos religiosos, oligarquias locais, movimentos sociais, estruturas empresariais, máquinas administrativas e, por vezes, zonas cinzentas onde o lícito e o ilícito se entrelaçam.

Poesia | CHICO ANYSIO diz poema de Ascenso Ferreira

 

Música | Folhas Secas - Luedji Luna (Sambabook Beth Carvalho)

 

sábado, 24 de maio de 2025

Opinião do dia – Paul Samuelson*

“De que uma economia é inservível se não opera no sentido de indicar os meios pelos quais, com recursos escassos, se possa promover o máximo de bem-estar possível para a maior parte da população."

*Paul Samuelson (1915-2009), economista norte-americano, amplamente reconhecido como um dos formuladores mais importantes das ciências econômicas modernas. Prêmio Nobel de Economia,1994.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Ameaças de Rubio são agressão à nossa democracia

Correio Braziliense

A declaração de Rubio foi celebrada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro, incluindo seu filho Eduardo Bolsonaro, que tem buscado apoio nos EUA para pressionar o STF e defender seu pai, atualmente réu por tentativa de golpe de Estado

Não se trata de simpatia ou antipatia pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Isso não vem ao caso. A declaração do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, sobre a possibilidade de sanções contra o ministro devido ao julgamento da tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, feita durante audiência na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes dos EUA, no último dia 21, é uma agressão à soberania brasileira e um desrespeito ao nosso Estado Democrático de Direito.

Questionado pelo deputado republicano Cory Mills, Rubio afirmou que a aplicação de sanções está "sob análise neste momento" e que há "uma grande possibilidade de que isso aconteça". Essa declaração envolve alegações, sem fundamento legal, de que o Brasil estaria enfrentando um "alarmante declínio dos direitos humanos", incluindo suposta "censura generalizada" e "perseguição política contra a oposição", conforme mencionado por Mills.

Máquina de corrupção autônoma - Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Suspeito de abuso político e econômico, grupo do governador manobra para continuar mandando

Não há nada mais previsível que a política do Rio de Janeiro, baseada no populismo, no clientelismo e na máquina de corrupção que parece funcionar de modo autônomo. A prisão e o afastamento de seis governadores não pararam a engrenagem.

Cláudio Castro conseguiu a aprovação de Thiago Pamplona, o vice-governador, para um cargo técnico, o de conselheiro do Tribunal de Contas. A manobra vai permitir que o presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, assuma o Palácio Guanabara no ano que vem. Bacellar será candidato ao governo estadual e Castro, ao Senado.

Ossos do ofício - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Eventual adoção de sanções dos EUA contra Alexandre de Moraes é criticável, mas não por violar soberania brasileira

Marco Rubio, o secretário de Estado dos EUA, afirmou que são grandes as chances de o seu país impor sanções ao ministro Alexandre de Moraes, do STF. Rapidamente, tanto o governo Lula quanto colegas de Moraes denunciaram a eventual punição ao magistrado como uma afronta à soberania brasileira.

Existem inúmeras boas razões para criticar a medida em estudo pelo governo Trump. A mais óbvia delas é que tudo não passa de um gesto político para dar algum alento a Jair Bolsonaro e à extrema direita brasileira, que enfrentam tempos adversos. Recorrer à soberania é provavelmente o único argumento que não funciona bem. Recapitulemos.

Os culpados e os inimputáveis – Eduardo Affonso

O Globo

Alguém que quebre o protocolo durante evento oficial e cause mal-estar diplomático merece censura pública. Mas, se o desastre tiver sido perpetrado pela primeira-dama, a crítica é tratada como machismo, misoginia

Uma das transformações impulsionadas pelos movimentos progressistas foi a ampliação da nossa sensibilidade para temas que envolvam mulheres, pretos, indígenas, pessoas trans etc. Isso, porém, tem descambado em condescendência, beirando a inimputabilidade.

Alguém que quebre o protocolo durante um evento oficial, aja de maneira inconveniente e cause mal-estar diplomático merece censura pública — dependendo do cargo, demissão por justa causa. Mas, se o desastre tiver sido perpetrado pela atual primeira-dama, a crítica objetiva é tratada como machismo, misoginia. Com isso, séculos de luta por emancipação são jogados no lixo. É paradoxal reivindicar igualdade e, ao mesmo tempo, pleitear tratamento de exceção baseado em gênero. Isso causa mais dano ao feminismo que qualquer ataque conservador.

Haddad perdidaço - Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

O ministro da Fazenda está perdido. Perdidaço. Suas últimas entrevistas foram constrangedoras. Suas decisões mostram incapacidade – falta de recursos para avaliações técnicas e políticas – e fraqueza. Fernando Haddad não tem convicção. Comunica isolamento. Foi atropelado.

Anunciou conjunto de medidas – o pacote original de aumentos no IOF, com implicações em câmbio e crédito – como um “pequeno ajuste”. Um grupo de iniciativas – para repressão financeira – que propunha controle de capitais: “pequeno ajuste”. São leitores assim, sob tal desconexão com o mundo real, que tomam decisões econômicas no Brasil.

A lógica que fundamenta as decisões econômicas deste Dilma III: arrecadar; arrecadar para gastar. Só o crescimento da despesa é seguro. Por criativo que seja o agente arrecadador, em algum momento a engenhosidade se esgotará. Não tardaria até que acionassem o botão do IOF. A regra é clara – a história ensina: apelou para o IOF, girou a chave da agonia. Recorreu ao IOF, declarou o vale-tudo.

Haddad e Janja decidem ajudar a oposição - Vera Magalhães

O Globo

Ministro entrega de bandeja nova oportunidade de ser chamado de 'Taxad', e primeira-dama insiste em fala torta sobre regulação das mídias

Não adianta nada trocar o comando da Secom se integrantes do governo e do seu entorno decidem agir sem levar em conta as consequências de suas falas para a imagem não deles, mas do próprio governo e, em última análise, do presidente.

A gestão Lula 3 tem várias e graves crises simultâneas em franco andamento, para as quais demora ou simplesmente não consegue esboçar resposta. E o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, um dos quadros mais qualificados e aquele de quem dependem o sucesso do governo e a reeleição de Lula, de novo erra em um momento que todo mundo vinha anunciando que não comportaria nenhum erro.

O pacotinho de maio e seus truques – Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Há programas sociais cujos gastos ainda não foram incluídos no Orçamento. Podem ser necessários outros cortes e mais impostos

O conjunto de medidas anunciado pelo governo ficou assim: um congelamento de gastos de R$ 31,3 bilhões e um ganho de arrecadação (esperado) de R$ 20,5 bilhões, neste ano. No total, portanto, um ajuste de quase R$ 52 bilhões — e tudo isso para terminar este ano, pelos cálculos dos economistas, com déficit de R$ 76,6 bilhões, o que representaria 0,6% do PIB.

O ministro Fernando Haddad disse, entretanto, que espera terminar o ano com um déficit “perto” do centro da meta do arcabouço fiscal. Ora, a meta é déficit zero, um valor que fica bastante longe do rombo verificado nas medidas anunciadas na última quinta-feira. Como é possível ficar tão longe e tão perto ao mesmo tempo?

O desafio da produtividade - Marcus Pestana

Infelizmente o Brasil continua patinando em assuntos que já deveriam estar resolvidos. A energia deveria ser gasta com as questões essenciais e estratégicas. O país tinha tudo para jogar na primeira divisão dos países desenvolvidos a partir da base criada no século XX. Perdemos o fio da meada e a rota do crescimento acelerado. A forma mais eficaz de enfrentarmos a miséria e a pobreza é a geração de renda e emprego em patamares de qualidade crescentes. Hoje o nó fiscal estrangula nossas perspectivas. Enquanto os países emergentes e asiáticos investem entre 30 e 40% de seus PIBs, o Brasil investe 17%.

Absurdos da “Ciência” Econômica - Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

Os modelos dos economistas não integram o particular ao geral nem tocam o abstrato e o concreto ao mesmo tempo

Keynes dizia que os requerimentos exigidos do bom economista eram muitos: ele deveria combinar os talentos do “matemático, historiador, estadista e filósofo (na medida certa). Deve entender os aspectos simbólicos e falar com palavras correntes. Deve ser capaz de integrar o particular quando se refere ao geral e tocar o abstrato e o concreto com o mesmo voo do pensamento. Deve estudar o presente à luz do passado e tendo em vista o futuro. Nenhuma parte da natureza do homem deve ficar fora da sua análise. Deve ser simultaneamente desinteressado e pragmático: estar fora da realidade e ser incorruptível como um artista, estando, embora noutras ocasiões, tão perto da terra como um político”.

Câmara vs. Supremo - Pedro Serrano

CartaCapital

O Congresso Nacional não pode outorgar para si próprio a condição de guardião máximo da nossa Constituição

A Câmara dos Deputados, na sessão deliberativa realizada em 7 de maio de 2025, decidiu sustar uma ação penal em curso no Supremo Tribunal Federal. O processo foi instaurado após o recebimento de uma denúncia da Procuradoria-Geral da República contra o ex-presidente da República Jair Bolsonaro e outros 33 acusados pelos crimes de organização criminosa armada, abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado.

O dispositivo adotado para tanto foi o parágrafo 3º do artigo 53 da Constituição, o qual prevê que, recebida a denúncia contra um senador ou ­deputado por crime ocorrido após a diplomação, o STF dará ciência à Casa respectiva, que, por iniciativa de partido político nela representado e pelo voto da maioria de seus membros, poderá, até a decisão final, sustar o andamento da ação.

A Transição Energética, o Brasil e a COP 30 - George Gurgel de Oliveira

A problemática energética reflete interesses variados de caráter público e privado, respalda distintas estratégias políticas, econômicas, sociais e ambientais, tanto nos países capitalistas centrais, onde está concentrado o consumo energético mundial, quanto nos chamados países em desenvolvimento, nos quais vive a maioria absoluta da humanidade, com baixo consumo de energia.

A interdependência entre as questões econômicas, sociais e ambientais em sí e as demandas de energia, coloca a discussão da problemática energética nos planos nacional e internacional, mobilizando interesses de estado, de governo, de mercado e da cidadania preocupados com a maneira pela qual as potencialidades energéticas estão sendo apropriadas da natureza e de que maneira são utilizadas nas diversas atividades humanas. Essas relações acontecem de maneira desigual entre os países do G20, os Bricks, os países da América Latina, África e Ásia, com impactos diferenciados na vida econômica, social e ambiental de cada sociedade. Essas escolhas e relações determinaram e determinam sociedades (in)sustentáveis.

A Transição Energética

Desde a a primeira revolução industrial, ampliou-se o nível de intervenção humana no planeta. No século XX, essas intervenções aumentaram consideravelmente, colocando em risco a sobrevivência dos ecossistemas planetários e da própria humanidade. As chuvas ácidas, o efeito estufa e a emissão de dióxido de carbono – CO 2 gerados com a combustão de petróleo, carvão mineral e derivados, junto com o gás metano, são os principais responsáveis pela emissão de carbono na atmosfera. Nesse período histórico, a questão energética levava em consideração apenas os aspectos técnicos de quantificação da produção e consumo de energia. Essa abordagem viu-se irremediavelmente comprometida com o aumento do preço do petróleo nos anos 70, quando então ficou evidente a impossibilidade de um crescimento econômico baseado em suprimento de energia de baixo custo. Então, foram abalados os mecanismos de funcionamento dos sistemas energéticos e da própria economia, em escala mundial. As crises do petróleo a partir dos anos 70 do século passado e a realidade atual da indústria petrolífera mundial, acentuam incertezas em relação a oferta deste combustível, muitas vezes, desde os primórdios da indústria petroleira, resolvidas manu militare.

A construção de sistemas energéticos baseados em carvão mineral, hidrelétricas, petróleo, gás natural, nuclear e carvão vegetal consolidou o modelo energético mundial para atender as demandas industriais e urbanas. Esse modelo energético pela maneira que desenvolveu a produção, transporte, distribuição e consumo de energia é responsável por graves problemas sociais e ambientais, a exemplo dos acidentes envolvendo navios petroleiros, vazamentos em usinas nucleares, minas de carvão mineral, construção de hidroelétricas e produção de biomassa, ampliando-se consideravelmente a degradação ambiental, impactando as populações atingidas por essas atividades, que migram e sofrem as consequências econômicas, sociais e ambientais advindas desse modelo.

Portanto, a infraestrutura energética atual continua concentrada e baseada em processos produtivos intensivos em energia (mineração, siderurgia, metalurgia, papel e celulose, cimento, petroquímicos, transportes,...), sendo os mesmos responsáveis por uma parte considerável do consumo energético mundial. A mercadoria energética possibilita lucros e benefícios fabulosos a determinados países e corporações transnacionais, excluindo regiões, países e mais de 1/3 da população mundial. Colocando-se como imperativo a necessidade de uma revisão nas formas de abordagem da questão energética, devendo considerar outras questões relevantes a ela associadas, além da oferta, entre as quais, destacam-se a questão social, a ambiental e o próprio uso da energia.

Assim, evidencia-se que a energia é uma variável importante da sociedade contemporânea. A maneira como ela é apropriada na natureza, produzida, distribuída e consumida indica níveis de bem-estar de uma sociedade e suas interrelações como o meio ambiente. Ficando evidente que a escolha de uma determinada política energética reflete diretamente na qualidade de vida das populações.

O Brasil e a COP 30: Oportunidades e desafios

Desde a Convenção de Mudanças Climáticas, realizada na ECO-92, propondo a diminuição do uso de combustíveis fósseis, passando pela Conferência em Paris (2016), até a COP 30 a ser realizada este ano no Brasil, persistem os entraves para a implementação de medidas efetivas no caminho da diminuição do uso de combustíveis fósseis. Fundamentalmente, os compromissos não são implementados por razões políticas e econômicas. A transição energética para a economia de baixo carbono é um processo de alto custo econômico, cientifico e tecnológico, onde os EUA, a China, a Rússia e a Comunidade Europeia deveriam ter um maior protagonismo, por ter sido esses países os principais responsáveis pela atual situação climática do planeta.

Constata -se, por exemplo, que os investimentos para as guerras hoje em andamento, são muito maiores que os necessários para a transição energética. Portanto, precisamos de mudanças e medidas efetivas destes países e um maior protagonismo das organizações multilaterais mundiais, a exemplo da ONU, FMI, OIT e da própria Indústria Mundial de Petróleo, entre outros, que nos leve a uma outra perspectiva societária, no caminho da almejada transição energética.

O imperativo da transição energética já não pode mais ser ignorado na formulação das políticas públicas nacionais, inclusive no Brasil, principalmente a partir da RIO – 92. Desde então, há uma maior participação das Organizações Mundiais e da Sociedade Civil nesses processos, discutindo políticas que minimizem os efeitos das mudanças climáticas, efetivamente.

Ainda, é importante considerar que a era do petróleo deverá prolongar-se durante o Século XXI. Novas reservas estão sendo descobertas, inclusive no Brasil. O cenário tendencial da indústria petrolífera é de aumentar o custo do barril de petróleo, atualmente em torno de 60 dólares, podendo ser utilizado para fins mais nobres do que o automotivo. Os combustíveis fosseis representam 82% do consumo de energia primária mundial (2023), com a liderança do petróleo, em seguida o carvão mineral e, em terceiro lugar, o gás natural.

No Brasil e no mundo há um avanço do consumo de energias renováveis, onde se destacam a energia hidrelétrica, eólica, solar e biomassa. Aumenta no Brasil e mundialmente o uso de micro e mini hidrelétricas e destilarias, coletores solares térmicos e fotovoltaicos, biodigestores e geradores eólicos, buscando-se caminhar para a almejada economia de baixo carbono.

A realização da COP 30 no Brasil no próximo mês de outubro, nos desafia a discutir a nossa matriz energética no caminho de descarbonização da economia brasileira. Qual a matriz energética que temos e a que queremos ter no horizonte dos próximos 5-10-20 anos? Aqui é fundamental a participação da sociedade na busca de uma avaliação mais ampla sobre o papel do Estado e do mercado na área energética, na perspectiva de uma matriz energética de baixo carbono, com uma maior participação da biomassa, energia solar e eólica.

Institucionalmente, o Brasil deve buscar a integração dos sus diversos sistemas: elétrico, petróleo e gás natural, álcool e bagaço de cana, carvão mineral, lenha e carvão vegetal, solar, eólica e outras biomassas, buscando criar mecanismos, que proporcionem uma efetiva integração, publicização e participação social mais ampla na discussão, formulação e implementação da política energética brasileira, incentivando a regionalização e uma maior integração com a América Latina .

Assim, o desafio brasileiro continua a ser a afirmação e a implementação de uma política energética que seja integrada nacionalmente, considerando as potencialidades regionais. Esta nova política energética brasileira deve reavaliar a atual estrutura tarifária e de preços, perseguindo a conservação, a eficiência e o desenvolvimento de novas tecnologias energéticas, em especial para a cogeração, apoiando e participando de iniciativas para uma maior incorporação das energias solar, eólica e biomassa, melhorando a confiabilidade do sistema elétrico nacional e, ainda, a ampliação da produção de energia de forma descentralizada, tanto para atender populações nas áreas rurais, quanto para a mobilidade urbana, envolvendo instituições governamentais, comunidade cientifica, organizações empresariais e da sociedade civil, no caminho de uma matriz energética brasileira de baixo carbono.

A agenda brasileira para a CP30 deverá ter na sua centralidade um maior protagonismo do Brasil na transição energética mundial, particularmente no mercado de carbono. A delegação brasileira deverá apresentar uma agenda substantiva de Programas e Projetos para o aumento da produtividade e da eficiência energética. A transição energética brasileira deverá ter como foco a diminuição do consumo de combustíveis fosseis, através de taxação ou substituição por energias renováveis ou de melhoria da eficiência do uso, via novos processos tecnológicos nas áreas de conservação, cogeração e produção de energia, transporte, construção civil, reciclagem e novos materiais, diminuindo a intensidades energética da indústria nacional, considerando a escala de produção, o controle das fontes de energia, o acesso às tecnologias de transformação dessas fontes em energia útil e o papel de algumas regiões e países fornecedores de bens intensivos em energia, principalmente os chamados países em desenvolvimento, que como o Brasil, continuam sendo exportadores de energia, como a América Latina e a África, exportadores de minérios, alumínio, papel e celulose, todos energo-intensivos.

Estas são questões relevantes a serem avaliadas na COP30, colocando permanentemente a necessidade de discutir o papel dos diversos atores políticos, econômicos, sociais e ambientais envolvidos, tanto no plano nacional, quanto internacional.

Finalmente, destacar que a democratização das relações entre o Estado e a Sociedade é a base dessa almejada transição energética brasileira, latino-americana e mundial, questões que deveriam ser consideradas na COP30, a ser realizada no próximo mês de outubro no Brasil, na cidade de Belém do Pará.

*Dr.Sc.da Diretoria Instituto Politécnico da Bahia.

 

Zé da Grota e outras histórias, um livro arrebatador – Ivan Alves Filho*

Eu sou apenas um leitor. O que eu quero dizer com isso? Eu aprecio os livros, mas não tenho formação de crítico literário. Nem de longe. Sou um historiador que gosta de ler. Somente isso. Nada muito especial conforme se pode ver.

Contudo, vou ousar um pouco e tecer algumas observações a respeito de um livro que li de uma tacada só, como se diz. Trata-se de Zé da Grota e outras histórias, de Sáulo José Alves.

A obra é um documento social, descrevendo a vida rural brasileira de forma simplesmente magistral. Raramente li um livro tão prazeroso, de trama tão bem conduzida. Um livro cuidadoso, eu diria até. Um cuidado que se estende à maneira de contar, com um domínio absoluto da arte da escrita. Uma combinação rara entre a linguagem interna – ou a forma como a história é contada – e aquilo que é mostrado por essa mesma linguagem nas páginas do livro, o que chamamos de conteúdo. O como e o quê totalmente entrelaçados. Ou a forma não é o conteúdo da Arte?