segunda-feira, 27 de julho de 2026

Brasil tem encontro marcado com o passado na Pequena África, por Ana Cristina Rosa

Folha de S. Paulo

O mês de julho tem se mostrado um período de tomada de decisões importantes para a reparação histórica e a preservação da memória da escravização no Brasil

Cento de Interpretação e Memória Africana no Complexo do Valongo deverá promover um encontro do Brasil com um passado que precisa ser lembrado e jamais reprisado

Para além da mobilização política em torno da luta das mulheres negras contra o racismo e o sexismo, o destino tem feito do sétimo mês do ano um período de tomada de decisões importantes para a reparação histórica e a preservação da memória da escravização no Brasil.

Em julho de 1978, nascia o Movimento Negro Unificado num ato público nas escadarias do Theatro Municipal de São Paulo. Em 2017, foi em julho que a Unesco reconheceu o sítio arqueológico Cais do Valongo, no Rio de Janeiro, como Patrimônio Mundial.

Mais que mera decisão burocrática de gestão orçamentária, a reestruturação do prédio representa uma vitória política dos movimentos sociais e um avanço na luta pelo resgate e a preservação da memória histórica nacional.

Construída pelo engenheiro e abolicionista negro André Rebouças, foi a primeira obra pública do país sem o uso de mão de obra escravizada, num tempo em que a escravização era o meio de produção dominante.

Agora o local que presenciou o encontro de muitas Áfricas por reunir africanos de diferentes regiões daquele continente irá abrigar o Centro de Interpretação da Memória Africana no Complexo do Valongo. Será um espaço de visitação, ensino, pesquisa e afirmação política e cultural da herança africana.

O Valongo, para quem ainda não sabe, foi a principal porta de entrada de africanos escravizados nas Américas. Trata-se do único local do país reconhecido internacionalmente como lugar de memória do tráfico transatlântico de escravizados e da resistência da população negra diante da violência e da exclusão causadas pela escravização e pelo racismo.

A região conhecida como Pequena África está prestes a se tornar um espaço de encontro do Brasil com um capítulo da história que precisa ser conhecido, lembrado e jamais reprisado.

 

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