sábado, 12 de setembro de 2026

O que fazer com a AfD? Por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Estratégia de isolar partidos da direita radical pode estar com os dias contados

Forças democráticas precisam buscar meios de reduzir virulência dessas legendas

Até aqui, a estratégia dos partidos mainstream europeus de isolar a direita radical para impedir que ela chegue ao poder tem experimentado sucesso relativo. Exemplos desse mecanismo de "cordon sanitaire" incluem a eleição presidencial portuguesa de fevereiro, quando o ultradireitista André Ventura, do Chega, foi derrotado, e as duas vezes, 2017 e 2022, em que sua congênere francesa, Marine Le Pen, perdeu o segundo turno do pleito para Emmanuel Macron.

Para bolsonaristas, Mendonça vale mais que Trump, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Personagem das eleições, ministro do STF vive hoje seu momento BBB

De interferência na PF ele entende desde os tempos em que substituiu Moro na pasta da Justiça

A menos de um mês do comparecimento às urnas, quando o debate de propostas e programas deveria alcançar o ponto máximo nas ruas e redes, todas as atenções se voltam para a rinha de galos no STF. É mais uma falsificação que busca se intrometer e deturpar o processo eleitoral. De esporada em esporada, de golpinho em golpinho, morre a democracia.

Até o mais ingênuo lobo-guará de Brasília sabe que o ministro André Mendonça —indicado por Bolsonaro com credenciais de "terrivelmente evangélico"— age para favorecer uma certa candidatura. Louve-se a ausência de cinismo nas maquinações. É um jogo pesado, mas às claras.

Sobre como se blinda, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

A sessão do Supremo marcada para 15 de setembro tem como fundamento uma mentira: a de que seria competência exclusiva do plenário autorizar investigação contra ministro. Isso inexiste na Lei e no Regimento do STF – invenção destinada a tornar ainda mais difícil o impossível.

Este artigo parte de um pressuposto: o de que o Supremo não autorizará investigação contra Alexandre de Moraes; consultor de Vorcaro sobre se o banqueiro com ordem de prisão expedida contra si – sabedores ambos dessa informação sigilosa, que discutiam – deveria fugir do País. O cronista quer estar errado. Nunca um ministro do STF foi investigado. Não será esta composição do tribunal a fazê-lo.

O Auto da Compadecida americano, por Fabio Gallo

O Estado de S. Paulo

Donald Trump sobe ao palco e promete US$ 5 mil a cada americano. A plateia aplaude

Não sei, só sei que são US$ 5.000! Diria Chicó, que estaria feliz com a oferta de Trump. Ariano Suassuna talvez tivesse dificuldade para imaginar uma cena melhor. Donald Trump sobe ao palco e promete US$ 5.000 a cada americano adulto se os republicanos mantiverem o controle do Congresso. A plateia aplaude. Alguém pergunta quanto vai custar. Cerca de US$ 1,2 trilhão.

De onde virá o dinheiro? Das tarifas, dizem seus defensores. Mas elas estão arrecadando algo próximo de um décimo do necessário.

Quem exatamente receberá? Inicialmente, todos os adultos. Depois, talvez apenas trabalhadores e classe média.

Previdência: eis a questão! (I), por Marcus Pestana

Há uma questão absolutamente central, complexa e de grande repercussão social que é solenemente tangenciada nas discussões eleitorais: o futuro do sistema previdenciário.

O mundo moderno surgiu a partir da Revolução Industrial, no final do século XVIII. Inaugurou-se uma longa etapa apelidada de capitalismo selvagem. Não havia direitos dos trabalhadores, nem políticas públicas sociais. As jornadas de trabalho eram exaustivas. As condições de vida (alimentação, moradia e saneamento) eram sub-humanas. Neste ambiente residem as raízes do movimento e do pensamento socialistas e das estruturas sindicais. A luta dos trabalhadores e o avanço da democracia política resultaram na consolidação paulatina do Estado do Bem-Estar Social. Surgiram previdência, educação e saúde públicas e reformas e leis para humanizar o sistema.

O preço da negociação, por André Gustavo Stumpf

Correio Braziliense

Só depois das eleições, será possível restabelecer o ambiente de relativa tranquilidade na política nacional. No Brasil, as brigas são rituais. A constante é o acordo. Tem custo, mas quem paga é a população

Eleição presidencial é sinônimo de crise institucional. A rima é pobre, mas o assunto é rico. A perspectiva de mudança no poder do Brasil dá origem a disputa violenta, com diversos golpes abaixo da linha da cintura. E não há juiz capaz de interromper o tiroteio. Nem os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Eles, aliás, tornaram a situação ainda mais grave. Só depois das eleições, será possível restabelecer o ambiente de relativa tranquilidade na política nacional. Até o fim de outubro, a troca de ofensas será a constante no cenário político brasileiro.  

O STF diante de seus próprios limites, por Juliana Diniz*

O Povo (CE)

Quando a política se transforma em vale-tudo, o Direito Constitucional deixa de operar, se torna inócuo. Testemunhamos um momento inédito de disputa fratricida entre ministros, e o risco é de que o STF perca sua legitimidade social, sua autoridade

Supremo Tribunal Federal está imerso em crise profunda, e o momento nos oferece a oportunidade de entender o quão delicado (e importante) é o equilíbrio das instituições em uma democracia. Disfunções, violações de formalidades, invasões de competência e desrespeito à independência entre os poderes cobram um preço alto, e quem paga é a sociedade como um todo.

Convido os leitores a pensarem especificamente sobre o papel institucional do STF. Como corte constitucional, o Supremo tem o papel de zelar pela integridade e cumprimento da constituição. Ele pode declarar que leis são inconstitucionais e tem, excepcionalmente, o papel de julgar criminalmente autoridades da cúpula dos poderes da República.

Nota conjunta da SBPC e da ABC em defesa da Constituição e do Estado Democrático de Direito

A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) acompanham com preocupação as tensões que envolvem instituições centrais da República e reafirmam seu compromisso com a Constituição, o Estado Democrático de Direito e a igualdade de todos perante a lei.

Não cabe às entidades científicas substituir as instâncias competentes na investigação dos fatos ou antecipar juízos sobre responsabilidades individuais. Cabe-lhes, contudo, participar do debate público e defender os princípios que sustentam a vida democrática. É com esse compromisso, e não em defesa de pessoas ou interesses político-partidários, que a SBPC e a ABC se manifestam.

A democracia exige instituições independentes e, ao mesmo tempo, submetidas à Constituição. Defender as instituições não significa proteger seus integrantes de investigação ou responsabilização. Nenhuma autoridade está acima da lei ou dispensada do escrutínio público e do dever de prestar contas à sociedade.

Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelas instâncias competentes, com independência e imparcialidade, assegurados o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa. Responsabilidades comprovadas devem produzir as consequências previstas em lei. A blindagem de autoridades não fortalece as instituições: corrói sua credibilidade.

Ressentimento e saudosismo, por Sérgio C. Buarque *

Revista Será?

A vitória da AfD (Alternative für Deutschland), partido de extrema direita, nas últimas eleições no Estado da Saxônia-Anhalt despertou grande inquietação mundial ao confirmar a força política de um partido de inspiração nazista na Alemanha. A Saxônia-Anhalt é um dos menores Estados alemães, com apenas 2,1 milhões de habitantes, o equivalente a 2,5% da população do país. Mesmo assim, a ascensão da AfD assusta, especialmente porque, em se tratando da Alemanha, desperta também o fantasma do nazismo, de triste memória.

Presenças Impróprias e Ausências Lastimáveis, por Elimar Nascimento *

Revista Será?

Outra vez a nação está atolada no lodaçal dos malfeitos. O escândalo do Banco Master atingiu um novo patamar. O envolvimento de juízes, procuradores, senadores, deputados, ministros, burocratas e governadores ganha contornos mais nítidos. A sensação é de que meio mundo se locupletou. Daniel Vorcaro é um astro. Ninguém conseguiu tanto. Nenhum escândalo neste século envolveu tanto dinheiro e tantas autoridades públicas. A OAB e o presidente da República pedem que todas as investigações se tornem públicas e que cesse a quebra seletiva de sigilo, como a promovida pelo ministro André Mendonça. O presidente do STF, ministro Fachin, tem diante de si um desafio que jamais imaginou.

A eleição não encerrará a crise, por Murillo de Aragão

Veja

As urnas distribuem poder, mas não corrigem as instituições

Quando escrevo este artigo, faltam 25 dias para o primeiro turno da eleição. Para quem tem telhado de vidro, três semanas podem parecer uma eternidade, sobretudo num ambiente em que revelações constrangedoras surgem quase diariamente e se incorporam à disputa política. Muita coisa ainda pode acontecer até o eleitor chegar à urna.

O que chama atenção não é apenas a exposição dos candidatos presidenciais, mas a dificuldade das instituições para assegurar que o processo eleitoral transcorra dentro do mínimo de normalidade. A disputa de 2026 apresenta, nesse sentido, duas características que a diferenciam das anteriores.

A crise no STF, por Luiz Gonzaga Belluzzo

CartaCapital

As relações promíscuas entre as autoridades judiciais e a mídia colocam os cidadãos brasileiros diante da pior das incertezas: a absoluta imprecisão dos limites da legalidade

Nada mais trágico para a sociedade brasileira do que a perda de legitimidade e de reputação do Poder Judiciário. Não escapa aos olhos dos cidadãos mais atentos que a regra da separação e equilíbrio harmônico dos poderes tem sido substituída pela autonomização das instituições republicanas, em clara violação dos princípios erigidos e rediscutidos ao longo de séculos de consolidação do Estado de Direito.

Corte em pedaços, por André Barrocal

CartaCapital

As recentes decisões de Edson Fachin não garantem o fim da crise no STF

Flávio Bolsonaro bem que tenta, mas Dark Horse não é página virada. O homem encarregado de fazer com que o dinheiro de Daniel Vorcaro, dono do finado Banco Master, chegasse aos realizadores do filme sobre Jair Bolsonaro acaba de ter a delação premiada homologada no Supremo Tribunal Federal e os detalhes sobre o envio dos dólares começam a vir a público. Um dia depois, a Polícia Federal foi às ruas apreender documentos e vasculhar endereços da dona da produtora da cinebiografia, ­Karina Ferreira da Gama, e do roteirista da obra, o deputado Mario Frias, secretário de Cultura no governo do capitão. A batida policial foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, encarregado no STF de um inquérito sobre o repasse de uma emenda parlamentar de Frias a uma ONG de Karina, o Instituto Conhecer Brasil. A ONG é alvo da Polícia Civil paulista por causa de um contrato de 108 milhões de reais com a prefeitura da capital, e o delegado do caso, Antônio Carlos Munuera Silveira, aponta “consistentes suspeitas” de que o acordo serviu para bancar Dark Horse. Em agosto, Dino havia liberado a PF para ter acesso total às investigações em curso em São Paulo.

Credibilidade em risco, por Pedro Serrano

CartaCapital  

Não se pode permitir que um integrante do STF interfira de forma inconstitucional na estrutura republicana 

O Supremo Tribunal Federal atravessa uma crise inaudita, escalada no exato momento em que escrevo este artigo. A decisão do ministro André Mendonça de afastar o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, é absolutamente inconstitucional e ilegal. Ela implica interferência indevida no funcionamento do Poder Executivo e da PF como instituição autônoma, contrariando a tripartição de poderes da República e diversos princípios essenciais da nossa Constituição.

Aparentemente, estamos ingressando em um momento em que o papel do ministro Mendonça passa a ser o de um agente político que interfere diretamente nas condições de disputa política de poder no plano eleitoral. A rigor, trata-se da destruição da função de magistrado como aplicador da Constituição e da lei. Não se pode permitir que um ministro do STF exerça uma interferência desse tipo na estrutura republicana e no funcionamento do Poder Executivo. Um delegado da Polícia Federal exerce função de polícia judiciária, mas é vinculado ao Executivo.

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Coragem, Fachin

Por CartaCapital

Como se portará o presidente do STF diante da encruzilhada? 

Nos momentos de encruzilhada do Brasil, e não foram poucos em mais de 70 anos de jornalismo, quando os responsáveis pelos caminhos ou descaminhos do País eram postos à prova, Mino­ ­Carta sacava da algibeira uma frase: “Os homens se medem nas circunstâncias”, combinado das reflexões de pensadores de épocas distintas. Ao contrário do que se imagina, Mino era um otimista incorrigível e nunca seguia a recomendação de depositar as esperanças no chão antes de cruzar o umbral de mais um círculo do Hades brasileiro. A esperança durava pouco, pois, em geral, a coragem dessas personagens nos momentos decisivos se media em centímetros, como os habitantes de Lilliput. A reação seguinte, óbvio, era de indignação, aliviada por meio de impropérios cujo mais sonoro era “CREEEETIIIIINOOOOS!” Também não podia faltar o “bando de corja”, expressão que poderia ter saído das páginas de Manuelzão e Miguilim, mas é da lavra do pai de ­Políbio. Mundialmente conhecido como Dó, Políbio foi o Sancho Pança do cavaleiro errante Mino nas intermináveis batalhas contra os moinhos de vento.

Fargo ou o interesse bem triturado, por Pablo Spinelli

Dedicado ao amigo Ricardo, que ria no cinema vendo o moinho.

Trinta anos depois, Fargo (1996), dos irmãos Joel e Ethan Coen, permanece soterrado naquela neve excessivamente branca que, longe de purificar os homens, apenas torna mais visíveis as manchas de sangue deixadas por suas escolhas. Jerry Lundegaard (William H. Macy), vendedor de automóveis, marido submisso e pequeno empreendedor de grandes desastres, organiza o sequestro da própria esposa para arrancar dinheiro do sogro. Não deseja conquistar o mundo: quer apenas resolver rapidamente seus problemas financeiros. É justamente aí que mora o perigo. As democracias raramente são destruídas somente por grandes vilões; frequentemente começam a apodrecer pelas mãos de homens aparentemente comuns, convencidos de que uma pequena fraude, uma mentira provisória ou um sequestro familiar de consequências supostamente controláveis seriam apenas atalhos legítimos para a felicidade.

Poesia | João Cabral de Melo Neto, de Grasciliano Ramos

 

Música | MPB4 - Roda viva