O Supremo diante da História
Por O Globo
Corte tem de autorizar já investigação de
Moraes — e repelir as manobras protelatórias
Na sessão plenária de terça-feira, dia 15 de setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) tem um encontro marcado com a História. Sob a presidência do ministro Edson Fachin, a Corte decidirá se a lei vale para todos ou se existe alguém acima dela. Na pauta, a decisão sobre se o ministro Alexandre de Moraes pode ser investigado — não julgado, nem sequer processado, apenas investigado. O motivo: 52 mensagens encontradas pela Polícia Federal (PF) no telefone celular de Daniel Vorcaro, possivelmente o maior fraudador da História do sistema financeiro nacional.
Nelas, o banqueiro, já sob intensa
investigação e prestes a ser preso, além de jurar lealdade, pede conselhos e
ajuda ao ministro e, pelo que se pode depreender da conversa, parece receber
dele informações sob segredo de Justiça. Há, ainda, indícios mais graves:
encontros entre o fraudador e o ministro fora da agenda oficial e um contrato
de R$ 130 milhões celebrado entre o Banco Master e o escritório de Viviane
Barci de Moraes, mulher do ministro, sem qualquer contrapartida à altura.
Passados muitos meses desde que as primeiras
denúncias chegaram ao conhecimento público, Moraes não foi capaz de apresentar
nenhuma explicação plausível. Talvez exista alguma, e ele possa demonstrar que
não violou a lei. Como deveria ocorrer com qualquer brasileiro sob quem paire
uma suspeita, ele tem direito ao devido processo legal e a ampla defesa. Pode
constituir advogado, acompanhar as investigações, apresentar os argumentos que
desejar e usufruir todos os recursos disponíveis no Direito processual
brasileiro, seja na fase de investigação ou na eventual ação penal. O que não
pode é estar acima da lei. Nossa Constituição, que os ministros do Supremo
juraram respeitar e seguir, dispõe que todos são iguais perante a lei. Diante
da robusta evidência apurada pela PF, para ser igual aos demais brasileiros,
Moraes precisa ser investigado, com isenção e respeito à lei, mas sem
privilégios.
Respondamos a uma das perguntas do banqueiro
agora preso na correspondência enviada ao ministro: não, não dá para bloquear a
investigação. Apesar das torcidas apaixonadas, não tem qualquer relevância que
Moraes seja um símbolo da resistência democrática durante os momentos críticos
do governo Jair Bolsonaro. Um passado honrado não apaga nenhum crime posterior.
A politização de nossa mais alta Corte, que
vem provocando muitos desarranjos institucionais e culminou com a anarquia
judicial que se viu nas últimas semanas, confunde a população e faz parecer que
a discussão é política. Não é. O STF não é uma arena política. É um tribunal
—e a ele só deve interessar que sejam cumpridas a Constituição e a lei.
E o ministro é apenas um brasileiro sujeito
às leis de seu país. Costuma-se dizer que as instituições são fortes no Brasil.
Até aqui, tem sido realidade. Mas as sociedades são organismos vivos, sujeitos
a oscilações, e isso pode mudar a qualquer momento. O STF deve decidir que
agora, sem postergação, sem pedidos de vista protelatórios, é o momento de se
redimir e iniciar a restauração da dignidade do país pela via institucional.
A sessão de terça não julgará Moraes no
mérito, mas, repitamos, apenas autorizará que seja investigado. Por isso, as
manobras do decano Gilmar Mendes e do próprio Moraes não fazem sentido — são
subterfúgios para confundir. Agiu bem, portanto, mais uma vez Fachin, ao
afastar o pedido de adiamento e, em vez disso, marcar para o dia 23 a apreciação
do relatório que Moraes encomendou à PF com denúncias frágeis contra Mendonça.
Os ministros que votarem pela abertura da
investigação sobre o envolvimento de Moraes no caso Master optarão pelo caminho
da dignidade. Os outros contribuirão para a corrosão do tribunal como
instituição e receberão dos brasileiros e da História a merecida reciprocidade
no julgamento de suas biografias.
Governo precisa calibrar medidas de reação à
alta no barril do petróleo
Por O Globo
Incentivos a gasolina, diesel e etanol devem
ser temporários, monitorados com foco técnico — e não eleitoral
O Brasil não é o único país do mundo a tentar
amortecer a alta dos combustíveis como resultado do conflito no Oriente Médio.
O importante é manter eventuais subsídios como temporários, calibrá-los à
necessidade e evitar que deteriorem as contas públicas. Infelizmente, nem
sempre isso tem acontecido.
No mês passado, o Congresso aprovou o Projeto
de Lei Complementar dos Combustíveis. Como usou recursos do Tesouro para
garantir gasolina barata na bomba, deveria ter compensado no Orçamento, com
corte de despesas ou aumento de impostos. Por não querer cortar gastos nem ter
condição política de elevar a carga tributária, o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva pediu permissão para desobedecer à lei. O Congresso não só concordou,
como incluiu no projeto vários “jabutis”, prejudiciais ao equilíbrio fiscal.
Agora, faltando menos de um mês para o
primeiro turno das eleições, um novo decreto do governo aumentou a “bondade”,
reduzindo alíquotas de impostos federais sobre a gasolina e zerando a do
etanol. Além disso, concedeu nova subvenção a produtores e importadores de
diesel. As medidas terão custo fiscal de R$ 7 bilhões. Em razão delas, a Petrobras
desistiu de aumentar os combustíveis na bomba. Pelo menos, o decreto tem
validade até 9 de outubro — é importante que seja avaliado por critérios
técnicos, e não eleitorais.
É verdade que o quadro mundial tem suscitado
preocupação. O barril de petróleo rompeu a barreira dos US$ 100 pela primeira
vez desde julho. No início da semana, os Estados Unidos destruíram cinco
petroleiros iranianos depois que um de seus navios foi alvo de míssil. Passados
seis meses do início da guerra, não há previsão para o fim. O fluxo no Estreito
de Ormuz é frágil.
Em agosto, a produção da Arábia Saudita,
maior exportador de petróleo do mundo, caiu para o menor nível do ano, 23%
inferior ao de julho. Não há previsão de recuperação. Na semana retrasada, os
houthis, rebeldes islâmicos do Iêmen ligados ao Irã, fizeram avanços que
ameaçam petroleiros no Mar Vermelho, rota alternativa a Ormuz. Tudo isso leva a
crer em alta mais duradoura do petróleo, com incontornável impacto na inflação
global.
Como reação, o Banco Central Europeu (BCE) anunciou o segundo aumento de juros deste ano. Desde o colapso do cessar-fogo entre americanos e iranianos em julho, o barril subiu 40%. O mundo inteiro sofre com a alta de preços, e o Brasil não é diferente. No caso brasileiro, porém, há um agravante. A gestão da crise é prejudicada pela propensão do governo em gastar além do limite razoável e pelo populismo incentivado pelo calendário eleitoral.
É preciso dizer não à tentativa de sabotar
sessão do STF
Por Folha de S. Paulo
Grupo de ministros aliados de Moraes aposta nas
chicanas para adiar julgamento
Ele precisa ocorrer na 3ª e ser aberto ao
público; se magistrado entende que relatório da PF é insuficiente para abrir
inquérito, que vote contra
Até prova em contrário, o ministro Alexandre de
Moraes não é culpado. O que estará em tela no julgamento da
terça-feira (15) é se o plenário do Supremo Tribunal Federal autorizará a
abertura de um inquérito para apurar indícios que lhe concernem, levantados em
relatório pericial pela Polícia Federal.
Se for iniciada, a investigação permitirá aos
policiais, sob a condução do presidente Edson Fachin,
tentar verificar se era mesmo Moraes o interlocutor dos pedidos desesperados de
ajuda e informações do mafioso Daniel
Vorcaro à véspera de sua primeira prisão —e, em caso
afirmativo, quais foram as respostas do juiz.
Inspetores poderão indagar investigados e
testemunhas e recolher outras evidências acerca do teor do relacionamento com
Vorcaro. Era distanciado e alheio aos interesses do fraudador ou se confundia
com papéis de advogado, informante e conselheiro?
O contrato de R$ 131 milhões do escritório da
família Moraes com o Banco Master vai
se expor à averiguação da PF. Quais foram os serviços prestados? Eles
justificam a faustosa remuneração?
O inquérito, frise-se, não implica
determinação de culpa. Trata-se de uma etapa técnica incipiente. Ao seu final
caberá à Procuradoria-Geral da República, à luz do que terá sido apurado,
decidir se denuncia o investigado ou se pede o arquivamento do caso.
Na hipótese de haver denúncia e ela ser
aceita pelo plenário do STF, só a
partir de então haveria processo penal propriamente dito, sujeito à ampla
defesa do réu.
Convicto de sua inocência, como tem se
mostrado, Alexandre de Moraes deveria ser o primeiro a incentivar a abertura do
inquérito. Sem ela, a sua convicção jamais terá oportunidade de materializar-se
como verdade pública.
Causa espécie, portanto, o tumulto
processual promovido por um grupo de ministros —Moraes, Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin—
na tentativa de sabotar e adiar o
julgamento desta terça-feira. A algazarra alveja Edson Fachin com um
sem-número de petições e ameaças veladas carentes de propósito que não seja
apostar na confusão.
Esse clube de juízes comporta-se como uma
turma de maus alunos atazanando o professor para cancelar a prova iminente,
atitude imatura e lamentável para integrantes da corte constitucional.
Existe um relatório pericial da Polícia
Federal para ser julgado e ponto —juízo de que não podem
participar Dias Toffoli e Moraes, conflitados. Se um magistrado
entende que o que vai ali impresso não justifica a abertura de uma simples
investigação, que vote para enterrá-la em sessão pública, sob o escrutínio da
sociedade e da própria história.
A procrastinação embalada em chicanas e
cochichos de corredor desonra o Supremo Tribunal Federal. Transforma a
instituição em joguete de raposas da politicagem. Juízes que agem à sombra para
desviar-se da sua obrigação transmitem à sociedade desconfiança na corte que
representam.
A crise do STF chegou a este ponto em razão
da leniência dos ministros com indícios de má conduta de colegas. É preciso dar
um fim a esse período de trevas.
Campanha acirrada, debate indigente
Por Folha de S. Paulo
Datafolha mostra distância reduzida entre
Lula e Flávio Bolsonaro no 1ª e no 2ª turnos
Corrida presidencial até agora parece mais
sujeita ao impacto dos escândalos do que dos programas de governo
A disputa entre Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) e Flávio
Bolsonaro (PL) está perto do empate
em um primeiro turno, mostra a nova pesquisa Datafolha.
O petista tem
39% das intenções de voto, ante 35% do adversário. Num segundo
turno, a diferença é menor, de 46% a 44%.
A vantagem de Lula aumentara quando foram
divulgadas as mensagens em que Flávio pedia dinheiro a Daniel Vorcaro, do Banco
Master. Se de fato foi esse o motivo da diferença (48% a 43%), o efeito do
escândalo se dissipou, em particular depois do início da campanha eleitoral e
da divulgação de suspeitas de que Fábio Luiz Lula da Silva, dito Lulinha,
traficasse influência. Agora, Lula tem 46% de votos em um segundo turno, e
Flávio, 44%.
O debate nacional foi dominado pela torrente
de notícias de corrupção e de sua associação com políticos e magistrados
do Supremo Tribunal Federal, o que pode vir a influenciar a
eleição. Vazamentos de inquéritos, revelações incontestáveis de
baixeza ou ações policiais talvez alterem o voto de eleitores oscilantes,
decisivos nesta disputa acirrada.
Em grandes números, a eleição de 2026 até
agora se assemelha à de 2022. Entre aqueles eleitores que declaram ter votado
em Lula no pleito de quatro anos atrás, 88% repetem a escolha. Dos que optaram
por Jair Bolsonaro (PL) na última eleição presidencial, 89% optam por Flávio.
A esta altura da campanha, o governo do
presidente Lula é considerado ótimo ou bom para 32% dos brasileiros aptos a
votar, e ruim ou péssimo para 42%, avaliação praticamente inalterada em relação
à registrada pelo Datafolha na semana passada.
Trata-se também de situação quase idêntica à
de Jair Bolsonaro (PL) no início de setembro de 2022, ou seja, 31% de ótimo ou
bom e 42% de ruim ou péssimo. O saldo muito negativo de avaliação costuma ser
empecilho relevante para a reeleição.
O país está sob risco de crise fiscal aguda
sem acenar com projetos de ajuste nem propostas concretas de desenvolvimento ou
enfrentamento do crime organizado, da rapidíssima transformação tecnológica, da
necessidade de transição energética, do problema ambiental, da desigualdade e
da pobreza persistentes.
No entanto atravessa uma campanha eleitoral na mesmice de candidaturas e de suas rejeições, mais uma vez imerso em escândalos, outra vez com ameaças a instituições democráticas, sem inspiração. É desanimador.
Lula é isso aí
Por O Estado de S. Paulo
Os petistas se convenceram de que a crise no
STF prejudica o presidente. Mas o problema de Lula não é Moraes, e sim que sua
candidatura representa cada vez mais o Brasil que não queremos
Consta que o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva está preocupado. Os petistas parecem convencidos de que a crise no
Supremo Tribunal Federal (STF) está prejudicando as chances do Grande Timoneiro
na disputa contra o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro.
O raciocínio é simples: como o encalacrado
ministro do STF Alexandre de Moraes é o símbolo maior da condenação de Jair
Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, é natural que Moraes seja associado
a Lula, em tese o maior beneficiário da derrocada do ex-presidente. Há muito
tempo o STF tem sido tratado pelo bolsonarismo como inimigo; Lula, por outro
lado, aproximou-se de Moraes e encheu o STF de dedicadíssimos fâmulos, o que
converteu o tribunal de vez em poder político, não raro a serviço do governo
petista, que o usa para se contrapor a um Congresso que lhe é rotineiramente
hostil.
Pior: com as confabulações secretas entre
ministros e com os abundantes desvios éticos que horrorizam a sociedade, mas
que são tratados com arrogante indiferença por quem deveria se preocupar em ao
menos parecer honesto, o Supremo passou a figurar como centro cintilante da
crise moral brasileira. É um desastre para a democracia, considerando que o
Judiciário só se legitima quando dele não se duvida.
Esse colapso pegou os petistas no contrapé,
pois a Lula nunca interessou fazer do Supremo o centro de sua campanha,
diferentemente de seus principais adversários. Ao que parece, os marqueteiros
de Lula entendem que o presidente agora não pode mais ausentar-se do debate, e ultimamente
ele andou dando seus pitacos sobre “reforma do Judiciário” e outras platitudes.
O problema de Lula, contudo, não é o Supremo
Tribunal Federal nem o milionário ministro Alexandre de Moraes. O problema é
sua própria candidatura.
O mau humor do eleitorado com o presidente é
evidente. Como incumbente, Lula deveria ter, a três semanas do primeiro turno,
uma margem um pouco maior de vantagem em relação a Flávio Bolsonaro – um
candidato que é apenas um boneco de ventríloquo do ex-presidente Jair Bolsonaro
e que, além de tudo, tem um longo histórico de suspeitas as mais diversas no
terreno da corrupção. O próprio escândalo do Banco Master, que envolve o
ministro Alexandre de Moraes, envolve também, e até o pescoço, o candidato
Flávio. E no entanto Flávio sobe consistentemente nas pesquisas de intenção de
voto, enquanto Lula, que não está diretamente ligado ao escândalo do Master,
cai.
Isso certamente tem muitas explicações, mas
somente uma é suficiente: o pântano de Brasília, cada vez mais viscoso, serve
para o eleitorado como símbolo do profundo divórcio entre os poderosos e os
cidadãos comuns, no momento em que a maioria absoluta dos brasileiros não está
confortável nem com seu trabalho nem com sua qualidade de vida – enquanto
assistem, estupefatos, ao enriquecimento desavergonhado de um punhado de
cortesãos.
Lula não apenas foi incapaz de entregar a
“picanha barata” que prometeu na campanha eleitoral de 2022, como não inspira
junto aos eleitores o sonho de um Brasil que os esfole menos e que lhes dê
condições sustentáveis de uma vida um pouco melhor, sem depender dos
caraminguás que vertem do Estado como esmolas.
A despeito de tudo isso, Lula ainda aparece
como favorito à reeleição não por seus méritos, mas porque do outro lado do
ringue está um completo desqualificado, que representa uma família de
oportunistas e que nada consegue propor ao Brasil a não ser destruição e
cizânia. Mas o cansaço dos brasileiros em relação a Lula e a tudo o que ele
representa – a visão antediluviana de país, a ausência de perspectiva, a
demagogia barata – veio a juntar-se ao cansaço e à irritação com quem hoje
exerce o poder de um modo geral.
Os petistas podem até se empenhar em
desvincular Lula de Alexandre de Moraes e da crise no STF, mas dificilmente vão
conseguir, porque permanecerá o sentimento difuso de que o presidente é parte
importante desse todo que os eleitores cada vez mais deploram.
A chanchada das emendas parlamentares
Por O Estado de S. Paulo
Caso ‘Dark Horse’ expõe um sistema em que é
fácil saber quem indicou a emenda, mas é difícil seguir o dinheiro e garantir
que ele não se desvie da finalidade pública que justificou o gasto
Na sua concepção, o filme Dark Horse foi produzido para
contar sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro e sua trajetória política.
Sem lançamento previsto até o momento, no entanto, a cinebiografia vem servindo
a outros propósitos mais didáticos, como, por exemplo, mostrar como uma emenda
parlamentar pode servir a propósitos muito distintos daqueles que formalmente a
justificaram.
A investigação sobre o filme permite
acompanhar, quase passo a passo, como dinheiro público indicado por um deputado
pode deixar o Orçamento, atravessar ministérios, organizações da sociedade
civil, projetos e empresas privadas até que se torne difícil reconhecer nele
aquilo que era no começo: dinheiro do contribuinte.
O roteiro começa com Mario Frias (PL-SP),
deputado federal, produtor-executivo de Dark
Horse e autor de duas emendas de R$ 1 milhão destinadas ao
Instituto Conhecer Brasil (ICB). A entidade é presidida por Karina Gama, também
responsável pela produtora do filme. No papel, os R$ 2 milhões nada tinham a
ver com cinema. Bancariam aulas de empreendedorismo e jiu-jítsu para crianças
de Pirassununga, no interior paulista.
Até aí, como Frias fez questão de lembrar
depois de ser alvo da Polícia Federal, qualquer cidadão poderia conferir as
emendas no Portal da Transparência. O problema é tentar acompanhar o dinheiro
depois disso.
No projeto de empreendedorismo, o ICB
repassou R$ 700 mil a duas empresas ligadas a um mesmo empresário. Meses
depois, uma terceira empresa desse grupo transferiu R$ 750 mil à produtora do
filme. A PF ainda não afirma que se trata do mesmo dinheiro. É preciso
descobrir. E esse é justamente o ponto.
O caso mostra onde a transparência começa a
falhar. A verba sai do Orçamento para uma organização da sociedade civil, passa
por empresas e muda de conta. A cada novo intermediário, fica mais difícil
relacioná-la à política pública que justificou o gasto. A esta altura, o Portal
da Transparência já ficou muitas curvas para trás.
E a política pública? Uma das emendas de
Frias financiou o projeto Lutando pela Vida, de jiu-jítsu para crianças. Nele,
R$ 457,8 mil teriam bancado quimonos, faixas, uniformes e tatames. Fotos das
aulas, porém, mostram crianças treinando sem quimono, e pais ouvidos pelo site
Metrópoles disseram que nem todos os alunos receberam o uniforme.
Há outros parlamentares nessa história. A
Academia Nacional de Cultura, também comandada pela polivalente Karina Gama e
que tem sede em São Paulo, foi indicada para receber emendas destinadas à série Heróis Nacionais. Entre os
autores aparecem Carla Zambelli, Alexandre Ramagem, Marcos Pollon e Bia Kicis,
todos eleitos deputados federais pelo PL. Zambelli e Ramagem já não exercem o
mandato. À exceção de Zambelli, eleita por São Paulo, nenhum deles foi eleito
pelo Estado – o que contraria o discurso segundo o qual as emendas são
necessárias porque os deputados conhecem as necessidades da região que representam.
A defesa de Frias sobre a transparência das
emendas diz pouco. Saber quem indicou o recurso e quem primeiro o recebeu é
apenas o começo. O contribuinte precisa conseguir acompanhar o gasto até a
entrega daquilo que pagou. No caso investigado, para avançar algumas casas além
do Portal da Transparência foi preciso cruzar contratos, notas fiscais, contas
bancárias, vínculos societários e relações pessoais. Um sistema que movimenta
dezenas de bilhões de reais dessa maneira não pode depender de uma operação da
Polícia Federal para se tornar inteligível.
O Congresso passou anos ampliando seu domínio
sobre o Orçamento e resistindo a regras mais rigorosas de transparência e
rastreabilidade. Regras assim existem justamente para dificultar que uma emenda
destinada a uma política pública se perca pelo caminho e acabe servindo a
interesses privados. Deputados não recebem dezenas de milhões de reais em
emendas para escolher o que desejam patrocinar com dinheiro alheio. Se a
investigação comprovar que recursos de emendas destinadas a políticas públicas
chegaram a Dark Horse, não
estaremos diante de uma simples falha de transparência. Terá sido desvirtuada a
própria finalidade da emenda.
Dark Horse ainda não tem data
para chegar às telas. Mas a chanchada sobre as emendas parlamentares está em
cartaz há bastante tempo.
Errando até quando acerta
Por O Estado de S. Paulo
STF invalida súmula do TST sobre Justiça
gratuita, mas não se contém e ‘legisla’ sobre pobreza
No julgamento de uma Ação Declaratória de
Constitucionalidade (ADC) que questionou um trecho da reforma trabalhista do
governo Michel Temer, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu recentemente que
quem recebe menos de R$ 5 mil por mês tem direito à chamada gratuidade da
Justiça. E, ao debater o benefício que livra uma das partes numa ação judicial
do pagamento de despesas processuais, como custas, taxas e honorários
periciais, o STF estabeleceu ainda que o novo teto vale tanto para a Justiça do
Trabalho quanto para a Justiça comum.
Ocorre que o pedido da Confederação Nacional
do Sistema Financeiro (Consif) era bem mais singelo. A entidade esperava que o
Supremo tão somente declarasse se eram constitucionais os parágrafos 3.º e 4.º
do artigo 790 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), alterados pela Lei
n.º 13.467, a reforma trabalhista, de 2017.
Desde então, o parágrafo 3.º passou a prever
que tem direito à gratuidade da Justiça quem recebe “salário igual ou inferior
a 40% do limite máximo dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social” –
ou seja, cerca de R$ 3,4 mil. Já de acordo com o parágrafo 4.º do mesmo artigo,
quem reivindica a Justiça gratuita precisa comprovar sua hipossuficiência – ou
seja, comprovar que é pobre.
A regra tem sido alvo de controvérsia. A
Justiça do Trabalho, a bem da verdade, não só resiste em cumpri-la, como tem
insistido em subverter o texto legal. Prova disso é que, para o Tribunal
Superior do Trabalho (TST), a mais alta corte laboral do País, basta a mera
declaração de pobreza para que o trabalhador tenha direito à Justiça gratuita,
pouco importando sua renda ou seu patrimônio.
Tamanha criatividade do TST abriu as
comportas da chamada litigância aventureira, que, vale lembrar, haviam sido
fechadas pela reforma trabalhista. E o STF decidiu agir, declarando
inconstitucionais, de um lado, a concessão do benefício atrelada ao teto do
Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e, de outro, a súmula do TST que
estabelecia a presunção de pobreza com base na palavra de uma das partes.
O problema é que a Corte Constitucional não
se limitou ao que foi pedido na ADC 80. Os ministros acharam por bem impor a
faixa de isenção do Imposto de Renda (IR), conforme a última reforma do tributo
feita no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, como o novo parâmetro para a
concessão da Justiça gratuita. Ao que tudo indica, desconhecem que essa faixa
de renda é composta por trabalhadores da classe média baixa, e não pelos mais
pobres, e que um trabalhador ganha, em média, R$ 3,7 mil mensais no Brasil. Não
existe almoço grátis na Justiça: alguém pagava e vai continuar pagando a conta
da gratuidade da Justiça – no caso, o contribuinte brasileiro.
Eis um exemplo acabado de ativismo judicial: ao ignorar a reforma trabalhista, afrontando o Congresso, e ao inventar seus próprios critérios econômicos de pobreza, o STF legislou. Provou assim que, mesmo quando acerta, derrubando a súmula do TST, também erra, ao criar regras.
Cerrado garante recarga hídrica
Por Correio Braziliense
O fortalecimento da segurança hídrica do
Cerrado constitui um avanço nas ações ambientais do Brasil, com impacto na vida
de milhões de cidadãos em todas as regiões do país
O Dia Nacional do Cerrado, celebrado na
última sexta-feira, trouxe notícias alvissareiras a respeito do bioma conhecido
como o "berço das águas". Informações divulgadas pelo Ministério do
Meio Ambiente indicaram uma queda de 18,9% nas áreas atingidas por desmatamento
em agosto deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado. Além desse
dado positivo, o Dia do Cerrado foi marcado pela formalização de instrumentos
legais que permitam ampliar uma política de proteção dos recursos hídricos da
região que abrange 23% do território nacional.
Segundo o monitoramento realizado pelo
Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), o Cerrado acumulou
uma área desmatada de 238km² em agosto de 2026. É o segundo menor resultado
para o mês na série iniciada em 2018. Definitivamente trata-se de um dado
relevante, considerando o histórico recente. Nos últimos três anos, o bioma tem
sido o mais atingido por ações inadequadas do manejo da terra ou pelo avanço
desmedido da fronteira agrícola. Fortemente pressionado pelo agro, atividade
exportadora mais relevante no atual estágio da economia brasileira, o Cerrado
ainda enfrenta desafios como a expansão urbana desordenada e os extremos
climáticos.
Após o período sombrio do governo Bolsonaro,
quando houve um desmonte das políticas ambientais, o Brasil passou a remodelar
os instrumentos necessários para conciliar preservação e desenvolvimento
econômico. Em relação ao Cerrado, a iniciativa mais recente busca implementar
uma ação estratégica: garantir a segurança hídrica nacional. Na sexta-feira, o
Ministério do Meio Ambiente assinou portaria que define as Áreas Prioritárias
de Recarga Hídrica no Bioma Cerrado (Aprhic). O dispositivo legal identifica as
regiões que concentram esforços de conservação e restauração para garantir o
ciclo hídrico mantido pelo Cerrado.
Essa portaria preenche uma lacuna existente
na legislação, que até então previa ações preventivas nas margens e nas
nascentes dos rios. Representa, ainda, uma ação governamental sobre um conceito
fundamental: recarga hídrica. O Cerrado é responsável pelo abastecimento de
oito das 12 bacias hidrográficas do país. Como boa parte do bioma está situado
a mais de mil metros de altitude, a água proveniente do Planalto Central
abastece regiões como o Pantanal, a Amazônia e o Nordeste. Mais de 90% da água
do Rio São Francisco, por exemplo, tem origem no bioma conhecido como savana
brasileira.
Para especialistas, a atenção a áreas
prioritárias de recarga hídrica assegura o ciclo natural de reposição de
recursos hídricos. "Por meio de uma metodologia científica, identificamos
e mensuramos essa mecânica que o Cerrado tem de infiltrar, armazenar e
distribuir água nos períodos secos. Essa tecnologia levou 60 milhões de anos
para ser desenvolvida pela própria natureza", explicou à Folha de S. Paulo
Yuri Salmona, diretor-executivo do Instituto Cerrados e um dos responsáveis
pelos estudos que subsidiaram a portaria sobre as Aprhic.
O fortalecimento da segurança hídrica do Cerrado constitui um avanço nas ações ambientais do Brasil, com impacto na vida de milhões de cidadãos em todas as regiões do país. Essa ação se junta ao compromisso anunciado pelo governo federal de desmatamento zero até 2030, em um contexto global no qual os extremos climáticos estão cada vez mais reais e ameaçadores. Garantir o fluxo dos recursos hídricos originários do Cerrado equivale a manter a corrente sanguínea de um organismo chamado Brasil. É dever de todos cuidar desse corpo.
Pisa 2025 e os desafios da educação
brasileira
Por O Povo (CE)
A educação constitui um dos principais
instrumentos de transformação social, desenvolvimento econômico e redução das
desigualdades. Nesse contexto, o Programa Internacional de Avaliação de
Estudantes (Pisa) oferece dados importantes para avaliar a aprendizagem de
adolescentes e refletir sobre a qualidade dos sistemas educacionais. Os
resultados de 2025, divulgados na semana que passou, reacendem o debate sobre
os avanços e as limitações da educação brasileira, especialmente no que diz
respeito à matemática e à compreensão leitora.
Embora o Brasil apresente progressos ao longo
das últimas décadas, seu desempenho expõe que ainda é necessário fortalecer
políticas públicas capazes de garantir uma formação escolar de qualidade para
todos. O baixo desempenho em Matemática e Leitura escancara a necessidade de
investimentos contínuos na educação básica. Nesse cenário, o Ceará oferece
experiências relevantes de políticas educacionais, mas também precisa enfrentar
os desafios da aprendizagem e da equidade.
É importante, antes de tudo, reconhecer os
progressos alcançados pelo Brasil. Segundo o Ministério da Educação, o País
está entre as dez nações que mais avançaram em educação de 2006 a 2025. Esse
resultado indica que políticas de ampliação do acesso à escola e de melhoria da
qualidade do ensino produziram efeitos positivos. Contudo, o avanço histórico
não deve ser confundido com a superação dos problemas educacionais.
O Brasil obteve 377 pontos em Matemática, 408
em Leitura e 409 em Ciências, abaixo das médias da OCDE nas três áreas. Em
Matemática, o País ocupou a 71ª posição entre 89 participantes, enquanto apenas
28% dos estudantes alcançaram o nível básico de proficiência. Em Leitura,
aproximadamente 49% atingiram esse patamar, o que significa que mais da metade
dos adolescentes avaliados não desenvolveu as habilidades mínimas esperadas
para compreender textos e utilizar informações de maneira adequada.
Assim, a Matemática se apresenta como um dos
principais obstáculos à qualidade da educação brasileira. O baixo desempenho
nessa área compromete não apenas a aprendizagem de conteúdos escolares, mas
também a capacidade de resolver problemas, interpretar informações e tomar
decisões no cotidiano. Paralelamente, as dificuldades de leitura prejudicam o
desempenho em todas as disciplinas, uma vez que compreender enunciados, textos
científicos e informações diversas é essencial para aprender. Portanto, a
melhoria da educação exige uma abordagem integrada, que valorize tanto o
raciocínio matemático quanto a formação de leitores proficientes.
Desse modo, a consolidação de uma educação de qualidade exige investimentos permanentes, valorização dos profissionais do magistério, fortalecimento da Leitura e da Matemática e políticas que garantam oportunidades de aprendizagem a todos os estudantes. Mais do que celebrar avanços ou lamentar posições em rankings internacionais, é necessário transformar os resultados do Pisa em instrumentos de reflexão e ação.

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