O Globo
Em busca de argumentos para defender o
indefensável, vale consultar a lendária entrevista do malandro da Lapa ao
Pasquim
Madame Satã era o apelido do transformista
João Francisco dos Santos, figura mitológica da Lapa na primeira metade do
século passado. Malandro e destemido, não recusava uma briga. Somou 27 anos de
cadeia antes de inspirar livros, filmes e peças de teatro.
Madame Satã é o nome de uma casa noturna da cena underground de São Paulo. Nos últimos dias, notabilizou-se como cenário de uma farra promovida por Daniel Vorcaro. Pivô da maior fraude financeira da História do país, o banqueiro corrompeu a República com propinas, viagens e bacanais.
Acostumada a receber outras tribos, a boate
paulistana abriu as portas em outubro de 2023 para figurões da elite política.
Segundo reportagem da revista Piauí, foram convidados o presidente do Senado e
seu antecessor, o então presidente da Câmara e um ministro do Supremo envolvido
na teia do Master.
Os organizadores da festa contabilizaram 20
homens e 120 mulheres, sendo a metade estrangeiras, para não entenderem as
conversas. “Só menina nova”, ordenou Vorcaro ao ex-ministro que se encarregou
dos convites. Uma moça driblou o veto aos celulares e postou um vídeo da pista
de dança. Seu perfil no Instagram foi derrubado por capangas do banqueiro.
A “noite das suíças” não foi um evento
isolado. Investigações da Polícia Federal mostram que o dono do Master
recrutava trabalhadoras da noite para agradar autoridades que podiam
favorecê-lo durante o dia. Há registros de orgias semelhantes em Nova York,
Lisboa e Trancoso.
O fantasma das festas de Vorcaro assombra o
mundo político desde junho, quando Anthony Garotinho disse ter um vídeo da
“noite das astronautas”. “Deputados, senadores, governadores, homens que
defendem a família... todo mundo pelado, e as mulheres de capacete”, provocou.
O ex-governador nunca provou ter o tal vídeo,
mas sua descrição de mulheres altas, louras e caparência de estrangeiras bate
com os diálogos reproduzidos pela Piauí. “Davi tá louco perguntando se as
suíças vão vir”, escreveu o ex-ministro Fabio Faria a Vorcaro. Todos os
figurões citados na revista negam ter participado da noitada.
Nesta terça, o Supremo Tribunal Federal
discutirá se abre investigação sobre as ligações perigosas do ministro Alexandre
de Moraes com Vorcaro. As farras noturnas parecem brincadeira de criança diante
das cifras milionárias em jogo. Emparedado, Moraes promete ir para cima do
ministro André Mendonça, que rasgou a fantasia ao insuflar o 7 de Setembro
bolsonarista e destituir a cúpula da PF numa canetada.
O escândalo do Master envolve doutores que
posam de estadistas, viajam de primeira classe e usam institutos e escritórios
em nome de parentes para fechar negócios. Nada a ver com o Satã da Lapa, que se
dizia “analfabeto de pai e mãe” e batalhou como vendedor ambulante, cozinheiro
e garçom.
Em busca de argumentos para defender o
indefensável, os supremos deveriam se mirar na lendária entrevista do malandro
ao Pasquim. Questionado sobre o tiro que deu num guarda-civil, ele respondeu:
“O revólver é que disparou na minha mão. Casualmente”. O jornalista Sérgio
Cabral, o pai, perguntou se foi a bala quem matou. “A bala fez o buraco. Quem
matou foi Deus”, explicou Satã.

Um comentário:
Milton Gonçalves e Lázaro Ramos os representaram muito bem no cinema.
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