Valor Econômico
Chefes dos Poderes jogam com o tempo
Político astuto sabe a hora de agir. No
“Grande Sertão: Veredas”, que completou 70 anos, Riobaldo afirmou que o líder
dos jagunços, Zé Bebelo, não se tornou político como sonhava porque perdeu
tempo. “Raposa que demorou”, lamentou.
Na maior crise institucional desde a redemocratização, os chefes dos Poderes jogam com o tempo antes de prestarem contas à sociedade sobre o escândalo vinculando ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Sob pressão para pautar um dos pedidos de impeachment do ministro da Corte Alexandre de Moraes, de quem é próximo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), queixou-se das agressões que vem sofrendo, inclusive de colegas, e pediu tempo: “No momento adequado eu vou falar”.
Na mesma linha, o presidente do STF, ministro
Edson Fachin, advertiu que não agirá com açodamento. Em evento na quarta-feira
(2), disse que “nos próximos dias” concluirá a análise dos fatos, e, “no tempo
devido e sem precipitação”, anunciará as medidas cabíveis e necessárias.
Num momento em que a promessa de apoiar o
impeachment de ministros do STF, principalmente, de Moraes, se destaca nas
campanhas dos candidatos de direita a uma vaga no Senado, uma fonte do entorno
de Alcolumbre explicou à coluna que ele não cederá à pressão para pautar a
matéria. A percepção do presidente do Senado é de que o “momento adequado” para
se posicionar será após o segundo turno, quando emergirem das urnas os nomes do
novo presidente da República e dos 54 novos senadores.
Segundo o mesmo interlocutor, o perfil do
novo chefe do Executivo e a fotografia do novo Senado indicarão se um pedido de
impeachment avançará na Casa, e se terá como réu Alexandre de Moraes ou André
Mendonça.
A revelação na terça-feira (1) dos diálogos
entre Moraes e Vorcaro implodiu o mundo político, chacoalhou as campanhas e
deixou os brasileiros perplexos, esperando explicações das autoridades. O
relatório da Polícia Federal (PF) sobre as mensagens foi elaborado por ordem do
ministro André Mendonça, relator do caso Master, para identificar os
interlocutores. A PF concluiu que o destinatário de Vorcaro era Moraes.
A percepção de políticos e ministros do STF é
de que Moraes e Mendonça erraram, e de que ambos devem explicações sobre seus
atos. Moraes pelos laços de proximidade com o ex-banqueiro investigado pela PF,
e Mendonça pelos métodos, porque não poderia investigar um colega sem o
consentimento da Procuradoria-Geral da República (PGR) e do plenário da Corte.
Enquanto a crise aprofunda, Alcolumbre tenta
se preparar para a eleição das Mesas Diretoras, em fevereiro de 2027, quando
tentará a recondução para a presidência da Casa. Ele sabe que, para continuar
na cadeira, terá de dar uma resposta sólida aos seus pares e à sociedade, já
que cabe aos senadores julgarem os pedidos de impeachment contra magistrados do
STF.
A eventual reeleição do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva é o cenário mais favorável à renovação do mandato de
Alcolumbre na direção da Casa. Em troca do avanço dos projetos sobre o fim da
jornada 6 x 1 e a regulamentação da exploração dos minerais críticos, Lula
acenou com apoio à recondução do aliado. No entanto, na hipótese de vitória do
candidato do PL, Flávio Bolsonaro, o coordenador da campanha, senador Rogério
Marinho (PL-RN), despontará como o mais competitivo para o cargo.
Mais do que o apoio do Palácio do Planalto,
entretanto, a eleição para a presidência do Senado depende da distribuição de
forças na Casa. Por isso, Alcolumbre não poderá se movimentar até as urnas
revelarem, no início de outubro, quem elegeu mais senadores: a direita, a
esquerda ou o Centrão. Essa fotografia será decisiva para impulsionar eventual
impeachment contra Alexandre de Moraes ou André Mendonça, ou manter os pedidos na
gaveta.
Nessa semana, Alcolumbre reclamou dos 109
requerimentos de impeachment contra 10 titulares da Corte, a maioria contra
Moraes: “Isso não é normal”, protestou, sem justificar porque não despachou
nenhum. O presidente do Senado ainda saiu em defesa de Moraes: “Todo mundo
esqueceu que pediram 130 milhões [de reais] para as mesmas pessoas para fazer
um filme, e agora o culpado é só o ministro Alexandre de Moraes”, desabafou, em
menção velada ao presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, flagrado em áudio pedindo
dinheiro a Vorcaro para a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Flávio argumenta que
os recursos são de origem privada, e não haveria ilegalidade.
Moraes não se pronunciou sobre o conteúdo dos
diálogos, e dobrou a aposta, cobrando a investigação de Mendonça por supostos
atos de improbidade. Por sua vez, Mendonça teve que admitir um encontro com
Vorcaro em 2025, revelado pela imprensa, mas negou irregularidade na confecção
do relatório sobre o colega.
A um mês da eleição, só o tempo dirá qual o
impacto da crise nas campanhas, e quem sobreviverá ao bombardeio. São “tempos
estranhos”, diria o ex-ministro do STF Marco Aurélio Mello. Ou imperfeitos, na
visão de Riobaldo, para quem o “tempo é a vida da morte: imperfeição”.
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