sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Alcolumbre aguarda as urnas para decidir sobre Moraes, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Chefes dos Poderes jogam com o tempo

Político astuto sabe a hora de agir. No “Grande Sertão: Veredas”, que completou 70 anos, Riobaldo afirmou que o líder dos jagunços, Zé Bebelo, não se tornou político como sonhava porque perdeu tempo. “Raposa que demorou”, lamentou.

Na maior crise institucional desde a redemocratização, os chefes dos Poderes jogam com o tempo antes de prestarem contas à sociedade sobre o escândalo vinculando ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Sob pressão para pautar um dos pedidos de impeachment do ministro da Corte Alexandre de Moraes, de quem é próximo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), queixou-se das agressões que vem sofrendo, inclusive de colegas, e pediu tempo: “No momento adequado eu vou falar”.

Na mesma linha, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, advertiu que não agirá com açodamento. Em evento na quarta-feira (2), disse que “nos próximos dias” concluirá a análise dos fatos, e, “no tempo devido e sem precipitação”, anunciará as medidas cabíveis e necessárias.

Num momento em que a promessa de apoiar o impeachment de ministros do STF, principalmente, de Moraes, se destaca nas campanhas dos candidatos de direita a uma vaga no Senado, uma fonte do entorno de Alcolumbre explicou à coluna que ele não cederá à pressão para pautar a matéria. A percepção do presidente do Senado é de que o “momento adequado” para se posicionar será após o segundo turno, quando emergirem das urnas os nomes do novo presidente da República e dos 54 novos senadores.

Segundo o mesmo interlocutor, o perfil do novo chefe do Executivo e a fotografia do novo Senado indicarão se um pedido de impeachment avançará na Casa, e se terá como réu Alexandre de Moraes ou André Mendonça.

A revelação na terça-feira (1) dos diálogos entre Moraes e Vorcaro implodiu o mundo político, chacoalhou as campanhas e deixou os brasileiros perplexos, esperando explicações das autoridades. O relatório da Polícia Federal (PF) sobre as mensagens foi elaborado por ordem do ministro André Mendonça, relator do caso Master, para identificar os interlocutores. A PF concluiu que o destinatário de Vorcaro era Moraes.

A percepção de políticos e ministros do STF é de que Moraes e Mendonça erraram, e de que ambos devem explicações sobre seus atos. Moraes pelos laços de proximidade com o ex-banqueiro investigado pela PF, e Mendonça pelos métodos, porque não poderia investigar um colega sem o consentimento da Procuradoria-Geral da República (PGR) e do plenário da Corte.

Enquanto a crise aprofunda, Alcolumbre tenta se preparar para a eleição das Mesas Diretoras, em fevereiro de 2027, quando tentará a recondução para a presidência da Casa. Ele sabe que, para continuar na cadeira, terá de dar uma resposta sólida aos seus pares e à sociedade, já que cabe aos senadores julgarem os pedidos de impeachment contra magistrados do STF.

A eventual reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o cenário mais favorável à renovação do mandato de Alcolumbre na direção da Casa. Em troca do avanço dos projetos sobre o fim da jornada 6 x 1 e a regulamentação da exploração dos minerais críticos, Lula acenou com apoio à recondução do aliado. No entanto, na hipótese de vitória do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), despontará como o mais competitivo para o cargo.

Mais do que o apoio do Palácio do Planalto, entretanto, a eleição para a presidência do Senado depende da distribuição de forças na Casa. Por isso, Alcolumbre não poderá se movimentar até as urnas revelarem, no início de outubro, quem elegeu mais senadores: a direita, a esquerda ou o Centrão. Essa fotografia será decisiva para impulsionar eventual impeachment contra Alexandre de Moraes ou André Mendonça, ou manter os pedidos na gaveta.

Nessa semana, Alcolumbre reclamou dos 109 requerimentos de impeachment contra 10 titulares da Corte, a maioria contra Moraes: “Isso não é normal”, protestou, sem justificar porque não despachou nenhum. O presidente do Senado ainda saiu em defesa de Moraes: “Todo mundo esqueceu que pediram 130 milhões [de reais] para as mesmas pessoas para fazer um filme, e agora o culpado é só o ministro Alexandre de Moraes”, desabafou, em menção velada ao presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, flagrado em áudio pedindo dinheiro a Vorcaro para a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Flávio argumenta que os recursos são de origem privada, e não haveria ilegalidade.

Moraes não se pronunciou sobre o conteúdo dos diálogos, e dobrou a aposta, cobrando a investigação de Mendonça por supostos atos de improbidade. Por sua vez, Mendonça teve que admitir um encontro com Vorcaro em 2025, revelado pela imprensa, mas negou irregularidade na confecção do relatório sobre o colega.

A um mês da eleição, só o tempo dirá qual o impacto da crise nas campanhas, e quem sobreviverá ao bombardeio. São “tempos estranhos”, diria o ex-ministro do STF Marco Aurélio Mello. Ou imperfeitos, na visão de Riobaldo, para quem o “tempo é a vida da morte: imperfeição”.

 

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