Valor Econômico
O discurso-testamento de 1951 falava em social-democracia e em protagonismo dos trabalhadores. Quando, enfim, até mesmo um trabalhador poderia chegar ao poder
No primeiro 1º de maio após seu retorno à
Presidência da República, em 1951, depois da deposição em 1945 e 15 anos de
poder e de ter sido novamente eleito presidente em 1950, Getúlio Vargas
pronunciou um significativo discurso no Estádio de São Januário, no Rio de
Janeiro.
A memória de Getúlio Vargas tem sido desfigurada e manipulada para nele ressaltar o ditador, que ele foi no Estado Novo, de 1937 a 1945. Ele foi um estadista peculiar, de um país atrasado, em que uma minoria de pessoas esclarecidas, como Roberto Simonsen, fundador da Fiesp, tinha clareza de que o Brasil tinha possibilidade de diferençar-se do que fora até 1929.
Havia, difusa, entre nós, uma ideologia
nacionalista e desenvolvimentista que vislumbrava a necessidade política de que
o país se desvencilhasse das amarras da economia colonial dos ciclos sucessivos
- pau-brasil, cana-de-açúcar, ouro, café.
Já nos anos 1920 e praticamente desde o fim
da escravidão várias regiões do Brasil haviam começado a desenvolver a
indústria de bens de consumo para o mercado interno. E, também, nos
interstícios dessa industrialização, uma indústria de bens de capital como
seções complementares à de bens de consumo.
O clima de guerra da década de 1930, o
desencadeamento da guerra em 1939 e a entrada dos americanos na guerra em 1941
definiram uma conjuntura de possibilidades para o desenvolvimento industrial
brasileiro. Em 1942 foi instalada a Base Aérea americana de Natal. Através de
um esquema de apoio e cooperação, os militares brasileiros tiveram a
perspicácia de evitar uma ocupação militar americana do Nordeste. Em 1943, foi
criada a Força Expedicionária Brasileira, que entrou na guerra na Itália, em
1944.
Nesse clima de disponibilidade americana para
negociar e de demora brasileira para entrar no campo de batalha, Getúlio
conseguiu dos americanos os meios para instalação da Companhia Siderúrgica
Nacional em Volta Redonda. Base para alicerçar o Brasil industrial.
Em 1932, os paulistas haviam se rebelado
contra Getúlio na Revolução Constitucionalista e perderam. De grande lucidez
política, Getúlio tinha clara consciência de que sem São Paulo o Brasil não
superaria a crise de 1929. A indústria se tornara inevitável como saída para o
Brasil.
A salvação da economia estava no mercado
interno. O discernimento do ministro da Fazenda de Getúlio, o paulista José
Maria Whitaker, exportador de café e banqueiro, como se vê em seu relatório de
1933, implantou a política de compra e queima dos estoques de café, de modo a
fazer da crise um instrumento do fluxo de renda com o qual os fazendeiros
pagavam os colonos que assim podiam comprar os produtos de consumo que não
havia como importar sem moeda forte. Consumindo produtos da indústria
brasileira. Quando a guerra terminou, o Brasil já estava industrializado.
O temor americano de uma potência industrial
latino-americana no quintal de casa foi sutilmente combatido por meio da
proximidade e aliança entre militares brasileiros e americanos firmada durante
a guerra, cilada para o projeto personificado por Vargas.
No discurso de 1951, Getúlio dirigiu-se aos
trabalhadores em defesa da proposta nacionalista. O projeto nacional de um
Brasil livre e autônomo, industrializado e desenvolvido, estava ameaçada. Sua
deposição em 1945 fora o sinal evidente disso. Como foram evidentes os
pretextos e os objetivos.
Getúlio começou com o pausado e solene
“Trabalhadores do Brasil!”, que estabelecia uma conexão automática com a massa
de seus ouvintes, ao vivo ou pelo rádio. Ele conseguia fazer da massa sua
coadjuvante. Ele se antecipava na definição de objetivos sociais da política do
Estado, com a particularidade de nela sempre ter presente metas de emancipação
da classe trabalhadora.
Getúlio retomava o que não era um outro e
novo discurso, mas o discurso interrompido por sua deposição, o discurso de um
projeto de nação com o protagonismo da classe trabalhadora. O
discurso-testamento falava em social-democracia e em protagonismo dos
trabalhadores. Quando, enfim, até mesmo um trabalhador poderia chegar ao poder.
Uns dias antes do suicídio de Getúlio, em
1954, foi criada a Diocese de Santo André no âmago da região industrial de São
Paulo. O novo bispo, Dom Jorge Marcos de Oliveira, veio para transformar os
operários católicos em protagonistas da história social.
Lá na Vila Carioca, ao lado da Favela de
Heliópolis, onde morava e jogava futebol de várzea, em campinhos que eu também
conheci, Lula tampouco tinha ideia de que ele era o escolhido do projeto
histórico-social pelo qual Getúlio morrera. Nem Dom Jorge teve oportunidade de
ver o poder abrir-se para o protagonismo dos trabalhadores.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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