Por Tiago Angelo, Giullia Colombo e Mateus Coutinho – Valor Econômico
O ministro Alexandre de Moraes, do
Supremo Tribunal Federal (STF), pediu que André Mendonça seja
investigado por suposto abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime
de responsabilidade. Ele também acusa o colega de quebra da imparcialidade
judicial e favorecimento de grupos políticos nas investigações que tratam de um
esquema de fraudes em descontos associativos de aposentados e pensionistas
do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e do escândalo do Banco
Master.
A solicitação, encaminhada ao presidente do STF, Edson Fachin, acontece dois dias depois de Mendonça retirar o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) que citava mensagens enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, a um contato atribuído a Moraes. Nelas, Vorcaro buscava interferir e obter informações sobre as apurações que o levaram a ser preso em novembro do ano passado. O episódio abriu uma crise sem precedentes no Supremo, agora intensificada pelo pedido para Mendonça ser investigado.
Moraes afirmou que houve, por parte de
Mendonça, uma "usurpação" da direção das investigações conduzidas
pela Polícia Federal (PF). Segundo o ministro, o colega também teria atuado de
forma irregular em tentativas de colaboração premiada, além de ter direcionado
alvos para que fossem investigados por motivos pessoais e políticos.
Moraes se valeu do inquérito das fake news,
relatado por ele desde 2019, para pedir que Mendonça seja investigado. O
ministro narra na decisão que determinou, na terça-feira (1), que o
diretor-geral da Polícia Federal (PF) enviasse a ele relatórios de inteligência
produzidos pela corporação "envolvendo eventuais atos criminosos tendentes
a direcionar a produção de provas para falsa imputação de crime em relação à
ministros do STF, com citação expressa dos nomes dos ministros Gilmar Mendes,
Dias Toffoli, Luiz Fux, Alexandre de Moraes e Nunes Marques, além do Procurador
Geral da República e do Diretor Geral da Polícia Federal".
Aberto em 2019 por decisão do então
presidente da Corte, Dias Toffoli, o inquérito das fake news tem como objetivo
apurar notícias falsas, denúncias caluniosas, ameaças e infrações que atingem a
honra e a segurança de membros do STF e seus familiares. No despacho, Moraes
afirma que também está no objeto do inquérito a apuração do vazamento de informações
e documentos sigilosos, com o intuito de atribuir ou insinuar atos ilícitos por
membros da Corte, esquemas financeiros e divulgação em massa nas redes sociais
com o intuito de lesar a independência do Judiciário e o Estado de Direito.
Na decisão, Moraes afirma que, pela Lei
Orgânica da Magistratura (Loman), ao tomar conhecimento de fatos envolvendo um
ministro da Corte, é "obrigatória e necessária a remessa imediata à
consideração do presidente do STF". O ministro também cita o Regimento
Interno do STF para afirmar que é da competência do plenário processar e julgar
presidentes e vice-presidentes da República, do Senado, da Câmara dos
Deputados, além de ministros do Supremo e o chefe da PGR.
Usurpação da investigação
No despacho, Moraes diz que o relatório
apontou indícios de que Mendonça teria avançado progressivamente sobre
atribuições próprias da PF, usurpando a direção das investigações, com
"perda de imparcialidade". Também afirmou que haveria um enviesamento
das investigações, com um "direcionamento da linha investigativa, em
assimetria de tratamento entre os investigados" e "variação relevante
nos prazos de apreciação conforme o perfil do alvo".
Segundo o relatório da PF enviado a Moraes, o
"resultado prático do comando" de Mendonça seria que ele estaria
atuando como investigador, comprometendo as provas. Primeiro por determinar a
entrega do acervo dos elementos probatórios brutos antes da triagem e análise
pela equipe de investigadores.
"Nem à defesa se assegura, de forma
irrestrita, o fornecimento da integralidade dos dados brutos no formato das
ferramentas investigativas – o que reforça a leitura de que o resultado prático
do comando é a atuação do julgador como investigador", disse a PF a
Moraes.
O relatório apontou que o acesso antecipado
aos elementos brutos afeta o controle da veracidade e auditabilidade das
provas, prejudicando a apuração criminal.
Além disso, segundo Moraes, há notícias de
que Mendonça faria questionamentos frequentes às decisões dos presidentes dos
inquéritos "alcançando desde a seleção de alvos de medidas cautelares, sob
crivo jurídico, até a definição das medidas a serem requeridas, demonstrando
total ausência de imparcialidade".
Condução irregular de delação
Segundo narrou a PF a Moraes, Mendonça teria
apresentado um "comportamento participativo nas tratativas de colaboração
premiada, tanto na Operação Sem Desconto quanto na Operação Compliance
Zero", entre eles, questionamentos sobre o estágio das negociações e quais
elementos estariam sendo trazidos pelos investigados, bem como o contato com as
defesas sobre as eventuais colaborações e proposição de benefícios não
previstos em lei.
Direcionamento de alvos da investigação
A PF também apontou que Mendonça teria
tentado direcionar a investigação, por motivos pessoais e políticos, a Moraes e
ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Segundo a corporação, Mendonça teria
solicitado, mais de uma vez que "a equipe de investigação encaminhasse
alguma provocação a ele nesse sentido”.
Também indicou que Mendonça adotou
"posturas muito diferentes diante de ilicitudes aparentes relacionadas aos
Ministros Dias Toffoli e Nunes Marques, em comparação com sua percepção no que
toca ao Ministro Alexandre de Moraes, apresentando discurso de defesa quanto
aos dois primeiros”.
Segundo Moraes, além do direcionamento da
investigação, Mendonça também teria determinado a produção ilegal de provas
contra Moraes, de ofício, ou seja, sem ter assinado a decisão judicial ou feito
a comunicação pelas vias procedimentais legais, como a ciência da PGR.
Em relação a Alcolumbre, a corporação afirmou
que Mendonça teria pretendido atingir o senador, além de dar tratamento
diferenciado a políticos de outros espectros políticos.
"O relator sugeriu que fossem separados,
em petições distintas, os casos relativos a Antonio Rueda e ACM Neto, não
obstante a conexão aparente entre as condutas. Registre-se a assimetria de
tratamento: a separação é sugerida onde a unidade identifica conexão, ao passo
que, no episódio de julho de 2026, a contrariedade do relator recaiu sobre
desmembramento pela unidade justamente onde a conexão inexistia", disse a
PF. Na hipótese da PF, Mendoça poderia enxergar em Rueda uma "rota de
acesso a Alcolumbre".
Os investigadores ressaltaram ainda que
Mendonça manifestou a sua vontade em afastar o diretor-geral da PF, Andrei
Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, por sua proximidade
com o ministro Gilmar Mendes.
"Em reuniões, o relator afirmou
reiteradamente que o Diretor-Geral mantém proximidade inadequada com o
Presidente da República e que, por essa razão, não seria possível confiar nele.
Até o momento não apontou fato concreto que denote atuação irregular. Na última
reunião presencial, afirmou dispor de procedimento instaurado no bojo do qual
se avalia eventual determinação de afastamento do Diretor-Geral", disse.
"Imputação de idêntica estrutura: a proximidade com o Ministro Gilmar Mendes o tornaria indigno de confiança, com manifestação de que provavelmente o arrolará, ao menos como testemunha, em processos derivados das operações.", completou.

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