terça-feira, 15 de setembro de 2026

Além de bets, brasileiros elegem canetas emagrecedoras, por Alvaro Costa e Silva

Folha de S. Paulo

Uso das seringas supera o negacionismo que prejudica a cobertura vacinal no país

Medicamentos revolucionários para obesidade viram objeto de desejo e alvo do crime organizado

Esqueça o futebol, os candidatos ao Planalto e os ministros do STF. O que entusiasma os brasileiros são as canetas emagrecedoras e as apostas eletrônicas.

O curioso é que as canetas são canetas apenas no nome. Na verdade são seringas preenchidas com medicamentos injetáveis. O uso delas, no entanto, consegue superar o medo, a desconfiança e o preconceito que envolve injeções e agulhas e o negacionismo que, promovido de maneira criminosa pelo governo Bolsonaro no período da pandemia, ainda prejudica a cobertura vacinal no país.

Vendidos sob diversos nomes comerciais, as drogas semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida são uma revolução no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Retardam o esvaziamento do estômago e prolongam a sensação de saciedade por horas, tirando a vontade de beliscar. Estudos clínicos apontam sua alta eficácia, com reduções médias de 15% e 20% do peso corporal e, em alguns casos, de até 30%, nível associado ao da cirurgia bariátrica.

Um dos segmentos mais expressivos da indústria farmacêutica —entre maio de 2025 e maio de 2026 movimentou R$ 13,3 bilhões—, elas vendem como pão quente. O medicamento não é barato. Uma caixa de Mounjaro (com quatro canetas para um mês de tratamento) custa em média R$ 1.400. Com a aprovação pela Anvisa de cinco novas canetas à base de semaglutida após a queda da patente da molécula e a incorporação de dois genéricos de liraglutida no mercado brasileiro, os preços devem cair, mas não no curto prazo.

Enquanto isso, o crime organizado fatura em cima do objeto de desejo da população. Aumentaram as operações da Polícia Federal para combater a produção de canetas emagrecedoras em farmácias clandestinas. Até estudantes de medicina servem de mulas, cooptados para fazer contrabando na fronteira com o Paraguai. Os produtos sem registro na Anvisa são promovidos por influenciadores, atrizes, cantores e ex-BBBs. O esquema é semelhante ao utilizado pelas bets.

Quem compra as canetas fajutas não tem medo de virar jacaré.

 

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