quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Crise no STF exige cartas na mesa, ou será guerra sem fim, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Momento requer liderança, papel que no sistema presidencialista concentra atenções em Lula, o chefe da nação

Avançamos para um ponto de não retorno à racionalidade? Pode ser que sim, mas escalada dos conflitos não é opção

Proximidades estratégicas, alianças táticas e afinidades políticas entre altas autoridades da República fazem desta uma crise de governo, englobando os três Poderes no conceito de administração federal.

Daí que a solução não está "nas costas" do ministro Edson Fachin, como quis o presidente Luiz Inácio da Silva em uma das várias tentativas de se desvencilhar da conflagração instalada no Supremo Tribunal Federal (STF) e que alcança também o Executivo e o Legislativo.

O momento requer liderança, papel que no sistema presidencialista tem destaque e concentra atenções na figura do chefe da nação. Portanto, se espaço para mediação houver, a tarefa de comandar a reorganização da institucionalidade sem ferir atribuições constitucionais caberá a Lula, tendo como pré-requisito a troca do figurino de candidato pelo traje presidencial.

Missão que obviamente o presidente não conduz sozinho; é preciso que encontre no entorno um ambiente de concertação em torno de um objetivo. No caso, o esclarecimento da imputação de suspeições ao arrepio de amizades, corporativismos, paixões ideológicas, leituras enviesadas, demonstrações de força, chicanas jurídicas e, sobretudo, sem paixões eleitorais de todos os lados.

É pedir demais? Talvez seja. Avançamos para um ponto de não retorno à racionalidade? Pode ser que sim, mas a escalada dos conflitos não é uma opção.

Ou todos concordam em pôr as respectivas cartas na mesa —o que inclui abertura geral de sigilos e a rápida tomada de decisões transparentes— ou não haverá sobreviventes para contar a triste história de uma democracia cuja reconquista se perdeu por não saber respeitar os próprios deveres, direitos e limitações.

 

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