Folha de S. Paulo
Momento requer liderança, papel que no
sistema presidencialista concentra atenções em Lula, o chefe da nação
Avançamos para um ponto de não retorno à
racionalidade? Pode ser que sim, mas escalada dos conflitos não é opção
Proximidades estratégicas, alianças táticas e
afinidades políticas entre altas autoridades da República fazem desta uma crise de
governo, englobando os três Poderes no conceito de administração federal.
Daí que a solução não está "nas costas" do ministro Edson Fachin, como quis o presidente Luiz Inácio da Silva em uma das várias tentativas de se desvencilhar da conflagração instalada no Supremo Tribunal Federal (STF) e que alcança também o Executivo e o Legislativo.
O momento requer liderança, papel que no
sistema presidencialista tem destaque e concentra atenções na figura do chefe
da nação. Portanto, se espaço para mediação houver, a tarefa de comandar a
reorganização da institucionalidade sem ferir atribuições constitucionais
caberá a Lula,
tendo como pré-requisito a troca do figurino de candidato pelo traje
presidencial.
Missão que obviamente o presidente não conduz
sozinho; é preciso que encontre no entorno um ambiente de concertação em torno
de um objetivo. No caso, o esclarecimento da imputação de suspeições ao arrepio
de amizades, corporativismos, paixões ideológicas, leituras enviesadas,
demonstrações de força, chicanas jurídicas e, sobretudo, sem paixões eleitorais
de todos os lados.
É pedir demais? Talvez seja. Avançamos para
um ponto de não retorno à racionalidade? Pode ser que sim, mas a escalada dos
conflitos não é uma opção.
Ou todos concordam em pôr as respectivas
cartas na mesa —o que inclui abertura geral de sigilos e a rápida tomada de
decisões transparentes— ou não haverá sobreviventes para contar a triste história
de uma democracia cuja reconquista se perdeu por não saber respeitar os
próprios deveres, direitos e limitações.

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