domingo, 6 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Nova reforma da Previdência tem de ser duradoura

Por O Globo

Estudo tem o mérito de não fugir às questões espinhosas e de propor solução de longo prazo

Menos de oito anos depois da última reforma, a Previdência apresenta rombos crescentes. As contribuições recolhidas são insuficientes para pagar benefícios, aposentadorias e pensões. Em 2025, o Tesouro teve de gastar R$ 320 bilhões para honrar os compromissos do INSS. Na Previdência dos servidores públicos, foram mais R$ 62 bilhões e, nas pensões dos militares, outros R$ 53 bilhões. As despesas do INSS equivalem a 8% do PIB e, com o envelhecimento da população, chegarão a mais de 17% até o fim do século.

O próximo governo e os futuros congressistas, sejam quem forem, terão a missão de resolver o problema. Fingir que ele não existe só tornará a solução ainda mais dolorosa com o tempo. Por isso é oportuno um estudo de economistas do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) apresentado aos candidatos à Presidência. O trabalho propõe alterações nas regras atuais para que o país chegue a 2070 com o rombo da Previdência apenas ligeiramente maior que o registrado hoje e se estabilize nesse patamar.

Pela legislação vigente depois da última reforma, homens se aposentam aos 65 anos, desde que tenham contribuído por pelo menos 20, e mulheres aos 62, com 15 de contribuição. No meio rural e noutras carreiras para as quais a reforma abriu exceções, as condições são mais favoráveis. Os economistas sugerem uniformizar 67 anos e 20 anos de contribuição para todos, sem distinção entre trabalhadores rurais e urbanos. Para evitar mudança abrupta, a proposta é elevar a idade mínima em seis meses a cada ano. Como mulheres arcam com maior carga quando os filhos são pequenos, ganhariam créditos equivalentes a 1 ano e meio de contribuição por filho.

Duas sugestões trazem inovações especialmente pertinentes para propiciar uma solução duradoura aos desafios previdenciários. A primeira diz respeito ao envelhecimento inexorável da população. O estudo sugere ajustar automaticamente a idade mínima de aposentadoria pelo aumento da expectativa de vida. Muitos países já fazem isso. O incremento de um ano na expectativa de vida dos cidadãos de 65 anos eleva a idade mínima na mesma proporção em países como Estônia, Grécia e Itália. Na Finlândia, na Holanda e em Portugal, o aumento corresponde a dois terços, medida defendida pelos economistas para o Brasil.

A segunda sugestão é reformular o modelo previdenciário. No regime atual, as contribuições de todos alimentam um fundo comum para bancar aposentadorias — modelo conhecido como “repartição”. Pela proposta, o sistema passaria a contar com contas individuais num modelo híbrido entre a “repartição” e a “capitalização”. “Uma fração de cada aposentadoria continuará a ser financiada pelo regime de repartição, mas uma parcela passará a ser custeada por capitalização financeira”, diz o estudo.

A última reforma da Previdência foi aprovada em 2019. Desde a Constituição de 1988, foi a terceira. É arriscada a estratégia de promover repetidas alterações para acomodar interesses de grupos de pressão, pois o esforço para a mobilização política se torna cada vez mais alto. A proposta do IMDS tem o mérito de não fugir às dificuldades e de propor uma solução duradoura. Se a adotarem, o vencedor da eleição de outubro e os novos congressistas promoverão uma mudança com efeitos positivos por várias décadas.

Rio e SP fazem bem em endurecer regras para veículos autopropelidos

Por O Globo

De nada adiantará haver leis para disciplinar ruas e ciclovias se forem desrespeitadas a cada esquina

A profusão de bicicletas elétricas e outros veículos leves em meio a pedestres, corredores, entregadores, skatistas e usuários de patinetes tem imposto um desafio às cidades. Disciplinar a confusão em ciclovias e ciclofaixas ou fora delas, junto ao trânsito, é tarefa das mais complexas. Por isso fazem bem as prefeituras de São Paulo e Rio de Janeiro em apertar as regras para melhorar a convivência e, sobretudo, aumentar a segurança. A situação está longe de controlada.

Em São Paulo, novas regras estão em vigor desde 28 de agosto, mas a fiscalização começará apenas em 12 de outubro, para que os cidadãos possam se adaptar e a prefeitura promover campanhas educativas. Entre as principais normas estão o limite de 20 km/h para bicicletas e veículos autopropelidos em ciclovias e ciclofaixas, desde que não sejam compartilhadas com pedestres — nesse caso, cai para 6 km/h. A alta velocidade é um dos principais motivos de acidentes. Na ausência de ciclovias, bicicletas e autopropelidos poderão circular apenas em vias com velocidade de até 50 km/h. Patinetes estarão autorizados nas de até 40 km/h.

No Rio, a prefeitura publicou novo decreto em 26 de agosto, ajustando normas e criando regras específicas. O anterior havia sido editado em abril, depois de um acidente que matou mãe e filho quando andavam de bicicleta elétrica num trecho onde não havia ciclovia. Pela legislação atual, ciclomotores serão permitidos em vias com velocidade entre 40 km/h e 60 km/h. Bicicletas elétricas e autopropelidos poderão trafegar em vias de até 40 km/h. Aos domingos e feriados, quando a orla da Zona Sul é fechada para lazer, autopropelidos só poderão circular por uma ciclofaixa criada junto ao canteiro central. O limite de velocidade nas ciclovias será de 25 km/h.

O aumento significativo de veículos leves, impulsionado por economia e praticidade, trouxe problemas no mundo todo. Cada cidade tem encontrado soluções de acordo com suas características e seus orçamentos. A China, que reúne frota estimada em 450 milhões de bicicletas elétricas, tem enfrentado o problema ampliando a malha cicloviária não só em extensão, mas também em largura, com viadutos e túneis exclusivos para ciclistas. É claro que municípios brasileiros vivem outra realidade. Muitas ciclovias foram construídas numa época em que não havia a febre dos autopropelidos. Os orçamentos são apertados e precisam priorizar os problemas crônicos do transporte de alta capacidade. Mas isso não exime o governo de pôr ordem nas ciclovias.

São Paulo e Rio seguem no sentido correto ao impor regras mais rigorosas. Deveriam inspirar outras cidades brasileiras. Mas estabelecer novas normas é apenas parte da questão. A confusão se estende às calçadas, onde qualquer um pode ser surpreendido por bicicletas e até por motos, e às ruas e avenidas, onde carros, ônibus, motos, bicicletas e autopropelidos disputam espaço. É fundamental fiscalização permanente e ampla. De pouco adiantarão leis bem-intencionadas se forem atropeladas a cada esquina.

Com alta de Cury, Datafolha traz más notícias para Lula

Por Folha de S. Paulo

Vantagem do presidente sobre Flávio Bolsonaro volta à margem de erro em eventual 2º turno

A pobreza da política brasileira se revela por completo quando se nota que acusações de corrupção são o fator de maior impacto na disputa

A pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (3) confirma duas novidades importantes da campanha: a vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) se dissipou, e o psiquiatra Augusto Cury (Avante) assumiu a terceira posição na preferência dos eleitores.

Lula, com 38% das intenções de voto no primeiro turno, está cinco pontos à frente de Flávio, pouco acima da margem de erro do levantamento. Sinal de que, ao menos por ora, o escândalo Dark Horse, com as conversas sórdidas entre o senador e Daniel Vorcaro, perdeu o impacto de meses atrás.

Num eventual segundo turno entre os dois, a situação soa ainda melhor para Flávio. Embora apareça numericamente atrás do petista, ele agora está a meros dois pontos de distância, 46% a 44%, dentro da margem de erro.

Do ponto de vista de Lula, as más notícias não terminam por aí. O Datafolha também mostra que o governo federal é considerado ótimo ou bom por 31% dos entrevistados, regular por 25% e ruim ou péssimo por 42%, o que significa, nesse último caso, a avaliação negativa mais elevada deste terceiro mandato do petista.

Pior para o presidente, o hiato entre ruim/péssimo e ótimo/bom cresceu a despeito de já ter começado a campanha, um momento em que o incumbente costuma ser favorecido pela possibilidade de exibir suas realizações.

Ao que parece, relembrar os programas de benefícios sociais do governo tem sido insuficiente para superar a desaceleração do PIB e o efeito das suspeitas envolvendo Fábio Luís, o Lulinha.

E há mais. A inesperada ascensão de Augusto Cury na corrida parece ter minado os esforços do presidente para tentar vencer a disputa ainda no primeiro turno, em parte porque o escritor de autoajuda se tornou opção para eleitores que antes figuravam como indecisos ou propensos a votar branco ou nulo.

Com o salto de Cury, que subiu de 2% para 8% das preferências, ganhou corpo o bloco formado pelos candidatos de menor expressão eleitoral: Ronaldo Caiado (PSD), com 4%, Renan Santos (Missão), com 3%, e Romeu Zema (Novo), com 2%, além de Samara (UP), Edmilson Costa (PCB) e Rui Costa Pimenta (PCO) com 1%.

Neste primeiro momento, Cury pode ter conquistado a simpatia de muitos eleitores cansados da polarização entre o PT e a família Bolsonaro, assim como pode ter canalizado o sentimento de antipolítica que sempre grassa na esteira dos grandes escândalos.

As atuações desastradas do psiquiatra nos debates e entrevistas, com total falta de traquejo e de conhecimento, talvez até tenham contribuído para a imagem alternativa que ele pretende criar. Mas, se quer mesmo governar o Brasil, ele deveria ser capaz de demonstrar mais do que isso.

Não só ele, aliás. A pobreza da política brasileira se revela por completo quando se nota que as acusações de fraudes e corrupção são o fator de maior impacto na disputa presidencial.

Já não é possível cumprir a meta do Acordo de Paris

Por Folha de S. Paulo

Programa da ONU projeta que é inevitável superar o limite de 1,5ºC no aumento médio do aquecimento global

Mesmo com reduções de emissões robustas, a temperatura atingiria um pico de 1,8°C em meados deste século antes de começar a cair

Em 2015, os países signatários do Acordo de Paris se comprometeram a manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais ao longo do século, empregando esforços para limitá-lo a 1,5°C.

Medidas foram adotadas, mas ficaram muito aquém do necessário para reduzir emissões globais de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento do planeta, na velocidade exigida.

Em relatório divulgado na quarta (2) pelo programa das Nações Unidas para o meio ambiente (Pnuma), a ultrapassagem de 1,5°C já é considerada inevitável e deve ocorrer de forma sustentada nos próximos anos.

Se forem mantidas as políticas ora em vigor, o aquecimento é projetado em cerca de 2,8°C até 2100, variando de 1,9°C a 3,6°C.

Mesmo com reduções de emissões muito mais rápidas e profundas, a temperatura ainda atingiria um pico em torno de 1,8°C, com intervalo de 1,7°C a 2,2°C, em meados deste século antes de começar a cair. Esta trajetória, chamada de "overshoot", deve ser o novo foco de atenção.

Os esforços precisam ser concentrados na contenção dos graus acima de 1,5°C e do período de tempo em que a temperatura ficará acima desse nível.

O Pnuma, assim, altera o desenho da política climática preconizada. No antigo horizonte, a meta era reduzir emissões e alcançar o net zero (quando a quantidade de CO₂ gerado é igual à de CO₂ retirado da atmosfera) para estabilizar a temperatura.

Para reduzi-la no overshoot e tentar retornar a 1,5ºC, contudo, o net zero já não basta. Será necessário chegar a emissões líquidas negativas (mais CO₂ retirado da atmosfera do que CO₂ emitido). A escala dessa remoção é enorme: uma queda de 0,1°C exigiria algo como 220 bilhões de toneladas de CO₂ em emissões líquidas negativas, aponta o relatório.

Mesmo que se retorne a 1,5°C, parte dos danos poderá ser irreversível, como perdas de biodiversidade, geleiras e recifes, além de mudanças profundas na amazônia e na circulação do oceano Atlântico. Fenômenos climáticos extremos, que já atingem populações em todo o mundo, serão mais fortes e frequentes.

Por isso mitigação e adaptação devem caminhar juntas. É preciso, simultaneamente, reduzir emissões, reflorestar, expandir tecnologias de captação de carbono e preparar cidades, agricultura, infraestrutura e sistemas de saúde para impactos já, infelizmente, inevitáveis. A humanidade foi lenta na corrida para alcançar a meta de Paris, mas ainda é capaz de conter o mal maior.

O Brasil precisa de um novo STF

Por O Estado de S. Paulo

O Supremo, tal como é hoje, precisa acabar. A crise expôs uma arquitetura disfuncional, que concentrou poder demais em 11 ministros e tornou insuficiente a simples troca de peças

A crise na qual o Supremo mergulhou exige que se apurem responsabilidades e se corrijam abusos. Mas ela impõe uma questão mais radical, que transcende este ou aquele ministro ou decisão: por que a República concentrou tamanho poder em 11 pessoas? Décadas de hipertrofia levaram a Corte para dentro da política e acumularam em suas mãos funções incompatíveis com a distância esperada de um juiz. Tamanho poder tornou a República excessivamente dependente da prudência dos ministros. Essa arquitetura precisa acabar.

O STF guarda a Constituição, arbitra conflitos entre Poderes, julga ações penais e ocupa o topo de uma estrutura recursal. Sob uma Constituição abrangente, tamanha amplitude fez do Supremo protagonista na política. Em questões que a Carta deixou à deliberação democrática, a Corte frequentemente avança da fiscalização das leis à sua construção. Poderes excepcionais, criados para reagir a ataques à instituição, perpetuaram-se e multiplicaram-se numa infraestrutura da exceção.

Uma Corte que recebe dezenas de milhares de processos por ano não consegue deliberar coletivamente sobre tudo. A sobrecarga ajudou a converter poder institucional em poder pessoal: liminares, relatorias, prevenção e controle do tempo permitem que decisões de um ministro governem situações relevantes antes do colegiado. A hipertrofia cobra seu preço do próprio Supremo. Ao entrar continuamente na arena política, a Corte perde a distância necessária para arbitrá-la e degrada a própria autoridade.

Os freios existem, mas rareiam no vértice. Boa parte dos controles ordinários está nas mãos dos próprios ministros; fora, resta apenas o remédio extremo do impeachment. A distorção se agrava quando o tribunal participa de procedimentos investigativos ligados à própria proteção e exerce jurisdição sobre seus desdobramentos. Há um traço absolutista num arranjo que entrega poderes tão extensos e confia seus limites à contenção de quem os exerce. O liberalismo desconfia do poder antes de conhecer quem vai exercê-lo. Não há razão para suspender essa prudência diante de uma toga.

Algumas reformas funcionam. Mudanças regimentais reduziram decisões monocráticas, mostrando que regras melhores alteram o exercício do poder. Mas consertar uma engrenagem deixa intacta a máquina. Mesmo uma Corte genuinamente colegiada continuará hipertrofiada se julgar matérias demais. Reduzir seu raio de ação exige rever competências e separar funções acumuladas, além de devolver à política escolhas que a Constituição nunca retirou dela. A reforma necessária alcança a missão, os poderes e o funcionamento da instituição.

O País precisa discutir uma nova Suprema Corte. Ela pode julgar menos, deliberar melhor e falar com maior autoridade em sua missão precípua: proteger a Constituição, os direitos fundamentais e a divisão de poderes. Uma Corte forte não precisa estender seus domínios por toda a vida pública.

As democracias constitucionais oferecem caminhos distintos. Algumas separam a jurisdição constitucional da Justiça comum; outras mantêm Supremas Cortes generalistas, mas filtram severamente os casos. Elas mostram que uma democracia constitucional não precisa entregar ao mesmo vértice tudo o que o Brasil concentrou no STF.

Uma nova Corte também poderá cometer abusos. Reformas sob o calor da crise podem virar instrumentos de revanche política. A mudança, portanto, deve nascer do processo constitucional e preservar a independência judicial. Antes do projeto, vem o princípio: distribuir o poder, inclusive o poder de controlar quem o exerce.

Crises são dolorosas, mas são também uma oportunidade. Este jornal estava presente quando a República aboliu o Poder Moderador do imperador. Uma corrente do liberalismo republicano, com Ruy Barbosa à frente, depositou no Supremo a esperança de um guardião impessoal da Constituição, capaz de proteger direitos e conter o poder. Mais de um século depois, o árbitro acumulou tantas funções que se tornou protagonista dos conflitos que deveria arbitrar, convertendo-se numa fonte suprema de instabilidade. Enquanto esse desenho institucional se perpetuar, nenhuma instituição estará segura no País. O STF atual precisa acabar para que o Brasil possa construir uma Suprema Corte à altura da República.

A selvagem negação da universidade

Por O Estado de S. Paulo

Ao justificarem o espancamento de um estudante, professores universitários violentam a própria essência da academia, que é a livre circulação de ideias

O estudante Diego Araújo foi espancado por colegas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) depois de ser acusado de nazismo. Vestia uma camiseta de uma banda que usa iconografia associada ao nazismo e carregava um broche com uma suástica riscada. Diego – que se diz marxista – teria tentado explicar os símbolos como um protesto antinazista, antes de ser arrancado da aula a socos e pontapés.

Ver jovens se comportando como animais é sempre chocante – mas não surpreendente. Realmente espantosa foi a conduta dos adultos que deveriam ensinar-lhes algo melhor. Bem depois, já sem o álibi da confusão ou do calor do momento, vários professores preferiram oferecer à barbárie uma justificação acadêmica.

Em um manifesto, docentes tratam Diego como “neonazista”, atribuem-lhe um “propósito evidente” e dão por perpetrado, pela vítima do espancamento, um “ato criminoso”. A apuração, que deveria separar acusação, evidência e conclusão, torna-se supérflua. O documento repudia a caracterização como linchamento do que chama de “autodefesa dos estudantes”. Logo depois, declara: “Recusamos o justiçamento”. Recusam o justiçamento pelo nome, enquanto tratam meros símbolos como “violência”, e violência como “autodefesa”, convertendo a vítima em agressor e os agressores em vítimas.

Essa trapaça intelectual é particularmente perversa por ser fabricada por acadêmicos. Uma acusação de nazismo deveria aumentar a exigência de prova, não dispensá-la. O que significavam os símbolos? Qual era a intenção de quem os portava? O que mostram os vídeos sobre as agressões atribuídas a Diego? Perguntas elementares foram atropeladas pelo fanatismo moral, que transforma o acusado em ameaça e prestigia uma horda de covardes como heróis.

Universidades deveriam tolerar doses especialmente altas de heterodoxia, provocação e até estupidez. Uma opinião abjeta pode ser refutada, ridicularizada ou desmoralizada à luz da História. Se houver ameaça, discriminação ou violência, existem regras e autoridades para apurá-las e puni-las. O que a academia não pode fazer sem prostituir sua vocação é confundir a repulsa por uma ideia com licença para silenciar à força quem a professa.

O filósofo austro-britânico Karl Popper (1902-1994), tantas vezes invocado para justificar a “intolerância contra os intolerantes”, defendeu algo muito mais exigente. Enquanto fosse possível enfrentar os intolerantes “pelo argumento racional” e contê-los pela opinião pública, suprimi-los seria “imprudente”. A força seria a última reserva contra os que recusassem a discussão e apelassem a “punhos ou pistolas”. A inversão na UFRJ seria caricata se não fosse trágica: o acusado tentava se explicar; os autoproclamados inimigos da intolerância recorreram aos punhos.

Outro filósofo, o alemão Herbert Marcuse (1898-1979), um dos mentores da Nova Esquerda, racionalizou essa perversão em seu panfleto Tolerância Repressiva. Para ele, a neutralidade liberal podia perpetuar a opressão, o que justificaria uma tolerância discriminatória contra movimentos reacionários. A certeza de combater o mal pode revestir a própria intolerância de virtude. Direitos e garantias começam então a parecer concessões indevidas ao inimigo.

Há anos uma hegemonia ideológica lobotomizou os departamentos de Humanidades, desumanizando dissidentes e encorajando vanguardas truculentas a reprimi-los. Hegemonia não exige unanimidade. Basta que discordar custe caro e que até pedir provas ou defender garantias desperte a suspeita de cumplicidade com ideias recriminadas como heréticas. A autocensura faz o resto. A universidade abastece, assim, uma cultura da intolerância cada vez mais impregnada no debate público e nas instituições nacionais: quanto mais virtuosa a causa e mais detestado o adversário, maior a tolerância com atalhos em nome do bem.

Por isso a reação dos acadêmicos é tão sórdida. Jovens não precisam de mestres para aprender a odiar um inimigo – qualquer multidão ensina isso depressa –, mas sim para aprender a conviver com quem desprezam, a desconfiar das próprias certezas e a trocar a força pelo argumento. Professores que chamam socos de “autodefesa” ensinam a lição oposta. A selvageria começou no corredor da UFRJ. Seu golpe mais brutal na universidade, no entanto, veio de docentes dispostos a lhe dar uma teoria.

Frustração líquida e certa

Por O Estado de S. Paulo

Governo superestimou arrecadação com dividendos para compensar isenção de Imposto de Renda

Vendida pelo governo Lula como medida de compensação à isenção do Imposto de Renda (IR) para trabalhadores formais das classes C, D e E, a arrecadação com dividendos – parte do lucro das empresas distribuída aos acionistas – que superam os R$ 50 mil mensais está muito aquém do estimado pelo Ministério da Fazenda. Isso só demonstra o quanto a gestão petista trabalha com previsões otimistas.

Entre janeiro e julho deste ano, a Receita Federal arrecadou R$ 3,145 bilhões com a taxação dos dividendos. Desde o início do ano, quando passou a valer a isenção de IR sobre salários de até R$ 5 mil mensais – além de desconto para vencimentos de até R$ 7.350 por mês –, uma alíquota mínima de 10% incide sobre a distribuição de lucros e resultados.

Ainda assim, mesmo após o governo ter rebaixado de R$ 28 bilhões para R$ 17,2 bilhões a previsão de receita com os dividendos ao longo de 2026, tal meta só será cumprida se o ritmo de arrecadação aumentar quase cinco vezes até o final do ano.

Para a Receita Federal, não existem fundamentos técnicos para afirmar que o recolhimento de IR sobre dividendos esteja abaixo ou acima do esperado. O Tribunal de Contas da União (TCU), por sua vez, discorda.

Em relatório, o órgão destacou que há risco relevante de o governo federal sofrer frustração de arrecadação com receitas previstas para este ano. O TCU cita o IR sobre dividendos como exemplo.

Mesmo considerando os efeitos da sazonalidade, que pode resultar em algum aumento de recolhimento no segundo semestre, tanto o TCU quanto especialistas são céticos em relação ao cumprimento da meta estabelecida pelo governo.

Como afirmou o economista José Roberto Afonso em entrevista ao Estadão no final de junho, a frustração com o IR sobre dividendos é “líquida e certa”. Ele avaliou que, na melhor das hipóteses, o recolhimento no final do ano ficaria na casa dos R$ 10 bilhões.

Não bastasse não compensar a renúncia fiscal que o governo fez ao promover a isenção do IR sobre os salários daqueles que, ainda que não ganhem muito, estão longe de figurar entre os mais pobres do País, o grosso do arrecadado com a taxação dos dividendos tem sido pago por pequenas e médias empresas, que ao contrário das grandes não têm estrutura para fazer um planejamento tributário mais elaborado.

Já no ano passado, antes da entrada em vigor das novas regras sobre dividendos, os negócios de maior porte acabaram optando pela distribuição antecipada de ganhos aos acionistas, driblando assim a tributação mais elevada.

Tudo isso só reforça a necessidade de que políticas públicas de grande impacto nas contas do País sejam desenhadas com mais zelo pelo governo. Do contrário, o Brasil seguirá privilegiando quem tem mais renda, enquanto pune as camadas mais desfavorecidas da população e as pequenas empresas.

Até aqui, a isenção de IR sobre salários tem se provado um exemplo dos mais bem acabados do populismo fiscal que grassa no País e que, ao fim e ao cabo, acaba por prejudicar mais do que beneficiar a maior parte da população brasileira.

Nenhum ministro está acima do Supremo

Por Correio Braziliense

O STF não pode se transformar numa arena em que disputas pessoais, suspeitas de conflitos de interesse e decisões dos próprios envolvidos deixem em segundo plano a Justiça e o interesse público

Nenhum homem está acima da instituição. Essa máxima, elementar numa democracia, tornou-se a questão central para o Supremo Tribunal Federal (STF). A crise provocada pelo caso Banco Master ultrapassou os limites de uma investigação criminal e expôs divergências entre ministros, Polícia Federal (PF) e Procuradoria-Geral da República (PGR) num grau de tensão que ameaça contaminar a credibilidade da própria Corte. O Supremo precisa, com urgência, reencontrar o caminho da estabilidade.

Não se trata de proteger seus integrantes nem de blindá-los, mas de preservar uma instituição que ocupa posição central no sistema democrático brasileiro. O STF não pode se transformar numa arena em que disputas pessoais, suspeitas de conflitos de interesse e decisões dos próprios envolvidos deixem em segundo plano a Justiça e o interesse público. A regra deve valer para todos: fatos precisam ser investigados, responsabilidades individualizadas e direitos preservados. Não existem atalhos legítimos no Estado de Direito.

As investigações sobre o Master são especialmente delicadas porque alcançaram extensa rede de relações empresariais, jurídicas e políticas. Quando integrantes da mais alta Corte entram em confronto por decisões ligadas a uma investigação dessa dimensão, o problema imediatamente se torna institucional. Divergências jurídicas são naturais num tribunal colegiado. O que não é normal é a impressão de que decisões judiciais, investigações e medidas policiais possam ser movimentos numa disputa entre magistrados.

Existe o risco de transformar o Supremo simultaneamente em personagem, investigador, vítima e juiz de fatos que eventualmente alcancem seus integrantes ou pessoas próximas a eles. A resposta para esse problema não pode ser corporativa. Se existem suspeitas, devem ser investigadas segundo a lei. Se forem falsas, os atingidos têm direito à reparação. Se houver irregularidades, ninguém deve receber tratamento privilegiado em razão do cargo que ocupa.

O mesmo rigor vale para Daniel Vorcaro e eventuais colaboradores. Delação premiada não é sentença nem prova suficiente para condenação. As declarações precisam ser confirmadas por provas independentes. Da mesma forma, PF e Ministério Público precisam atuar com autonomia, sem submissão aos interesses dos investigados ou às disputas políticas e institucionais.

 A crise também expõe um problema anterior ao Master: a excessiva personalização do Supremo. O STF passou muitas vezes a ser identificado pelos nomes dos ministros, e não pela força de sua jurisprudência. Essa inversão precisa acabar. O Supremo não pertence aos seus 11 integrantes. Cada ministro exerce temporariamente uma parcela do poder conferido pela Constituição à instituição. Ministros passam, a Corte permanece.

Defender o Supremo, portanto, não significa defender automaticamente qualquer ministro. Pode significar investigar seus integrantes, reconhecer impedimentos, corrigir decisões e impor limites. A transparência fortalece o tribunal, enquanto o corporativismo o enfraquece.

Nada será mais destrutivo para sua legitimidade do que consolidar a percepção de que existem dois padrões de Justiça: um para os cidadãos e outro para as cúpulas do Estado. O caso Master tornou-se um teste para o STF. O Congresso não pode usar a crise para intimidar ministros, mas a Corte também não pode responder às críticas legítimas refugiando-se numa fortaleza corporativa. A saída está na colegialidade, na transparência, no respeito às competências constitucionais e ao devido processo legal.

É preciso despersonalizar o conflito. Nenhum ministro é maior do que o Supremo, assim como o Supremo não está acima da Constituição. Sua autoridade será preservada se demonstrar que a regra fundamental da República vale para todos: ninguém está acima da lei.

Doação de órgãos: esperança e recomeços

Por O Povo (CE)

Estimular o diálogo antes de uma situação de luto para permitir que outras pessoas continuem vivendo é uma das metas das campanhas de doação de órgãos. É essa reflexão que a campanha Setembro Verde, promovida pelo Instituto Dr. José Frota (IJF), da Prefeitura de Fortaleza, propõe ao trazer como tema, em 2026, a mensagem "Quem doa órgãos, doa esperança e recomeços".

Sabe-se que a doação de órgãos representa um dos mais importantes gestos de solidariedade que uma pessoa e sua família podem realizar. Quando alguém decide ser doador e comunica essa vontade à família, está contribuindo para que, mesmo após sua morte, outras pessoas tenham a oportunidade de continuar suas histórias. Afinal, para quem espera por um transplante, receber um órgão não significa apenas realizar um procedimento médico. Significa ganhar uma nova possibilidade de vida.

Os números apresentados pelo IJF, mostrados em matéria do O POVO, ajudam a demonstrar a importância desse gesto. Entre janeiro e julho de 2026, o hospital contou mais de uma centena de doadores de órgãos e tecidos e registrou, em julho, o maior número mensal de doadores do ano. Além disso, o IJF alcançou 82% de autorização familiar para a doação, índice superior à média nacional informada pela instituição, de aproximadamente 55%.

Esses dados mostram que a conscientização pode fazer diferença. Quanto mais as pessoas conhecem a importância da doação e conversam sobre o assunto com seus familiares, maiores são as possibilidades de que uma decisão favorável seja tomada em um momento difícil.

No Brasil, a autorização da família é indispensável para a doação de órgãos de pessoas falecidas. Por isso, não basta simplesmente desejar ser doador; é fundamental conversar em vida com os familiares e deixar explícita essa vontade.

Outro motivo para apoiar a doação é que ela transforma uma situação de perda em uma oportunidade de solidariedade. Nenhuma doação, por certo, diminui a dor de uma família diante da morte de alguém querido. Entretanto, saber que aquela pessoa poderá contribuir para que outras continuem vivendo pode ajudar algumas famílias a atribuir um novo significado à despedida.

Também é importante combater dúvidas e informações equivocadas acerca do processo. A doação de órgãos após a morte somente ocorre após a confirmação da morte encefálica, seguindo protocolos médicos específicos e rigorosos. A família também recebe acompanhamento e informações durante o processo.

Desse modo, a campanha Setembro Verde deve ser encarada como um convite permanente ao diálogo. Falar sobre doação de órgãos ainda em vida é um ato de responsabilidade. Defender a doação de órgãos é, portanto, defender a solidariedade, a empatia e o direito de outras pessoas a uma nova oportunidade.

 

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