segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O voto das mulheres, por Ana Paula Araújo

O Globo

Um voto parece pouco, mas é o que nos cabe dentro de uma construção coletiva. E é um direito conquistado com muita luta

‘Eu não deixava!’ Essa era a senha para atiçar qualquer conflito na escola. Quando alguém estava quase levando um desaforo para casa em nome de evitar confronto, vinha a frase que reanimava a briga. E afinal, como diria o gênio Marcelo Yuka, paz sem voz é medo. Às vezes também é desleixo, tédio, desinteresse. Nenhum desses sentimentos deveria prevalecer quando se trata do que impacta nossa vida.

Um pouco depois dessa fase escolar mais selvagem, já era universitária quando boa parte dos brasileiros votou pela primeira vez para presidente, em 1989. Estudante da Universidade Federal de Juiz de Fora e engajada, fui a comícios, tive meus primeiros embates políticos e cheguei a panfletar santinho de candidato. Acredite, as pessoas paravam para me ouvir e trocar ideias. Eu tinha 17 anos.

Na eleição seguinte, como estagiária de uma rádio, percorria seções eleitorais para checar a contagem dos votos. Memória distante para quem já havia nascido, o voto em cédula de papel era contado manualmente. Eu perambulava ao lado de colegas jornalistas por um ginásio enorme, com cercadinhos onde as urnas eram abertas na presença de representantes dos partidos, e anotava os números que os mesários totalizavam em voz alta. A imprensa corria para fazer uma contabilidade paralela e antecipar alguns resultados, no que hoje me parece quase insalubre. De lá pra cá, sigo mediando debates, entrevistando candidatos, reportando as campanhas e os dias de votação. Nunca me desliguei de nenhuma eleição porque exercer a democracia foi além do meu papel de cidadã, virou também parte do meu ofício. Mas como é para quem não tem essa obrigação profissional? Às vésperas de mais uma, quis checar como está o ânimo das mulheres com a eleição.

Pedi ao Instituto Quaest um recorte das pesquisas sobre as eleitoras da minha geração, com 50 anos ou mais. Aparecemos bem divididas entre muito interessadas, pouco interessadas ou sem nenhum interesse no pleito que se aproxima. Setenta e seis por cento já têm uma decisão definitiva sobre em quem votarão. E fizeram sua escolha baseadas principalmente nas propostas dos candidatos. É uma fatia do eleitorado que se mostra pouco influenciável pela opinião de amigos, familiares ou pelos apoios de políticos e de famosos. Compartilhamos com a população em geral a preocupação número um dos brasileiros com a segurança. Logo em seguida, para nós, aparece a saúde. Na comparação com o eleitorado masculino e com os mais jovens, é um grupo que demonstra maior apoio à tributação dos ricos e menor aprovação à privatização de serviços de saúde e educação.

E no outro lado da equação, onde estão as mulheres? Um levantamento da cientista política Marcela Machado, da Universidade de Brasília, mostra que neste ano temos um total de 36% de candidaturas femininas. Já é uma minoria, e, quanto mais poder tem o cargo, menos mulheres aparecem na disputa. Na votação para governador, ocupamos mais de 40% das nomeações para vice e menos de 17% para o cargo titular. Também há mais mulheres concorrendo como suplente do que como senadora. O prédio do Senado tem uma galeria com fotos daquelas que já ocuparam uma cadeira durante toda a República. Não preenche nem uma parede inteira. Para as negras, a escada é ainda mais íngreme. Elas são 18% das candidaturas para deputada federal e apenas 8% entre quem tenta o Senado. Na composição atual do Congresso, dos 513 deputados, 88 são mulheres. No Senado, a bancada feminina ocupa 15 entre 81 cadeiras. Uma sub-representação para 52% do eleitorado.

No mês passado, estive em Brasília gravando uma série de reportagens que vai ao ar nesta semana no Bom Dia Brasil, da TV Globo. Conheci uma família com quatro gerações de eleitoras. A matriarca nasceu no ano em que o voto feminino se tornou um direito no país. Aos 94, já desobrigada por lei, faz questão de votar. Mesmo compartilhando o desânimo generalizado com o naipe dos nossos políticos, não abre mão de exercer sua cidadania. Um voto parece pouco, mas é o que nos cabe dentro de uma construção coletiva. E é um direito conquistado com muita luta. É a nossa voz. E aí, vai deixar?

 

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