segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O risco Lula 4.0? Por Carlos Pereira

O Estado de S. Paulo

A alternância do poder preserva a independência das instituições de controle

Qual o principal risco institucional de um quarto mandato de Lula? Talvez não esteja nos poderes da Presidência, mas em algo menos visível: os efeitos de um período excepcionalmente longo sem alternância de poder sobre as instituições encarregadas de controlar o próprio Executivo.

O Supremo ilustra esse risco. Dos dez atuais ministros, seis foram indicados por governos petistas: Cármen Lúcia e Dias Toffoli por Lula; Luiz Fux e Edson Fachin por Dilma; Cristiano Zanin e Flávio Dino novamente por Lula. Além da vaga aberta com a saída de Luís Roberto Barroso, outros quatro ministros atingirão a aposentadoria compulsória no próximo mandato.

Isso significa que esses ministros, necessariamente, votarão de acordo com os interesses de quem os indicou? Evidentemente, não. O julgamento do mensalão é provavelmente o melhor contraexemplo. Ministros indicados por governos petistas impuseram custos judiciais elevados a figuras centrais do próprio PT. Nomeação não necessariamente implica subordinação.

O problema é outro. Uma fonte importante da independência dos órgãos de controle é a competição política. Quando diferentes forças se alternam no governo, nenhuma sabe quem ocupará a Presidência amanhã. Essa incerteza cria incentivos para preservar instituições suficientemente independentes para controlar tanto adversários quanto aliados. A alternância também diversifica quem escolhe seus integrantes, dificultando que uma única força política molde sua composição por longos períodos.

Em pesquisa recente com Marcus André Melo e Gabriel Negretto sobre 18 democracias latino-americanas entre 1978 e 2024, mostramos que presidentes fortes não produzem, por si sós, maior erosão democrática. O principal fator associado à resiliência é o legado de instituições que demonstraram capacidade de limitar o Executivo. Restrições que funcionaram no passado tornam-se mais críveis no presente. A rejeição pelo Senado da indicação de Jorge Messias mostra que esses freios continuam funcionando. Mas também revela por que competição e alternância importam.

O risco de Lula 4.0 é, portanto, diferente do risco de Bolsonaro 2.0. Não requer um presidente disposto a atacar, deliberadamente, as instituições. Pode resultar do efeito cumulativo de uma mesma força política permanecer tempo suficiente no poder para influenciar, por mecanismos perfeitamente constitucionais, a composição das instituições encarregadas de controlá-la. Alternância de poder não é apenas consequência da democracia. É também um dos mecanismos que ajudam a qualificá-la e a preservá-la.

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