Folha de S. Paulo
Por que as desigualdades étnico-raciais não
estão no centro do debate político?
Só os políticos que reconhecem o impacto do
racismo nas vidas de milhões de cidadãos brasileiros deveriam merecer voto
A três semanas das eleições gerais
—pleito para escolher presidente e vice-presidente da República, governador e
vice-governador dos estados e do Distrito Federal, senadores e deputados
federais, estaduais e distritais (TSE)—
decidi compartilhar algumas indagações que me acompanham sobre o voto no
Brasil.
Considerando que o papel dos políticos é
representar os interesses dos cidadãos para garantir que as decisões levem em
conta direitos e necessidades do povo:
Por que as desigualdades étnico-raciais (que constituem um dos principais entraves nacionais ao desenvolvimento e ao estabelecimento de uma sociedade mais justa, próspera e democrática) não estão no centro do debate político?
Por que nenhum candidato diz claramente
que ações afirmativas em prol da equidade também favorecem
pessoas brancas pobres?
Por que os partidos seguem dificultando o
acesso das candidaturas negras, indígenas e quilombolas aos recursos (ao menos
30%) do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e do Fundo Partidário
previstos na Constituição?
Por que a sub-representação das mulheres é
tão persistente diante do contingente majoritariamente feminino (52,8%) do
eleitorado?
Por falar em mulheres, quem sabe responder de
cabeça e de pronto os nomes das duas candidatas (uma é negra) que concorrem à
Presidência da República?
Por que a eleição de candidatos pretos e
pardos não é representativa e proporcional à demografia num país
majoritariamente negro como o nosso?
Já imaginou como seria se o eleitorado negro (62,6%, segundo o TSE) decidisse votar
maciçamente em candidatos pretos e pardos?
E se tivéssemos mais mulheres pretas e pardas
no Congresso
Nacional e nos Legislativos Estaduais?
Essas são algumas questões sobre as quais
acredito que todo eleitor que se julga antirracista deveria refletir antes de votar. No país
mais miscigenado do mundo (projeto DNA do Brasil), apenas políticos que
reconhecem o impacto do racismo nas vidas de milhões de cidadãos brasileiros
deveriam merecer voto.

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