O Globo
Cury diz ser de direita na cabeça, mas de
esquerda no coração e tira no momento votos de vários candidatos, um pouco de
Lula e Renan, a maior parte de Flávio.
O sonho de Ronaldo Caiado, o candidato a presidente da República do PSD, era chegar a esta altura da campanha com dois dígitos nas pesquisas de opinião. Achava que, a partir daí, subiria para enfrentar Lula no segundo turno. Quem chegou lá, pelo menos pelas pesquisas digitais e telefônicas de opinião, foi o escritor Augusto Cury, candidato do Avante, um azarão verdadeiro — não confundir com o filme “Dark Horse”. Pelo menos até agora, não há indicação de que Cury tenha alguma ligação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, mas, como ele acaba de entrar no jogo, sua vida será revirada pelo avesso.
A subida inesperada do autor best-seller de
livros de autoajuda reflete, num primeiro momento, a fuga para a frente de
eleitores que buscam alternativa à polarização entre o presidente Lula e o
senador Flávio Bolsonaro. Esse lugar já foi de Renan Santos, do Missão, mas ele
parece ser muito agressivo para o gosto médio do eleitorado. O Cury candidato
parece ter se encontrado com o Cury escritor em meio à campanha. Começou a ser
identificado por muitos dos milhões de leitores que já procuraram sua ajuda na
leitura. Outros tantos já o haviam rejeitado como candidato a presidente. Não
se sabe o que decantará dessa arrancada nas sondagens, que precisam ser
comprovadas nesta semana pelas pesquisas do Datafolha e da Quaest, os dois
principais institutos de pesquisa atuando no país.
Alguma coisa certamente se mexeu na disputa
presidencial, e — como Cury diz ser de direita na cabeça, mas de esquerda no
coração — ele tira no momento votos de vários candidatos, um pouco de Lula e
Renan, a maior parte de Flávio. Não é à toa que tanto a campanha de Lula quanto
a de Flávio apoiam Renan contra a punição determinada pelo ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, que suspendeu verbas e o proibiu de
participar de debates e fazer campanhas nas redes sociais.
A saída de Renan, e a aparição de Cury, muda
o panorama da disputa, embora não haja indicação ainda de que o escritor poderá
disputar com Flávio a ida ao segundo turno. Renan, com sua bomba atômica e seus
banhos de sangue, parece já ter chegado ao limite e não assusta seus
adversários, só os eleitores. Cury é a incógnita chegando a bordo de drones,
embaixadores influencers, uma vida digital que se parece muito com uma promessa
de futuro empoderado, embora não saiba explicar como chegaremos lá.
Tanto pode cair lá de cima, quanto acelerar
para o alto, diante do desalento do eleitorado em busca de uma alternativa
melhor que os dois líderes nas pesquisas. No momento, a questão é mais saber se
ele terá fôlego para continuar a escalada na opinião pública ou se é mais um
cavalo paraguaio que se cansa em meio à arrancada final. Seu partido, Avante,
tem garantida a presença em debates nos meios de comunicação, mas tempo mínimo
de propaganda no rádio e televisão. Sua campanha digital, no entanto, tem se
mostrado eficiente, provavelmente pelo apoio do influenciador Pablo Marçal, que
quase obteve sucesso na recente disputa pela Prefeitura de São Paulo.
O fato de Cury ser psiquiatra ajuda a
alavancar seu prestígio entre o eleitorado, mas leva à piada pronta que o
compara a Simão Bacamarte, o médico que encarcera toda a população de Itaguaí
num manicômio e acaba, ele mesmo, lá dentro, em “O alienista”, de Machado de
Assis. O Brasil seria um manicômio que necessita de um psiquiatra para curá-lo.
A escolha do slogan “Cury para curar o Brasil” mostra que, para o candidato, o
país está doente, e ele se apresenta como o salvador. Saberemos daqui para
frente se o diagnóstico do doutor Cury coincide com a percepção da maioria dos
eleitores brasileiros e os tirará da letargia em que se encontram. Ou se seu
crescimento nas pesquisas é apenas mais um sintoma da doença de nossa
República.

Nenhum comentário:
Postar um comentário