segunda-feira, 8 de julho de 2019

Fernando Gabeira: Luz e contraluz

- O Globo

Acordo com os europeus, ao lado da reforma da Previdência, pode ser um estímulo para novos investimentos

Trouxe o livro de Steven Pinker para a estrada. Na forma papel, só é possível quando me desloco de automóvel. Tem quase 700 páginas, o que pesa muito para quem vai trabalhar com as mãos, ainda que levemente, todo o dia. “O novo iluminismo” é uma defesa da razão, ciência e progresso. Há um imenso campo de discussão sobre essas três palavras.

Recolhi até agora algo que me estimulou a pensar sobre o momento. Pinker aponta a religião como uma adversária do iluminismo. De fato, há dois momentos perigosos em atitudes religiosas. Um deles é colocar suas regras morais acima da felicidade das pessoas. Daí a dificuldade de aceitar o homossexualismo e as diversas identidades sexuais. O “New York Times” perguntou como as pessoas se definiam. As respostas foram múltiplas e variadas.

Outro momento delicado é o questionamento da ciência a partir de uma visão da fé. Pinker cita o caso do júri de um professor americano que ensinava Darwin, que ficou conhecido como o julgamento do macaco. É histórico. Eu mesmo citei o filme sobre aquele júri, “O vento será tua herança”, quando a ministra Damares questionou o espaço que se dava a Darwin.

Pinker considera também na base do contrailuminismo o que chama de uma tendência tribal que se expressa também no nacionalismo, na hostilidade às iniciativas globais. Referia-se mais aos Estados Unidos após a vitória de Trump. Mas esse traço é diferente no Brasil. Apesar da ideologia antiglobalista, o governo não só assinou como comemorou o acordo com a Comunidade Europeia. Na verdade, um passo na integração internacional.

E o avanço de um movimento muito amplo, apesar da resistência de Trump. É a marcha do capitalismo com todas as suas consequências, nem sempre positivas, sobretudo para os que vão sendo deixados para trás.

Ana Maria Machado: Esse nivelzinho

- O Globo

Brasil é sério candidato a se consagrar como o maior espetáculo de besteiras da Terra

Logo depois do golpe de 1964, desde o primeiro momento em que ficou evidente que a mediocridade comia solta, metendo os pés pelas mãos e dizendo o que lhe dava na telha, Stanislaw Ponte Preta se deu conta da intensidade do fenômeno e começou a registrá-lo em suas crônicas. Depois, reuniu alguns dos mais notáveis exemplos em uma série de livros — os sucessivos volumes do “Festival de Besteiras que Assola o País”, o Febeapá. Na certa não imaginava que, após mais de meio século, ainda no mesmo atoleiro de bobajadas e derrapando sem sair do lugar, os brasileiros estaríamos de novo obrigados a conviver com outro tanto de tolices, em meio ao que acaba de ser classificado como um “show de besteiras”. Desta vez, o diagnóstico vem do respeitado general Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo, ex-comandante de forças de paz da ONU no Haiti e no Congo.

Mesmo neste tempo de comediantes no poder em outros países e com a concorrência de estrelas como Trump em cenas internacionais, o Brasil é serio candidato a se consagrar como o maior espetáculo de besteiras da Terra. Basta ver a que nos reduzimos, perdendo tempo com tititi, intrigas, retrocessos, rompantes, tuítes primários e xingamentos que circulam no entorno presidencial. Ficamos nesse nivelzinho de coisa, como definiu Santos Cruz. Como se pudéssemos nos dar esse luxo num país com 13 milhões de desempregados, em que a desigualdade é escandalosa, a saúde pública é uma calamidade, mais de metade da população não tem acesso a saneamento, 40% dos jovens entre 15 e 17 anos estão fora do ensino médio, e a OCDE revela que a média salarial dos professores é a pior entre todos os países pesquisados. E enquanto o mundo se dá conta de que a ameaça climática é cada vez mais premente, escolhemos dar de ombros para o perigo de catástrofe. Como se negar o problema faça com que deixe de existir.

Festival ou show de besteiras? Classifique como quiser a irresponsabilidade que assola o país. Mas o Oscar da vergonha é nosso.

Cacá Diegues: A vida começa aos 80

- O Globo

Kurosawa, um dos gênios do cinema japonês pós-Segunda Guerra, declarava sua admiração por Bergman

Domingo que vem, 14 de julho, Ingmar Bergman, cineasta sueco, um dos maiores artistas e pensadores na história do cinema, estaria fazendo 101 anos de idade. Filho de pastor luterano, educado em restrita disciplina religiosa, Bergman, depois de montar Ibsen e Strindberg no teatro, inventaria um cinema de gritos e sussurros, extraordinário encontro jamais igualado de beleza plástica com densidade humana.

Morto aos 89 anos de idade, em 2007, Bergman assistiria, ainda em vida, no isolamento e na solidão da Ilha de Faro, à sua consagração, da nouvelle vague francesa ao cinema independente americano, de Kubrick,

Woody Allen e Tarantino ao argentino Torre Nilsson e ao brasileiro Walter Hugo Khouri. Federico Fellini, gênio do improviso e da intuição, da ilusão e do humor cáustico, inventor de outra graça, proclamava Bergman o maior artista do século.

Do outro lado do mundo, vindo de uma cultura exuberante e combativa, Akira Kurosawa, um dos gênios do fértil cinema japonês posterior à Segunda Guerra Mundial, também declarava sua admiração por Bergman. Kurosawa começara sua carreira artística como pintor, numa exposição de estreia aos 17 anos, enfatizando sua influência das artes plásticas do Ocidente. Além de obras-primas cinematográficas, como “Os sete samurais” ou “Ran”, Kurosawa nos deixaria quadros pintados a partir do storyboard de seus 30 filmes, que ele mesmo desenhava, em mais de 50 anos de profissão.

*Marcus André Melo: Felicidade política

- Folha de S. Paulo

Votar no candidato perdedor diminui a felicidade e a satisfação com a democracia

Votar no candidato perdedor diminui a felicidade das pessoas. Com relação à eleição presidencial de 2016, nos EUA, o efeito é brutal: tem um impacto equivalente a ficar desempregado.

Mas não há simetria entre perdas e ganhos: ganhar eleições não aumenta a felicidade das pessoas na mesma proporção.

Essa é a conclusão do estudo Presidential Elections, Divided Politics and Happiness in the US (eleições presidenciais, política dividida e felicidade nos EUA (2019), de Sergio Pinto e Carol Graham.

A felicidade é medida por métricas que capturam o nível subjetivo de satisfação com a vida e por atitudes que lhes são correlatas. A fonte é a pesquisa diária do Gallup com 11 mil eleitores, de 2012 a 2016.

As eleições afetam também a satisfação com a democracia, segundo Shane Singh (University of Georgia), em estudo com 67 mil eleitores e 62 eleições. Mas há uma diferença entre os eleitores que votaram e se identificam com o candidato vencedor e os que não se identificam, mas votaram nele. Neste grupo de eleitores de “voto útil”, o efeito é bem menor.

*Celso Rocha de Barros: Seis meses disso

- Folha de S. Paulo

As instituições que Bolsonaro ataca vêm se defendendo

Seis meses depois da posse de Jair Bolsonaro, algumas coisas ficaram claras: ninguém dentro do governo conseguiu moderar o presidente, mas as instituições que Bolsonaro ataca vêm se defendendo. Só o Congresso mantém o Brasil em funcionamento. O acordo com a União Europeia talvez estabeleça novos limites para o autoritarismo presidencial. Dois terços da projeção de crescimento econômico desapareceram desde que Bolsonaro tomou posse. Naquilo em que o presidente não depende de autorização do Congresso –a fiscalização ambiental, a gestão educacional–, a devastação é total.

No governo, é cada vez mais claro que não há espaço para moderação. Os generais conseguiram algumas vitórias em política internacional, mas Mourão teve que baixar o tom das críticas e Santos Cruz, que parecia ser um sujeito decente, foi demitido. Sergio Moro é visto como um rival por Bolsonaro, perdeu as batalhas por moderação e parece, ele sim, ter se convertido ao bolsonarismo depois da VazaJato. Paulo Guedes viu a condução das reformas passar inteiramente para o controle do Congresso e mal consegue impedir que Bolsonaro atrapalhe o trabalho de Rodrigo Maia.

Por outro lado, o Congresso assumiu a responsabilidade de evitar que o furdunço generalizado no Poder Executivo desorganize de vez o Brasil. Quando Bolsonaro tentou mexer na reforma da Previdência em favor dos policiais na última hora, ficou claro que a reforma é de Maia. A reforma tributária de Bernard Appy, promovida pelos parlamentares, é muito melhor do que a do governo. O senador Tasso Jereissati tem um projeto de saneamento básico que pode ter efeitos positivos em uma área importante (e acelerar investimentos).

Leandro Colon: É sério isso

- Folha de S. Paulo

Frases fora de hora ditas por Bolsonaro não devem ser tratadas com normalidade

Em menos de três dias, o presidente Jair Bolsonaro defendeu a prática do trabalho infantil, comparou o Brasil a uma virgem que atrai tarados e tratou a lenda João Gilberto, que morreu no sábado (6), apenas como uma “pessoa conhecida”.

Não se pode dizer que Bolsonaro causa espanto com essas declarações. As suas limitações são de domínio público desde os tempos de deputado federal. Ele foi eleito sem enganar nem mesmo seus eleitores.

Frases fora de hora e absurdas ditas pelo chefe da República não devem ser tratadas com normalidade.

Ao exaltar o trabalho infantil, o presidente faz a apologia de uma ilegalidade. A Constituição do país liderado por ele proíbe menores de 16 anos de trabalharem (com exceção dos aprendizes a partir de 14). O IBGE estima que ao menos 1 milhão de crianças trabalhem ilegalmente.

Sergio Lamucci: Inflação trienal é a menor desde década de 30

- Valor Econômico

A média da inflação ao consumidor acumulada em três anos está no menor nível desde meados dos anos 1930. No período de 2017, 2018 e 2019 - considerando a projeção do consenso de mercado para este ano -, a média do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deverá ficar em 3,5%, a mais baixa desde os 2,4% de 1932 a 1934, segundo levantamento de Armando Castelar, coordenador de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

A combinação de forte contenção de gastos e crédito públicos, expectativas inflacionárias sob controle e grande ociosidade na economia ajuda a entender o comportamento benigno dos índices de preços ao consumidor, na visão de Castelar. Além disso, a forte inércia contribui para manter os indicadores em níveis modestos, ao propagar a inflação baixa do passado para o futuro. Para alguns analistas, um IPCA repetidamente inferior à meta perseguida pelo Banco Central (BC), num cenário de recuperação muito lenta da economia, indica que os juros estão consideravelmente mais altos do que deveriam.

Castelar diz que uma inflação baixa como a do último triênio é um sinal de uma "realidade nova" da economia brasileira. "A maior parte das pessoas não se deu conta da grande transformação que o país vive, e a inflação é um bom indicador disso", afirma ele, lembrando que os 3,5% da média de 2017 a 2019 são a meta de inflação para 2022, definida na semana passada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Castelar considera acertada a decisão do CMN, avaliando que uma média da inflação em três anos de 3,5% "tem uma força de ancoragem [das expectativas] muito grande". Para 2019, o consenso de mercado aponta um IPCA de 3,8%, abaixo da meta de 4,25%. Para voltar a uma inflação tão baixa quanto a do último triênio, é preciso voltar aos tempos da Grande Depressão, nota ele.

*Bruno Carazza: A solidão do corredor de longa distância

- Valor Econômico

Guedes será cobrado por Bolsonaro para aumentar velocidade

Quando se corre uma maratona, no começo há a expectativa da largada, a energia contagiante dos demais corredores e o apoio do público. À medida em que se acumulam os quilômetros, os competidores se distanciam, os torcedores escasseiam, a paisagem perde o encanto quando o cansaço começa a castigar. Em determinado momento, você se sente só. É a solidão do corredor de longa distância, como no conto de Alan Sillitoe (e na música do Iron Maiden).

Ao ser escolhido por Bolsonaro para ser seu superministro, Paulo Guedes propôs um programa de longo prazo para a economia brasileira. Numa de suas primeiras entrevistas, no "Central das Eleições" da Globonews (24/08/2018), ele já anunciava os nortes de sua administração: reforma da Previdência robusta para gerar potência fiscal para migrar para o regime de capitalização, privatizações, "mais Brasil, menos Brasília" e um pacote de medidas pró-competitividade, com simplificação e redução de impostos, desburocratização e abertura comercial.

Desde a largada da corrida eleitoral, a torcida por Guedes tem sido grande. Na última quinta-feira (04/07) o ministro foi aplaudido de pé por milhares de participantes num evento da XP Investimentos em São Paulo. Embalado pela aprovação do texto-base da reforma da Previdência na Comissão Especial, iniciou e finalizou sua fala fazendo o "V da vitória" com as duas mãos, ao som de uma música triunfal.

Se considerarmos o mandato presidencial como se fosse uma maratona, estes primeiros seis meses correspondem, aproximadamente, à marca dos 5km. Para chegar com ritmo forte até aqui, Guedes contou com um empurrão da equipe econômica de Temer, que alinhavou o acordo comercial do Mercosul com a União Europeia, deixou um pacote de concessões na prateleira e construiu consensos no Congresso e na sociedade em geral sobre a urgência de se reformar a Previdência.

Por outro lado, o otimismo em relação ao futuro não significa que tudo foi um passeio até agora. Na sua relação com o Congresso, o fardo da capitalização se mostrou pesado demais e teve que ser deixado pelo caminho. Além disso, o terreno para lidar com as contas públicas mostrou-se muito mais acidentado do que se previa - aliás, o ministro abandonou também a promessa de zerar o déficit primário no primeiro ano de mandato.

Cida Damasco: Os próximos ‘vespeiros'

- O Estado de S.Paulo

Governo ataca reformas e incentivos ao consumo, com foco no curto e longo prazos

A reforma anda. Se prevalecer a vontade do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, a proposta será votada no plenário ainda nesta semana. O parecer do relator, deputado Samuel Moreira, passou na Comissão Especial na semana passada, depois de uma maratona de negociações. Embora determinada pelo cenário externo, a reação favorável dos mercados, com bolsas batendo recordes seguidos, e dólar deslizando, reflete também uma expectativa favorável em relação à tramitação do projeto. É verdade que, na passagem pelo plenário, a reforma pode perder ainda alguma “massa corporal”, ou corrigir “alguns equívocos”, nas palavras do presidente Bolsonaro. Mas tudo indica que o essencial será preservado e vai garantir um ganho fiscal da ordem de R$ 990 bilhões em dez anos, encostando no tal R$ 1 trilhão.

Com a reforma já “precificada”, as atenções dirigem-se para o que virá depois. Especialmente porque “depois da Previdência” virou o mote da equipe do ministro Paulo Guedes, a cada cobrança por novos passos na política econômica. Ao comemorar a aprovação do seu parecer pela comissão, Moreira aproveitou a oportunidade para cutucar o governo, com o argumento de que a nova Previdência é só um alicerce para sustentar um programa mais amplo, que até agora não apareceu. Em bom português, fizemos o nosso serviço, agora façam o seu.

Fareed Zakaria: Conservadorismo tradicional perde espaço

- The Washington Post, O Estado de S.Paulo

Movimento de Thatcher e Reagan, ponderado e instruído, decepcionou seus seguidores e abriu espaço ao populismo de Trump

A crise atual do conservadorismo tem produzido alguns livros em que se procura entender o que exatamente ocorreu com essa crença respeitada. Durante décadas, o conservadorismo foi uma ideologia dominante no mundo ocidental, defendido por Margaret Thatcher e Ronald Reagan. Hoje entrou em colapso. O populismo de Donald Trump tomou conta do Partido Republicano e a febre do Brexit consumiu os líderes conservadores da Grã-Bretanha.

Entre esses livros sobre o tema está o de George F. Will, The Conservative Sensibility. Sempre admirei George Will, que representa o ideal do conservadorismo ponderado, instruído. Quando eu estava na universidade, ele já era uma figura presente na vida intelectual e política americana – colunista do The Washington Post, comentarista na TV nas manhãs de domingo e autor de diversos livros. Como editor de uma publicação universitária, criei coragem para escrever a Will pedindo para entrevistá-lo e ele concordou. Isso ocorreu há 35 anos e desde então minha admiração e respeito permaneceram intactos. Assim, li o seu livro com grande expectativa.

A obra, como seria de esperar, é profundamente erudita, repleta de exemplos da história e com citações esclarecedoras de políticos e poetas. Will procurou esboçar as características básicas da sua crença. Segundo ele, o conservadorismo americano não tem quase nada a ver com o conservadorismo europeu “que se originou e com frequência foi maculado pela nostalgia da união entre monarquia e Igreja, pela tese nacionalista do sangue e solo, pela irracionalidade e pelo tribalismo”.

Ele parafraseia Margaret Thatcher, observando que “as nações europeias foram criadas pela história, os Estados Unidos pela filosofia”. O conservadorismo americano, assim, é um projeto que busca defender a filosofia original dos Pais Fundadores do país: o liberalismo clássico, que promove um governo limitado e o respeito da liberdade individual.

Ricardo Noblat: É o futebol, estúpido!

- Blog do Noblat / Veja

O capitão que nada aprende e nada esquece

O Brasil não é para amador, ensinou Tom Jobim. O Maracanã vaia até minuto de silêncio, disse o então governador Chagas Freitas, do Rio, ao presidente americano Jimmy Carter ao levá-lo para conhecer o estádio no início de abril de 1978. A presença dos dois na tribuna de honra não foi percebida pela massa dos torcedores.

A presidente Dilma Rousseff provou na pele a fúria do Maracanã na partida final da Copa do Mundo de 2017 entre a Alemanha e a Argentina. Bastou que sua imagem aparecesse nos telões do estádio para que o mundo viesse abaixo. Ela já fora vaiada na Arena Corinthians, em São Paulo, na abertura do Mundial.

Não foi por falta de avisos, pois, que o presidente Jair Bolsonaro amargou um dos maiores constrangimentos de sua vida. Sabe lá o que é sair do corredor dos vestiários, pôr o primeiro pé no campo e já começar a ouvir vaias? E prosseguir sob vaias até o palanque armado para a cerimônia da entrega da taça ao campeão?

Ali, além das vaias, Bolsonaro ouviu os mesmos insultos gritados pela torcida e que tanto chocaram Dilma. Mesmo assim levantou os braços para agradecer aos poucos aplausos que recebeu. E depois da entrega das medalhas aos jogadores, ainda teve a cara de pau de meter-se entre eles e apoderar-se da taça para ser fotografado.

Àquela altura, era o que de fato lhe interessava – aparecer na foto com a taça na mão e cercado por jogadores felizes. No mundo em que vive, Bolsonaro aprendeu que mais vale uma foto postada nas redes sociais para ser vista e disseminada por seus devotos do que possa a imprensa dizer a respeito do que aconteceu de fato.

Natural que como chefe de Estado fosse obrigação dele assistir ao último jogo da Copa América e participar da cerimônia da entrega de medalhas aos jogadores. Mas era perfeitamente dispensável que transformasse a ocasião em um teste para medir a aprovação do seu governo. Foi ele que anunciou que assim seria. Atirou no próprio pé.

Enquanto permaneceu em um camarote acompanhado por nove ministros, entre eles o ex-juiz Sérgio Moro, da Justiça, abalado pela revelação de suas conversas com procuradores da Lava Jato, Bolsonaro foi bem, obrigado. Convidado para entrar em campo, no que o fez foi o desastre previsível. Moro mandou-se sem ser notado.

Uma coisa é a voz das ruas que se ouve quando chamada por um lado ou pelo outro de um país onde o presidente se comporta como se ainda estivesse em campanha, e de certa forma está. Outra é a voz dos estádios que costuma se manifestar de forma irritada contra autoridades que misturam política com futebol.

Pelo visto, Bolsonaro nada aprendeu desde que tomou posse no cargo, e também nada esqueceu.

Imensa dor: Editorial / Folha de S. Paulo

João Gilberto exemplificou em sua saga musical um projeto cosmopolita de Brasil

A morte de João Gilberto representou para o Brasil mais do que a perda de um cantor e compositor com qualidades acima da média, o que já faria de seu desaparecimento físico motivo para imensa dor.

O artista de Juazeiro usou seus notáveis dons para elevar a tradição artística a que se filiava —a da música popular brasileira— a seu ponto culminante de sofisticação.

Num empreendimento estético ambicioso, fez da invenção de um gênero, a bossa nova, um projeto de reformatação do repertório antecedente, lançando luzes a um só tempo para o passado e o futuro.

Composições de autores consagrados, que pareciam prontas e acabadas, encontraram em suas releituras, não raro geniais, um insuspeito acréscimo de excelência.

Não pode passar despercebido o fundo significado político e cultural de sua trajetória, não naquilo que esse tipo de manifestação tem de mais elementar, a semântica empenhada em veicular mensagens.

João exemplificou em sua saga musical a possibilidade de materialização de um projeto cosmopolita de Brasil, simultaneamente rigoroso e radiante, capaz de circular pelo mundo com a naturalidade de patrimônio universal.

Quando o próprio governo cria insegurança: Editorial / Valor Econômico

Menos de 24 horas depois de aprovado o parecer do deputado Samuel Moreira (PSDB-SP) sobre a reforma da Previdência Social, na comissão especial da Câmara dos Deputados, o presidente Jair Bolsonaro anunciou que pretende corrigir "equívocos" no texto. O presidente fez referência direta à aposentadoria especial para os policiais. Em seguida, ele disse que "pouca coisa tem que ser mexida" no projeto, que deve ser discutido agora pelo plenário da Câmara.

Na quarta-feira, quando tentou que os deputados da comissão especial aprovassem regras mais suaves de aposentadoria para os policiais, o presidente foi chamado de "ingênuo" pelo seu ministro da Economia, Paulo Guedes. O ministro julgou que Bolsonaro não tinha entendido que a bola agora está com o Congresso, que é quem vai decidir a questão, por se tratar de emenda constitucional.

Em sua entrevista na sexta-feira, o presidente mostrou ingenuidade, novamente, pois acredita que conseguirá, com o apoio do que se convencionou chamar de "bancada da bala", incluir no texto da reforma apenas regras mais favoráveis para os policiais federais. Ou seja, circunscrever a criação de privilégios somente para esta categoria de servidores.

Há várias emendas ao texto, a serem votadas pelo plenário da Câmara, que estendem a outras categorias as mesmas regalias reivindicadas pelos policiais. E o que os policiais desejam não é pouco.

Querem ter o direito a se aposentar com 100% da última remuneração do cargo efetivo que ocupam, benefício que é conhecido como integralidade. Querem também ter direito, quando estiverem aposentados, a receber os mesmos aumentos que os seus colegas da ativa, o que é conhecido como paridade. Mas não é só isso. Eles não querem ter idade mínima para requer aposentadoria. Apenas o prazo de contribuição de 30 anos.

O consolo da inflação menor: Editorial / O Estado de S. Paulo

Num país com 13 milhões de desempregados, incluídos cerca de 3,2 milhões sem ocupação há mais de dois anos, qualquer trégua da inflação é especialmente bem-vinda. A bênção é ainda maior quando o alívio é encontrado nos preços da comida, como vem ocorrendo há uns dois meses. Comer ainda é uma necessidade vital e corresponde, no jargão orçamentário do governo, às chamadas despesas não discricionárias. Quando o desemprego se prolonga e o dinheiro escasseia, até esse tipo de gasto se torna muito difícil para as famílias. A situação poderia melhorar se algum estímulo animasse os negócios a curto prazo e abrisse caminho para mais contratações. Mas qualquer estímulo, insiste o governo, dependerá do andamento do projeto de reforma da Previdência. Até surgir o sinal desejado, milhões de famílias terão de esperar. Como sobreviver é problema delas. Enquanto isso, há o consolo de uma inflação menos maligna.

A última novidade nesse front foi divulgada na sexta-feira passada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Em junho, a vida ficou um pouco menos cara para famílias de renda modesta, com ganho mensal entre 1 e 2,5 salários mínimos. Usado para medir a inflação desse grupo, o Índice de Preços ao Consumidor – Classe 1 (IPC-C1) caiu 0,07%, acumulando alta de 2,72% no ano e 3,85% em 12 meses. Em maio, havia subido 0,26%. No mês passado, baixaram os preços de quatro grandes categorias – habitação, transportes, alimentação e despesas diversas. Para quem vive com orçamento muito apertado, todas essas alterações são crucialmente importantes.

Europa avança com o Mercosul no vácuo dos EUA: Editorial / O Globo

Acordo reafirma aposta em valores da democracia liberal e na cooperação multilateral

Um dos aspectos mais relevantes do Acordo Mercosul-União Europeia está na sua natureza de contraponto à tática do presidente americano Donald Trump de usar o sistema de tarifas alfandegárias como parte da política de segurança nacional dos Estados Unidos.

Com olhos na disputa pela reeleição, em 2020, Trump adotou como regra criar conflitos comerciais, a partir do aumento de impostos sobre mercadorias importadas. Provoca um clima político de tensão global para obter concessões tanto de países competidores dos EUA, como a China, quanto de aliados como México e Canadá.

A China se exercita num jogo de paciência, enquanto expande o seu poder e influência na Ásia e na África. E já iniciou negociações para um acordo monetário com a Rússia.

Na fronteira sul dos EUA, porém, a impulsividade de Trump induz a uma gradual desestabilização do México. Combinada com o agravamento da situação econômica e social em Honduras, Guatemala, El Salvador, Haiti, Cuba e Nicarágua, a Casa Branca se arrisca a fomentar uma situação crítica para todo o continente americano, que já convive com o drama da crise humanitária da Venezuela. É irrealista achar que os interesses estratégicos dos EUA ficariam incólumes a uma convulsão abaixo do Rio Grande.

Vinícius de Moraes: Amigos

Um dia a maioria de nós irá se separar. Sentiremos saudades de todas as conversas jogadas fora, as descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos, dos tantos risos e momentos que compartilhamos...

Saudades até dos momentos de lágrima, da angústia, das vésperas de finais de semana, de finais de ano, enfim... do companheirismo vivido... Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre...

Hoje não tenho mais tanta certeza disso. Em breve cada um vai pra seu lado, seja pelo destino, ou por algum desentendimento, segue a sua vida, talvez continuemos a nos encontrar, quem sabe... nos e-mails trocados...

Podemos nos telefonar... conversar algumas bobagens. Aí os dias vão passar... meses... anos... até este contato tornar-se cada vez mais raro. Vamos nos perder no tempo...

Um dia nossos filhos verão aquelas fotografias e perguntarão: Quem são aquelas pessoas? Diremos que eram nossos amigos. E... isso vai doer tanto!!! Foram meus amigos, foi com eles que vivi os melhores anos de minha vida!

A saudade vai apertar bem dentro do peito. Vai dar uma vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente... Quando o nosso grupo estiver incompleto... nos reuniremos para um último adeus de um amigo. E entre lágrima nos abraçaremos...

Faremos promessas de nos encontrar mais vezes daquele dia em diante. Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a sua vidinha isolada do passado... E nos perderemos no tempo...

Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não deixes que a vida passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de grandes tempestades...

Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores... mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!!!

João Gilberto: Hino Nacional

domingo, 7 de julho de 2019

Fernando Henrique Cardoso*: Vinte e cinco anos do Real

- O Estado de S.Paulo / O Globo

De novo o País está em perigo. Mãos à obra, a começar pela reforma da Previdência

Neste mês de julho de 2019 o Plano Real comemora 25 anos. As novas gerações não se lembram, mas a inflação foi um flagelo. De dezembro de 1979 a julho de 1994, a inflação acumulada atingiu aproximadamente 12 trilhões por cento.

A renda do trabalhador era corroída pela alta crônica e crescente dos preços. Sofriam principalmente os trabalhadores mais pobres, sem organização sindical a maioria. Onde o sindicato era forte havia greve a toda hora: as empresas concediam aumentos salariais, mas os repassavam ao consumidor, alimentando a espiral inflacionária. Protegiam-se melhor dela os bancos, os grandes aplicadores, as empresas capazes de impor seus preços ao mercado e o governo, que tinha suas receitas indexadas e contava com a inflação para ajustar o valor real dos seus gastos. Daí o aumento da pobreza e da desigualdade provocado pela inflação.

O governo defendia o seu caixa, mas não conseguia planejar as suas ações. Nem as empresas, muito menos os pequenos empreendedores, as famílias e as pessoas. A inflação era um flagelo especialmente para os mais pobres, mas infernizava o País como um todo.

Foi nesse contexto que ouvi, perplexo, em Nova York o presidente Itamar Franco me perguntar pelo telefone se eu aceitaria trocar o Ministério das Relações Exteriores pelo Ministério da Fazenda. Estávamos em maio de 1993. Seria o quarto ministro da pasta em sete meses de governo. Disse-lhe que não deveria trocar o então ministro, Eliseu Rezende, mas que, ausente do Brasil, não sabia avaliar a situação. Ele respondeu que conversaria com o ministro e me informaria. Mais tarde mandou avisar que não precisava mais falar comigo. Fui para o hotel desanuviado, até ser despertado de manhã por minha mulher, Ruth, desgostada por eu haver sido designado para pasta tão difícil.

Voltei ao Brasil com meu chefe de gabinete, embaixador Sinésio Sampaio Góes. Disse-lhe que precisaria dele no novo ministério, pois não conhecia bem os funcionários de lá. Voei pensando no discurso de posse do dia seguinte. Repeti o mantra de José Serra: o Brasil tem três problemas; o primeiro é a inflação, o segundo também e terceiro, idem. Mas “com que roupa” poderia dirigir o Ministério da Fazenda? Sou sociólogo, embora haja trabalhado na Cepal e iniciado a carreira universitária na Faculdade de Economia da USP. Só havia um jeito: convocar uma boa equipe de economistas e cuidar da política. Tinha recebido carta branca de Itamar.

Merval Pereira: O negro na ABL

- O Globo

A Academia se preocupa com a representatividade, não apenas dos negros, mas também das mulheres e das regiões do país

A propósito da entrega, pela Faculdade Zumbi dos Palmares, da foto de Machado de Assis negro, “o Machado real”, ao presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Marco Lucchesi, que foi tema de reportagem do “The New York Times” e de diversos jornais na América Latina, travou-se, em reunião plenária recente, uma bela discussão sobre a presença do negro na ABL.

Lucchesi ressaltou o “gesto simbólico” de que estava revestido aquele acontecimento, lembrando a distribuição de livros pela ABL nos quilombos, nos presídios, e do trabalho que faz junto aos movimentos negros, pela necessidade de ter um observatório dos negros nas prisões, “porque 70% são jovens, negros e de periferia”.

Uma ação social “que não é de política, não é de partido, mas de compreensão profunda de cidadania brasileira”. A escritora Nélida Piñon destacou que ter Machado de Assis ao lado em termos raciais e étnicos “dá, certamente, um ânimo e um alento a uma juventude negra abandonada, desprovida da educação”.

O historiador José Murilo de Carvalho, falando como diretor do Arquivo Múcio Leão, disse que essa questão em algum momento deve chegar ao Arquivo, que detém muitas fotos de Machado de Assis. A foto entregue à ABL do que seria “o Machado real” será incorporada ao acervo, mas disse que não se pode alterar as fotos que estão no Arquivo, “pois seria falsificar um documento”.

O ex-presidente da ABL Domício Proença Filho lembrou que, ao ser eleito, respondeu a um repórter que na ABL ele não é “um negro escritor e sim um escritor negro”. Para uma repórter mais incisiva, que questionava se ele seria a voz da etnia na Academia, respondeu que não, “por não ser representante e sim representativo”. E desejou que se amplie essa representatividade com alguma urgência. O historiador Alberto da Costa e Silva, Prêmio Camões de Literatura, citou alguns grandes negros do alto mundo da cultura brasileira membros da Academia Brasileira de Letras, como Evaristo de Moraes Filho, Octavio Mangabeira e José do Patrocínio, entre outros. Para Alberto da Costa e Silva, a história subterrânea do mestiço no Brasil precisa ser escrita com seriedade, sem viés político.

Ascânio Seleme: Bolsonaro traidor

- O Globo

O presidente do Brasil perdeu mais uma disputa no Congresso. Dessa vez na comissão que aprovou o relatório da reforma da Previdência. Depois de ser chamado de traidor por policiais civis, federais e rodoviários e por agentes penitenciários, Jair Bolsonaro correu para tentar mudar o teor do relatório de modo a garantir proteção a estes também. Era tarde demais. O relator da reforma ignorou o presidente e a comissão retirou da reforma apenas policiais militares e bombeiros, até porque esta fatura cairá na conta dos estados.

Tratando o Congresso sempre de forma intransigente e reiterando que não negocia com parlamentares por entender que negociação política é loteamento de cargos, o presidente achou que bastavam dois telefonemas a líderes de partidos aliados e uma postagem em rede social para resolver o problema. Quebrou a cara. Sorte do Brasil. Imaginem do que ele seria capaz se soubesse negociar e tivesse habilidade política.

O apoio ao presidente veio de apenas alguns fiéis e dos partidos de esquerda. PT, PCdoB, PDT, PSOL e Rede votaram a favor de estender um regime complacente também aos policiais. Votaram assim, não por convicção, mas para torpedear o projeto da reforma. E o quadro pitoresco que se viu foi Jandira Feghali defendendo no plenário da comissão o mesmo que Jair Bolsonaro pregava em redes sociais e entrevistas: mais privilégios especiais.

Míriam Leitão: Salles em conflito com dados e fatos

-O Globo

Com números, fatos e conceitos imprecisos, ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, monta teses insustentáveis ao falar sobre o tema

O ministro Ricardo Salles gosta da frase “não é bem assim” para responder a qualquer argumento do qual discorde. Mas a frase é perfeita para o que ele diz. Segundo Salles, havia um terço de ONGs no Comitê Orientador do Fundo Amazônia. É falso. Ele diz que o desmatamento “se estabilizou” entre 2004 e 2012, mas na verdade despencou 70%. Afirma que está havendo muita liberação de agrotóxicos porque nos anos anteriores eles ficaram retidos por ineficiência da Anvisa. No ano passado, de janeiro a 24 de junho, foram 193 produtos liberados. Este ano, no mesmo período, foram 239. Houve aumento, mas nada estava parado nos últimos três anos.

Com números e fatos imprecisos, o ministro monta teses insustentáveis. Numa entrevista na Globonews, diante de uma pergunta sobre o desmatamento, ele respondeu: —Vamos lá, o Brasil tem 5 milhões de quilômetros na Amazônia. A quantidade de quilômetros desmatados no ano passado foi ao redor de oito mil. Dá zero vírgula zero vírgula dois por cento. Percentualmente, já temos um desmatamento zero. É a terceira casa decimal depois do zero. Isso tem que ser dito com todas as letras —respondeu. É preciso dizer, com números e letras, o quanto o ministro errou aqui. Inventou duas vírgulas seguidas depois do zero. Não é a terceira casa decimal. Depois, ele corrigiu para 0,16%, mas o problema é que a ideia é toda descabida. Nas redes sociais, foram feitos cálculos sobre o absurdo do raciocínio, mostrando que se a mesma conta for feita com os 61 mil homicídios pelos mais de 200 milhões de habitantes o país teria homicídio zero. Dá para fazer sumir todos os problemas se a gente quiser brincar com os números.

Dorrit Harazim: Rachel Carson, urgente

- O Globo

Seu livro demonstra que pesticidas não apenas envenenam insetos e ervas daninhas, como desencadeiam uma cascata de mutações destruidoras da vida

O fazendeiro americano Ezra Taft Benson serviu ao presidente Dwight Eisenhower como secretário da Agricultura ao longo de oito anos (1953-61), antes de tornar-se influente profeta da Igreja Mórmon. É dele uma pergunta que encapsula os preconceitos culturais, a ignorância científica e os interesses que predominavam no pós-Segunda Guerra Mundial: “Por que uma mulher solteira, sem filhos, está tão preocupada com a genética?”, quis saber. Ou melhor, nem quis saber, pois ele mesmo forneceu a resposta: essa mulher era comunista. Teria dito mais se soubesse, à época, que a personagem, mesmo não sendo comunista, manteve até o final da vida uma extraordinária amizade amorosa com outra mulher.

Taft Benson referia-se a Rachel Carson, autora de “Primavera silenciosa”, o seminal livro que desarrumou para melhor as até então inexistentes políticas ambientais nos Estados Unidos e obrigou o mundo a despertar para a frágil interconectividade da vida no planeta. Obra-libelo para que se investigue e regulamente o uso de pesticidas, o livro serviu de referência para a criação da primeira agencia federal de proteção do meio ambiente (EPA, na sigla em inglês), da aprovação da Lei do Ar Puro (1963), Áreas Selvagens (1964), Água Limpa (1972), Espécies em Extinção (1973), e despertou a consciência ambiental moderna.

*Elio Gaspari: A privataria ameaça a UFRJ

- O Globo / Folha de S. Paulo

Hospital em declínio é símbolo de uma época em que a universidade sonhava

O hospital Sírio-Libanês retifica: “Não está nos planos atuais da instituição abrir uma filial do hospital no Rio de Janeiro.” (Em 2015 esteve, com gente boa conseguindo promessas de doações, mas isso é passado.)

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) trabalha, com o BNDES e o banco Fator, na modelagem de uma licitação para conceder, por até 50 anos, 485 mil metros quadrados de terrenos na ilha do Fundão e na praia Vermelha (onde fica o falecido Canecão).

Quem desenhou a girafa foi Deus. Só Ele sabe o que sairá da modelagem que estão cozinhando. Felizmente, o BNDES e a UFRJ garantem que tudo será feito às claras, em processo licitatório, com o devido debate.

Segundo a universidade, o cessionário disporá dos terrenos de acordo com seus interesses e a “vocação imobiliária” das áreas: “Provavelmente essas vocações estão associadas à ocupação para residências, comércio ou serviço. Há possibilidade de haver centros de compras ou de convenções, supermercados ou hotéis.”

O edital que licitou o pregão que contratou o banco Fator foi mais claro. Em duas ocasiões mencionou a possibilidade de uso dos terrenos para “condomínios corporativos, (...) redes de hotéis, redes de hospitais e redes de ensino”.

O que se cozinha é um amplo projeto capaz de botar dinheiro nos magros cofres da universidade. Coisa de bilhão de reais. Começa pela cessão dos terrenos, por até 50 anos. Essa seria a parte fácil. Ela complica-se porque modela-se um projeto pelo qual o cessionário, ou seus parceiros, devem dar contrapartidas à UFRJ, construindo prédios, restaurantes e alojamentos.

Talvez fosse mais simples não misturar gravata com abacate, mas vá lá. Serão duas bolas no ar.

Está na panela também a eventual criação de um “Fundo de Investimento Imobiliário” que ficaria encarregado de gerir o ervanário resultante das operações.

Assim, o malabar tem três bolas. (Esse fundo poderia ficar parecido com a Harvard Corporation, que cuida do patrimônio da universidade. Caso ele venha a ter investidores particulares, arrisca-se a misturar Boston com Borel.)

O projeto imobiliário ganhou um nome de fantasia —”Viva UFRJ”— e na essência desenhará o futuro da universidade. Shoppings, redes de hotéis e de hospitais muita gente faz, universidades são coisa para gente grande.

Quando ficar pronta a modelagem, tudo poderá ser discutido. Até agora, sem que o banco Fator tenha algo a ver com isso, saiu uma fumaça cinzenta do “Viva UFRJ”.

Apesar de se sonhar com recursos, redes de hotéis e de hospitais (privados), a universidade já esclareceu que “o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho não entrou nas contrapartidas pois estimativas preliminares indicaram que o custo da obra não cabe no projeto.”

O Clementino Fraga é um grande hospital, público, símbolo de uma época em que a UFRJ sonhava grande. Hoje ele é o retrato de uma realidade ruinosa. O doutor Clementino, tio-avô de Armínio Fraga, foi um grande reitor da universidade no ano bicudo de 1968.

Ele não merece que seu hospital público seja o que é, enquanto a centenas de metros do seu gabinete da Praia Vermelha reluza um grande hospital para endinheirados.

Janio de Freitas: Provas reais

- Folha de S. Paulo

No governo, Moro prossegue na transgressão às normas judiciais

Em menos de um mês, Sergio Moro já recorre à terceira linha defensiva, na confrontação com as revelações do The Intercept Brasil por seu site e pela imprensa. A alegação de desimportância e normalidade das mensagens expostas mais confirmou sua conduta desregrada do que o defendeu.

Logo depois, “Não reconheço toda a autenticidade das frases” foi uma dubiedade necessária, mas invalidou a intenção de desacreditar as conversas. Agora, em audiência na Câmara, Sergio Moro apelou para a cansada evasão político-sentimental: é “vítima de revanchismo”. De quem?

Dos que difundem as mensagens, claro. Da Folha, do jornal O Globo e da TV Globo, do Estado de S. Paulo, da Veja, dos que por quase cinco anos o trataram como o herói perfeito, intocável e eleitoral?

Não há motivo para revanche nessa relação de gratidões mútuas, sem ressentimentos. A Lava Jato, seus métodos e suas consequências não seriam como foram, e são, sem as contribuições da imprensa e parte das TVs, em projeção e em tolerância.

Ainda agora, as revelações do Intercept Brasil associadas à imprensa são publicadas, na maioria das vezes, de maneira que nega revanchismo. É comum terem jeito de mera obrigação. O que, mesmo sem tal motivo, protege Moro das proporções de fato merecidas pelo escândalo de sua ação.

As conversas não surpreendem quem teve liberdade crítica na observação a Moro, aos procuradores e delegados da Lava Jato. Mas é espantoso, isso é, que Moro prossiga na transgressão às normas judiciais, a que dizia estar dedicado. Espantoso e provado.

Bolsonaro deu ordem a Moro de investigar todos os partidos. Os traços de Estado policial nessa ordem —percepção do repórter exemplar que é Rubens Valente, na Folha de 5/6— começam, porém, em outra irregularidade grave: a ordem de Bolsonaro seguiu-se ao recebimento de cópia, entregue por Moro, da investigação sobre os “laranjas” do PSL.

Moro transgrediu o segredo de Justiça aplicado ao inquérito. Com a mesma conduta de infidelidade judicial, o mesmo método de ação subterrânea, o mesmo ânimo transgressor que as mensagens comprovam.

Várias vezes indagado na Câmara a respeito de investigações contra o jornalista Glenn Greenwald, do Intercept Brasil, Moro teve duas reações: ou não respondeu, ou disse que sua relação com a Polícia Federal é apenas a de lhe proporcionar condições de trabalho. Não tinha a resposta, pois.

Não é verdade. Além do notório acompanhamento que faz da atividade da PF, o que Moro entregou a Bolsonaro foi um relato sigiloso de que tinha conhecimento, assim como das investigações da PF para a Justiça Eleitoral.

Sergio Moro pode seguir na escalada de escapismos. Mas não detêm impulsos transgressores nem restauram sua imagem fantasiosa. Resta-lhe satisfazer-se com os serviços que prestou e tentar, com eles, a retribuição de uma vaga no Supremo.

*Angela Alonso: Protesto a favor

- Folha de S. Paulo / Ilustríssima

Manifestações domingueiras perderam o aconchego do antipetismo

“Si hay gobierno, soy contra”. O dito anarquista fez carreira no Brasil. Sempre tivemos manifestações de combate ao governo, desde a Colônia e para todos os gostos: contra governos fortes, caso de Floriano Peixoto, e fracos, como o de Prudente de Moraes; os de direita, vide Collor, e os de esquerda, qual o de Jango.

O país se vê como apático, mas é mobilizado. Há sempre quem ponha a boca no trombone. Apenas se foge da rua quando ocupá-la põe em risco o pescoço. Daí se contesta de outro jeito, caso da guerrilha no governo Médici.

Assim, é descabida a tese de que “o brasileiro acordou” para a política em 2013 —e que antes ia à rua apenas em Carnaval e Copa. A norma são manifestações “contra tudo o que está aí”. Desvio é o oximoro “protestar a favor”.

Os bolsonaristas são pródigos em invencionices, mas carecem de ineditismo no quesito. Nossa única presidente suscitou gritos de “fica” —embora na prorrogação do segundo tempo e com muitos constrangidos, dados seus slogans anteriores contra o ajuste fiscal.

A manifestação do último domingo (30) nada teve de constrangida. Faltou-lhe, ao contrário, comedimento, vide os sopapos entre manifestantes. Tabefes são rotineiramente trocados entre adversários e com a polícia. Mas o campo patriota é mestre no inusitado, como festejar com a polícia em vez de fugir dela.

Julio Wiziack: De Bolsonaro a Erdogan

- Folha de S. Paulo

Sob o escudo da 'despetização', governo Bolsonaro ataca princípios democráticos

Em um evento com parlamentares ligados ao agronegócio, Jair Bolsonaro voltou a repetir que seu governo precisa “desfazer o que foi feito para depois fazer”. Mas sob o pretexto de “despetizar” a administração federal, seu governo já faz: ataca as instituições públicas.

Somente na semana passada, o general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, afirmou que os índices de desmatamento na Amazônia são manipulados, jogando lama no Inpe, centro de excelência em pesquisas espaciais.

Na Justiça, o próprio presidente disse que o ministro Sergio Moro vazou para ele informações de uma investigação sigilosa da Polícia Federal. Colocou em xeque a independência do órgão, que deve investigar até o ministro se for preciso.

No início de sua gestão, Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente, acusou o Ibama de forjar contratos de aluguel de veículos. Foi apoiado por Bolsonaro, que prometeu nas redes sociais expor o esquema de corrupção. Nada havia de errado com os contratos, como se provou depois.

Vinicius Torres Freire: Brasil petroleiro, segunda tentativa

- Folha de S. Paulo

Reabertura do setor e melhora da Petrobras vão levar petróleo para o centro da economia

O principal produto de exportação do Brasil é o grupo da soja. O segundo? Petróleo e derivados. Sim, combustíveis já estiveram algumas vezes na vice-liderança desde 2008. Mas nunca antes tiveram tanto peso nas exportações: 14,2% do total, ante 15,9% da soja, 11% de material de transporte (veículos, aviões e suas peças) e 10,2% de minérios metalúrgicos (quase tudo ferro e algum cobre).

Afora no caso de colapso do volátil preço do barril, é bem provável que petróleo venha a ser em breve o principal produto da exportação brasileira e algo ainda maior no ambiente doméstico. O pouco notado recorde de produção de maio pode ser um aviso da mudança. O Brasil já é o nono maior produtor mundial.

A reabertura do mercado, em 2016, as privatizações de partes enormes do conglomerado Petrobras e a abertura do mercado de gás devem mudar a paisagem da economia e a propriedade do capital, em especial no setor de energia, além de estimular investimentos pesados a partir de 2020. Falta análise, porém, de quem vai se divertir mais nesse remelexo do setor.

A produção de petróleo e gás foi recorde em maio, embora em termos anuais tenha praticamente estagnado desde 2017. Atualmente, extraem-se 2,73 milhões de barris por dia, sem contar o equivalente a 700 mil barris por dia em gás.

No “Plano Decenal de Expansão de Energia 2027” do governo, publicado em dezembro passado, previa-se que o país estaria produzindo 3,3 milhões de barris por dia neste 2019.

A previsão vai dar chabu, é óbvio, mas os investimentos começaram a voltar e vão aumentar ainda mais depois dos enormes leilões de áreas de exploração, em novembro próximo.

Se a produção chegar ao previsto pelo Plano Decenal e caso funcione a abertura do mercado de gás, o setor de petróleo vai para o centro da economia brasileira.

Em 2016, a lei de reabertura do mercado desobrigou a Petrobras de investir em qualquer campo do pré-sal, o que emparedava investimentos da concorrência e não favorecia os novos negócios da petroleira nacional.

Desde 2015, a empresa se recupera do desastre, voltando a elevar suas despesas de capital.

O setor ficou sem leilões e, pois, sem a perspectiva de aceleração do investimento, entre 2008 e 2013, graças ao revertério regulatório dos governos petistas, afora as desgraças causadas por maluquices, incompetências e pela roubança na Petrobras.

Endividada, em desordem e sem crédito, a empresa se desfez e se desfaz de suas grandes controladas, movimento acelerado pelo Cade, que quer acabar com os quase monopólios da estatal, e por Paulo Guedes.

A Petrobras vende suas empresas de transporte de gás. Vai vender a Liquigás, a BR Distribuidora e 8 de suas 13 refinarias, responsáveis pela metade de capacidade de refino da companhia (mais de 1 milhão de barris por dia).

Tudo isso deve entrar em liquidação pelos próximos dois anos, no máximo. São negócios de dezenas de bilhões de reais, talvez centena, a maior privatização desde FHC 1.

A privatização e a abertura devem, claro, também mudar a política do capital. Basta lembrar o que aconteceu com a ascensão da soja e dos oligopólios das carnes.

A diferença agora é que a maioria da novidade será estrangeira, embora a finança e antigos canavieiros devam levar nacos do negócio. Como se não bastasse, preços livres em um mercado volátil como o de energia podem causar turumbambas, de consumidores empresariais ao povo miúdo, vide o caminhonaço.

Luiz Carlos Azedo: Entre a modernidade e a nostalgia

- Nas entrelinhas / Correio Braziliense

“A política brasileira tem duas linhas de força que podem convergir na direção de um processo de renovação ou derivar para o autoritarismo”

A ideia da revolução como força transformadora do mundo é coisa dos jacobinos. Os revolucionários que surpreenderam a nobreza europeia ao liquidar o absolutismo francês mudaram até o calendário gregoriano, símbolo do cristianismo e do Antigo Regime, para mostrar que nada seria como antes. O ano I, iniciado em 1792, era o ano da adoção da Constituição, que havia instituído o sufrágio universal, a democratização.

A Revolução Francesa (1789-1799) nos legou a universalização dos direitos sociais e das liberdades individuais a partir da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Também serviu de base para o regime republicano, inspirado nas ideias iluministas. A crítica aos excessos jacobinos resultou na democracia representativa. A política tal como a conhecemos hoje, inclusive as ideias liberais e os conceitos de esquerda e direita, além do nacionalismo, são heranças daqueles 10 conturbados anos.

Iniciado com a Queda da Bastilha, a famosa prisão de Paris, o processo revolucionário francês só foi finalizado com o Golpe de 18 de Brumário, organizado por Napoleão Bonaparte, que logo depois restabeleceu a monarquia e o calendário gregoriano. O calendário revolucionário francês seria reutilizado somente nos dois meses de vigência da Comuna de Paris, em 1871. Era complicadíssimo.

O poeta Fabre d’Eglantine buscou inspiração nas quatro estações do ano para definir os meses, remetendo-se, por exemplo, à colheita das uvas (Vindimário), às brumas (Brumário) e às geadas (Frimário), no Outono; à germinação (Germinal), à floração (Floreal) e às pradarias (Plarial), na Primavera. O matemático Gilbert Romme manteve a divisão do ano em 12 meses, compostos por 30 dias, divididos em semanas de 10 dias, que foram chamadas de decêndios. Instituiu-se cinco dias de feriados, os dias dos sans-culottes, mantendo-se o dia bissexto a cada quatro anos. Cada dia tinha 10 horas, de 100 minutos; cada minuto, 100 segundos. A base de cálculo era decimal, mas nem assim a mudança colou.

A Revolução Francesa mudou , contudo, muitas outras coisas, inclusive a compreensão sobre a História, que passaria a ser orientada para a emancipação humana. Quem se opusesse à marcha do progresso passaria a ser considerado reacionário. Com o tempo, porém, constatou-se que nem todos os adversários dos jacobinos eram reacionários. Muitos consideravam a derrocada do absolutismo francês inexorável, mas não o Terror (Benjamin Constant, Tocquevlle); alguns foram mais longe, criticaram liberais e socialistas por se pressuporem capazes de prever a direção da História (Edmund Burke).

Não faltam os exemplos de revoluções que deram marcha à ré, talvez o mais significativo seja o caso da Revolução Russa de 1917, com a dissolução da antiga União Soviética, que endossa a crítica ao chamado “determinismo histórico” dos comunistas. Mas há um tipo de pensamento particular sobre a Revolução Francesa que renasceu das cinzas na virada do milênio: o anti-iluminismo. O Iluminismo, ao pôr a razão acima da fé, seria origem de todos os atuais problemas do mundo.

Eliane Cantanhêde: Foco no Senado

- O Estado de S.Paulo

Enquanto Bolsonaro se atrapalha com filhos, armas, índios, é o Senado que vai pegar a reforma da Previdência para dar rumos à bagunça

Quanto mais se aproxima o recesso parlamentar e mais a reforma da Previdência avança na Câmara, mais os holofotes atravessam o Salão Verde do Congresso para se concentrar no Senado, que costuma ter políticos mais experientes e fazer menos barulho, mas já impôs três derrotas ao governo Jair Bolsonaro.

O plenário derrotou os "cacos" no Código Florestal e os dois projetos de armas, depois retirados da Câmara pelo Planalto para evitar nova derrota pessoal de Bolsonaro. E o presidente, Davi Alcolumbre, devolveu a medida provisória que empurrava a demarcação de terras indígenas justamente para a Agricultura. É inconstitucional editar MP sobre tema já derrotado no Congresso no mesmo ano.

Alcolumbre é uma dupla surpresa. Assim como Bolsonaro se elegeu presidente da República como o anti-PT, ele se elegeu presidente do Senado como o anti-Renan Calheiros, graças ao apoio do chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, do baixo clero do qual fazia parte, da divisão do MDB e do racha das esquerdas (PT ficou com Renan). Ninguém dava um tostão pelo sucesso dele. Um engano.

Apesar do apoio do Planalto, Alcolumbre não admite o desdém de Bolsonaro pela política e as instituições e assumiu, com Rodrigo Maia e Dias Toffoli, a trincheira da resistência. Continua próximo de Onyx, mas tem lado, o lado do Parlamento. Mesmo sendo um inexpressivo senador do distante Amapá, ou talvez exatamente por isso, ele circula bem na direita, na esquerda, entre governistas e oposicionistas, entre caciques e índios. Sabe ouvir, negociar, decidir.

Affonso Celso Pastore: A perspectiva é de uma recuperação muito lenta

- O Estado de S. Paulo

Para retomar o crescimento não basta a aprovação da reforma da Previdência

A economia internacional não para de causar surpresas. Desacelerações no crescimento estão ocorrendo em países avançados e emergentes, mas os preços dos ativos estão em alta. Nos EUA, depois de queda em 2018, os preços das ações voltaram a crescer, e as taxas das treasuries despencaram ao lado da expectativa de iminente corte na taxa de juros. Contudo, se nos EUA há espaço para um afrouxamento monetário, o mesmo não ocorre na Europa, onde o BCE está preso ao zero-bound. A economia mundial atravessa um período de taxas de juros e de crescimento econômico baixos, que pode não ser a secular stagnation descrita por Larry Summers, mas estará conosco por um bom tempo. Afinal, as taxas reais neutras de juros no mundo caíram, e por trás desse movimento também estão as causas da desaceleração do crescimento mundial.

No Brasil assistimos algo semelhante, com os preços dos ativos em acentuada valorização ao lado de uma economia muito deprimida. Se não fosse o impulso aos preços dos ativos vindo do mercado financeiro internacional, seria difícil explicar por que, diante da estagnação econômica, o Ibovespa superou os 100 mil pontos, e continua crescendo. Seria também difícil explicar a totalidade da queda na inclinação da curva de juros, jogando as taxas das NTN-B de 2030 e 2040 para 3,5% ao ano. Em contrapartida, temos de nos conformar que a queda no crescimento mundial acentua a tendência depressiva da economia brasileira, piorando ainda mais as condições para a retomada do crescimento.

Para retomar o crescimento não basta que o Congresso aprove a reforma da Previdência. Ela exige que, além de melhorar a eficiência do lado da oferta, é preciso elevar a demanda agregada, e embora o Banco Central tenha todas as condições para reduzir a taxa de juros, não há esperança de que tal movimento seja suficiente para nos tirar da depressão.

Ricardo Noblat: Logo com quem o capitão foi arranjar encrenca

- Blog do Noblat / Veja

Fechou o tempo

Quem disse?

“A situação da Amazônia é um triste paradigma do que está acontecendo em muitas partes do planeta: uma mentalidade cega e destruidora que favorece o lucro à justiça; coloca em evidência a conduta predatória com a qual o homem se relaciona com a natureza.”

E quem respondeu?

“O Brasil é uma virgem que todo tarado de fora quer”.

Quem disse foi o Papa Francisco, na manhã de ontem, durante o do 2º Fórum das Comunidades Laudato que acontece em Amatrice, cidade italiana do Lácio, na mesma região de Roma. Quem respondeu à noite, em Brasília, de saída do Palácio da Alvoras para uma recepção no Clube da Marinha, foi o presidente Jair Bolsonaro, quando abordado por jornalistas a respeito do que o Papa dissera.

Francisco lamentou a retirada de povos indígenas de suas terras nativas e afirmou: “O homem não pode permanecer um espectador indiferente diante dessa destruição, nem a Igreja deve ficar em silêncio”. Sem citar o Papa, Bolsonaro devolveu: “Você sabe o que é Triplo A? Andes, Amazônia, Atlântico. São 136 milhões de hectares. O primeiro mundo quer para eles a administração dessa área.”

Na semana passada, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais detectou aumento de 88% no desmatamento da Amazônia comparando junho de 2019 com junho de 2018. São 920 quilômetros quadrados de florestas a menos. Em recente viagem ao Japão, Bolsonaro garantiu que entre Boa Vista e Manaus não há um só quilômetro quadrado desmatado. E desafiou o presidente francês a sobrevoar a região para conferir.

Pois foi exatamente no trecho citado por Bolsonaro que o MapBiomas identificou sérios problemas. Ali, foram mais de 2,1 mil alertas ou focos de desmatamento nos últimos seis meses (janeiro a junho). Cada ponto equivale a uma área de 213 quilômetros quadrados. Segundo os pesquisadores, mais de 95% foram desmatamentos ilegais.

Alon Feuerwerker: Previdência é sinal da estabilidade do ornitorrinco

- Blog do Noblat / Veja

O fim da Era Geisel. E o “supostas”

Era previsível, e foi previsto, que a previdência teria tráfego suave no Congresso. O governo Jair Bolsonaro caminha para liquidar o principal item desta primeira etapa sem precisar ceder espaço político real no Executivo. A promessa formal de execução orçamentária vem sendo suficiente para disciplinar a base potencial. Se o prometido acontecer, serão 10 milhões de reais extras anuais por parlamentar, e 20 milhões para os líderes. Este ano é o empenho, no próximo começa a execução.

Dois fatores adicionam tranquilidade. A opinião pública considera vital a reforma da previdência, e também por isso absorve melhor o que em outra circunstância seria tratado como escândalo de “fisiologismo”. E a maioria esmagadora do Congresso desde sempre orienta-se à direita do centro. Para ela, votar a favor neste caso tem custo político-social aceitável. Uma reforma da previdência custa muito menos para Bolsonaro do que seria para Fernando Haddad.

O governo tem estabilidade porque é um ornitorrinco, aquele animal meio ave e meio mamífero. Controla a base radical com a agenda conservadora nos costumes, a agressividade verbal contra os demais poderes e a exploração da grife Sérgio Moro, o algoz judicial do petismo. E com a retórica antiglobalista. E encanta a direita autonomeada “civilizada”, com a adesão prática ao liberal-globalismo na política econômica, o alinhamento aos Estados Unidos e o acordo Mercosul-UE.

Se PSDB e PT, este nos primórdios, propuseram encerrar a Era (Getúlio) Vargas, o bolsonarismo parece pretender pôr fim a Era (Ernesto) Geisel. Por razões econômicas mas também político-ideológicas. Une o supostamente útil ao certamente agradável. Os economistas prometeram a Bolsonaro que desmontar o Estado vai alavancar o crescimento econômico e portanto produzir empregos. E menos Estado, para o bolsonarismo, é também menos base objetiva para um renascimento socialista.

Geisel era nacionalista, industrialista e, em algum grau, terceiro-mundista. Não podia ser acusado de simpatias à esquerda. Uma prioridade dele foi a eliminação, inclusive física, das cúpulas comunistas, operação executada entre 1974 e 1976. Mas era um governo que enxergava para o Brasil um papel não caudatário, e tomou providências nesse sentido. Uma parte da oposição democrática a ele, inclusive, centrava a crítica na “denúncia” do “sonho de um Brasil-potência”.