sábado, 1 de janeiro de 2022

Oscar Vilhena Vieira*: 2022, ano decisivo

Folha de S. Paulo

Apesar de ataques, há possibilidade real de reverter a erosão de nossa democracia

A democracia brasileira sobreviveu a mais um ano de ataques sistemáticos às suas instituições e aos direitos e valores destinados a promover o bem-estar da população. Não houve dia nos últimos três anos em que a saúde da população, a cultura e a educação, o meio ambiente, o mundo do trabalho, a liberdade de expressão ou os direitos humanos não tenham sido objeto de sabotagem por parte do presidente e seus auxiliares.

A absurda tentativa de impedir a vacinação de crianças, nas últimas semanas, é apenas mais uma manifestação do obscurantismo perverso que ocupa o centro do poder no Brasil. A opção pelo jet ski e pelo entretenimento infantilizado em um parque de diversões, ao invés demonstrar solidariedade e empenho para socorrer centenas de milhares de atingidos pelas enchentes na Bahia, dá a dimensão da estatura moral do presidente.

Demétrio Magnoli: Desejos impossíveis para 2022

Folha de S. Paulo

Novo ano não tem o direito de ser uma simples extensão do macabro 2021

Mandela acreditava que tantas coisas "sempre parecem impossíveis, até serem feitas". Neste Réveillon, desisti do fácil, até do possível. Busco o impossível.

1. Ao longo de 2022, a pandemia se reduzirá a uma endemia como outras. Antes disso, que as sociedades finalmente sigam a ciência, eliminando a espessa camada de superstições depositada sobre a vida cotidiana.

Basta de controles aleatórios de temperatura, luvinhas plásticas em restaurantes self-service, máscaras ao ar livre fora de aglomerações. Abaixo o teatro do sanitarismo.

Cristina Serra: Com esperança, Feliz Ano-Novo!

Folha de S. Paulo

Com os olhos na alvorada de 2023.

Escrevo este texto enquanto cai uma tempestade lá fora e penso nos mortos e desabrigados na Bahia e em Minas Gerais, consequência de uma combinação tão antiga quanto letal no Brasil: fenômenos climáticos, desigualdade social e agressões à natureza.

Não é a chuva em si que castiga os mais pobres, mas a falta de moradia segura e a ocupação de áreas de risco, provocada em grande parte pela especulação imobiliária e pelo poder público omisso e/ou conivente.

A morte e o padecimento de brasileiros, seja nas enchentes, seja na pandemia, seja por causa da fome, são o retrato do país governado por um presidente dado à vadiagem e ao sadismo, que faz questão de exibir seu "e daí?" enquanto tantos sofrem.

Lembro do que escrevi neste espaço em primeiro de janeiro de 2020. Fui sincera quando disse aos leitores que não conseguia acreditar em um feliz ano novo, considerando o que Bolsonaro já havia feito em 2019.

Hélio Schwartsman: China, líder na produção científica

Folha de S. Paulo

E nada indica que um apagão esteja próximo.

Pela primeira vez, a China superou os EUA em produção científica. Em 2020, instituições chinesas publicaram 788 mil artigos contra 767 mil das americanas. É possível relativizar esse dado.

A China tem uma população quatro vezes maior que a americana, de modo que a produção per capita dos EUA ainda é superior. A China também não tem ganhado tantos prêmios Nobel quanto os EUA, o que faz supor que, nas áreas mais relevantes, os americanos liderem. Tudo isso é verdade, mas o fato, insofismável, é que a ciência chinesa vem evoluindo de forma robusta. Nada indica que um apagão esteja próximo.

A questão é relevante para os economistas liberais, particularmente os da escola institucionalista. Para eles, o crescimento sustentável só é possível quando as instituições políticas de um país são inclusivas e seus cidadãos gozam de liberdade para decidir o que farão de suas vidas e recursos. Isso ocorre porque a prosperidade duradoura depende de um fluxo constante de inovações, que resulte em ganhos de produtividade. Ainda segundo os institucionalistas, regimes autoritários, como o chinês, não asseguram a liberdade necessária para que o binômio ciência e tecnologia se desenvolva.

João Gabriel de Lima*: Como lidar com os cometas em 2022

O Estado de S. Paulo.

Na democracia, temos armas para combater os cometas. Elas se chamam mobilização e voto

O filme Não Olhe para Cima é literalmente sobre o fim do mundo. Na trama, um cometa entra em rota de colisão com a Terra, e a presidente dos Estados Unidos – vivida por Meryl Streep – pouco faz de concreto para evitar a tragédia. A produção da Netflix explodiu nas redes sociais e, como escreveu Eugênio Bucci no Estadão, promete incendiar as discussões em família no réveillon. Não foi por acaso. Neste ano, todos nos sentimos na mira de um cometa – fosse ele a pandemia, as enchentes, os preços subindo sem parar ou o descaso de alguns governantes com problemas tão graves.

Em alguns momentos de 2021 fomos capazes de enfrentar nossos cometas. A mobilização social triunfou sobre inimigos poderosos. Um exemplo foi o pavilhão que reuniu, em Glasgow, cientistas, empresários e representantes dos movimentos jovem, negro e indígena contra a mudança climática e em favor da Amazônia. O vídeo da ativista Txai Suruí, única brasileira a falar na abertura da COP-26, viralizou e se tornou emblema dessa mobilização.

Miguel Reale Júnior*: Alvissareira

O Estado de S. Paulo.

Boas notícias poderão ser as do dia 1.º de janeiro de 2023 no Brasil, obviamente, se não votar em Bolsonaro

É muito bom começar o ano lendo notícias boas. Então vamos a elas. O presidente da República reconduziu à presidência do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) o professor que o presidira, demitido por não se aceitarem as medições das queimadas na Amazônia apresentadas pelo instituto. Foi este ilustre físico homenageado pela prestigiosa revista Nature como um dos mais importantes cientistas do ano de 2019, tendo sido este mais um motivo para sua recondução.

Por falar em meio ambiente, o presidente da República restaurou no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) sua anterior constituição, desfeita pelo Decreto n.º 9.806, de 28 de maio de 2020, que estabelecera uma maioria de representantes do governo no conselho, para agora garantir, como dantes, a presença equilibrada, na composição do órgão, da sociedade civil, do poder público e do setor econômico, restabelecendo a democracia participativa essencial ao nosso mundo plural.

Bolívar Lamounier*: Desordem e regresso?

O Estado de S. Paulo.

Outra rodada de Lula x Bolsonaro, com certeza, nos manterá afundados no atraso por muitos anos, talvez décadas

Tenho procurado, mas ainda não encontrei alguém tranquilo quanto à disputa presidencial em que nos iremos engajar dentro de dez meses.

Não tendo a “terceira via” até agora dito a que veio (ou virá), o enredo será igual ao de 2018. Teremos Lula pintando Bolsonaro como um desequilibrado, Bolsonaro pintando Lula como ladrão e milhões de brasileiros concordando em que ambos estarão certos. Nesse quadro, só os muito obtusos não percebem quão escassa é a chance de conservarmos o que nos resta de normalidade econômica, política e moral.

Relembremos que, décadas atrás – com mistificações ideológicas recobrindo um tênue fundo de verdade –, quisemos crer que nossa linha evolutiva seria mais no sentido da civilização que no da barbárie. Euclides da Cunha quis acreditar que éramos um país fadado a se civilizar. Que, no longo prazo, nosso destino seria um convívio político pacífico, não um país resvalando para a rispidez e a violência; para a ordem e o progresso, não para a desordem e o regresso. Hoje, se tivermos juízo, devemos olhar para trás com tristeza e para a frente com preocupação, muita preocupação, porque outra rodada de Lula x Bolsonaro, com certeza, nos manterá afundados no atraso por muitos anos, talvez décadas.

Pablo Ortellado: Retórica inflamada de Bolsonaro mascara vazio programático

O Globo

Com o fim do terceiro ano de governo, já é possível fazer um balanço amplo do que foi a gestão Bolsonaro. O que se destaca é quão pouco o governo realizou, a despeito do furacão de controvérsias.

O governo Bolsonaro foi eleito com um discurso antiestablishment e, para ser fiel, parece ter se empenhado em construir uma relação ruim com o Congresso.

Foi o governo que mais enviou medidas provisórias desde Lula e também o que menos as aprovou. Em 2021, de todas as medidas provisórias enviadas, apenas 42% foram aprovadas (para fins de comparação, a taxa de aprovação no governo Lula foi de 94%). Bolsonaro também foi o presidente que menos emplacou projetos de lei. Levantamento do Observatório do Legislativo Brasileiro da Uerj mostra que é o governante que menos aprovou projetos enviados ao Legislativo desde a redemocratização.

Eduardo Affonso: Nada de novo, tudo de novo

O Globo

Pena não termos traduzido para o português a palavra réveillon. Ela virou sinônimo de roupa branca e foguetório. Perdeu-se o sentido original contido no verbo réveiller: acordar.

Seria bonito receber o novo ano com uma manchete do tipo “Cariocas celebram o Despertar de 2022 com flores e oferendas”, em vez de com um Reveiôn que a gente nunca sabe exatamente como se escreve.

2022 acordaria de sonhos intranquilos (2021 foi um pesadelo), não transformado num artrópode asqueroso, mas revigorado, bem-disposto e de alma lavada (a crer na meteorologia, hoje tem chuva — e forte).

Sem a pequena morte / de toda noite / como sobreviver à vida / de cada dia?, escreveu o poeta José Paulo Paes. Para chegar medianamente sãos e relativamente salvos ao fim de mais um giro do planeta, é preciso enterrar o ano morto, elaborar o luto de tudo o que se perdeu e iniciar, hoje, a regeneração. Mais ou menos como quem adormece para que o corpo esqueça o cansaço e renasça na manhã seguinte. E começar de novo sem voltar ao marco zero, mas a outro ponto de partida, a que se terá incorporado o aprendizado de 365 dias — e mesmo número de pequenas mortes e renascimentos.

Marcus Pestana*: 2022: riscos, ameaças e oportunidades

Chamem as cartomantes. Joguem os búzios. Tragam as cartas do Tarot. Ativem a Bola de Cristal. Consultem os videntes. Está aberta a temporada de previsões para 2022.

O mistério do fatiamento do tempo como alavanca para a renovação da esperança é um mistério que nos acompanha há séculos. Como se a vida inaugurada no dia primeiro de janeiro fosse radicalmente diferente.

Infelizmente, o Ano Novo descortina para o Brasil um cenário nada promissor. A economia brasileira não poderia entrar de maneira pior em 2022. Inflação em alta corroendo o poder de compra dos salários. Juros subindo, inibindo o crédito e determinando mais recessão. Credibilidade em relação à política fiscal entre o taco e o carpete após a implosão da âncora fiscal, o teto dos gastos, e a pulverização dos gastos orçamentários sem bases sólidas e a consagração do princípio do calote em relação aos precatórios.

O real excessivamente desvalorizado, encarecendo os preços dos importados e de produtos como os combustíveis, realimentando a inflação. O emprego revelando uma leve reação mas ainda com mais de 12 milhões de brasileiros desempregados, e outros tantos, subempregados e desalentados. A economia não deverá crescer. Isso depois das severas recessões de 2014, 2015,2016 e 2020. Reformas estruturais em ano eleitoral, chance zero. Vamos empurrar com a barriga os desafios inadiáveis mais uma vez.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

2022 traz oportunidade de recomeço

O Globo

O Ano-Novo é época de pensar em resoluções, sonhar e planejar as metas para 2022, refletir sobre os acertos e erros de 2021, tecer novos planos. É também tempo de projetar o que faremos conjuntamente, como sociedade, o que queremos como nação.

Em 2022 comemoraremos o bicentenário da data em que Dom Pedro I, às margens plácidas do Ipiranga, proclamou a Independência do Brasil. Nestes dois séculos, forjamos um país que evitou o esfacelamento territorial, acabou com a escravidão, recebeu imigrantes de todos os cantos do mundo, tornou-se plural, viu nascer polos de excelência em diferentes áreas do saber e da economia, criou e expandiu sistemas de educação, saúde e previdência. A partir dos anos 1980, consolidou a democracia, derrotou a hiperinflação e ampliou a rede de proteção aos mais pobres.

Mesmo em momentos de extrema dificuldade, o Brasil tem conseguido demonstrar sua força e resiliência. A magnitude dos desafios enfrentados nos últimos dois anos foi gigantesca. Bem quando sofremos a pior crise sanitária em pelo menos um século, o comando do Palácio do Planalto é exercido por uma figura negacionista, incompetente e autoritária. Com a saúde, o meio ambiente, a democracia, o crescimento econômico e o bom senso sob intenso ataque, o Brasil mostrou que conta com instituições capazes de resistir aos avanços do autoritarismo.

O Supremo Tribunal Federal e o comando das Forças Armadas deram inúmeras demonstrações de que não permitirão que a democracia seja atropelada. O Tribunal Superior Eleitoral respondeu à altura à campanha difamatória contra as urnas eletrônicas e à tentativa de deslegitimar o processo eleitoral. Parcela importante da sociedade civil, da classe política e do empresariado se manifestou publicamente em defesa da democracia quando a situação exigiu.

Mais recentemente, o Banco Central demonstrou ter independência para cumprir seu mandato de controlar a alta dos preços, apesar das pressões do governo. A sociedade tem dado exemplo de força na defesa da Amazônia, alvo de destruição acelerada no atual governo. Por fim, o povo brasileiro disse “não” ao negacionismo e foi em massa aos postos de saúde se vacinar contra a Covid-19. Mais uma vez o brasileiro demonstrou ser melhor que seu governo.

Poesia | Ferreira Gullar: Ano Novo

Meia-noite. Fim 

de um ano, início 

de outro. Olho o céu: 

nenhum indício. 

 

Olho o céu: 

o abismo vence o 

olhar. O mesmo 

espantoso silêncio 

da Via-Láctea feito 

um ectoplasma 

sobre a minha cabeça 

nada ali indica 

que um ano novo começa. 

 

E não começa 

nem no céu nem no chão 

do planeta: 

começa no coração. 

 

Começa como a esperança 

de vida melhor 

que entre os astros 

não se escuta 

nem se vê 

nem pode haver: 

que isso é coisa de homem 

esse bicho 

estelar 

que sonha 

(e luta).

Música | Carnaval de Recife e Olinda (Galo da Madrugada, Frevo...)

 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Vera Magalhães: 2022: o primeiro ano do resto de nossas vidas

O Globo

O clima que cerca a chegada de 2022 é de ansiedade. Viradas de ano costumavam, antes da pandemia e de Bolsonaro, ser épocas cercadas de renovação de esperanças, um relaxamento de quem quer deixar tudo de ruim no ano que se encerra e começar o novo com tudo zerado.

Mas não é assim desta vez. 2021 foi, no Brasil e no mundo, a parte 2 de 2020, repetindo confinamento, mortes, incerteza quanto à recuperação da economia, agravamento das desigualdades e a confirmação de que vivemos uma emergência climática cada vez mais presente no dia a dia. De novo vimos ameaçados consensos civilizatórios, como direitos individuais e coletivos e a adesão às leis, à democracia e à razão.

E se 2022 vier para constituir uma trilogia macabra que conspurcará para sempre a terceira década do século 21? Há componentes que fogem ao nosso controle para definir se esse cenário distópico vai se concretizar, mas na última coluna do ano prefiro ficar no que está ao alcance de nós, brasileiros, para que vivamos o primeiro ano do resto de nossas, vidas, e não o terceiro do caos.

É preciso que exijamos dos governantes atitudes racionais, baseadas em dados e evidências, que contribuam para o bem da maior parcela da sociedade, e não de grupos de pressão ou de afinidade ideológica.

É necessário que a democracia seja um valor inegociável para qualquer brasileiro, independentemente de sua crença político-ideloógica, porque, à medida que ela continue a ser enfraquecida, como vem sendo de forma sistemática e deliberada pelo presidente e seus apoiadores, nenhum governo, seja de direita, de esquerda ou de centro, terá tranquilidade e segurança jurídica e institucional para administrar o país.

Pedro Doria: Desejo de Ano-Novo

O Globo / O Estado de S. Paulo

O Brasil nunca elegeu um extremista para a Presidência — até que aconteceu, em 2018. A não ser que algo de muito improvável ocorra, pela primeira vez desde o início da reeleição, o ocupante do terceiro andar do Planalto não ganhará um segundo mandato. Não importa o vencedor, por si só já é uma boa notícia. Não há muito o que desejar para 2022. Teremos a mais agressiva eleição presidencial da Nova República. Derrotado, com ainda dois meses de mandato, não podemos esperar civilidade de Jair Bolsonaro. Mas podemos sonhar com 2023. Meu desejo para o Brasil é que a esquerda encare enfim uma de suas maiores contradições. É gostar de empresário grande, mas ter horror a empreendedores.

Para sair do buraco em que nos metemos faz uma década, precisaremos muito de novas ideias.

Luiz Carlos Azedo: No ano que vem a gente não morre mais

Correio Braziliense

Não é fácil, numa época de confraternizações, como foi o Natal e será o ano-novo, puxar o freio de mão nas comemorações coletivas. Mas é preciso cuidado

A música Sujeito de sorte, de Belchior, foi um dos hits de 2021, na voz de Emicida, Maju e Pablo Vittar, desde que a velha canção do álbum Alucinação foi sampleada pelo rapper paulista no álbum AmarElo, ganhador do Grammy Latino. A gravação ao vivo, no Teatro Municipal de São Paulo, lotado de moradores da periferia de São Paulo, deu origem a um excelente documentário, uma boa pedida para quem ainda não viu e não quer “olhar pra cima” (ou já olhou) nessa virada de ano. Emicida se destaca não apenas por sua atuação artística, mas também por suas ideias generosas, que trazem para o centro do debate a realidade das periferias urbanas e puxam os fios de história que ligam o hip hop brasileiro ao nosso samba tradicional.

O sucesso da regravação de Sujeito de sorte tem a ver com os tempos de cólera política e de pandemia que estamos vivendo: “Presentemente eu posso me considerar um sujeito de sorte/ Porque apesar de muito moço me sinto são e salvo e forte/ E tenho comigo pensado/ Deus é brasileiro e anda do meu lado/ E assim já não posso sofrer no ano passado/ Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro/ Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro/ Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro/Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”.

Vinicius Torres Freire: Um ano novo com mais vacinados

Folha de S. Paulo

Ainda falta dar dose 2 a quase 35 milhões, o equivalente a três cidades de SP

Em janeiro, faz um ano da primeira vacinação da campanha contra a Covid no Brasil. A primeira dose foi para a enfermeira Mônica Calazans. A gente então meio que ria e meio que chorava de ver o sorrisão da mulher vacinada, de pensar que era possível vencer a peste. Apesar de tudo, e bota "tudo" nisso, o SUS mostrou sua conhecida capacidade de vacinar, um raro motivo de orgulho nacional.

Depois de muito combate contra a criatura do inferno que ocupa o poder e suas falanges de demônios, conseguimos vacinas bastantes. Agora dá certa tristeza de ver que elas sobram.

Hélio Schwartsman: Bolsonaro apequena a Presidência

Folha de S. Paulo

Presidente deu uma banana para as dificuldades enfrentadas pelos flagelados baianos

O ser humano é uma espécie supersticiosa, amedrontada e infantil. Do suposto Criador ao presidente, voltamo-nos a todo instante a figuras paternas em busca de sinais que aplaquem nossos temores e indiquem o caminho a seguir. Embora as constituições não o explicitem, uma das funções dos governantes é prover seus governados com clareza moral, confiança e esperança. Isso pode gerar situações paradoxais.

Objetivamente, deslocar um presidente, com seu séquito de seguranças, jornalistas e curiosos, para uma área de catástrofe mais atrapalha do que ajuda o trabalho das equipes de resgate. Mas é obrigação do dirigente dar as caras. É o que a população espera dele, e eventuais confusões que sua presença ocasione tendem a ser compensadas pelo sentimento de união e propósito que ele despertará.

Ruy Castro: Bolsonaro de uniforme listrado

Folha de S. Paulo

Há gente prevendo que o presidente será preso em 2022

Dentro de algumas horas, a televisão começará a nos bombardear com a manchete: "Já é 2022 na Austrália!". E tome de fogos naquela ponte. A Austrália está 12 horas à nossa frente, donde tudo lá acontece primeiro, e não apenas arremesso de bumerangue e corrida de canguru. A tal ponto que, quando uma coisa está para acontecer aqui, dizemos que na Austrália ela já aconteceu.

Há gente prevendo, por exemplo, que Jair Bolsonaro será preso em 2022. Pois, quando acontecer, ele já terá sido preso na Austrália 12 horas antes.

Eliane Cantanhêde: Apagão em 2021, incertezas em 2022

O Estado de S. Paulo.

Desesperados pelo fim de 2021 e apavorados com o começo de 2022

Estamos todos desesperados para 2021 acabar, mas morrendo de medo que 2022 comece, com tantas incertezas, fome, pobreza, desemprego, inflação, inundações e calamidades, gripe H1N1 e H2N3, variantes Delta e Ômicron da covid-19 e uma campanha eleitoral sangrenta, em que não interessa discutir o País, só destruir o adversário.

O Brasil vive um apagão de dados numa área literalmente vital, durante uma pandemia de destino incerto. Impossível cuidar da saúde pública sem dados, voando no escuro. Pior: sem piloto. Pior ainda: com um piloto cabeça dura, que desdenha da ciência, da medicina, das estatísticas..., da saúde.

Celso Ming: As incertezas e projeções para 2022

O Estado de S. Paulo.

De profeta e louco todo mundo tem um pouco, diz o ditado modificado para este texto. A cada fim de ano, a demanda por previsões aumenta. Mas é difícil separar o que são previsões propriamente ditas de meros votos ou de apostas.

Quem olha para a tabela ao lado verifica que até mesmo consultores tarimbados e gente graúda que põe dinheiro grosso a prazo, como a que está reunida pelo Banco Central, podem fracassar nas projeções. As que estão sendo feitas agora para o ano de 2022 parecem ainda mais sujeitas a erros.

De positivo para os próximos 12 meses, há as contas externas que deverão continuar excelentes. As reservas estão a US$ 364,2 bilhões, quase dois anos de importações. A produção do setor agropecuário será recorde e contribuirá para mais exportações. E certo grau de normalização dos fluxos globais de comércio também parece inevitável.

Flávia Oliveira: Importante, mas com ressalvas

O Globo

Um presidente da República passeando de jet ski num raro balneário onde ainda é popular, enquanto no quarto colégio eleitoral do país 670 mil pessoas sofrem efeitos de inundações que já mataram 24, serviria ao roteiro da sátira distópica que mobiliza as redes sociais desde o Natal. Infortúnio nosso, não é cinema. São evidências do negacionismo, da indiferença, da necropolítica no Brasil sob Jair Bolsonaro. É ele o mandatário capaz de sepultar uma bem-sucedida política social para tirar proveito eleitoral e mais desidratá-la que ampliá-la. É o líder político que sabota vacinação de crianças. É o chefe do Executivo federal que visita parque de diversões e rejeita ajuda humanitária de adversário ideológico, quando compatriotas garimpam bens e memórias de escombros.

Tal como Donald Trump nos Estados Unidos, a gestão Bolsonaro lançou o Brasil numa escalada de mentira, incompetência e extremismo digna do cinema catástrofe. Daí a repercussão nos dois países do último longa de Adam McKay, que reúne elenco estelar e foi lançado pela Netflix na véspera de Natal. “Não olhe para cima” é uma sátira sem sutileza, bem mastigadinha. Não doura a pílula na crítica feroz à negação à ciência, ao populismo dos líderes de extrema direita, à espetacularização da notícia, ao culto às celebridades, mesmo tendo DNA hollywoodiano.

Eleição no Chile é um 'exemplo poderoso' para o mundo, diz Biden ao presidente eleito Boric

Líderes discutiram compromisso com justiça social, democracia, direitos humanos e crescimento

Reuters / O Globo

WASHINGTON — As eleições livres e justas do Chile são um "exemplo poderoso" para a América Latina e para o mundo, disse o presidente dos EUA, Joe Biden, ao líder esquerdista Gabriel Boric. Biden ligou para Boric, nesta quinta-feira, para parabenizá-lo pela sua eleição à Presidência, no último dia 19, como informou a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, em um comunicado.

Segundo Jen, os dois líderes discutiram seu compromisso comum com justiça social, democracia, direitos humanos e crescimento. 

"O presidente [Biden] aplaudiu as eleições livres e justas do Chile como um exemplo poderoso para a região e o mundo", disse a secretária de imprensa da Casa Branca.

A vitória de Boric representou um avanço para a esquerda da América Latina, reforçando as conversas sobre uma nova "maré rosa" na região, à medida que a pobreza crescente — alimentada pela pandemia de Covid-19 — direciona os eleitores para aqueles que prometerem reformas econômicas que favoreçam um governo maior e mais gastos sociais.

Biden também destacou a importância da cooperação EUA-Chile para promover uma recuperação da pandemia e para enfrentar a ameaça representada pela mudança climática.

O presidente americano ofereceu ainda suas condolências pela morte da chilena Valentina Orellana-Peralta, de 14 anos, que foi morta a tiros em uma loja de North Hollywood em 23 de dezembro, quando um policial abriu fogo contra um homem que estava atacando outro comprador. Valentina nasceu e foi criada em Santiago, e chegou aos EUA há seis meses com sua mãe para visitar uma irmã mais velha, informou o Los Angeles Times.

Em sua conta no Twitter, Boric comentou sobre a conversa com Biden:

"Acabo de receber uma chamada do presidente dos EUA. Além da alegria compartilhada por nossos respectivos triunfos eleitorais, conversamos sobre desafios comuns como comércio justo, crise climática e fortalecimento da democracia. Continuaremos conversando."

Nelson Motta: O ano em que o mito miou

O Globo

O ano que vem pode ser pior, bem pior, se muita coisa não mudar. Para melhor. Dentro e fora de nós

A última reflexão do ano é: já vai tarde. Certamente um dos piores, senão o pior, ano de nossas vidas. Para o vovô e o netinho, atravessando gerações que suportaram presidentes bêbados, tirânicos, incompetentes, ladrões ou doentes mentais, e crises econômicas e políticas quase permanentes. Brava gente brasileira.

Mas não adianta chorar pelo ódio derramado. O ano que vem pode ser pior, bem pior, se muita coisa não mudar. Para melhor. Dentro e fora de nós. Não é possível que uma minoria de 20% de fanáticos mande no destino de 210 milhões de brasileiros usando a mentira como método e os truques mais sujos para minar e destruir a democracia.

O que pensa a mídia: Editoriais / Opiniões

EDITORIAIS

Golpismo derrotado

Folha de S. Paulo

Arquitetura da democracia resiste a Bolsonaro; cumpre proteger setores cruciais

Encerra-se um ano particularmente tumultuoso na política nacional, sobretudo pelo comportamento anômalo do presidente da República. Apesar dos percalços e da dissipação de energia cívica, a arquitetura da democracia brasileira resistiu ao golpismo aloprado.

O apogeu da cavalgada autoritária aconteceu nas manifestações do Dia da Independência, mas ela foi desmoralizada em menos de 48 horas por ausência de materialidade.

Jair Bolsonaro ameaçou o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, com algo que nem soube enunciar —porque não há nada que o chefe de Estado possa fazer contra a autonomia de um Poder sob a Constituição de 1988.

Atiçou a massa de fanáticos com mentiras sobre a urna eletrônica e com bravatas sobre sair morto do Palácio do Planalto. As eleições de 2022 ocorrerão normalmente sob a égide das urnas eletrônicas, e Bolsonaro sairá da sede do governo derrotado, não martirizado, caso falhe a tentativa de reeleger-se, como hoje apontam as pesquisas.

Poesia | João Cabral de Melo Neto: Chuvas do Recife (Trecho)

Sei que a chuva não quebra osso
que há defesas contra seu soco.
Mas sob chuva tropical
me sinto ante o Juízo Final
em que não creio mas me volta
como o descreviam na escola:
mesmo se ela cai sem trovão
demótica em sua expressão.

No Recife, se a chuva chove,
a chuva é a desculpa mais nobre
para não se ir, não se fazer,
para trancar-se no não ser.
Mais que corda, é chuva em sabres
que aprisiona o dia em grades,
e mesmo que tenha gazuas
da grade viva, evita a rua.

(...)
Há no Recife uma outra chuva
(embora rara) rala, miúda
Não como a chuva da chuvada,
que cai, agride, e é pedra d'água,
passa em peneira esta chuva,
não traz balas, não tranca ruas:
mas faz também ficar em casa,
quem pode, antevivendo o nada.

Música | Maria Bethânia: Luminosidade

 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Merval Pereira: Bolsonaro ajuda Lula

O Globo

A insensibilidade do presidente Bolsonaro diante do sofrimento alheio, quando ele é difuso, é sinal de que é incapaz de compreender o alcance do papel de um presidente da República, que chegou aonde chegou pelo voto dos cidadãos, e não por escolha divina. Bolsonaro é capaz de comover-se com a morte de um rapper conhecido por fazer “funk de direita” ou de um militar no exercício de sua função, mas é incapaz de homenagear um grande artista nacional que seja de esquerda ou simplesmente adversário de sua maneira de ver o mundo.

Para ele, existem apenas os que são seus apoiadores ou os adversários, não há brasileiros como coletividade, todos os que deveriam estar representados por ele como presidente. Não viajar para a Bahia diante da catastrófica inundação que deixou milhares de desabrigados e mais de 20 mortos, para passear de jet ski no sul do país, é mais um desses episódios que demarcam sua psicótica personalidade. “Espero não ter que voltar mais cedo”, comentou, na esperança de não interromper suas férias.

Malu Gaspar: Bolsonaro e a tutela do Centrão

O Globo

Quando 2021 começou, o ministro Paulo Guedes dizia que a economia brasileira estava iniciando uma recuperação “em V”. Jair Bolsonaro foi na contramão: “O Brasil está quebrado. Eu não consigo fazer nada. Eu queria mexer na tabela do Imposto de Renda…. Teve esse vírus, potencializado pela mídia que nós temos. Essa mídia sem caráter”.

Guedes tentou contemporizar (em relação às finanças, e não à mídia, claro). Disse que o presidente estava se referindo apenas ao setor público, em situação difícil depois dos “excessos de gastos cometidos pelos governos anteriores”. E, procurando se mostrar no controle da situação, garantiu que o auxílio emergencial só seria prorrogado se fosse possível manter o teto de gastos e que não haveria reajustes aos servidores públicos.

Numa coisa, porém, o presidente e o ministro concordavam: era preciso derrubar o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Maia tinha aprovado a reforma da Previdência que o governo queria, mas Guedes achava que ele boicotava as privatizações e a reforma tributária. Se tivessem um amigo no controle, pensavam presidente e ministro, o governo decolaria.

Luiz Carlos Azedo: Para a maioria dos brasileiros, o ano não quer acabar

Correio Braziliense

Para o governo federal, tudo parece normal. Todos os anos, em algum lugar do Brasil, a tragédia se repete, sem que se tenha um plano para socorrer as vítimas das chuvas

O presidente Jair Bolsonaro encerrou seu expediente no fim de semana antes do Natal, porém, para a maioria dos brasileiros, parece que 2021 é um ano que não quer acabar. Aquele ditado “ano novo, vida nova” não é bem o nosso caso. As principais mazelas de 2021 não estão ficando para trás. Na prática, 2022 promete ser um ano muito difícil, duro, e brevíssimo, porque só começará a fazer a diferença quando a situação sanitária do país se normalizar. A propósito, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para agradar ao presidente da República, faz tudo que pode para impedir que isso ocorra, haja vista, por exemplo, a omissão diante da epidemia de H3N2 (Influenza) e a sabotagem aberta à campanha de vacinação de crianças contra a covid-19.

De origem europeia, nosso calendário civil é utilizado oficialmente pela maioria dos países. Promulgado pelo Papa Gregório XIII [1] (1502-1585), em 24 de fevereiro de 1582, na bula Inter gravíssimas, substituiu o calendário juliano, decretado pelo imperador romano Júlio César (100-44 a.C.), em 46 a.C. Entretanto, em 2022, o calendário que realmente fará a diferença é o eleitoral. Em 2 de outubro, escolheremos o presidente da República, os governadores, os senadores e deputados federais, e estaduais e distritais. Eventual segundo turno para presidente e governadores poderá ocorrer em 30 de outubro.

Cláudio Gonçalves Couto*: O presidente sem compaixão

Valor Econômico

Age como tirano o governante que persiste em se divertir em vez de compadecer e cuidar de seus governados que sofrem

Nos últimos dias causa perplexidade a indiferença com que o presidente da República lida com o desastre das inundações no sul da Bahia e norte de Minas. Enquanto seus governados padecem sob as águas, Jair Bolsonaro farreia sobre elas, no Guarujá ou em Santa Catarina.

A catástrofe ambiental que flagela milhares, destruindo casas e bens, ceifando vidas e arruinando a já precária infraestrutura local, é insuficiente para comover o presidente, que frui de aprazível folga à beira-mar como se nada de grave acontecesse no país que ele pretensamente governa. Questionado por um adulador sobre sua permanência até o fim de semana do Ano Novo, retorquiu reveladoramente: “Espero que não tenha que retornar antes”.

Cristiano Romero: A contribuição de cada presidente à estabilidade

Valor Econômico

Sarney e Collor, os mais atacados, contribuíram para a estabilidade

Daqui a nove meses, será realizada a nona eleição direta para presidente da República no Brasil, decorridos 37 anos do fim do regime militar. O pleito ocorrerá em meio à forte polarização que vem caracterizando a política nacional desde o primeiro mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006) e que se acirrou com a reeleição de Dilma Rousseff em 2014 e a ascensão de Jair Bolsonaro, em 2018. É bem provável que a disputa transcorra num ambiente de grande instabilidade.

Depois de ter a ordem institucional interrompida em 1964, quando, apoiados por civis interessados em tomar atalhos para chegar ao poder, chefes militares derrubaram o presidente João Goulart num contexto de grave crise econômica, o Brasil custou a reconquistar a estabilidade política. O poder só foi devolvido aos civis 21 anos depois e, mesmo assim, por meio de eleição indireta realizada pelo Congresso.

William Waack: Legados de Bolsonaro

O Estado de S. Paulo.

O pior governo da história recente criou involuntariamente alguma esperança

Em 2021 consolidaram-se importantes legados de Jair Bolsonaro para 2022. Nenhum o favorece – e alguns serão dor de cabeça para quem lhe suceder.

Setores privados da economia empreenderam ações políticas e conseguiram defender em parte as visões de modernização do País em linha com grandes transformações internacionais. É assim que obtiveram as demissões, no começo do ano, dos ministros das Relações Exteriores e do Meio Ambiente. Eles eram péssimos para os negócios, para dizer o mínimo.

Ganhou corpo nesse processo uma inédita coligação de instituições financeiras internacionais e nacionais, da agroindústria e da própria indústria. Criaram-se várias instâncias de articulação (formais e informais) que terão peso nas escolhas dos próximos governantes. Bolsonaro conseguiu a “proeza” de rachar internamente vários desses segmentos que o apoiaram em 2018. Não tem mais como colar os cacos dos cristais quebrados.

Bruno Boghossian: A terceira via e o eleitor do partido nulo

Folha de S. Paulo

'Nulistas' convictos e outros grupos que não querem votar em Lula ou Bolsonaro no 2º turno

João Amoêdo votou em Jair Bolsonaro no segundo turno de 2018, convencido de que ele seria "um presidente muito ruim". O empresário diz agora que o governo conseguiu ser ainda pior do que ele imaginava. Numa entrevista à Folha, o ex-presidenciável afirmou que não vai repetir a escolha no ano que vem, mas também se recusa a votar em Lula para derrotar Bolsonaro.

O fundador do partido Novo é um exemplar do eleitor arrependido que rejeita Bolsonaro e está em busca de um candidato alternativo para 2022. Pessimista com a tal terceira via, ele reedita a falsa equivalência que fez sucesso na última disputa e diz que prefere votar nulo se o segundo turno for um confronto entre o atual presidente e o PT.

Míriam Leitão: Um líder morto e o ano indígena

O Globo

Piraíma’á subiu numa árvore bem alta para caçar e de lá despencou. Uma queda acidental. Ainda falou algumas palavras, antes de morrer. O fato ocorreu no domingo, 26. Tinha, segundo Patriolino, um funcionário da Funai, 48 anos. Piraí, como era conhecido, era líder do povo guajá na aldeia Juriti, na Terra Indígena Caru, no Maranhão. Quando estive lá com o fotógrafo Sebastião Salgado, foi o que falou de forma mais eloquente do que todos os outros sobre os riscos do desmatamento.

As horas finais antes do seu enterro, na segunda-feira, mostram a dureza do cotidiano indígena. Os que o acompanhavam andaram até a aldeia, chegando lá às seis da tarde. Foram buscar reforços e avisar à Funai. Voltaram andando pela mata na enorme distância até o local onde ele havia caído. De lá trouxeram o corpo, chegando a uma da manhã. Quem me contou tudo isso foi Salgado, repassando áudio do amigo Agostinho de Carvalho: