quarta-feira, 16 de agosto de 2023

Vera Magalhães - Governo se arrisca a perder bom momento

O Globo

Elogiado com razão pela condução da negociação econômica, Haddad errou ao criticar superpoderes de Lira antes da votação do marco fiscal

Agosto, até aqui, vem sendo um mês de indefinições e bateção de cabeça na relação entre o governo e seus interlocutores, notadamente o Congresso. O risco, real, é que o excesso de confiança e a falta de clareza nos objetivos e na tática levem o bom momento configurado com as notícias da virada do primeiro semestre a se esvair sem que se concluam as votações e as definições que levariam a uma melhora mais concreta das perspectivas econômicas para o país.

A euforia com o ritmo de votações da Câmara no início de julho parecia prenunciar dias ensolarados na relação com o Parlamento. Bastava uma reforma ministerial pontual para agregar o Centrão ao projeto governista.

O mês começou com o vento das boas notícias continuando a soprar, com a decisão do Copom de baixar em 0,5 ponto percentual a taxa básica de juros da economia, dando, enfim, aval para a política econômica praticada a partir da Fazenda.

Bernardo Mello Franco - Millôr Fernandes foi comentarista mordaz da política brasileira

O Globo

"Livre como um táxi", humorista criticou poderosos, desafiou a censura e deixou lições para o jornalismo

“Fiquem tranquilos os poderosos que têm medo de nós: nenhum humorista atira para matar.”

O aviso é de Millôr Fernandes, o genial guru do Méier. Mas vá perguntar aos poderosos que viveram a desventura de entrar em sua mira.

Millôr faria cem anos hoje. A imprensa gosta de efemérides e já celebrou seu talento como frasista, desenhista, dramaturgo, tradutor e poeta. Faltou lembrar o comentarista mordaz da política brasileira.

Prefeitos, governadores, deputados: ninguém escapava ao risco de uma pedrada. “Política é a mais antiga das profissões”, dizia.

Suas tiradas revelam um espírito insubmisso a qualquer regime: “As principais formas de governo são as ruins e as muito piores”; “A diferença entre a galinha e o político é que o político cacareja e não bota o ovo”; “Todo governante se compõe de 3% de Lincoln e 97% de Pinochet”.

Elio Gaspari - O efeito Milei e o Itamaraty

O Globo

Trata-se de tirar os sapatos sem tirar as meias

O anarcocapitalista Javier Milei surpreendeu arrebatando 30% dos votos nas primárias presidenciais argentinas. A eleição será em outubro, e muita água passará debaixo da ponte. Mesmo assim, num país com 115% de inflação anual, o Banco Central (que ele promete fechar) subiu os juros para 118%; em poucos dias, o dólar disparou, e os títulos da dívida argentina despencaram.

A encrenca argentina é séria, mas não é inédita. Lá, o general Jorge Rafael Videla, ditador deposto em 1981, morreu num banheiro da cadeia em 2013. Em 2001, o presidente civil Fernando de la Rúa fugiu da Casa Rosada, e em duas semanas o país teve cinco presidentes.

O governo do presidente Alberto Fernández está bichado. Cumpriu-se parcialmente uma profecia de Jair Bolsonaro, impropriamente enunciada durante a campanha eleitoral de los hermanos. Fernández e Lula aproximaram-se. Javier Milei, por sua vez, aproximou-se de Bolsonaro.

Zeina Latif - Ah se fosse fácil assim

O Globo

A extensa lista de obras do PAC não chega a constituir um programa estruturado. Faltam diagnósticos para definir prioridades

O estado como indutor direto do crescimento teve seus dias de glória. O Brasil estava em um outro estágio de desenvolvimento. Com reduzido estoque de capital, o país se beneficiou do ativismo estatal e saiu da pobreza, mas não sem grandes custos, como inflação descontrolada e crises frequentes, e grandes erros — exemplo emblemático é a Transamazônica.

Tornar o país rico demanda outro desenho, com protagonismo do setor privado, investindo e inovando, e colhendo ganhos de produtividade — é o que mostra a experiência internacional. O dinamismo do setor privado demanda, porém, um estado forte, que oferte serviços públicos de qualidade e marcos jurídicos que propiciem um ambiente de negócios saudável e de competição entre os players.

É nesse caminho que o Brasil precisa insistir. E há bons exemplos de políticas públicas bem-sucedidas que precisam ser replicadas (como a educação em alguns estados) e aprimoradas (como o SUS). Não se justifica um plano grandioso, como o Novo PAC. Pelo contrário, cabe eliminar gastos que não entregam o prometido, causam distorções e injustiças, e pesam na carga tributária.

Luiz Carlos Azedo - Apagão reabre polêmica sobre a privatização da Eletrobras

Correio Braziliense

A hipótese da falta de planejamento é a que mais preocupa o governo. Quando o sistema entra em colapso, os prejuízos econômicos são enormes e o desgaste político é maior ainda

O apagão que atingiu todas as regiões do Brasil na manhã desta terça-feira, politicamente, deve gerar uma guerra de narrativas entre o governo Lula e governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (PR), principal gestor do processo de privatização da Eletrobras. O apagão começou a ser registrado nos sistemas do ONS às 8h31, no horário de Brasília, quando é interrompido o tradicional aumento da carga do sistema elétrico. Em 10 minutos, a carga do sistema elétrico brasileiro caiu 25,9%.

A interrupção ocorreu devido à abertura da interligação Norte-Sudeste, supostamente por uma falha no circuito de Imperatriz, no Maranhão, e outra no Ceará. As causas da ocorrência ainda estão sendo apuradas. Há três hipóteses: colapso do sistema, falha humana ou sabotagem. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, afirmou que vai solicitar à Polícia Federal (PF) e à Agência Brasileira de Inteligência (Abin) a apuração das causas do apagão, para saber se houve “eventuais dolos”.

Hélio Schwartsman - Invulneráveis à realidade

Folha de S. Paulo

Revelações sobre joias não devem afetar apoio de bolsonaristas raiz ao ex-presidente

A cada nova manchete, Jair Bolsonaro parece mais enrolado no caso de venda e recompra de joias que deveriam pertencer ao Estado brasileiro, mas que ele tomou para si. O que eu ainda não sei é se a legião de militares que o auxiliou nos malfeitos ficaria com uma parte do butim ou se agia só por amor à causa.

Outra questão interessante diz respeito ao impacto que as revelações terão sobre o público bolsonarista.

Bruno Boghossian – O apagão e a gasolina

Folha de S. Paulo

Queda de energia parece pontual, enquanto reajuste nas bombas indica dificuldade precoce em nova política de preços

A terça-feira não foi um dia de boas notícias para Lula. O petista assistiu do Paraguai ao apagão em quase todo o país, ao anúncio de um aumento salgado nos preços dos combustíveis e a mais um adiamento da votação do arcabouço fiscal na Câmara.

Qualquer queda nacional de energia incomoda o presidente de turno, mas a dor de cabeça de Lula deve ser passageira. Apagões despertam questionamentos sobre a estrutura do país e alguma desconfiança sobre quem gerencia a máquina. Governos recém-instalados, porém, recebem um bom desconto, principalmente se a falha parece pontual.

Fernando Exman - Mitos e personagens da trajetória bolsonarista

Valor Econômico

Recém-eleito presidente da República, Jair Bolsonaro foi naquela manhã de domingo até a Urca, no Rio de Janeiro, para participar de um tradicional encontro anual nas instalações da Escola de Educação Física do Exército. Era 25 de novembro de 2018. O então deputado federal acabara de vencer as eleições com um inflamado discurso antipetista e anticorrupção, momento bem distinto do vivido por ele e seu entorno atualmente.

Bolsonaro passara a campanha fazendo de tudo para construir a imagem de austero. Manteve o esforço nos anos seguintes, aparecendo frequentemente em público como homem de hábitos simples, apreciador de pão com leite condensado e portador de relógios ou canetas que nem de longe lembram os modelos supostamente dados ao Estado brasileiro e depois incorporados ao seu patrimônio pessoal.

Lu Aiko Otta - PAC aposta em investimento privado

Valor Econômico

Anúncio do programa mostra que o governo foi pragmático

Criadas há quase 20 anos, no primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, as Parcerias Público-Privadas (PPPs) estão pipocando pelo país. Nos últimos 90 dias, foram lançados 120 novos editais de licitação de PPPs ou de concessões. Outros 43 estão numa etapa anterior de elaboração, a consulta pública. Praticamente a cada dois dias, um novo contrato é assinado no Brasil.

Os números são listados por Guilherme Naves, sócio da consultoria Radar PPP, que monitora esse mercado desde 2014. O movimento é largamente liderado pelos municípios, responsáveis por 3.293 contratos de um total de 4.888.

Marcelo Godoy - Quer dizer que não era ideologia?

O Estado de S. Paulo

‘Militares envolvidos no escândalo das joias estão sujeitos a punições severas’, diz brigadeiro

A graça irresistível revelava antes o ceticismo de quem não se deixa conduzir por grupos ou arautos da salvação. Despir o rei e exibi-lo é uma das mais velhas funções da crônica política. Gregório de Matos escolheu a poesia, Millôr Fernandes, a frase lapidar. Nesta quarta-feira, o escritor que golpeou como poucos o mundo político brasileiro completaria cem anos.

É impossível não lembrar dele diante do escândalo da venda de joias da Presidência. É já sabido o impacto do caso na caserna. E continuará tendo a partir dos desdobramentos do que foi apreendido com o general Mauro Cesar Lourena Cid.

Nicolau da Rocha Cavalcanti* - A presunção de inocência nos protege da barbárie

O Estado de S. Paulo

Tolerar a violação do princípio da presunção de inocência é permitir que o Estado tire direitos de quem ele quiser, porque assim o quer

A recente operação policial no Guarujá desvelou uma vez mais não apenas a brutalidade da ação estatal, mas quem nós somos enquanto sociedade: o nosso real estado civilizatório. Todos os muitos indícios de execução sumária de cidadãos foram insuficientes. Parcela significativa da população, incluindo autoridades públicas, considerou adequada e bem sucedida a atuação policial no litoral paulista sob o argumento de que os mortos eram bandidos, eram criminosos.

Há muitos problemas e contradições na legitimação das operações policiais com altíssima taxa de letalidade; por exemplo, a pena de morte é proibida no Brasil e essas operações contrariam a própria ideia de segurança pública. Aqui, destaco um fator específico, que contribui para a aceitação da barbárie: a rejeição do princípio da presunção de inocência.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

STF deve consagrar liberdade com responsabilidade

O Globo

Caso do Diário de Pernambuco dirá quando um veículo de comunicação pode ser condenado pelo que publica

Está em julgamento no plenário virtual do Supremo Tribunal Federal (STF) um caso que afeta a liberdade de informação e expressão na imprensa brasileira. Trata-se de um recurso do Diário de Pernambuco, condenado a pagar indenização pela publicação de uma entrevista. O jornal não endossou as afirmações do entrevistado, tampouco atacou quem quer que fosse. Apenas divulgou uma entrevista. O caso tem repercussão geral e será paradigma para os futuros julgamentos da Corte. Noutras palavras, definirá em que hipóteses um veículo de comunicação poderá ser condenado pelas informações que publica.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - A máquina do mundo

 

Música | Xande Canta Caetano - Luz do Sol

 

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Merval Pereira - Queda de braço

O Globo

Por ter “poder demais”, a Câmara pretende impor ao governo suas vontades.

O cancelamento da reunião que os líderes partidários teriam na casa do presidente da Câmara para discutir a votação do arcabouço fiscal só confirma que Arthur Lira preside a Casa com mão de ferro e tem, mesmo, muito poder, como comentara o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Lira teria ficado irritado com o comentário e mostrou sua força adiando uma discussão de tema fundamental para o governo federal.

Haddad havia dito que a Câmara não podia usar o poder que tem para humilhar o Executivo e o Senado, referindo-se ao fato de a palavra final sobre o assunto agora estar com a Câmara, depois de votações nas duas Casas. A Câmara está “com um poder que nunca vi na minha vida”, disse Haddad em podcast do jornalista Reinaldo Azevedo divulgado ontem.

Tem razão o ministro da Fazenda e, justamente por ter “poder demais”, a Câmara pretende impor ao governo suas vontades. Quer aumentar o fundo eleitoral, já escandalosamente alto — cerca de R$ 5 bilhões — e que também as emendas de comissões, no valor de R$ 7,5 bilhões, sejam impositivas, como outras emendas. Mas quer também controlar o ritmo dos repasses, impedindo que o governo controle o fluxo de acordo com suas necessidades.

Carlos Andreazza – Catadão

O Globo

O novo PAC, o terceiro, consiste num apanhadão de projetos já existentes — em andamento ou prometidos, viáveis ou não. Nenhuma novidade na forma inflada. É tão grande que conterá — basta fazer as contas — o governo e quem lhe passar na frente. Nenhuma novidade tampouco no mau humor do maledicente, para quem o PAC garantirá o país do futuro por meio do país do passado.

O truque — a abertura de um guarda-chuva publicitário, sob o qual tudo botar — é tão antigo quanto manjado. As versões anteriores do Programa de Aceleração do Crescimento sempre aceleraram sobretudo — e antes de tudo — nos outdoors. Não raro em detrimento da governança e da qualidade na execução.

O Brasil virou um grande PAC, e o Rio de Janeiro um sergiocabral permanente. Diria mesmo eterno. Em tempos de orçamento secreto e emendas Pix, nunca será excessivo atentar para a capacidade de um programa de aceleração atropelar o princípio da transparência. Em tempos de distribuições pela formação de base de apoio parlamentar, nunca será exagerado imaginar o aceleramento, via PAC, das codevasfs e outras funasas.

Dora Kramer - Assim é porque parece

Folha de S. Paulo

Bolsonaro precisa provar que só ele não viu os ilícitos registrados em palavras e imagens

A rotina de baixezas ilícitas, aliada à ofensiva golpista reiterada verbalmente por Jair Bolsonaro várias vezes e materializada por seus seguidores em 8 de janeiro, caminha para mais dia, menos dia levá-lo à prisão. Ele mesmo aventa em público tal desfecho na tentativa de se aplicar a vacina de vítima do "sistema".

Pois o processo investigativo que atua para desvendar o conjunto da obra destrutiva erigida num governo que segundo avaliação da Polícia Federal abrigou uma "organização criminosa" fecha o cerco sobre o ex-presidente. Não como mártir, mas na figura do algoz.

Alvaro Costa e Silva - Nada fica escondido para sempre

Folha de S. Paulo

Organização criminosa fez de tudo para manter-se no poder e continuar faturando

O golpe de Estado era uma etapa do golpe das joias. Não por acaso a investigação sobre os atos antidemocráticos levou à descoberta da organização criminosa ligada a Bolsonaro. Esqueça Deus, pátria, família: o negócio era grana. A quadrilha fez de tudo —até transformar o avião da Presidência em mula de muamba— para manter-se no poder e continuar faturando.

É espantoso pensar na facilidade com que o ex-presidente corrompeu as instituições, a começar pela Polícia Federal, que hoje o desmascara com a Operação Lucas 12:2. Na reunião ministerial de 2020, aquela da boiada, ele admitiu ter um sistema particular de informações e, para não ser surpreendido, iria intervir nas agências de segurança. Na PF, trocou o diretor-geral, em média, a cada 12 meses e afastou dezenas de delegados; a PRF foi entregue a um assecla, Silvinei Vasques, que dificultou o trânsito de eleitores.

Andrea Jubé - Um pé em cada canoa na política

Valor Econômico

Uma habilidade tão antiga, que se pode dizer secular

A habilidade de alguns caciques políticos de navegar em águas nem sempre tranquilas com um pé em cada canoa é uma arte secular. Remonta ao teatro italiano do século XVIII, à farsa mirabolante e ao humor cínico característicos da commedia dell’arte .

Escrita pelo veneziano Carlo Goldoni em 1745, a peça “Arlequim, servidor de dois amos” - um clássico dessa dramaturgia - revela uma afinidade espantosa com a atual conjuntura política, em que dirigentes de partidos políticos proclamam a independência do governo federal com a mesma naturalidade com que negociam ministérios com o presidente da República à luz do dia.

As semelhanças da peça com o cenário político brasileiro são salientes. “Mas essa é boa mesmo: tanta gente que não consegue sequer arranjar um patrão, e eu arrumei logo dois, vejam só”, tripudiou Trufaldino, o Arlequim na trama em questão. “Mas não posso ser o criado dos dois”, refletiu, por alguns segundos.

Daniela Chiaretti - A história do sindicalista que inventou a transição justa

Valor Econômico

Americano Anthony Mazzocchi cunhou o termo que se tornaria a principal contribuição sindical à política de transição verde

 “A transição é inevitável; a justiça, não”, diz o site da Climate Justice Alliance, movimento americano que nasceu há dez anos e reúne gente de Michigan, Indiana, Nevada e Califórnia. A intenção, diz ali, é incluir na transformação verde da sociedade aspectos de raça, gênero e classe social. Alguns de seus membros são comunidades de Detroit, a cidade que moldou sua fama e decadência à luz da indústria automobilística. Do lado de lá do Atlântico, a Comunidade Econômica Europeia tem sigla e mecanismo para não deixar ninguém pra trás na transformação verde do bloco. O JTM, ou Just Transition Mechanism, busca mobilizar €55 bilhões para o período 2021-2027 e aliviar os impactos socioeconômicos da economia descarbonizada nas regiões mais afetadas. Áreas mineradoras de carvão são prioridade. No Brasil, contudo, o tema é pouco sexy.

Míriam Leitão - O que impede o acordo com a União Europeia

O Globo

UE exigiu do Brasil o inaceitável para fechar a negociação. Além disso, a sombra da extrema direita na Argentina prejudica o avanço do acordo entre os blocos

A União Europeia exigiu o inaceitável durante os recentes desdobramentos da negociação. Quer que a aferição do desmatamento da Amazônia não seja feita pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE. Quer impor o monitoramento por institutos europeus. O INPE é uma instituição que custou a ser feita, exigiu grande empenho e investimento por décadas, e recentemente sobreviveu ao ataque frontal do governo Bolsonaro. Imagina se seria o governo Lula a aceitar que ele seja colocado de lado, em favor do que quer que fosse?

Há outros pontos de dificuldades, no item compras governamentais, mas a tentativa de tirar o INPE de seu papel institucional é que se tornou uma pedra inamovível neste acordo. O governo não tem entrado em detalhes, e quando critica os europeus fala apenas do protecionismo, principalmente o francês, que é notório. Mas o que realmente pegou foi isso.

Maria Cristina Fernandes - Ameaça de dolarização sobre Mercosul é a principal preocupação do Brasil

Valor Econômico

Javier Milei, candidato de extrema direita à presidência argentina e vencedor das eleições primárias, defende dolarizar a economia e fechar o Banco Central

Dois dias depois das prévias lideradas pelo candidato da extrema direita, Javier Milei, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encontra, nesta terça-feira, o presidente argentino Alberto Fernández na posse de Santiago Peña na Presidência do Paraguai.

No governo brasileiro espera-se que as restrições orçamentárias hoje vigentes no país já sejam suficientemente conhecidas para que não se reprise nova rodada de pressões por uma ajuda financeira a pretexto de evitar a eleição de Milei no pleito presidencial de outubro.

A maior preocupação é a preservação do Mercosul. O bloco dificilmente resistiria a uma Argentina dolarizada, como vaticina Milei. Não é o único bloco que preocupa. A Argentina ainda pode vir a ser um peso morto para a presidência brasileira no G20, uma vez que o país vizinho tem assento permanente no bloco.

Hélio Schwartsman - O anarcocapitalista

Folha de S. Paulo

Triunfo de Milei nas prévias argentinas preocupa, mas corrida ainda está aberta

triunfo de Javier Milei nas primárias abertas obrigatórias (Paso) na Argentina preocupa, mas deve ser relativizado. Preocupa porque Milei, que se autoclassifica como anarcocapitalista, tem pouco apreço pelas instituições. Já disse que fecharia o banco central, extinguiria o peso como moeda nacional e sairia do Mercosul. Também se declara admirador de Bolsonaro, uma péssima referência.

O fato de Milei ter se saído bem nas Paso, contudo, não significa que já ganhou. Em termos de forças políticas, há um virtual empate triplo. Milei ficou com 30,04%; o bloco da direita liberal tradicional, que terá Patricia Bullrich como candidata, obteve 28,27%; e os peronistas, agora "unidos" em torno de Sergio Massa, amealharam 27,27%.

Joel Pinheiro Machado - Javier Milei e a imprensa

Folha de S. Paulo

Rotular presidenciável como de 'extrema direita' mais confunde do que informa

Se tem um país cujo povo está justificado em querer varrer o establishment para longe, esse país é a Argentina. São décadas de decadência que tanto a esquerda quanto a direita só fizeram agravar. Hoje, com inflação a 115%, juros a 118% ao ano e miséria galopante, a escolha por alguém com uma proposta econômica simples, radical e revolucionária —e que promete desbancar as elites políticas e tecnocráticas que governaram pelas últimas décadas— fica bem compreensível.

E é isso que Javier Mileivencedor das primárias e favorito para a eleição, representa. Ele se define como "anarcocapitalista", ou seja, a versão mais radical da defesa da propriedade privada, da autodeterminação individual e da livre iniciativa. Defende dolarização da economia, abertura econômica unilateral, legalização das drogas.

Eliane Cantanhêde - O Bolsonaro da Argentina

O Estado de S. Paulo

Milei assusta Lula, ameaça Mercosul e gera temor de guinada pró-extrema direita na América do Sul

O bolsonarismo afunda no Brasil, mas emerge na Argentina em crise. A vitória do economista de extrema direita Javier Milei nas prévias que definiram os candidatos presidenciais assusta o governo Lula, ameaça o Mercosul e o acordo comercial com a Europa e gera o temor de uma nova guinada à direita na América do Sul. Milei é o homem errado, no lugar errado, na hora errada.

Já chamado de “Bolsonaro da Argentina”, ele entra como favorito na disputa pela presidência ao defender ideias como a privatização da educação e da saúde e com um bordão que exprime o oportunismo de candidatos de extrema direita por aí, que foi relevante, inclusive, para a chegada ao poder de Jair Bolsonaro, capitão insubordinado e péssimo parlamentar, no principal país da região: “Um chute na bunda dos políticos”, atiça.

Luiz Carlos Azedo - Adeus, Evita! O peronismo sofreu sua derrota histórica

Correio Braziliense

Foi um assombro a vitória do candidato de extrema direita Javier Milei, cujas principais propostas econômicas são dolarizar a economia e fechar o banco central da Argentina

O musical Evita estreou na Broadway na década de 1970. Patti LuPone foi a primeira atriz a viver seu mito nos palcos. Desde então, o musical nunca deixou de ser encenado. A versão cinematográfica, lançada em 1996, protagonizada pela cantora Madonna, depois de ela própria estrelar o musical, foi outro sucesso de bilheteria. O segredo foi o fascínio que Eva Perón exerceu ao lado do marido, Juan Domingo Perón. Evita não era santa, como acreditam muitos argentinos, mas ela deu dignidade ao povo em sua trajetória política.

Perón foi presidente da Argentina entre 1946 e 1955. Em 1955, viúvo da carismática Evita, que fascinava “los cabecitas negras”, não teve como resistir aos conservadores e pecuaristas. Fugiu pelo o Paraguai, passou por Panamá, Venezuela e República Dominicana e se instalou em Madri, na Espanha franquista. Lá, organizou o movimento peronista, formado por facções à esquerda e à direita, que dariam origem aos grupos de extermínio do “triple A” e à guerrilha de “Los Montoneros”, respectivamente.

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão* - É desse mato que deve sair coelho?

Desafios,  projetos e sonhos   fazem parte da cesta de promessas  que o  governo  está oferecendo para manter estável a governabilidade durante o atual mandado (2003-2027). São gastos da ordem de 1,7 trilhão  de reais para os próximos quatro anos. Mas, não se fala explicitamente em investimentos - novas obras e iniciativas -  já que essa terceira versão petista do PAC- Programa de Ação Concentrada anunciada, teatralmente, no Rio de Janeiro,   começa com retomada das 8.600 obras paralisadas há vários anos, segundo o TCU, embora, a maioria, já tenham sido inauguradas no passado. 

O total   que dá margem a essas projeções de gastos públicos,  corresponde à soma de R$ 370 bilhões  do Orçamento da União ; mais R$ 343 bilhões  dos cofres  das empresas estatais;  mais R$ 362 bilhões de linhas de financiamentos bancários ; e, ainda,  R$ 612 bilhões da iniciativa empresarial com concessões com o governo.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Sucesso de Milei na Argentina deve servir de alerta

O Globo

Vitória do populista nas primárias é sinal da ameaça da extrema direita no continente americano

O candidato populista de extrema direita à Presidência da ArgentinaJavier Milei, foi o mais votado domingo nas Primárias Abertas Simultâneas e Obrigatórias (Paso), fase em que os eleitores determinam os nomes na cédula do primeiro turno, previsto para 22 de outubro. Com 30% dos votos, Milei, do partido A Liberdade Avança, ficou à frente da coligação de centro-direita Juntos pela Mudança (28,2%), liderada por Patricia Bullrich, e da peronista União pela Pátria (27,2%), encabeçada por Sergio Massa. Os peronistas amargaram um inédito terceiro lugar, com o pior desempenho desde a redemocratização.

Não surpreende que um político demagogo, quase caricato, como Milei tenha se aproveitado do naufrágio do peronismo. De certa maneira, a surpresa é que tenha demorado tanto. Nas últimas duas décadas, a Argentina seguiu à risca o roteiro que a torna, desde os anos 1930, o exemplo de maior decadência econômica em tempos de paz nos últimos séculos. Não bastasse o populismo econômico de Néstor e Cristina Kirchner, o ex-presidente Mauricio Macri errou ao apostar no endividamento externo e engendrou mais uma bancarrota argentina.

Poesia | Carlos Drummond de Andrade - Obrigado

 

Música | Xande Canta Caetano - Muito Romântico

 

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Fernando Gabeira - Trump e Bolsonaro, os idos de janeiro

O Globo

Ambos são capazes de imaginar um golpe de Estado, mas realizá-lo de uma forma tão grosseira que podem acabar na cadeia

Há semelhança nas derrotas de Trump e Bolsonaro. Ambos questionaram antecipadamente o processo eleitoral. Trump implicou com o voto impresso; Bolsonaro estigmatizou as urnas eletrônicas. Ambos pressentiam a derrota e armavam o pulo do gato.

Na invasão do Capitólio no 6 de Janeiro, muitos acreditavam que a eleição de Biden fora um roubo. Em Brasília, no 8 de Janeiro, muitos também supunham que haviam sido iludidos pelas urnas eletrônicas.

Percebo agora que a hipótese de uma revolta popular era apenas o lance de um jogo mais complexo. Trump pretendia usar falsos delegados e resultados falsos para ser adotados pelo seu vice, Mike Pence, na sessão do Capitólio. Não funcionou.

Miguel de Almeida - A velha esquerda extrativista

O Globo

Danem-se as alternativas modernas. Como o uso do crédito de carbono

Ao deixar uma escola, onde fizera um discurso de campanha, o candidato à Presidência do Equador Fernando Villavicencio recebeu três tiros na cabeça. Sete apoiadores seus ficaram feridos. O atentado foi reivindicado por uma facção criminosa ligada ao tráfico.

No rega-bofe de Belém, no Pará, não fosse pelo presidente da Colômbia, Gustavo Petro, uma das principais questões amazônicas não teria despertado atenção — o combate ao crime organizado, na figura dos afamados PCC, Família do Norte e Comando Vermelho.

Estive em Belém dias antes do encontro e, dos dez ambientalistas com quem conversei, 12 gritavam alertas aflitos contra as quadrilhas ligadas ao tráfico. Em Tabatinga, norte do Amazonas, onde o Exército mantém um batalhão (ou resort?), há intenso tráfego aéreo com aeronaves — e elas não estão ali em voos de lazer. As facções operam não apenas com drogas, mas ainda com um combo de contrabando de madeira, pesca ilegal e garimpo em terras indígenas. Claro, a cocaína é a cereja. O desmatamento é outra das atividades, aí em parceria com tipos diversificados de meliantes.

Marcus André Melo* - Nordeste de esquerda?

Folha de S. Paulo

O Nordeste é tão "conservador" quanto o Brasil

As declarações recentes do governador mineiro, Romeu Zema (Novo-MG), abriram uma caixa de Pandora de disparates políticos. Trato aqui apenas do suposto "esquerdismo nordestino", o qual exigiria uma mobilização para contrabalançá-lo. Disparates sem o menor respaldo empírico.

No Nordeste há mais representantes na Câmara dos Deputados ligados ao centrão e outros partidos que orbitam em torno desse agrupamento do que a partidos afiliados a legendas de esquerda. Mais importante: o percentual de eleitos pelo PL, PP e Republicanos na região Nordeste (35,5%) é similar ao observado no plano nacional (36%). O Nordeste é, no mínimo, tão "conservador" quanto o Brasil.

Lygia Maria - Não matem o mensageiro

Folha de S. Paulo

Decisão do STF que permite punição de jornais por falas de entrevistados pode ameaçar a liberdade de imprensa

Em "Vidas Paralelas", o historiador grego Plutarco relata que o rei armênio Tigranes, ao receber a mensagem de que seu inimigo estava se aproximando, ficou tão irritado que mandou cortar a cabeça do mensageiro. Daí a expressão "Matem o mensageiro!", que descreve o ato de culpar o portador de notícias indesejadas.

Atualmente, a expressão remete a ataques à imprensa quando ela divulga informações desagradáveis sobre pessoas e temas com os quais o leitor tem afinidade. Esse modo passional de lidar com o jornalismo parece ser seguido pelo STF.

Na última terça (7), a corte decidiu que jornais podem ser responsabilizados por injúria, difamação ou calúnia proferida por um entrevistado.

O processo tem origem em caso que envolve o ex-deputado federal Ricardo Zarattini, já falecido. Em entrevista para o Diário de Pernambuco em 1995, o delegado Wandenkolk Wanderley disse que Zarattini era o mentor do atentado a bomba no aeroporto de Guararapes (Recife), em 1966. Inocentado em 2013, o deputado entrou com ação contra o jornal.

Bruno Carazza* - ‘Bolsonaro era um mau militar’; e não era o único

Valor Econômico

Forças Armadas não podem reclamar do dano à sua imagem depois de aderirem ao governo Bolsonaro

O ano era 1993 e Jair Bolsonaro ainda estava no primeiro de seus sete mandatos como deputado federal. O capitão da reserva havia chegado a Brasília três anos antes, apoiado por 67.041 eleitores. Foi a sexta maior votação no Rio de Janeiro.

Afastado da política desde 1979, quando passou a faixa para João Figueiredo, o general Ernesto Geisel, quarto presidente depois do golpe militar de 1964, concedeu naquele ano uma série de entrevistas para os pesquisadores Maria Celina D’Araújo e Celso Castro, do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas.

A certa altura da conversa, refletindo sobre as relações entre os militares e a política, Geisel chamou a atenção para a baixa influência que os fardados exerciam naquele momento, oito anos após a redemocratização.

Alex Ribeiro - Pouso suave da economia não é uma obra só do BC

Valor Econômico

Normalização das cadeias produtivas e atuação dos bancos centrais no exterior são alguns dos fatores que têm ajudado inflação a baixar sem derrubar o PIB

O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, vem dizendo nos últimos dias que a instituição conseguiu o pouso suave da economia - ou seja, baixar a inflação, que estava muito alta, com um mínimo prejuízo em termos de perda do Produto Interno Bruto (PIB). Talvez seja ainda muito cedo para comemorar, mas, se de fato isso acontecer, será algo inédito na história do regime de metas para a inflação.

Campos Neto apresentou um gráfico, em depoimento no Senado na última quinta-feira, que mostra que a inflação ao consumidor caiu 8,7 pontos percentuais (pp.) entre junho de 2022 e junho de 2023, enquanto que a variação do PIB teve um incremento de 0,3 ponto entre junho de 2022 e de 2023. Outros países emergentes tiveram, em média, uma queda 1,9 ponto na inflação e de 4,4 pontos no PIB. Um caso extremo, citado por Campos Neto, é o Chile, onde uma pesquisa de expectativas dos especialistas do setor privado aponta uma contração de 0,5% do PIB neste ano.

Felipe Moura Brasil - ‘Deus’ do bolsonarismo foi descoberto

O Estado de S. Paulo

Quando as coisas complicam, a quem recorre a família Bolsonaro?

Frederick Wassef é um personagem e tanto. Quando o bolsonarismo precisou tirar Fabrício Queiroz dos holofotes, em razão da investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro que apontou o ex-assessor de Flávio Bolsonaro como operador do esquema de apropriação de salários de assessores, o advogado da família hospedou Queiroz em Atibaia até o momento da prisão do hóspede.

Quando o bolsonarismo precisou resgatar o Rolex recebido como presente oficial pelo então presidente Jair Bolsonaro e vendido nos Estados Unidos pelo pai de seu então ajudante de ordens Mauro Cid, o general Mauro César Lourena Cid, Wassef recuperou o relógio, “retornou com o bem ao Brasil” e o entregou em São Paulo a Mauro Cid, que “retornou para Brasília/DF na mesma data, entregando o bem para Osmar Crivelatti, assessor do ex-presidente”, de acordo com os indícios coletados pela Polícia Federal.

Denis Lerrer Rosenfield* - Ascensão e queda

O Estado de S. Paulo

Há um caminho aberto para lideranças de direita, conservadoras ou liberais, capazes de se distanciarem das posições de extrema direita de Bolsonaro

Enquanto Bolsonaro usufruiu da plenitude de seu poder, apresentou uma série de aspectos políticos que o colocariam como um líder da extrema direita, embora essas características se façam igualmente presentes em líderes esquerdizantes. Enfatizaria que se trata de aspectos políticos, pois na seara econômica, graças à atuação do ministro Paulo Guedes, o liberalismo econômico se fez presente, favorecendo uma economia de mercado e propondo uma redução do papel do Estado, apesar de interesses corporativos do então presidente terem sido igualmente atendidos. Poder-se-ia, talvez, dizer que é do jogo.

Do ponto de vista político, eu gostaria de ressaltar os seguintes aspectos:

Jaime Pinsky* - Nossos alunos precisam de livros?

O Estado de S. Paulo

O projeto apresentado pelo governo estadual de São Paulo vai na contramão do seu apregoado liberalismo, de sua suposta visão democrática

Nosso sistema educacional não tem oferecido muitos motivos de orgulho para os brasileiros. Nossos resultados em rankings internacionais e a perda de qualidade, a pretexto da universalização, são fatos conhecidos. É necessário, ainda, registrar certo marasmo da máquina pública educacional, algo facilmente percebido por todos os que já tentaram colaborar no aperfeiçoamento do sistema educacional e tiveram de enfrentar marasmo, má vontade e burocracia sem fim. Ideias novas, olhares diferentes e quebra de rotina parecem ameaças para muitos ocupantes de cargos de relevo nessa máquina emperrada. Dogmas e acomodação se unem para manter o mesmo, por pior que pareça.

Diante dessa realidade, poderia parecer que a reação à decisão do governo de São Paulo de abrir mão da verba do Ministério da Educação (MEC) para a compra de livros e a decretação do fim do livro didático impresso em papel não passam de reação do marasmo contra o dinamismo, da mesmice contra o novo. Só que não. Desta vez, temos algumas coisas muito sérias e até assustadoras aparecendo no horizonte, e é necessário falar sobre elas com clareza.